Houve um caso de uma mulher que veio perante Rabi Akiva. Ela lhe disse: vi uma mancha. Ele lhe disse: talvez havia em ti uma ferida? Ela lhe disse: sim, e sarou. Ele lhe disse: talvez pudesse reabrir e soltar sangue? Ela lhe disse: sim. E Rabi Akiva a declarou pura. Viu seus discípulos se entreolhando. Disse-lhes: por que este assunto vos parece difícil? Pois os Sábios não disseram esta coisa para agravar, mas para aliviar, como está dito (Levítico 15:19): “e a mulher, quando tiver fluxo, sangue será seu fluxo em sua carne” — sangue, e não mancha.
Este relato ilustra na prática o princípio geral por trás de toda a lei das manchas, e prepara o terreno para a explicação que a mishná seguinte tornará explícita. A mulher relatou apenas ter visto uma mancha, sem mencionar nenhuma ferida; foi Rabi Akiva quem, por iniciativa própria, lhe perguntou se ela tinha algum ferimento antigo capaz de sangrar novamente — e, ao obter uma resposta afirmativa, declarou-a pura, atribuindo a mancha a essa possível fonte alternativa, ainda que a mulher jamais tivesse pensado nessa explicação por si mesma. Os discípulos se surpreenderam com a leniência da decisão, pois seria de se esperar que, na dúvida, se decidisse pela impureza; Rabi Akiva lhes explica então o fundamento de toda a instituição rabínica das manchas: por lei da própria Torá, apenas o sangue visto diretamente saindo do corpo torna a mulher impura — a palavra usada no versículo é “sangue”, e não “mancha”. A impureza da mancha encontrada posteriormente é, portanto, uma instituição adicional dos Sábios, e, como toda instituição desse tipo criada para reforçar o cuidado com a pureza, ela deve ser aplicada com a intenção original de facilitar, sempre que exista qualquer causa plausível e razoável a que a mancha possa ser atribuída — e não para multiplicar dúvidas e impurezas além do que a própria Torá exige.
Rambam explica: já esclarecemos, na introdução desta ordem, que a impureza das manchas é por decreto rabínico, e esta halachá inteira já está esclarecida por si mesma.
Bartenura explica: sobre “sangue, e não mancha” — pois foram os Sábios que decretaram (a impureza) sobre as manchas; por isso, seguem nelas o caminho da leniência.
A mishná 8:3 forma, na Guemará (Nidá 58b), um único bloco de מַתְנִי’ com as mishnayot 8:2 e 8:4, sem cabeçalho próprio. Rashi comenta, nesse mesmo trecho, os termos das mishnayot vizinhas (8:2), mas não deixou comentário específico sobre este relato envolvendo Rabi Akiva e seus discípulos; por isso, honestamente, esta seção é omitida para a mishná 8:3.