Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Chet · Mishná 3 de 4

O caso da mulher perante Rabi Akiva: por que a lei das manchas é para aliviar

לֹא אָמְרוּ חֲכָמִים הַדָּבָר לְהַחְמִיר אֶלָּא לְהָקֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O caso da mulher perante Rabi Akiva, que a purificou por atribuir a mancha a uma ferida antiga; e o princípio que ele revela a seus discípulos surpresos: a impureza de mancha é decreto rabínico instituído para aliviar, pois a Torá fala em sangue, e não em mancha

Houve um caso de uma mulher que veio perante Rabi Akiva. Ela lhe disse: vi uma mancha. Ele lhe disse: talvez havia em ti uma ferida? Ela lhe disse: sim, e sarou. Ele lhe disse: talvez pudesse reabrir e soltar sangue? Ela lhe disse: sim. E Rabi Akiva a declarou pura. Viu seus discípulos se entreolhando. Disse-lhes: por que este assunto vos parece difícil? Pois os Sábios não disseram esta coisa para agravar, mas para aliviar, como está dito (Levítico 15:19): “e a mulher, quando tiver fluxo, sangue será seu fluxo em sua carne” — sangue, e não mancha.

Este relato ilustra na prática o princípio geral por trás de toda a lei das manchas, e prepara o terreno para a explicação que a mishná seguinte tornará explícita. A mulher relatou apenas ter visto uma mancha, sem mencionar nenhuma ferida; foi Rabi Akiva quem, por iniciativa própria, lhe perguntou se ela tinha algum ferimento antigo capaz de sangrar novamente — e, ao obter uma resposta afirmativa, declarou-a pura, atribuindo a mancha a essa possível fonte alternativa, ainda que a mulher jamais tivesse pensado nessa explicação por si mesma. Os discípulos se surpreenderam com a leniência da decisão, pois seria de se esperar que, na dúvida, se decidisse pela impureza; Rabi Akiva lhes explica então o fundamento de toda a instituição rabínica das manchas: por lei da própria Torá, apenas o sangue visto diretamente saindo do corpo torna a mulher impura — a palavra usada no versículo é “sangue”, e não “mancha”. A impureza da mancha encontrada posteriormente é, portanto, uma instituição adicional dos Sábios, e, como toda instituição desse tipo criada para reforçar o cuidado com a pureza, ela deve ser aplicada com a intenção original de facilitar, sempre que exista qualquer causa plausível e razoável a que a mancha possa ser atribuída — e não para multiplicar dúvidas e impurezas além do que a própria Torá exige.

מַעֲשֶׂה בְאִשָּׁה אַחַת שֶׁבָּאת לִפְנֵי רַבִּי עֲקִיבָא, אָמְרָה לוֹ, רָאִיתִי כָתֶם. אָמַר לָהּ, שֶׁמָּא מַכָּה הָיְתָה בִיךְ. אָמְרָה לוֹ, הֵן, וְחָיְתָה. אָמַר לָהּ, שֶׁמָּא יְכוֹלָה לְהִגָּלַע וּלְהוֹצִיא דָם. אָמְרָה לוֹ, הֵן. וְטִהֲרָהּ רַבִּי עֲקִיבָא. רָאָה תַלְמִידָיו מִסְתַּכְּלִין זֶה בָזֶה. אָמַר לָהֶם, מַה הַדָּבָר קָשֶׁה בְעֵינֵיכֶם. שֶׁלֹּא אָמְרוּ חֲכָמִים הַדָּבָר לְהַחְמִיר אֶלָּא לְהָקֵל, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא טו), וְאִשָּׁה כִּי תִהְיֶה זָבָה דָּם יִהְיֶה זֹבָהּ בִּבְשָׂרָהּ, דָּם וְלֹא כָתֶם:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Levítico 15:19
וְאִשָּׁה כִּי־תִהְיֶה זָבָה דָּם יִהְיֶה זֹבָהּ בִּבְשָׂרָהּ שִׁבְעַת יָמִים תִּהְיֶה בְנִדָּתָהּ וְכָל־הַנֹּגֵעַ בָּהּ יִטְמָא עַד־הָעָרֶב׃
“E a mulher que tiver fluxo, sendo sangue o seu fluxo em sua carne, sete dias estará em sua menstruação; e todo o que a tocar será impuro até a tarde.”
Rabi Akiva apoia-se na palavra “sangue” deste versículo para estabelecer que, por lei da Torá, apenas o sangue visto diretamente saindo do corpo torna a mulher impura por nidá — e não uma mancha encontrada posteriormente, sem que se saiba a que ela se deve. A impureza da mancha é, portanto, instituição dos Sábios, aplicada com a intenção de aliviar, e não de agravar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 8:3

Rambam explica: já esclarecemos, na introdução desta ordem, que a impureza das manchas é por decreto rabínico, e esta halachá inteira já está esclarecida por si mesma.

Bartenura · Nidá 8:3

Bartenura explica: sobre “sangue, e não mancha” — pois foram os Sábios que decretaram (a impureza) sobre as manchas; por isso, seguem nelas o caminho da leniência.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

A mishná 8:3 forma, na Guemará (Nidá 58b), um único bloco de מַתְנִי’ com as mishnayot 8:2 e 8:4, sem cabeçalho próprio. Rashi comenta, nesse mesmo trecho, os termos das mishnayot vizinhas (8:2), mas não deixou comentário específico sobre este relato envolvendo Rabi Akiva e seus discípulos; por isso, honestamente, esta seção é omitida para a mishná 8:3.