O renascimento de um povo é também o renascimento da sua palavra escrita. Mas o Rav Kook recusa separar a qualidade de uma literatura da qualidade das almas que a produzem. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
Quem pode chamar-se escritor
É impossível que uma literatura de Israel tenha êxito sem a santificação das almas dos escritores. Todo escritor que não se esforça por purificar as suas virtudes [middot], por depurar os seus atos e os seus pensamentos — até que o seu mundo interior esteja, ele mesmo, cheio de luz, e a perfeição interior se faça sentir dentro dele, junto com o cuidado de completar o que falta, e de encher-se de uma humildade mesclada de força e de serenidade de espírito, com um forte despertar intelectual e emocional para fazer o bem e para esclarecer-se a si mesmo, e com um desejo sublime de estar no auge da pureza e da santidade nobre — enquanto não estiver nessa condição, não poderá, em verdade, ser chamado "escritor".
É uma exigência altíssima — e propositadamente. O Rav Kook recusa a ideia de que o talento literário possa ser separado do caráter de quem escreve. Não basta escrever bem: para ser "escritor" no sentido pleno, é preciso que o mundo interior do autor esteja "cheio de luz". A obra carrega a alma de quem a fez — e uma alma turva acaba por turvar a obra, por mais hábil que seja a pena.
Os que contavam as letras
Só "os antigos eram chamados soferim [escribas], porque contavam [sofrim] as letras da Torá" — e o contar das letras da Torá elevou-os a um grau supremo de pureza de espírito e de força de alma, até que o nome "soferim" lhes ficou bem.
Há aqui um belo jogo de palavras intraduzível: em hebraico, sofer é ao mesmo tempo "escritor" e "aquele que conta" — e os sábios antigos foram chamados soferim porque contavam, uma a uma, as letras da Torá (Kidushin 30a). Esse trabalho minucioso e reverente sobre cada letra purificou-os, e só por isso mereceram o título. A lição é direta: o nome "escritor" não se ganha pela quantidade de páginas, mas pela reverência com que se trata cada palavra.
Vir da santidade para a literatura
E, se desejamos reviver a literatura de Israel, precisamos de caminhar por esta via do sagrado — de vir da santidade para a literatura, e não o contrário.
Eis o princípio que dá título à seção. Há dois caminhos possíveis: tentar acrescentar um verniz "espiritual" a uma literatura feita de qualquer modo — ou deixar que a literatura brote de uma alma já trabalhada, já purificada. O Rav Kook escolhe o segundo. A santidade não é um tema entre outros que o escritor possa abordar; é a fonte de onde a verdadeira escrita nasce. Por esse "Caminho Santo" é que hão de andar os remidos.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §36. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. O dito "os antigos eram chamados soferim porque contavam as letras da Torá" é do Talmud (Kidushin 30a); as citações são de Tehillim 24:4 e Yeshayahu 35:8-9. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.