Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Vav · Mishná 14 de 14

As mulheres em dúvida: o crepúsculo do décimo primeiro dia e os limiares incertos entre nidá e zivá

הָרוֹאָה יוֹם אַחַד עָשָׂר בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerramento do Perek Vav: a mulher que vê sangue no crepúsculo de momentos-limite — o décimo primeiro dia, o sétimo dia de nidá, o quadragésimo dia após o parto de um filho ou o octogésimo de uma filha — fica em dúvida quanto ao seu estatuto; a réplica de Rabi Iehoshua, que prefere corrigir o texto de 'loucas' para 'em dúvida', e sua advertência de que mesmo as mulheres com ciclos regulares precisam de orientação

Aquela que vê (sangue) no décimo primeiro dia, no crepúsculo; o início da nidá e o fim da nidá; o início da zivá e o fim da zivá; o quadragésimo dia (após o parto) para o varão e o octogésimo dia para a fêmea — o crepúsculo, para todos estes, eis que estas (mulheres) estão em dúvida (toot). Disse Rabi Iehoshua: antes de vocês consertarem as loucas (as que estão em dúvida), venham consertar as sensatas.

Com esta mishná se encerra o Perek Vav de Massechet Nidá. Ela retoma, de forma sistemática, os limiares temporais mais delicados de todo o sistema de nidá e zivá: o crepúsculo (bein ha-shemashot) — o intervalo ambíguo entre o dia e a noite, cujo estatuto (se conta como dia ou como noite) o próprio Talmud trata como incerto em vários contextos. Quando uma mulher vê sangue precisamente nesse crepúsculo, em um dos momentos-limite do calendário de nidá e zivá — o décimo primeiro dia (fronteira entre o fim dos dias possíveis de zivá e o início de um novo ciclo de nidá), o sétimo dia de sua nidá (fronteira entre o fim da nidá e o início dos dias possíveis de zivá), ou o quadragésimo dia após o nascimento de um filho, ou octogésimo de uma filha (fronteira dos dias de sangue puro da parturiente) — ela não sabe, com certeza, se esse sangue pertence ao período anterior ou ao posterior. A Guemará esclarece que a mishná, apesar de sua redação condensada, na verdade descreve dois casos distintos e simétricos: no décimo primeiro dia, a dúvida é entre início de nidá e fim de zivá; no sétimo dia de nidá, a dúvida é entre fim de nidá e início de zivá. Essas mulheres são chamadas na mishná de toot — mulheres cujo estatuto está em dúvida — e, por essa incerteza, devem trazer uma oferenda que não se come, como todas as que estão em situação de dúvida quanto à zivá. A mishná fecha com uma réplica atribuída a Rabi Iehoshua: ele prefere a leitura “toot” (em dúvida) à leitura alternativa “shotot” (loucas), e acrescenta uma advertência mais ampla — antes de os Sábios se ocuparem em resolver os casos das mulheres em dúvida quanto ao próprio estatuto, deveriam primeiro esclarecer as regras práticas de convivência conjugal mesmo para as mulheres “sensatas”, cujo ciclo é perfeitamente regular, mas que ainda assim precisam de orientação detalhada sobre quais dias e noites lhes são permitidos ou vedados — um problema prático que a Guemará desenvolve com um extenso exemplo numérico. Com este encerramento, o Perek Vav conclui sua sequência de pares lógicos assimétricos — impureza de vasos, tribunais, leis agrícolas, cashrut e bênçãos — e sua retomada dos sinais de maioridade, preparando o terreno para o Perek Zayin, que trata das diferentes fontes e categorias de sangue e sua relação com outros líquidos e impurezas.

הָרוֹאָה יוֹם אַחַד עָשָׂר בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, תְּחִלַּת נִדָּה וְסוֹף נִדָּה, תְּחִלַּת זִיבָה וְסוֹף זִיבָה, יוֹם אַרְבָּעִים לַזָּכָר וְיוֹם שְׁמוֹנִים לַנְּקֵבָה, בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת לְכֻלָּן, הֲרֵי אֵלּוּ טוֹעוֹת. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, עַד שֶׁאַתֶּם מְתַקְּנִים אֶת הַשּׁוֹטוֹת, תַּקְּנוּ אֶת הַפִּקְחוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 6:14

Rambam explica: esse décimo primeiro dia já explicamos antes; e a linguagem desta mishná, como explica o Talmud, é assim: “aquela que vê no décimo primeiro dia, no crepúsculo: início da nidá e fim da zivá; e no sétimo dia de sua nidá: fim da nidá e início da zivá”; e, da mesma forma, o quadragésimo dia para o varão, o octogésimo dia para a fêmea, no crepúsculo. E a explicação disto é: se ela viu sangue no quadragésimo ou no octogésimo dia, no crepúsculo, isso é uma dúvida — se a visão foi de dia, o sangue é puro; se foi de noite, o sangue é impuro. E, se ela viu dois dias seguidos — que são o nono e o décimo dos onze dias próprios para zivá, conforme explicamos — e no décimo primeiro dia viu sangue no crepúsculo, isso é uma dúvida: se viu o sangue de dia, a visão é o fim da zivá, pois viu três dias seguidos; ou, se essa visão foi de noite, na noite do décimo segundo dia, essa visão é início da nidá, e ela não é zavá. Ou, se viu sangue no sétimo dia de sua nidá, no crepúsculo, isso também é dúvida: se a visão foi de dia, a visão é o fim da nidá, pois os sete dias todos estavam em sua nidá, conforme explicamos; ou, se a visão foi na noite do oitavo dia, essa visão é início da zivá; e, se depois disso ela viu no nono dia, que é do início da nidá — que são os dias de sua zivá — ela é zavá. Eis que todas essas são “mulheres em dúvida” (toot), e a zivá delas é duvidosa, e trazem oferenda, mas ela não se come, conforme explicamos em Arachin, que todas as toot trazem oferenda que não se come. E disse Rabi Iehoshua: disseram “loucas” (shotot); ensina-se “em dúvida” (toot). E o sentido da fala de Rabi Iehoshua, que disse isso para confirmar suas palavras, é que nos alertou, a respeito das mulheres em dúvida, com uma advertência sobre como deve ser o julgamento das que não estão em dúvida — pois ele aludia a este tipo de advertência sobre a imersão, que é muito difícil e tem muitas leis; e eu não posso me alongar até o fim para esclarecer as muitas brechas que se enquadram em possibilidades próximas, e ainda mais as brechas de possibilidades distantes, como estas que aparecem apenas no crepúsculo e em um dia certo que ajuda — o que é uma ocorrência distante. E, se levássemos a advertência até onde ela obrigaria, o discurso se alongaria muito sobre nós; e nos esforçamos por dizer o que é verdadeiro.

Bartenura · Nidá 6:14

Bartenura explica: sobre “aquela que vê no décimo primeiro dia” — que é o fim dos dias de zivá, e no dia seguinte começam os dias de nidá. Sobre “no crepúsculo” — é dúvida se é dia, e então é sangue de zivá; dúvida se é noite, e então é início de nidá. Sobre “início da nidá e fim da nidá” — a Guemará explica que se ensina, na verdade: início da nidá e fim da zivá; e, no sétimo dia de sua nidá: fim da nidá e início da zivá. Isto é: o crepúsculo do décimo primeiro dia, se for noite, sua visão é início de nidá; e, se for dia, o sangue é sangue de fim de zivá; e, se ela viu dois dias antes disso, receia por causa de zivá. E, da mesma forma, se ela viu no sétimo dia de sua nidá, no crepúsculo, também a colocamos em dúvida: se for noite, o sangue é sangue de início de zivá, e, se ela vir mais dois dias depois disso, receia por causa de zivá; e, se for dia, sua visão é fim dos dias de nidá, e, ainda que veja dois dias depois disso, não é zavá. Sobre “o quadragésimo dia para o varão e o octogésimo dia para a fêmea, no crepúsculo, para todos estes” — isto é, em qualquer um destes que ela vir no crepúsculo, é dúvida se o sangue é impuro ou se o sangue é puro; e, se ela vir mais dois outros dias além deste, ela é zavá por dúvida, e traz oferenda que não se come, pois todas as toot trazem oferenda que não se come. Sobre “as loucas” — chama-se assim às toot, que não sabem quando são os dias de nidá e os dias de zivá. Sobre “antes de vocês consertarem as loucas” — essas toot que viram no momento da dúvida. Sobre “venham consertar as sensatas” — as que veem em um momento certo, e ainda assim precisam de conserto e de que se esclareçam seus dias de guarda e de relação. Por exemplo, os casos trazidos na beraita: aquela que vê um dia impuro e um dia puro durante todos os seus dias, e vê sempre de dia e não de noite — ela tem relação no oitavo dia a partir do dia em que teve a primeira visão, pois já está pura, já que ao entardecer do sétimo dia ela imergiu e não voltará a ver até o nono; portanto, tem relação todo o oitavo dia, dia e noite, e a noite seguinte, que é o amanhecer do nono. E ela tem relação em quatro noites dentro de dezoito dias a partir da primeira visão, pois essa mulher nunca será zavá, já que não vê três dias seguidos. E, quando ela vê no nono dia, deve guardar o décimo e ter relação à noite; e verá no décimo primeiro; e deve guardar o décimo segundo e ter relação à noite — eis dois. E verá no décimo terceiro, e deve guardar o décimo quarto e ter relação à noite — eis três. E verá no décimo quinto, e deve guardar o décimo sexto e ter relação ao entardecer — eis quatro. E no décimo sétimo ela verá, e deve guardar o décimo oitavo. Eis que se completaram os dezoito dias, e ela só teve relação em quatro noites, além do oitavo dia e sua noite; e a última relação não está dentro dos dezoito dias. E, no dia seguinte, no décimo nono, quando ela vir, será início de nidá, pois já se completaram os onze dias entre uma nidá e outra, e ela retorna à contagem que dissemos. E assim há muitos outros casos que precisam de conserto quanto aos seus dias de relação; e todos são trazidos na beraita, na Guemará deste capítulo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Nidá 53b, sobre a Guemará desta mishná
מתני’ הרואה יום אחד עשר בין השמשות — וְסָפֵק יוֹם הוּא וְהָוֵי דַּם זִיבָה, אוֹ סָפֵק לַיְלָה וּתְחִלָּתוֹ נִדָּה: תחלת נדה וסוף נדה כו’ — וּבַגְּמָרָא פָּרִיךְ, תְּחִלַּת נִדָּה וְסוֹף זִיבָה הִיא! וְהָוְיָא טוֹעָה, וְעַל כָּרְחָהּ תֵּשֵׁב שִׁבְעָה, וְאִם רָאֲתָה לְסוֹף שִׁבְעָה יוֹם אֶחָד נַחֲמִיר עָלֶיהָ לוֹמַר רְאִיָּה רִאשׁוֹנָה סוֹף זִיבָה הָוְיָא וְהַשְׁתָּא הָוְיָא תְּחִלַּת נִדָּה וְתֵשֵׁב שִׁבְעָה, וְאִם שְׁלֹשָׁה תִּרְאֶה נַחֲמִיר עָלֶיהָ לוֹמַר רְאִיָּה רִאשׁוֹנָה תְּחִלַּת נִדָּה הָוְיָא וְהַשְׁתָּא זָבָה וּצְרִיכָה שִׁבְעָה נְקִיִּים: וְכֵן לְעוֹלָם הִיא מְקֻלְקֶלֶת, וְתַקָּנָתָהּ כִּדְמְפָרֵשׁ בְּעֲרָכִין:

Rashi explica: sobre “a mishná: aquela que vê no décimo primeiro dia, no crepúsculo” — e há dúvida se é dia, e então é sangue de zivá, ou se é noite, e então seu início é nidá. Sobre “início da nidá e fim da nidá etc.” — e a Guemará pergunta: não deveria dizer início da nidá e fim da zivá? E ela é uma “em dúvida” (toá), e por força deve contar sete dias; e, se ela vir ao final de sete dias mais um dia, seremos rigorosos com ela, dizendo que a primeira visão foi o fim da zivá, e agora é início da nidá, e deve contar sete dias; e, se ela vir três (dias), seremos rigorosos com ela, dizendo que a primeira visão foi início da nidá, e agora é zavá, e precisa de sete dias limpos. E assim ela está sempre com o ciclo perturbado, e seu conserto é explicado em Arachin.

Encerrando o Perek Vav · סִיּוּם פֶּרֶק ו’

O Perek Vav, com suas catorze mishnayot, está agora completo. Ele se abriu retomando os sinais de puberdade — o sinal inferior dos pelos e o sinal superior dos seios, e a disputa entre Rabi Meir e os Sábios sobre a ordem em que aparecem (6:1) — e avançou por uma longa série de pares assimétricos que atravessam quase todas as áreas da lei tanaítica: as leis de vasos e a impureza de membros com unha (6:2), o midrás do zav frente à impureza de cadáver (6:3), a aptidão para julgar e testemunhar (6:4), e uma sequência de quatro comparações agrícolas — dízimos e impureza de alimentos (6:5), pea e dízimos (6:6), primeiro tosquiado e dons sacerdotais (6:7), e a santidade do sétimo ano frente à eliminação (6:8). O perek retomou então as leis de cashrut, com as escamas e barbatanas do peixe e os chifres e cascos do animal terrestre (6:9), e as leis de bênçãos, com os preceitos que exigem bênção só antes e os que exigem também depois (6:10). Depois, voltou ao tema central dos sinais de maioridade: a menina e o menino que desenvolvem os dois pelos, o filho rebelde e contumaz, e o fim do direito de recusa por meún (6:11); a medida mínima desses dois pelos, com as três opiniões de Rabi Ishmael, Rabi Elazar e Rabi Akiva (6:12); a mulher que vê uma mancha e a disputa sobre o receio de zivá (6:13); e, por fim, as mulheres em dúvida (toot) que veem sangue no crepúsculo dos momentos-limite entre nidá e zivá, com a réplica de Rabi Iehoshua sobre a necessidade de orientar também as mulheres de ciclo regular (6:14). O tratado prossegue no Perek Zayin, que continuará a tratar das fontes e categorias de sangue e sua relação com outros líquidos e impurezas.