Há uma ideia ousada no coração do pensamento do Rav Kook: que o "profano" não é o oposto do sagrado, mas, muitas vezes, o seu disfarce — e até a sua forma mais alta, ainda escondida. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve e profunda seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
A descida que prepara a subida
Assim como a alma do homem é mais elevada e mais interior do que os anjos — e foi justamente por causa da sua grandeza que desceu até ao mais baixo degrau, e de lá há de subir com uma aquisição grande e imensa, e preparar, consigo, o mundo inteiro para uma ascensão suprema e original —, assim também o sagrado que está no profano, [aquele] que desceu até ao ponto da secularidade completa, é mais sublime e mais santo do que o santo dos santos; só que está muito oculto.
Eis um dos princípios mais profundos da mística da Torá, aqui aplicado à história: a descida em função da subida (yeridá tzórech aliá). A alma humana é maior que os anjos — e é por ser tão grande que pode descer ao fundo e, de lá, erguer consigo o mundo. O Rav Kook aplica a mesma lógica ao "profano": o que parece ter caído para fora da santidade pode estar carregando, escondida, uma santidade maior que a manifesta. O disfarce mede a grandeza do que está disfarçado.
A reparação que vem pela via do profano
E não há fim nem limite para as reparações do mundo [tikkunei olam] que hão de vir de todo o bem que chega ao mundo pela via do profano — bem que revelará o seu esplendor e a sua glória no tempo feliz, do qual se diz que "não haverá luz clara, mas espessura e congelamento... e há de ser que, ao entardecer, haverá luz".
A linguagem do homem
Antes da luz do Mashiach, que se revelará em breve nos nossos dias, despertar-se-á a força do sagrado que há no profano — força que, no começo do seu despertar, despertará o próprio profano; e todos falarão "na linguagem do homem, e não na linguagem do Santo, bendito seja" (Zohar).
A frase do Zohar — "na linguagem do homem, e não na linguagem de D'us" — é a chave do despertar moderno. A santidade escondida no profano não se anuncia, no início, com palavras religiosas: ela acorda em termos humanos, seculares — na ciência, na arte, no trabalho, no anseio por justiça. Quem só reconhece o sagrado quando ele usa "a linguagem de D'us" não o vê chegar. Mas ele chega — pela boca do homem comum —, e "ao entardecer", quando tudo parecia escurecer, é que "haverá luz".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §46. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Zecharyah 14:6-7 e Tehillim 71:24; a expressão "na linguagem do homem, não na linguagem do Santo" provém do Zohar; "a descida em função da subida" é um motivo clássico da tradição mística. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.