Se a seção anterior pedia que o escritor santificasse a sua alma, esta anuncia a consequência: virá um tempo em que a própria literatura será santa — e em que nenhuma falsidade poderá esconder-se atrás da beleza do estilo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
O poder grande e delicado da palavra
A literatura será santificada, e os escritores também serão santificados; o mundo erguer-se-á para reconhecer o poder grande e delicado da literatura — a elevação do fundamento espiritual no mundo, em todo o seu apogeu. A luz irá adiante e romperá; a exigência firme reclamará o que é seu.
Almas que sentem a verdade
Os que reclamam são muitas almas sedentas, almas sensíveis, que reconhecem — pela sabedoria da fisionomia das expressões e do estilo — a impureza da ideia que há em muitos escritores: impureza que nenhuma retórica moral, nenhum revestimento poético, consegue encobrir.
Há aqui uma teoria da leitura tão fina quanto exigente. O Rav Kook crê que o leitor sensível "lê o rosto" de um texto — capta, no próprio estilo, se por trás dele há uma alma verdadeira ou uma ideia impura. Por mais elegante que seja a frase, por mais nobre que soe a moral declarada, "o coração é enganoso"; e a falsidade do que move o autor acaba por transparecer. Não se engana por muito tempo um leitor de alma sedenta. O estilo, no fim, não esconde a alma.
O espírito de impureza há de passar
Este espírito de impureza, como todo espírito de impureza em geral, passará, será anulado do mundo e desaparecerá por completo — e a literatura será santificada. E cada escritor começará a conhecer a elevação e a santidade que há no seu trabalho, e não molhará a sua pena sem pureza de alma e santidade de ideia. Ao menos, fá-la-á preceder pelo pensamento da teshuvá — por profundos pensamentos de retorno antes de cada criação.
Note-se a graça do gesto final: o Rav Kook não exige a perfeição imediata de todo escritor. Reconhece que nem sempre se escreve já purificado. Mas pede um mínimo precioso: que ao menos preceda a criação um movimento de teshuvá — um instante de retorno, de exame, de sinceridade — antes de molhar a pena. É uma disciplina ao alcance de qualquer um: não escrever "de qualquer modo", mas a partir de um coração que primeiro se voltou para o bem.
Então a criação sai pura
Então a criação sairá na sua pureza; o espírito de D'us repousará sobre ela, e a alma de toda a nação se delimitará nela. Depois que "a sabedoria dos escribas apodrecer" [quando se purificar do que a corrompia], dir-se-á a Israel, mais uma vez:
O fecho liga esta visão à da renovação da sabedoria (sobre "a sabedoria dos escribas que apodrece", veja-se A Sabedoria que Nasce da Inveja): quando cai o que era impuro — a escrita movida por vaidade, inveja ou falsidade —, abre-se espaço para a palavra que carrega "o espírito de D'us" e "a alma de toda a nação". E o sinal de que essa palavra é eterna está na aliança do próprio verso: o espírito e as palavras postos na boca de Israel "não se apartarão... desde agora e para sempre".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §37. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Yirmiyahu 17:9 e Yeshayahu 59:21; a "sabedoria dos escribas que apodrece" ecoa o motivo talmúdico de ikvetá diMeshichá. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.