Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Hei · Mishná 4 de 9

Os efeitos jurídicos reconhecidos a partir dos três anos

בַּת שָׁלשׁ שָׁנִים וְיוֹם אֶחָד, מִתְקַדֶּשֶׁת בְּבִיאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná define um marco etário — três anos e um dia — a partir do qual o direito tanaítico passa a reconhecer plenos efeitos jurídicos formais a certos atos envolvendo a menina, nas áreas do casamento, do ievum, da terumá e do direito penal; e a imagem de "colocar o dedo no olho" para idades inferiores, indicando reversibilidade total

Uma menina de três anos e um dia se torna consagrada (em casamento) por meio de relação. E, se o levir teve relação com ela, ele a adquiriu (como esposa). E são responsáveis por ela por causa de mulher casada, e ela torna impuro aquele que tem relação com ela, tornando impura a roupa de baixo como a de cima. Se se casou com um sacerdote, ela pode comer da terumá. Se um dos desqualificados teve relação com ela, ele a desqualificou do sacerdócio. Se um de todos os parentescos proibidos mencionados na Torá teve relação com ela, são mortos por causa dela, e ela está isenta. Menos que isso, é como colocar o dedo no olho.

— Esta mishná e a seguinte pertencem a um gênero próprio dentro da literatura tanaítica: elas não prescrevem conduta, mas definem, de forma sistemática, os efeitos jurídicos formais que o direito reconhece a partir de certas idades, nas mais diversas áreas — casamento, sucessão de vínculos familiares, sacerdócio, e direito penal. O ponto de partida é o princípio, recebido como halachá leMoshé miSinai (halachá transmitida a Moshé no Sinai), de que os efeitos jurídicos de certos atos só se aplicam a partir de três anos e um dia de idade — marco que a tradição rabínica liga ao início da capacidade física de gerar filhos, ainda que não à maturidade moral ou intelectual, que a mishná seguinte tratará separadamente, em idades muito mais avançadas. A partir desse marco, o direito reconhece, formalmente, que a menina pode ser consagrada em casamento por seu pai; que, se o irmão de seu falecido marido sem filhos exerce sobre ela o direito de ievum, ela passa a ser reconhecida como sua esposa em todos os sentidos; que a proibição de relações com mulher casada já se aplica a ela; que ela transmite impureza ritual de nidá à roupa de cama daquele que se relaciona com ela; que ela pode, casando-se com um sacerdote, comer da terumá como qualquer esposa de sacerdote; e que, inversamente, se um homem desqualificado para o sacerdócio tem relação com ela, essa relação já produz a desqualificação formal reconhecida pela lei. A mishná chega, por fim, ao ponto mais grave desse sistema: as relações proibidas listadas na Torá (como pai ou sogro) já acarretam, tecnicamente, a pena capital para o homem que as pratica com ela — sublinhando ao mesmo tempo, com igual ênfase, que ela própria está sempre isenta de qualquer responsabilidade penal, por ser menor. Abaixo desse marco de três anos e um dia, a mishná recorre à imagem de colocar o dedo no olho: assim como o olho lacrimeja e depois volta inteiramente ao seu estado anterior, também nesse caso a lei considera que nenhum efeito jurídico permanece — um modo tanaítico de afirmar, no vocabulário técnico do direito, a irrelevância jurídica formal de tais atos abaixo dessa idade, e não uma afirmação sobre sua gravidade moral, que a tradição rabínica trata em outros contextos com extrema seriedade.

בַּת שָׁלשׁ שָׁנִים וְיוֹם אֶחָד, מִתְקַדֶּשֶׁת בְּבִיאָה. וְאִם בָּא עָלֶיהָ יָבָם, קְנָאָהּ. וְחַיָּבִין עָלֶיהָ מִשּׁוּם אֵשֶׁת אִישׁ, וּמְטַמְּאָה אֶת בּוֹעֲלָהּ לְטַמֵּא מִשְׁכָּב תַּחְתּוֹן כָּעֶלְיוֹן. נִשֵּׂאת לְכֹהֵן, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה. בָּא עָלֶיהָ אַחַד מִן הַפְּסוּלִים, פְּסָלָהּ מִן הַכְּהֻנָּה. בָּא עָלֶיהָ אַחַד מִכָּל הָעֲרָיוֹת הָאֲמוּרוֹת בַּתּוֹרָה, מוּמָתִין עַל יָדָהּ, וְהִיא פְטוּרָה. פָּחוֹת מִכָּן, כְּנוֹתֵן אֶצְבַּע בָּעָיִן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 5:4

Rambam explica: tudo isto é claro, pois o princípio que engloba este assunto é o que já dissemos: a menina de três anos e um dia — o ato de relação com ela é reconhecido plenamente pela lei; e isto é halachá transmitida a Moshé no Sinai. E, sendo ela menor de três anos e um dia, o ato de relação com ela não é reconhecido dessa forma. Isso já foi repetido em muitos lugares. E a intenção da comparação com “quem coloca o dedo no olho” é que o olho lacrimeja por um instante e depois volta ao seu estado anterior; assim também, abaixo dessa idade, a menina volta a ser considerada, para todos os efeitos legais, como se nada tivesse ocorrido.

Bartenura · Nidá 5:4

Bartenura explica: sobre “torna-se consagrada por meio de relação” — se seu pai a entregou para isso. Sobre “e, se o levir teve relação com ela, ele a adquiriu” — para ser sua esposa em todos os sentidos: ele a herda, torna-se impuro por causa dela, e adquire os bens de seu irmão falecido. Sobre “são responsáveis por ela por causa de mulher casada” — se seu pai recebeu por ela a consagração de um homem, e outro teve relação com ela, este é executado por causa dela, pois a relação com ela é juridicamente reconhecida como tal. Sobre “ela torna impuro aquele que tem relação com ela” — se ela é nidá; mas, sendo menor dessa idade, ainda que ela torne impuro por contato, ela não torna impuro quem tem relação com ela pela impureza de sete dias devida a quem se relaciona com nidá, mas apenas pela impureza de quem toca, que dura até a noite. Sobre “a de baixo” — a roupa de quem se relaciona com nidá. Sobre “como a de cima” — do zav, que torna impuros alimentos e bebidas, mas não pessoas e utensílios. Sobre “um dos desqualificados” — por exemplo, um gentio, um escravo, um natin, um mamzer ou um chalal. Sobre “ele a desqualificou” — da terumá de seu pai, se ela é filha de sacerdote. Sobre “de todos os parentescos proibidos” — por exemplo, seu pai ou seu sogro. Sobre “e ela está isenta” — porque é menor e não está sujeita a penalidades. Sobre “como colocar o dedo no olho” — que lacrimeja e volta a ser como era; assim também aqui, ela volta a ser considerada como era antes.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Nidá 44b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' בת ג' שנים — בִּיאָתָהּ בִּיאָה לְכָל דָּבָר: מתקדשת — אִם מָסְרָהּ אָבִיהָ לְכָךְ: אם בא עליה יבם קנאה — וְזָכָה בְּנִכְסֵי אָחִיו לְיוֹרְשָׁהּ וּלְטַמֵּא לָהּ: וחייבין עליה — אִם קִבֵּל בָּהּ אָבִיהָ קִדּוּשִׁין מִזֶּה וּבָא אַחֵר עָלֶיהָ, נֶהֱרָג, דְּבִיאָתָהּ בִּיאָה: ומטמאה את בועלה — אִם הִיא נִדָּה, אֲבָל פָּחוֹת מִכָּן, אַף עַל גַּב דְּמְטַמְּאָה בְּמַגָּע, אֵינָהּ מְטַמְּאָה אֶת בּוֹעֲלָהּ מִשּׁוּם בּוֹעֵל נִדָּה לְטֻמְאַת שִׁבְעָה, אֶלָּא מִשּׁוּם נוֹגֵעַ וּלְטֻמְאַת עֶרֶב: תחתון — שֶׁל בּוֹעֵל נִדָּה: כעליונו — שֶׁל זָב:

Rashi explica: sobre “a mishná: menina de três anos” — a relação com ela é reconhecida plenamente pela lei. Sobre “torna-se consagrada” — se seu pai a entregou para isso. Sobre “e, se o levir teve relação com ela, ele a adquiriu” — e adquiriu os bens de seu irmão, para herdá-la e tornar-se impuro por causa dela. Sobre “e são responsáveis por ela” — se seu pai recebeu por ela consagração deste, e outro teve relação com ela, este é executado, pois a relação com ela é reconhecida como tal. Sobre “e ela torna impuro aquele que tem relação com ela” — se ela é nidá; mas, sendo menor dessa idade, ainda que ela torne impuro por contato, ela não torna impuro quem tem relação com ela pela impureza de sete dias devida a quem se relaciona com nidá, mas apenas pela impureza de quem toca, e para impureza até a noite. Sobre “a de baixo” — a roupa de quem se relaciona com nidá. Sobre “como a de cima” — a do zav.