Os Sábios propuseram uma parábola sobre a mulher: o quarto interior, e o corredor, e o andar superior. O sangue do quarto interior é impuro. Se foi encontrado no corredor, seu caso duvidoso é impuro, pois sua presunção é de que vem da fonte.
— Para explicar por que certos sangramentos são impuros e outros não, os Sábios recorreram à imagem do corpo feminino como uma casa de três cômodos: um quarto interior — o útero, de onde vem o sangue da menstruação e, portanto, impuro —; um andar superior — associado à bexiga, de onde o sangue é puro —; e um corredor entre os dois — o canal vaginal —, por onde pode descer sangue de qualquer uma das duas origens. Por isso, quando o sangue é encontrado no corredor, sem se saber de onde veio, a mishná decide pela impureza: não por certeza, mas porque a presunção é de que a maior parte do sangue que ali chega provém do útero, a “fonte”.
Rambam explica, com detalhe anatômico: o “quarto interior” é a cavidade do útero, seja qual for das duas cavidades que ele possui; e o “corredor” é o colo do útero, sobre o qual há dois apêndices semelhantes a dois chifres — que são os ovários, cuja forma está explicada nos livros de anatomia. Este colo se une à cavidade do útero, chamada “quarto interior”, por onde passa o sangue da menstruação, que flui no útero e sai pelo colo, chamado “corredor”. Aqueles apêndices se unem também aos ovários, chamados “andar superior”; outro vaso os nutre, como os demais vasos do corpo, e não passa por ali nenhum resíduo menstrual. Mas, se este vaso se rompe um pouco, também flui dali sangue sobre o colo do útero, e este é sangue puro, semelhante ao sangue que goteja das narinas ou ao sangue de hemorroidas. Fica assim confirmado que o sangue do quarto interior é impuro e o sangue do andar superior é puro. E se for encontrado sangue no colo do útero — o corredor —, entre o lugar destes apêndices e a cavidade do útero, é impuro; e não dizemos “talvez tenha descido do andar superior”, pois na maioria dos casos ali não se encontra senão sangue da menstruação — e, sendo isto a maioria, os Sábios fizeram disso uma presunção, tal como disseram: “em três lugares os Sábios seguiram a maioria e a trataram como certeza”, sendo este um deles. Já se for encontrado sangue no corredor entre o lugar destes apêndices e a abertura que se inclina para o exterior do corpo, há uma grande distinção: se for encontrado na parte superior — a que se inclina para a cabeça quando a mulher está em pé, chamada “teto do corredor” — é sangue puro, pois vem do vaso rompido, cuja presunção é do andar superior; se for encontrado na parte inferior — a que se inclina para os pés, chamada “chão do corredor” — é impuro por dúvida, pois às vezes vem do quarto interior e às vezes do andar superior. Da união das pontas destes apêndices forma-se uma abertura semelhante a um orifício na parte superior do corredor, que chamam de “clarabóia do andar superior”; e por isso se disse: “do orifício para dentro, certamente impuro; do orifício para fora, seu caso duvidoso é impuro”. E quem estiver familiarizado, ainda que pouco, com a ciência da anatomia, compreenderá tudo o que foi dito.
Bartenura explica: sobre “o quarto interior, e o andar superior, e o corredor”: o quarto interior é por dentro, e o corredor é por fora, ambos um ao lado do outro — o quarto interior do lado de trás do corpo da mulher, e o corredor à frente; e o andar superior está construído sobre os dois; e há um orifício entre o andar superior e o corredor, chamado “clarabóia”. Às vezes desce sangue do andar superior para o corredor através da clarabóia. E as paredes do útero ficam embaixo, no meio do corredor, e é por ali que os sangues saem. Sobre “o sangue do quarto interior é impuro”: isto é, o sangue da fonte. Sobre “seu caso duvidoso é impuro”: por dúvida, mas tratado como impureza certa. Sobre “pois sua presunção é da fonte”: e não dizemos “talvez tenha vindo do andar superior”, cujo sangue é puro; antes, tratam-no como se certamente viesse da fonte. E isto quando é encontrado da clarabóia para dentro, do lado do quarto interior; mas, se for encontrado da clarabóia para fora, não é impureza certa a ponto de se queimar a teruma, mas seu caso duvidoso é impuro a ponto de se deixar em suspenso — pois dali saem dois tipos de sangue, o do quarto interior e o do andar superior, e não se sabe de qual deles veio.
Rashi explica: “mishná: o quarto interior e o corredor” — na Guemará se explica como estão dispostos.