Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Zayin · Mishná 4 de 5

A câmara dos abortos dos samaritanos: impureza por tenda e a disputa sobre o sepultamento

כָּל הַכְּתָמִים הַנִּמְצָאִים בְּכָל מָקוֹם טְהוֹרִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Todas as manchas encontradas em qualquer lugar são puras, exceto as encontradas em câmaras internas ou nas proximidades da câmara de impureza; a câmara de impureza dos samaritanos transmite impureza por tenda, por sepultarem ali os fetos abortados; e Rabi Iehudá discorda, sustentando que eles não os sepultavam, mas os lançavam fora, e um animal os arrastava

Todas as manchas (de sangue) encontradas em qualquer lugar são puras, exceto as encontradas em câmaras (internas) e nas proximidades da câmara de impureza. A câmara de impureza dos samaritanos transmite impureza por tenda, porque eles sepultam ali os fetos abortados. Rabi Iehudá diz: não sepultavam, mas lançavam fora, e um animal os arrastava.

A mishná generaliza a regra estabelecida no caso de Rekem para qualquer localidade onde judeus e outros povos convivam: por padrão, uma mancha de sangue encontrada em qualquer lugar é pura, pois presume-se que as mulheres judias guardam suas roupas manchadas e não as deixam à vista, de modo que uma mancha encontrada em lugar exposto provavelmente não é de sangue de nidá. Há, porém, duas exceções: as manchas encontradas em câmaras internas da casa, onde é plausível que a própria mulher tenha guardado a roupa manchada, e as manchas encontradas nas proximidades da “câmara de impureza” — o cômodo que as mulheres usavam durante os dias de sua nidá, e onde, por isso, é mais provável que uma mancha ali encontrada seja mesmo de sangue menstrual. A partir daí, a mishná volta sua atenção para um tema relacionado, mas distinto: a câmara de impureza dos samaritanos, que, segundo o primeiro tanna, transmite a impureza do cadáver por meio de tenda — isto é, contamina tudo o que está sob o mesmo teto, e não apenas por contato direto — porque ali os samaritanos costumavam sepultar os fetos nascidos mortos ou abortados, ainda que estes não tenham, para efeitos legais, o estatuto pleno de um cadáver humano sujeito à obrigação de sepultamento formal. Rabi Iehudá discorda dessa premissa factual: para ele, os samaritanos não sepultavam esses fetos ali, mas simplesmente os lançavam para fora da câmara, onde um animal os arrastava e devorava; por isso, não haveria razão para supor que a câmara de impureza contém um cadáver capaz de transmitir impureza por tenda.

כָּל הַכְּתָמִים הַנִּמְצְאִים בְּכָל מָקוֹם, טְהוֹרִין, חוּץ מִן הַנִּמְצְאִים בַּחֲדָרִים וּבִסְבִיבוֹת בֵּית הַטֻּמְאוֹת. בֵּית הַטֻּמְאוֹת שֶׁל כּוּתִים מְטַמְּאִין בְּאֹהֶל, מִפְּנֵי שֶׁהֵם קוֹבְרִין שָׁם אֶת הַנְּפָלִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, לֹא הָיוּ קוֹבְרִין אֶלָּא מַשְׁלִיכִין, וְחַיָּה גוֹרַרְתָּן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 7:4

Rambam explica: já explicamos que as manchas encontradas, mesmo nas cidades de Israel, são puras, pois eles não lançam fora uma mancha impura; e, se essa roupa sobre a qual está o sangue for encontrada nas cidades de Israel, em câmaras internas e em algum lugar dentre os lugares (associados) à impureza, então julgamos a respeito delas que são manchas de nidá, pois eles as guardaram ali, conforme já dissemos, que perguntam “guardam bem”. E os samaritanos julgavam que o feto abortado, que não tem porção nem herança na terra, seria permitido sepultá-lo em qualquer lugar; e isso não é correto; por isso, os lugares onde há impureza (associada) à sua terra transmitem impureza por tenda, pois presumem-se como cemitério. E a halachá não segue Rabi Iehudá. E isto era assim antigamente; hoje, porém, se o próprio samaritano morrer, não transmite impureza por tenda, pois eles são idólatras, e os idólatras não transmitem impureza por tenda.

Bartenura · Nidá 7:4

Bartenura explica: sobre “em qualquer lugar” — em lugar habitado por Israel. Sobre “são puras” — pois a presunção é a de que não são de sangue de nidá, já que costumam guardá-las bem. Sobre “câmara de impureza” — o cômodo que as mulheres usam nos dias de sua nidá. Sobre “sepultam ali” — por um tempo, para depois removê-los; e, como não sabemos se os removeram ou não, transmitem impureza por tenda.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Nidá 56b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' בכל מקום — בִּמְקוֹם יִשְׂרָאֵל: בחדרים — מִסְּתָמָא, מִדְּאַצְנוֹעֵי, דַּם נִדָּה הוּא: בית הטמאות — חֶדֶר שֶׁהַנָּשִׁים מִשְׁתַּמְּשׁוֹת בּוֹ בִּימֵי נִדּוּתָן: סככות ופרעות — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לְהוּ, וּסְפֵק נִינְהוּ, וּמִדְּרַבָּנָן, וְכוּתִּיִּים לֵית לְהוּ:

Rashi explica: sobre “a mishná: em qualquer lugar” — em lugar habitado por Israel. Sobre “em câmaras (internas)” — presumivelmente, por serem guardadas ali, trata-se de sangue de nidá. Sobre “câmara de impureza” — o cômodo que as mulheres usam nos dias de sua nidá. Sobre “as saliências e as protuberâncias” (que a Guemará discute logo a seguir, a propósito da mishná seguinte) — a Guemará as explica, e são casos de dúvida, (regulados) por decreto rabínico, dos quais os samaritanos não participam.