Poucos textos do início do século XX leem o futuro com tanta nitidez. O Rav Kook não promete que o renascimento será um caminho reto e tranquilo; antecipa uma crise — e, ao mesmo tempo, ensina como atravessá-la sem desespero. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
O bem-estar que encolhe a alma
Temos uma tradição [recebida] de que uma rebelião espiritual [uma crise da fé] virá na Terra de Israel e em Israel, no período em que despertar o começo do renascimento da nação. O bem-estar material que virá a uma parte da nação — os quais imaginarão que já alcançaram todo o seu alvo — encolherá a alma; e virão dias dos quais ela dirá "não tenho neles prazer".
A aspiração aos ideais elevados e santos cessará e, com isso, o espírito descerá e se afundará — até que venha uma tempestade e vire de cabeça para baixo [uma reviravolta], e então se verá com toda a clareza que a força de Israel está na santidade eterna, na luz de D'us e na sua Torá, no anseio pela luz espiritual — que é a força completa, a que vence todos os mundos e todas as suas potências.
É preciso ler bem esta "rebelião". O Rav Kook não a aprova — diagnostica-a. A sua tese é arguta: o perigo do renascimento não é o fracasso, mas o êxito — a prosperidade material que faz a alma "encolher" e perder a sede dos ideais. E, fiel ao seu modo de ver, ele lê até essa crise como parte do processo: é o golpe que, ao fim, faz "ver com clareza" onde mora a verdadeira força. A tempestade não é o fim; é o que arranca o véu.
Por que a crise é necessária
A necessidade desta crise está na inclinação para a materialidade, que tem de nascer na totalidade da nação numa forma vigorosa — depois de terem passado períodos de muitos anos em que a necessidade e a possibilidade de uma ocupação material foram inteiramente anuladas da nação [no exílio]. E essa inclinação, ao nascer, pisará com ímpeto e provocará tempestades; e estas são as dores do Mashiach, que hão de perfumar o mundo inteiro por meio das suas próprias dores.
Eis o paradoxo curativo do Rav Kook. A volta ao trabalho, à terra, à matéria — depois de séculos em que o exílio tornara isso impossível — não podia vir suave: nasce "com ímpeto", e por isso "provoca tempestades". Mas essas tempestades são dores de parto, não agonias de morte. E há uma promessa surpreendente nelas: que "perfumam o mundo inteiro". A dor do nascimento de algo novo não é castigo — é o preço, e até o perfume, de uma vida que volta.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §44. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Kohelet 12:1 e Tehillim 36:10; a expressão "dores do Mashiach" (chevlei Mashiach) é da tradição talmúdica. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.