Seder Tehorot · Massechet Mikvaot · Perek Tet · Mishná 2 de 7

A lama dos poços, o barro dos oleiros e os cuidados ao imergir

קִלְקֵי הַלֵּב וְהַזָּקָן, וּבֵית הַסְּתָרִים בָּאִשָּׁה, לִפְלוּף שֶׁחוּץ לָעַיִן, וְגֶלֶד שֶׁחוּץ לַמַּכָּה, וְהָרְטִיָּה שֶׁעָלֶיהָ, וּשְׂרָף הַיָּבֵשׁ, וְגִלְדֵי צוֹאָה שֶׁעַל בְּשָׂרוֹ, וּבָצֵק שֶׁתַּחַת הַצִּפֹּרֶן, וְהַמִּלְמוּלִין, וְטִיט הַיָּוֵן, וְטִיט הַיּוֹצְרִים, וְגֵץ יְוֵנִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Cabelos emaranhados do peito e da barba, os lugares ocultos na mulher, remela, crostas, emplasto e seiva seca que interpõem; o barro do poço citado em Tehilim, o barro dos oleiros com a disputa de Rabi Yosei, as estacas dos caminhos, e os cuidados com poeira nos pés e fuligem na chaleira

Os cabelos emaranhados do coração e da barba, e os lugares ocultos na mulher, a remela que está fora do olho, e a crosta que está fora da ferida, e o emplasto que está sobre ela, e a seiva seca, e as crostas de excremento que estão sobre sua carne, e a massa que está sob a unha, e as bolinhas, e o barro do poço, e o barro dos oleiros, e o barro da estrada — interpõem. Qual é o barro do poço? Este é o barro das covas, como está dito (Salmos 40): "e me tirou de um poço de estrondo, do barro do poço." O barro dos oleiros, conforme seu sentido literal. Rabi Yosei declara puro o dos oleiros, e declara impuro o de vedação. E o barro da estrada — estes são as estacas dos caminhos: não se imerge neles, e não se imerge com eles. E todo o restante do barro, imerge-se nele quando está úmido. E não deve imergir com a poeira que está sobre seus pés. Não deve imergir a chaleira com a fuligem, a menos que a tenha esfregado.

Esta longa mishná reúne uma segunda lista de coisas que interpõem — em contraste com a lista paralela do próximo mishná, que trata das que não interpõem. O critério comum a quase todos os casos aqui listados é a sujeira que se acumula sobre o corpo em lugares onde a pessoa normalmente se importa em removê-la.

Os cabelos emaranhados do peito, defronte do coração, e da barba tornam-se, quando enroscados pelo suor, como pequenas correntes que impedem a água de alcançar o cabelo. Os lugares ocultos na mulher — sujeitos ao suor e à sujeira que ali se acumulam — interpõem especificamente na mulher casada, que se preocupa em não parecer repugnante a seu marido; na solteira, que não tem esse mesmo cuidado, não há interposição, como esclarece a Tosefta em nome de Rabi Shimon Shezuri.

Seguem-se casos de secreções e crostas secas sobre o corpo — a remela fora do olho, a crosta e o emplasto sobre uma ferida, a seiva seca de árvores ou frutos aderida à pele, as crostas de excremento, a massa endurecida sob a unha, e as bolinhas de sujeira que se formam quando se esfregam as mãos sujas de barro ou massa: todas essas, por já estarem secas e endurecidas, formam uma camada que a água não penetra.

A mishná então distingue três tipos de barro. O "barro do poço" (tit hayaven) é identificado, com apoio no versículo de Tehilim, como o barro espesso e pegajoso do fundo das covas. O "barro dos oleiros" é entendido em seu sentido literal — a argila usada pelos oleiros —, mas sobre ele há uma disputa: Rabi Yosei considera que esse barro comum não interpõe, mas que o barro especial de "marekah" (misturado com clara de ovo, usado para vedar rachaduras em utensílios) interpõe, pois a água não o dissolve. E o barro compactado das estradas pelo caminhar das pessoas — chamado "estacas dos caminhos" quando seco — é tão firme que nem se imerge dentro dele (se estiver misturado num mikvê) nem se imerge algo coberto por ele; todo o demais barro comum, quando ainda úmido, não impede a imersão.

Por fim, a mishná acrescenta duas advertências práticas: não se deve imergir com poeira ainda sobre os pés, e não se deve imergir uma chaleira enegrecida por fuligem sem primeiro esfregá-la — ambos os casos em que a camada acumulada impediria o contato direto da água.

קִלְקֵי הַלֵּב וְהַזָּקָן, וּבֵית הַסְּתָרִים בָּאִשָּׁה, לִפְלוּף שֶׁחוּץ לָעַיִן, וְגֶלֶד שֶׁחוּץ לַמַּכָּה, וְהָרְטִיָּה שֶׁעָלֶיהָ, וּשְׂרָף הַיָּבֵשׁ, וְגִלְדֵי צוֹאָה שֶׁעַל בְּשָׂרוֹ, וּבָצֵק שֶׁתַּחַת הַצִּפֹּרֶן, וְהַמִּלְמוּלִין, וְטִיט הַיָּוֵן, וְטִיט הַיּוֹצְרִים, וְגֵץ יְוֵנִי. אֵיזֶהוּ טִיט הַיָּוֵן, זֶה טִיט הַבּוֹרוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר (תהלים מ), וַיַּעֲלֵנִי מִבּוֹר שָׁאוֹן מִטִּיט הַיָּוֵן. טִיט הַיּוֹצְרִין, כְּמַשְׁמָעוֹ. רַבִּי יוֹסֵי מְטַהֵר בְּשֶׁל יוֹצְרִין וּמְטַמֵּא בְּשֶׁל מָרֵקָה. וְגֵץ יְוֵנִי, אֵלּוּ יִתְדוֹת הַדְּרָכִים, שֶׁאֵין טוֹבְלִין בָּהֶן וְלֹא מַטְבִּילִין אוֹתָן. וּשְׁאָר כָּל הַטִּיט, מַטְבִּילִין בּוֹ כְּשֶׁהוּא לַח. וְלֹא יִטְבֹּל בָּאָבָק שֶׁעַל רַגְלָיו. לֹא יִטְבֹּל אֶת הַקֻּמְקְמוּס בַּפֶּחָמִין, אֶלָּא אִם כֵּן שִׁפְשֵׁף
Tehilim 40:3
וַיַּעֲלֵנִי מִבּוֹר שָׁאוֹן מִטִּיט הַיָּוֵן וַיָּקֶם עַל־סֶלַע רַגְלַי כּוֹנֵן אֲשֻׁרָי
E me tirou de um poço de estrondo, do barro do lodo, e pôs sobre a rocha os meus pés, firmou os meus passos.
A mishná apoia-se neste versículo apenas para identificar a expressão “tit hayaven” (o barro do poço) como o barro espesso e pegajoso do fundo das covas — e não para tratar do tema da imersão, que é alheio ao contexto original do salmo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Mikvaot 9:2
כבר ביארנו בכ"ט מכלים קלקין שהן ארוגי שער…

Já explicamos, em [Massechet] Kelim, capítulo 29, que kilkin são tranças de cabelo, como as correntes formadas de cabelo para amarrar os animais e semelhantes; e disse que o cabelo da parte de trás do peito e o cabelo da parte de trás da nudez, se ficaram emaranhados e se juntaram de propósito, e se enroscaram e voltaram a formar como uma corrente, eis que isso interpõe. E por isso, o órgão sexual da mulher — se ela não se preparar com a lavagem antes da imersão — pelo que ali houver de suor e de sujeira, haverá interposição, pois nesse lugar sempre se derramam os resíduos. E já a Tosefta (cap. 6) acrescentou explicação a isto, e disse Rabi Shimon Shezuri: os lugares ocultos na mulher — na casada interpõem, na solteira não interpõem; e a razão disso é que a solteira não se preocupa com isso e não é cuidadosa quanto a não estarem limpos, e por isso essa sujeira não interpõe.

E lifluf que está no olho é o líquido que se acumula nas pálpebras e num canto do olho, chamado "mak". E guelid que está sobre a ferida é a crosta que se forma sobre a lesão. E "haretiyá" é um emplasto. "Seiva seca": das seivas secas. "E crostas de excremento": as crostas de sujeira que se endurecem sobre o corpo.

E milmulin são os grãozinhos que se formam, arredondados, sobre as mãos, quando alguém amassa massa ou barro e depois esfrega uma mão contra a outra para remover deles a massa ou o barro.

E o barro de "marekah" é um barro mais espesso que o barro dos oleiros; esfregam com ele os utensílios rachados para vedar suas fendas. E já se explicou na Tosefta (cap. 7) que as "estacas dos caminhos" é o barro que se forma nos caminhos, e mesmo no verão as roupas se sujam com ele; esse barro interpõe, e não se confirma pureza para quem o tiver sobre o corpo, e tampouco é apropriado imergir nele, se estivesse incluído no mikvê — e é o que disse, que "não se imerge neles e não se imerge com eles". E a chaleira é o utensílio em que há água, e nela se apagam as brasas e ficam enegrecidas — a menos que a tenha esfregado, isto é, que esfregue por dentro com a mão, e que deixe o carvão em sua mão até que os resíduos não permaneçam num só lugar e a água seja separada dele por eles. E a halachá não é como Rabi Yosei.

Bartenura · Mikvaot 9:2
קִלְקֵי הַלֵּב. שֵׂעָר שֶׁבֶּחָזֶה כְנֶגֶד הַלֵּב שֶׁנִּסְתַּבֵּךְ…

Kilkei halev: cabelo que está no peito, defronte do coração, que se emaranhou e se tornou como que correntes, e elas se tornam repugnantes por causa do suor.

E os lugares ocultos na mulher: porque o cabelo se prende e se emaranha naquele lugar por causa do suor, da impureza e da sujeira. E especificamente na mulher casada, que se preocupa consigo mesma para não se tornar repugnante a seu marido, é que os lugares ocultos constituem interposição; mas na solteira, que não se preocupa, os lugares ocultos não constituem interposição.

Lifluf: a secreção do olho. Guelid: o líquido que sai da ferida e seca, tornando-se crosta. E a seiva seca: se havia sobre sua carne algo da seiva que goteja das árvores ou dos frutos, e secou ali. Crostas de excremento sobre sua carne: que secou e se tornou crosta.

E os "milmulin": quando as mãos de alguém estão sujas de barro, ou de massa, ou de suor, e ele esfrega uma mão contra a outra, formam-se em sua mão uma espécie de grãozinhos de cevada.

De "marekah": barro amassado com clara de ovo, feito para consertar com ele os utensílios rachados, pois a água não o dissolve. "Marekah" é linguagem de cosméticos das mulheres. E a halachá não é como Rabi Yosei.

Estacas dos caminhos: barro que foi amassado pelo caminhar das pessoas que passam sobre ele. E quando está úmido, chama-se "guetz yevani"; e quando está seco, chama-se "estaca dos caminhos", pois é difícil caminhar sobre ele e parece-se com quem caminha sobre estacas. Não se imerge neles: se havia no mikvê um barro como este. E não se imerge [outras coisas] com eles: se estava sobre sua carne. E há os que explicam: não se imergem utensílios com eles se suas águas se tornaram impuras, pois não se realiza a equalização das águas no lugar do barro.

A chaleira: utensílio de cobre com que se aquece a água, e por causa da fumaça e da chama que sobe sobre ela, formam-se ao seu redor fuligens. A menos que a tenha esfregado: a fuligem que está sobre ela.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Mikvaot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.