Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Vav · Mishná 13 de 14

A mulher que vê uma mancha: o ciclo perturbado e a disputa sobre o receio de zivá

הָרוֹאָה כֶתֶם, הֲרֵי זוֹ מְקֻלְקֶלֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Aquela que vê uma mancha de sangue em sua roupa, sem saber quando surgiu, tem o ciclo perturbado e, segundo Rabi Meir, deve recear zivá; os Sábios (identificados na Guemará como Rabi Chanina ben Antignos) discordam, e apenas em condições específicas de repetição em roupas distintas admitem esse receio

Aquela que vê uma mancha (de sangue) — eis que ela está com o ciclo perturbado, e receia por causa de zivá; palavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: não há, nas manchas, (o receio de) zivá.

Esta mishná introduz o tema da “mancha” (ketem) — a gota ou marca de sangue que uma mulher encontra em sua roupa, sem ter sentido ou percebido o momento em que o sangramento ocorreu. Diferentemente da visão direta de sangue, cujo momento é conhecido, a mancha deixa a mulher sem saber exatamente quando o sangramento se deu — e por isso a mishná a chama de “perturbada” (mekulkelet): seu ciclo e a contagem dos onze dias entre um período de nidá e outro ficam comprometidos, pois ela não sabe a partir de quando contar. A disputa entre Rabi Meir e os Sábios diz respeito a uma consequência adicional: se essa mancha, por seu tamanho, deve fazer a mulher recear que se trate de zivá (um sangramento fora do período normal de nidá, que impõe leis mais severas de pureza e a obrigação de trazer uma oferenda). Rabi Meir sustenta que sim, sempre que a mancha atinja um tamanho mínimo equivalente a três dias de sangramento; os Sábios discordam e dizem que uma única mancha, por maior que seja, nunca gera esse receio — posição que a Guemará atribui especificamente a Rabi Chanina ben Antignos, que a limita ainda mais: mesmo ele concorda que, se a mulher vestir três roupas distintas em três dias sucessivos dentro do período de zivá e encontrar mancha em cada uma delas, o receio de zivá se aplica. A halachá segue a posição mais rigorosa dos Sábios anônimos da mishná, considerando o receio de zivá mesmo diante de uma única mancha, desde que atinja o tamanho mínimo exigido.

הָרוֹאָה כֶתֶם, הֲרֵי זוֹ מְקֻלְקֶלֶת, וְחוֹשֶׁשֶׁת מִשּׁוּם זוֹב, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין בַּכְּתָמִים מִשּׁוּם זוֹב:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 6:13

Rambam explica: é evidente que essa mancha é quando ela encontra uma gota de sangue em sua roupa, conforme se explicará, mas a encontra fora do tempo esperado de sua nidá. E o sentido de “ciclo perturbado” é que se corrompeu o tempo conhecido de sua nidá, e seu ciclo se perturbou, e ela receia por causa de zivá — isto é, que ela seja uma zavá em dúvida, e traga a oferenda de zavá, que não se come, conforme explicamos em Arachin. E já se explicou no Talmud que, se a mancha tiver a medida de três grãos — e a medida do grão já explicamos em Negaim — ela receia por causa de zivá, pois dizemos que um grão vem a cada dia, e essa mancha é (equivalente) a três dias de fluxo, e por isso ela receia por causa de zivá; e esta é a opinião dos Sábios. E Rabi Chanina ben Antignos é quem diz aqui que não há, nas manchas, (o receio de) zivá; e assim o Talmud estabelece que esta é uma opinião individual, e diz: quem são os “Sábios” (da mishná)? É Rabi Chanina ben Antignos, que disse que uma única mancha não a faz recear por causa de zivá, ainda que seja do maior tamanho possível — a menos que ela tenha vestido três roupas examinadas e se encontre uma mancha em cada uma delas, ou que se encontrem três manchas em uma só roupa, com a condição de que essa roupa fique sobre ela durante dois dias, e se encontrem manchas no terceiro dia; e só então ela é zavá em dúvida e receia por causa de zivá. E a halachá segue os Sábios, que dizem que ela receia por causa de zivá, mesmo com uma única mancha, se for do tamanho grande, conforme explicamos.

Bartenura · Nidá 6:13

Bartenura explica: sobre “aquela que vê uma mancha” — que encontrou uma gota de sangue em sua túnica. Sobre “eis que está com o ciclo perturbado” — ela não sabe a abertura de seus períodos de nidá, para saber quando começam os onze dias entre uma nidá e outra, pois não sabia quando (o sangue) apareceu. Sobre “e receia por causa de zivá” — se passaram sobre ela três dias de zivá desde que vestiu essa túnica, e encontrou nela uma mancha grande, do tamanho de três grãos e um pouco mais — isto é, um pouco mais que três grãos — colocamo-la em dúvida: talvez cada uma (das manchas) tenha vindo em um dia diferente, e ela seja uma zavá grande por dúvida, ainda que todas tenham sido encontradas em um só lugar. Sobre “e os Sábios dizem: não há, nas manchas, (o receio de) zivá” — na Guemará se estabelece que essa palavra dos “Sábios” aqui é, na verdade, uma opinião individual, e diz-se que é a de Rabi Chanina ben Antignos. E Rabi Chanina ben Antignos concorda que, se ela vestiu três túnicas brancas em três dias, dentro dos dias de zivá, uma túnica por dia, e encontrou uma mancha em cada uma delas, ela receia por causa de zivut. E não é preciso dizer que, se ela viu sangue de seu próprio corpo por dois dias, e no terceiro vestiu uma túnica examinada e encontrou nela uma mancha, é óbvio que ela receia por causa de zivut. E Rabi Chanina ben Antignos, que é os “Sábios” da mishná, só discorda a respeito de quem vestiu uma única túnica durante os três dias de sua zivá, e ao final encontrou uma mancha grande, do tamanho de três grãos e um pouco mais, em um só lugar, ou mesmo em três lugares — pois ele entende que, nesse caso, ela não receia por causa de zivut, já que as manchas não estavam em três túnicas diferentes. Já Rabi Meir e os Sábios que discordam dele entendem que, quando ela encontra a medida de três grãos e um pouco mais em uma só túnica, seja em um lugar, seja em três lugares, ela receia por causa de zivut. E a halachá não segue Rabi Chanina ben Antignos.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Nidá 52b, sobre a Guemará desta mishná
מתני’ הרי זו מקולקלת — אֵינָהּ יוֹדַעַת פֶּתַח נִדּוֹתֶיהָ לֵידַע מָתַי יַתְחִילוּ י’’א יוֹם שֶׁבֵּין נִדָּה לְנִדָּה, דְּהָא לֹא יָדְעָה אֵימָתַי חֲזַאי:

Rashi explica: sobre “a mishná: eis que está com o ciclo perturbado” — ela não sabe a abertura de seus períodos de nidá, para saber quando começam os onze dias entre uma nidá e outra, pois não sabia quando (o sangue) apareceu.