Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Zayin · Mishná 5 de 5

A palavra dos samaritanos sobre sepulturas: quando são confiáveis e quando não são

נֶאֱמָנִים לוֹמַר קָבַרְנוּ שָׁם אֶת הַנְּפָלִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerramento do Perek Zayin: os samaritanos são confiáveis para dizer se sepultaram ali os fetos ou não sepultaram, e se um animal já pariu antes ou não; são confiáveis quanto à marcação de sepulturas, mas não são confiáveis quanto às ramagens pendentes, nem quanto às saliências de muro, nem quanto ao beit haperas; e a regra geral: aquilo de que são suspeitos, não são confiáveis a seu respeito

São confiáveis para dizer: sepultamos ali os fetos; ou: não sepultamos. São confiáveis para dizer, a respeito do animal, se já pariu ou se não pariu. São confiáveis quanto à marcação de sepulturas. Mas não são confiáveis nem quanto às ramagens pendentes, nem quanto às saliências (de muro), nem quanto ao beit haperas. Esta é a regra geral: aquilo de que são suspeitos, não são confiáveis a seu respeito.

Esta última mishná do Perek Zayin completa o tema iniciado na mishná anterior, estabelecendo os limites da credibilidade dos samaritanos em matéria de testemunho sobre impureza de cadáver. Em princípio, a palavra de um samaritano não deveria ser aceita em questões que dependem da Torá, pois eles não têm o cuidado de não fazer tropeçar o próximo, e não lhes importaria se um israelita viesse a pecar por confiar em sua palavra; mas a Guemará explica que, quando há um sacerdote samaritano presente no local, segurando e comendo terumá, não há razão para temer, pois nesse caso não há suspeita de que a terumá seja impura — e é justamente esse cenário que a mishná pressupõe ao dizer que são confiáveis para declarar se sepultaram ou não os fetos ali, e se um animal específico já pariu antes, uma informação relevante para determinar se sua próxima cria tem o estatuto sagrado de primogênito. São confiáveis também quanto à marcação de sepulturas, pois, embora essa marcação seja apenas uma exigência rabínica, os samaritanos são cuidadosos com ela, já que também aparece, de forma semelhante, num versículo dos Profetas. Já quanto às ramagens de árvores que pairam sobre o solo, às pedras que saem salientes de um muro, e ao beit haperas — um campo onde se sabe que havia uma sepultura, mas cujo local exato se perdeu, e que os Sábios decretaram impuro numa área de cem cúbitos ao redor, por receio de que o arado tenha espalhado ossos — nesses três casos, os samaritanos não são confiáveis, pois se trata de situações duvidosas por natureza, e uma pessoa não costuma se preocupar em esclarecer aquilo que já é apenas dúvida. A mishná fecha com o princípio que resume toda esta unidade: em qualquer assunto do qual os samaritanos sejam suspeitos de negligência ou de não observância, sua palavra não é aceita como testemunho.

נֶאֱמָנִים לוֹמַר, קָבַרְנוּ שָׁם אֶת הַנְּפָלִים, אוֹ, לֹא קָבָרְנוּ. נֶאֱמָנִים לוֹמַר עַל הַבְּהֵמָה אִם בִּכְּרָה, אִם לֹא בִכְּרָה. נֶאֱמָנִים עַל צִיּוּן קְבָרוֹת, וְאֵין נֶאֱמָנִין לֹא עַל הַסְּכָכוֹת וְלֹא עַל הַפְּרָעוֹת וְלֹא עַל בֵּית הַפְּרָס. זֶה הַכְּלָל, דָּבָר שֶׁחֲשׁוּדִים בּוֹ, אֵין נֶאֱמָנִים עָלָיו:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 7:5

Rambam explica: sua credibilidade, ao dizerem “não sepultamos”, só se aplica quando há um sacerdote (samaritano) presente naquele lugar, e há terumá em sua mão, e ele a come — e então não é possível dizer que talvez seja terumá impura, já que ele mesmo a come. E, da mesma forma, a sua credibilidade, ao dizerem que este animal já é primogênito (de mãe que já pariu antes), aplica-se até que se torne permitido usar suas crias (posteriores) para o trabalho, isto é, até vermos ele trabalhando com ele, a respeito de quem veio o versículo: “não trabalharás com o primogênito de teu boi, nem tosquiarás o primogênito de tuas ovelhas”. E, da mesma forma, são confiáveis num lugar que é puro, quando não há ali marcação, pois eles costumavam fazer marcação sobre as sepulturas; mas, se havia ali uma árvore com ramagem cobrindo o solo, ou pedras salientes saindo do muro, e disseram que debaixo delas é puro, não são confiáveis, pois às vezes há impureza debaixo delas, e eles não acreditam que aquilo seja uma tenda que não transmitiria impureza ao que está sob essa sombra; e, da mesma forma, quanto ao beit haperas, não são confiáveis para dizer que ele é puro — e já se explicará, em Oholot, as leis do beit haperas, e como ele se torna puro. E disseram “esta é a regra geral” para incluir os limites (de techum) e o vinho idólatra, dos quais não são confiáveis, pois eles não acreditam na proibição dos limites, nem na proibição do vinho idólatra; e não preciso responder que, hoje, seu estatuto é como o dos idólatras para todos os seus efeitos.

Bartenura · Nidá 7:5

Bartenura explica: sobre “são confiáveis para dizer: sepultamos” — pois a impureza de morto é algo da própria Torá; e é quando há um sacerdote samaritano presente ali, e há terumá em sua mão, e ele a come, pois então não há razão para temer que seja terumá impura. E, sem isso, não são confiáveis, pois não têm o cuidado de não fazer tropeçar o próximo, e não lhes importa se pecamos por causa de sua palavra. Sobre “se já pariu” — e é quando o vimos trabalhando e tosquiando com ele, pois, se não soubessem que não era primogênito, não teriam transgredido um preceito da própria Torá, já que está escrito (Deuteronômio 15): “não trabalharás com o primogênito de teu boi, nem tosquiarás o primogênito de tuas ovelhas”. Sobre “são confiáveis quanto à marcação de sepulturas” — para marcar o local da sepultura, e confiamos neles; e, embora isso seja apenas por decreto rabínico, como está escrito (a exigência), eles são cuidadosos com ela, pois está escrito (Ezequiel 39): “e verá um osso de homem, e construirá junto a ele um marco”. Sobre “não quanto às ramagens” — uma árvore cuja ramagem cobre o solo, e seus ramos são distintos entre si, e sabe-se com certeza que há uma sepultura sob uma das “tendas” formadas por eles, mas não se sabe qual; e vem um samaritano e testemunha sobre uma delas que é pura — não é confiável, porque ele não se preocupa com a dúvida. Sobre “nem quanto às saliências” — pedras grandes que saem salientes do muro, e há uma sepultura sob uma delas, e não sabemos sob qual; e vem um samaritano e testemunha sobre algumas delas que são puras — não é confiável, porque, quanto à dúvida, ele não se preocupa. Sobre “beit haperas” — um campo onde foi arado sobre uma sepultura; e, em todos os cem cúbitos ao redor da sepultura, os Sábios os fixaram em presunção de impureza, por receio de que o arado tenha girado e levado um osso do tamanho de um grão de cevada, proveniente do morto. E “perás” é linguagem de algo espalhado e quebrado, pois os ossos do morto foram ali espalhados. E de outros ouvi dizer que é porque as pegadas dos homens evitam caminhar ali, por causa da impureza. Sobre “esta é a regra geral” — para incluir os limites (de techum) e o vinho idólatra: um samaritano não é confiável para dizer “até aqui é o limite do shabat”, pois os limites são por decreto rabínico, e os samaritanos não têm essa opinião; e, da mesma forma, não são confiáveis quanto ao vinho idólatra, pois não se cuidam do contato de um idólatra. E todas essas palavras só foram ditas a respeito das gerações anteriores; mas, hoje, eles são como idólatras para todos os seus efeitos.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Nidá 57a — a mishná 7:5 não recebe cabeçalho próprio de מַתְנִי’ na Guemará, formando um único bloco com a mishná 7:4; Rashi comenta seu conteúdo diretamente na Guemará que se segue
נאמנין לומר קברנו — דְּמִידֵּי דְּאוֹרַיְתָא הוּא טֻמְאַת הַמֵּת: בכהן — כּוּתִי עוֹמֵד שָׁם: דקאכיל מינה — וּתְרוּמָה טְמֵאָה בְּאַזְהָרָה לְטָהוֹר, וְכׇל שֶׁכֵּן לְטָמֵא: על ציון — לְצַיֵּן, וְסוֹמְכִין עֲלֵיהֶן: אילן המיסך על הארץ — וְהוּא סָמוּךְ לְדֶרֶךְ בֵּית הַקְּבָרוֹת, וְזִמְנִין דְּמִיתְרְמֵי בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת וְקָבְרֵי הָתָם, וְאִם הָעֲנָפִים מֻבְדָּלִים: פרעות — גְּדוֹלוֹת וּבוֹלְטוֹת מִן הַגָּדֵר, וְקָבְרוּ תַּחַת אַחַת מֵהֶן וְאֵין אָנוּ יוֹדְעִין תַּחַת אֵיזוֹ מֵהֶן: בית הפרס — שָׂדֶה שֶׁנֶּחְרַשׁ בָּהּ קֶבֶר, וְאוֹקְמוּהָ רַבָּנָן עַל סְבִיבוֹת הַקֶּבֶר מֵאָה אַמָּה בְּסָפֵק טֻמְאָה, שֶׁדִּקְדְּקָה הַמַּחֲרֵשָׁה אֶת הָעֲצָמוֹת: לאתויי תחומין — אֵין נֶאֱמָנִין לוֹמַר עַד כָּאן תְּחוּם שַׁבָּת, דִּתְחוּמִין דְּרַבָּנָן, וְכוּתִּיִּים לָא סְבִירָא לְהוּ: ויין נסך — דְּאֵין כּוּתִי מַקְפִּיד עַל מַגַּע עוֹבֵד כּוֹכָבִים:

Rashi explica: sobre “são confiáveis para dizer: sepultamos” — pois a impureza de morto é algo da própria Torá. Sobre “quando há um sacerdote (presente)” — um sacerdote samaritano presente ali. Sobre “pois ele a come” — e comer terumá impura é proibido inclusive a quem está puro, e tanto mais a quem está impuro (o que garante que ele não a comeria se houvesse dúvida real). Sobre “quanto à marcação (de sepulturas)” — para marcar, e confiamos neles. Sobre “árvore cuja ramagem cobre o solo” — e que fica próxima ao caminho de um cemitério, e às vezes ocorre, no crepúsculo, que sepultam ali, e os ramos ficam separados uns dos outros. Sobre “as saliências” — pedras grandes e salientes do muro, sob uma das quais foi feita uma sepultura, sem que saibamos sob qual delas. Sobre “beit haperas” — um campo onde foi arada uma sepultura, e os Sábios o fixaram, nos cem cúbitos ao redor da sepultura, em dúvida de impureza, pois o arado espalhou os ossos. Sobre “para incluir os limites (de techum)” — não são confiáveis para dizer “até aqui vai o limite do shabat”, pois os limites são por decreto rabínico, e os samaritanos não seguem essa opinião. Sobre “e o vinho idólatra” — pois um samaritano não se preocupa com o contato de um idólatra (com o vinho).

Encerrando o Perek Zayin · סִיּוּם פֶּרֶק ז’

O Perek Zayin, com suas cinco mishnayot, está agora completo. Ele se abriu com a distinção entre substâncias que transmitem impureza tanto úmidas quanto secas — o sangue da nidá e a carne do morto — e as que só transmitem impureza enquanto úmidas, a menos que possam ser reidratadas: o fluxo do zav, a saliva mole, a saliva comum, o réptil, a carcaça e o sêmen (7:1). Passou então ao tema da impureza retroativa: o réptil encontrado num beco e a mancha encontrada numa túnica tornam impuro tudo o que foi manuseado desde o último exame declarado, a última varrição ou a última lavagem, com a distinção de Rabi Shimon entre o achado seco e o úmido (7:2). O perek voltou-se então para as manchas de sangue e sua origem: as manchas vindas de Rekem, dos gentios, dos judeus e dos samaritanos, e a disputa entre Rabi Iehudá, Rabi Meir e os Sábios sobre quem é suspeito de não guardar suas roupas manchadas (7:3); a regra geral de que toda mancha encontrada é pura, exceto as de câmaras internas e das proximidades da câmara de impureza, e a câmara de impureza dos samaritanos, que transmite impureza por tenda por causa dos fetos ali sepultados, segundo o primeiro tanna, e a discordância de Rabi Iehudá (7:4). E encerrou com os limites da credibilidade dos samaritanos como testemunhas em questões de impureza de cadáver: confiáveis quanto ao sepultamento de fetos, ao parto prévio de um animal e à marcação de sepulturas, mas não confiáveis quanto às ramagens, às saliências e ao beit haperas — e a regra que resume tudo: aquilo de que são suspeitos, não são confiáveis a seu respeito (7:5). O tratado prossegue no Perek Chet, que continuará a tratar das leis de manchas, sangue e impureza no contexto da mulher que examina e das dúvidas que dele decorrem.