A que vê uma mancha em sua carne, defronte ao beit haturpá, é impura. E a que não é defronte ao beit haturpá, é pura. Sobre seu calcanhar e sobre a ponta de seu dedão, é impura. Sobre sua perna e sobre seus pés — por dentro, é impura; por fora, é pura; e sobre os lados, daqui e dali, é pura. Se a viu sobre sua túnica, do cinto para baixo, é impura; do cinto para cima, é pura. Se a viu sobre a manga da túnica, se alcança defronte ao beit haturpá, é impura; e se não, é pura. Se era uma túnica que ela costumava despir e com que se cobria à noite, em qualquer lugar em que se encontre a mancha, é impura, porque ela (a túnica) se inverte. E o mesmo vale para o pólion (véu).
Com esta mishná se abre o Perek Chet de Massechet Nidá, que retoma e aprofunda o tema das manchas de sangue encontradas no corpo ou na roupa da mulher, já introduzido no perek anterior. O beit haturpá é a região genital, o local de onde o sangue menstrual efetivamente sai; a mishná estabelece uma regra geométrica: uma mancha encontrada num ponto do corpo de onde o sangue poderia fisicamente ter escorrido até ali — ainda que não seja a própria região genital, como o calcanhar ou a ponta do dedão, para onde o sangue pode pingar enquanto a mulher caminha — torna-a impura, por haver a possibilidade real de que se trate de sangue da fonte; já uma mancha num ponto para onde o sangue não poderia ter chegado por gravidade ou contato natural torna-a pura, pois não há como atribuí-la à menstruação. A mesma lógica se estende à roupa: abaixo do cinto, próximo à região genital, a mancha é suspeita; acima do cinto, está longe demais para ser atribuída ao fluxo. A manga da túnica segue a mesma regra, conforme alcance ou não a altura da região genital quando a mulher a despe. Já a túnica que serve de coberta noturna é tratada de modo diferente: como ela se move e se inverte enquanto a mulher dorme, qualquer parte dela pode ter estado, em algum momento da noite, próxima ao corpo — e por isso qualquer mancha nela encontrada torna a mulher impura, independentemente de onde esteja.
Rambam explica: quanto ao que disse “defronte ao beit haturpá é impura”, ele esclareceu o lugar que fica defronte ao beit haturpá. Quanto ao calcanhar, é possível que o sangue se aproxime dele por algum membro do corpo; já quanto ao dedão, que é um dos dedos do pé, isso não seria possível — mas disseram “sobre a ponta do dedão é impura” porque dizemos que, às vezes, o sangue pinga sobre ele no momento de caminhar, e isso é possível, como se esclarece no Talmude. E “por dentro” é o lugar que se junta quando as pernas e as canelas se unem uma à outra e a pessoa está em pé. E disseram “sobre os lados, daqui e dali” — quer dizer, o que se inclina para a frente ou o que se inclina para a coluna, das coxas e das canelas, no momento em que se unem, como já explicamos. E “a manga da túnica” é claro; e o anfelion é o cinto com que se cingem.
Bartenura explica: sobre “defronte ao beit haturpá” — é o local da nudez. Sobre “é impura” — pois se pode dizer que o sangue caiu daquele lugar. Sobre “sobre seu calcanhar” — às vezes acontece de tocar naquele lugar. Sobre “e sobre a ponta de seu dedão” — pois, ao dar o passo, acontece de o dedão do pé ficar sob aquele lugar, e o sangue pinga sobre ele. Sobre “sobre sua perna e sobre seus pés, por dentro, é impura” — quando a pessoa está em pé e une seus pés e suas pernas um ao outro, tudo o que está unido entre eles chama-se “por dentro”. Sobre “por fora” — daqui e dali. Sobre “e sobre os lados” — a parte de trás da perna, em toda a sua altura, defronte ao calcanhar, e a parte da frente, em toda a sua altura, defronte ao pé, chamam-se “lados”. Sobre “do cinto para baixo” — isso é defronte ao beit haturpá. Sobre “se alcança defronte ao beit haturpá” — como quando se encontra na ponta da manga, próximo à mão, pois às vezes ela a despe do braço e a manga cai defronte à parte de baixo. Sobre “e se não” — isto é, não defronte ao beit haturpá, como quando se encontra próximo aos ombros. Sobre “porque ela se inverte” — às vezes a parte de cima da túnica se vira em direção à parte de baixo. Sobre “e o mesmo vale para o pólion” — um véu com que ela se cobre.
Rashi explica: sobre “defronte ao beit haturpá” — aquele lugar do qual se pode dizer que o sangue caiu dali, e por isso é impura. Sobre “sobre seu calcanhar e sobre a ponta de seu dedão, é impura” — a ponta do dedão do pé; e na Guemará se explica a razão. Sobre “por dentro” — entre as duas pernas, em toda a sua altura a partir do chão. Sobre “por fora” — daqui e dali. Sobre “lados” — a parte de trás da perna, em toda a sua altura, defronte ao calcanhar, e a parte da frente, em toda a sua altura, defronte ao pé. Sobre “do cinto para baixo” — isso é defronte ao beit haturpá. Sobre “se alcança defronte ao beit haturpá” — como quando se encontra na ponta da manga, próximo à mão, pois às vezes ela a despe do braço e cai defronte à parte de baixo. Sobre “não defronte ao beit haturpá” — como quando se encontra próximo ao ombro. Sobre “porque ela se inverte” — às vezes a parte de cima da túnica se vira em direção à parte de baixo dela. Sobre “e o mesmo vale para o pólion” — um véu com que ela se cobre; em língua estrangeira, “iril”.