Seder Tehorot · Massechet Pará · Perek Chet · Mishná 11 de 11

O poço de Achav, a gruta de Pamias e a água turvada por barro, encerrando o Perek Chet

בְּאֵר אַחְאָב וּמְעָרַת פַּמְיָס, כְּשֵׁרָה. הַמַּיִם שֶׁנִּשְׁתַּנּוּ וְשִׁנּוּיָן מֵחֲמַת עַצְמָן, כְּשֵׁרִין. אַמַּת הַמַּיִם הַבָּאָה מֵרָחוֹק, כְּשֵׁרָה, וּבִלְבַד שֶׁיִּשְׁמְרֶנָּה שֶׁלֹּא יַפְסִיקֶנָּה אָדָם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הֲרֵי הִיא בְחֶזְקַת מֻתֶּרֶת. בְּאֵר שֶׁנָּפַל לְתוֹכָהּ חַרְסִית אוֹ אֲדָמָה, יַמְתִּין לָהּ עַד שֶׁתִּצַּל, דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵינוֹ צָרִיךְ לְהַמְתִּין:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O poço de Achav, a gruta de Pamias, águas que mudam de cor por si, canais vindos de longe, e o poço turvado por barro: as regras finais sobre a validade da fonte de água, encerrando o Perek Chet

O poço de Achav e a gruta de Pamias são válidos. A água que mudou (de cor), sendo que sua mudança se deu por si mesma, é válida. O canal de água que vem de longe é válido, contanto que se vigie para que ninguém o interrompa. Rabi Yehudá diz: ele está em presunção de permitido. O poço em que caiu barro ou terra: espera-se até que (a água) se clarifique — palavras de Rabi Yishmael. Rabi Akiva diz: não é necessário esperar.

A última mishná do Perek Chet reúne quatro casos-limite sobre a validade da água: fontes específicas cuja condição de ‘água viva’ poderia ser posta em dúvida (o poço de Achav e a gruta de Pamias, de onde nasce o Jordão) são declaradas válidas; água que mudou de cor por processo natural, sem intervenção externa, continua válida; um canal que traz água de longe é válido, desde que vigiado contra interrupção — Rabi Yehudá dispensando até essa vigilância, por presunção de continuidade; e, por fim, a disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre se é necessário aguardar a decantação da água de um poço em que caiu barro ou terra antes de utilizá-la. Com esta mishná, encerra-se o Perek Chet, que abriu com a guarda compartilhada do cocho e, depois de percorrer a série de refrões sobre a impureza transmitida por intermediários, fechou-se com os critérios finais de validade da própria fonte de água.

בְּאֵר אַחְאָב וּמְעָרַת פַּמְיָס, כְּשֵׁרָה. הַמַּיִם שֶׁנִּשְׁתַּנּוּ וְשִׁנּוּיָן מֵחֲמַת עַצְמָן, כְּשֵׁרִין. אַמַּת הַמַּיִם הַבָּאָה מֵרָחוֹק, כְּשֵׁרָה, וּבִלְבַד שֶׁיִּשְׁמְרֶנָּה שֶׁלֹּא יַפְסִיקֶנָּה אָדָם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הֲרֵי הִיא בְחֶזְקַת מֻתֶּרֶת. בְּאֵר שֶׁנָּפַל לְתוֹכָהּ חַרְסִית אוֹ אֲדָמָה, יַמְתִּין לָהּ עַד שֶׁתִּצַּל, דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵינוֹ צָרִיךְ לְהַמְתִּין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Pará 8:11
ר' יהודה אומר לא יצריך לזאת השוקת שומר בהיותה ידועה שהיא תבא ממי מעיין ומדרך בארות המים אשר יושלך בהן חרסית או זולתה יעכרו המים לפי שהוא…

Rabi Yehudá diz que não é necessário guardião para este cocho, por ser sabido que ela virá da água da fonte. E é próprio dos poços de água que, se neles se lança barro ou outra coisa semelhante, as águas se turvam, porque isso levanta o pó do fundo do poço; e do mesmo modo, se lançou lodo na água, ela se turva no momento, mas, se for deixada por algum tempo, o lodo se deposita no fundo e as águas se clarificam — e a estas se chamam ‘águas claras e finas’ e ‘águas límpidas’. E disto disseram ‘até que se clarifique’ (ad shetitzal), do termo tzalul (límpido) — isto é, até que se depure e se clarifique. E a lei não é nem como Rabi Yehudá, nem como Rabi Yishmael.

Bartenura · Pará 8:11
בְּאֵר אַחְאָב. לֹא אִתְפְּרַשׁ הֵיכָן הוּא, וְהָא קָא…

Sobre “o poço de Achav”: não se explicou onde ele está, mas isto vem nos ensinar que são águas vivas.

Sobre “e a gruta de Pamias”: a gruta próxima à cidade de Dan, de onde sai o Jordão; e na língua de Ishmael (árabe) chamam Dan de ‘Banias’.

Sobre “Rabi Yehudá diz que ele está em presunção de permitido”: e a lei não é como Rabi Yehudá.

Sobre “até que se clarifique”: até que as águas voltem a ficar límpidas como no início. E a lei não é como Rabi Yishmael.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Pará não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.
סְלִיקָא לֵיהּ פֶּרֶק שְׁמִינִי

Aqui termina o Perek Chet de Massechet Pará — que abre com a vigilância compartilhada do cocho onde se reúne a água da chatat, distinguindo quando a impureza ou o trabalho de um só dos guardiões não desqualifica a água, e quando a de ambos ao mesmo tempo sim (8:1); segue com a série de seis mishnayot construídas sobre o refrão ‘os que te contaminaram a mim não me contaminaram, e tu me contaminaste’ — a sandália e a veste de quem consagra (8:2); quem queima a vaca e os touros, e quem envia o bode, que contaminam as vestes, ao contrário dos próprios animais (8:3); a carcaça de ave pura na garganta, que contamina apenas enquanto ali permanece (8:4); o derivado de impureza, que não contamina utensílios senão por meio do líquido que primeiro contamina (8:5); o utensílio de barro, que nunca contamina outro utensílio de barro diretamente (8:6); e todo aquele que invalida a teruma, que torna os líquidos primeiro grau — exceto o tevul yom (8:7); e encerra com a série final sobre as fontes de água válidas e inválidas para a consagração: os mares como mikvê, segundo a disputa entre Rabi Meir, Rabi Yehudá e Rabi Yossei (8:8); as águas salgadas, mornas ou intermitentes (8:9); os rios de pântano e de mistura, como o Karmion, o Pugá, o Jordão e o Yarmuch (8:10); e, por fim, o poço de Achav, a gruta de Pamias, a água que muda de cor por si mesma, o canal vindo de longe e o poço turvado por barro ou terra (8:11).