Aquela que expele no seu quadragésimo dia não precisa temer que seja uma descendência. No quadragésimo primeiro dia, ela observa os dias de macho, de fêmea e de nidá. Rabi Yishmael diz: no quadragésimo primeiro dia, ela observa os dias de macho e de nidá; no octogésimo primeiro dia, ela observa os dias de macho, de fêmea e de nidá — pois a formação do macho se completa no quadragésimo primeiro, e a da fêmea, no octogésimo primeiro. E os Sábios dizem: tanto a formação do macho quanto a formação da fêmea, uma e outra se completam no quadragésimo primeiro.
— Esta última mishná do Perek Guimel fixa um prazo biológico: contando-se a partir do dia da relação conjugal, presume-se que a forma do feto ainda não começou a se distinguir antes do quadragésimo dia; por isso, um aborto ocorrido até esse dia não gera qualquer preocupação de que se tratasse de uma descendência já formada. A partir do quadragésimo primeiro dia, porém, já é possível que a formação tenha começado, de modo que, se a mulher aborta sem saber o que expeliu, ela deve observar cumulativamente os dias de macho, de fêmea e de nidá — pois não se sabe nem o sexo, nem sequer se de fato havia ali uma descendência. Rabi Yishmael introduz uma distinção adicional, fundada na crença de que a formação do macho se completa antes da formação da fêmea: para ele, no quadragésimo primeiro dia só é preciso temer que se trate de um macho, e apenas no octogésimo primeiro dia — quando também a formação da fêmea já poderia estar completa — é que se voltam a observar os três conjuntos de dias. Os Sábios discordam desse escalonamento: para eles, a formação do macho e a da fêmea se completam no mesmo prazo, o quadragésimo primeiro dia. A halachá segue os Sábios, e não Rabi Yishmael. Com esta mishná, encerra-se o Perek Guimel de Massechet Nidá, dedicado às diferentes formas de aborto e aos critérios para determinar se, e como, elas sujeitam a mulher às leis de parturiente. O Perek Dalet, a seguir, tratará de outras categorias de mulheres quanto à condição de nidá — a começar pelas meninas cuteas, consideradas menstruantes desde o berço.
Rambam explica: disse que, se ela abortou no quadragésimo dia contado desde a relação conjugal, ela não precisa temer que seja uma descendência, pois a forma do feto não se completa nesse tempo; mas, se ela abortou no quadragésimo primeiro dia — que é um tempo em que é possível que já se tenha completado a forma do feto — e não soube se abortou uma descendência ou não, ela observa os dias de macho, de fêmea e de nidá. E Rabi Yishmael diz que essa que aborta no quadragésimo primeiro dia não pode ter abortado uma fêmea, pois a formação da fêmea não se completa senão aos oitenta dias; por isso ela observa apenas os dias de macho e de nidá. Mas, se ela abortou no octogésimo primeiro dia contado desde sua relação conjugal, então ela observa os dias de macho, de fêmea e de nidá, se não soube o que abortou, se era sangue ou uma descendência. E a halachá não segue Rabi Yishmael.
Bartenura explica: sobre “aquela que expele no seu quadragésimo dia” — para sua imersão. Sobre “não precisa temer que seja descendência” — pois sua formação não se completou até que se acabem todos os quarenta dias. Sobre “e de nidá” — quando ela vir sangue, será nidá, pois talvez não haja descendência ali, e não há dias de pureza. Sobre “no quadragésimo primeiro dia, ela observa os dias de macho” — sete dias de impureza, mesmo num parto seco em que não há nidá; mas as duas semanas de fêmea ela não observa, pois, como se ensina, o motivo é que a formação da fêmea se completa apenas aos oitenta e um. E a halachá não segue Rabi Yishmael. Sobre “e os Sábios dizem etc.” — os “Sábios” são o próprio Tana Kama; mas, como o argumento de Rabi Yishmael parecia mais convincente do que o do Tana Kama, ele voltou a ensiná-lo em nome dos “Sábios”, para ensinar que a halachá segue o ensino anônimo inicial, ainda que a divergência de Rabi Yishmael esteja ao seu lado.
Rashi explica: sobre “aquela que expele” — a placenta. Sobre “no seu quadragésimo dia” — para sua imersão. Sobre “não precisa temer que seja descendência” — pois sua formação não se completou até que se acabem todos os quarenta dias. Sobre “e de nidá” — pois talvez não haja descendência ali. E na Guemará se explica por que se menciona “macho”.