Aquela que expele um pedaço, se há com ele sangue, é impura. E se não, é pura. Rabi Yehuda diz: seja de um modo, seja de outro, é impura.
— Com esta mishná abre-se o Perek Guimel de Massechet Nidá, dedicado ao tema do aborto e da mulher que perde a gestação: que tipos de tecido ou substância expelidos tornam a mulher impura como nidá ou como parturiente, e em quais condições. Esta primeira mishná trata do caso mais simples: um pedaço de tecido informe, sem qualquer forma reconhecível. O Tana Kama ensina que a impureza depende exclusivamente da presença de sangue junto com o pedaço — havendo sangue, ela é impura como nidá; não havendo, ela é pura, pois considera-se possível que o útero se abra sem que saia sangue algum. Rabi Yehuda discorda: para ele, é impossível que o útero se abra sem sangue, de modo que, mesmo quando nenhum sangue é visto, presume-se que ele saiu em quantidade ínfima demais para ser percebido — e por isso ela é impura em qualquer caso. A halachá segue o Tana Kama, e não Rabi Yehuda.
Rambam explica: a causa da divergência entre Rabi Yehuda e o Tana Kama é que Rabi Yehuda entende que é impossível a abertura do útero sem sangue — desde que algo saia dali, é impossível que não tenha saído sangue por necessidade, ainda que, por sua pequena quantidade, ele não se torne visível. E o Tana Kama entende que é possível a abertura do útero sem sangue. Por isso, se ela abortou um pedaço, de qualquer aparência que seja, sem que houvesse sangue com ele, ela é pura — e mesmo que se rasgue aquele pedaço e se encontre sangue nele, ela não é impura, pois é sangue do próprio pedaço, e não sangue de nidá. Se ela abortou um pedaço, e o rasgaram e nele se encontrou um osso, ela é impura por parto. E a halachá não segue Rabi Yehuda.
Bartenura explica: sobre “se há com ele sangue, é impura” — por nidá. Sobre “e se não, é pura” — pois o Tana Kama entende que é possível a abertura do útero sem sangue; e mesmo que se encontre sangue dentro do pedaço, ela é pura, pois é sangue do pedaço, e não sangue de nidá. Sobre “Rabi Yehuda diz: seja de um modo, seja de outro, é impura” — pois Rabi Yehuda entende que é impossível a abertura do útero sem sangue; e, uma vez que ela abortou um pedaço, certamente havia ali sangue, apenas que se perdeu em sua pouca quantidade e não foi visto. E a halachá não segue Rabi Yehuda.
Rashi explica: sobre “se há com ele sangue, é impura” — por nidá. Sobre “e se não, é pura” — pois não se trata de parto; pois, se fosse parto, ela seria impura mesmo sem sangue, como está escrito (Vayikrá 12:2): “como os dias da separação de sua enfermidade, ficará impura”. Sobre “Rabi Yehuda diz etc.” — explica-se na Guemará.