Seder Tehorot · Massechet Mikvaot · Perek Zayin · Mishná 6 de 7

A imersão sucessiva e a água tirada no travesseiro de couro

מִקְוֶה שֶׁיֶּשׁ בּוֹ אַרְבָּעִים סְאָה מְכֻוָּנוֹת, יָרְדוּ שְׁנַיִם וְטָבְלוּ זֶה אַחַר זֶה, הָרִאשׁוֹן טָהוֹר, וְהַשֵּׁנִי טָמֵא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הָיוּ רַגְלָיו שֶׁל רִאשׁוֹן נוֹגְעוֹת בַּמַּיִם, אַף הַשֵּׁנִי טָהוֹר. הִטְבִּיל בּוֹ אֶת הַסָּגוֹס וְהֶעֱלָהוּ, מִקְצָתוֹ נוֹגֵעַ בַּמַּיִם, טָהוֹר. הַכַּר וְהַכֶּסֶת שֶׁל עוֹר, כֵּיוָן שֶׁהִגְבִּיהַּ שִׂפְתוֹתֵיהֶם מִן הַמַּיִם, הַמַּיִם שֶׁבְּתוֹכָן שְׁאוּבִין. כֵּיצַד יַעֲשֶׂה, מַטְבִּילָן וּמַעֲלֶה אוֹתָם דֶּרֶךְ שׁוּלֵיהֶם:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Em mikvê de quarenta se'á exatas, o segundo a imergir é impuro salvo leniência de Rabi Yehudá; o sagos parcialmente na água mantém a ligação; travesseiro e almofada de couro exigem cuidado ao serem erguidos

Um mikvê que tem nele quarenta se'á exatas: desceram dois e imergiram um após o outro — o primeiro é puro, e o segundo é impuro. Rabi Yehudá diz: se os pés do primeiro estavam tocando a água, também o segundo é puro. Imergiu nele o sagos e o tirou, com parte dele tocando a água — é puro. O travesseiro e a almofada de couro: assim que ergueu suas bordas para fora da água, a água que está dentro deles é tirada. Como se deve proceder? Imerge-os e os ergue pelo lado de seus fundos.

A mishná trata agora de um mikvê com a medida exata de quarenta se'á, sem excesso — o caso mais sensível a qualquer perda de água. Quando duas pessoas imergem nele sucessivamente, a primeira sai válida, mas a segunda permanece impura, porque o corpo da primeira, ao emergir, carrega consigo uma quantidade de água que reduz o mikvê abaixo da medida mínima.

Rabi Yehudá suaviza esse resultado: se, no momento em que a segunda pessoa desce para imergir, os pés da primeira ainda tocam a água, aplica-se o princípio de que se considera a água aderida ao corpo da primeira como ainda ligada ao mikvê — e assim nada realmente falta à medida, permitindo que também a segunda pessoa saia pura. Segundo a Guemará, essa leniência de Rabi Yehudá vale apenas para os graus rabínicos de pureza, não para a purificação plena da impureza; e a halachá não segue Rabi Yehudá.

O mesmo princípio explica o caso do sagos, o manto grosso de lã que absorve muita água: se, ao ser tirado do mikvê exato, uma parte dele ainda toca a água, a água que ele absorveu continua “ligada” ao mikvê, e uma pessoa que imergir depois permanece pura.

Já o travesseiro e a almofada de couro — vasos fechados com uma abertura estreita — comportam-se de outra forma: assim que são erguidos pela boca para fora da água, a água que ficou presa dentro deles se separa do mikvê e passa a ser considerada “água tirada”; se essa água, ao ser esvaziada de volta, atingir três login, invalida o mikvê exato. A solução é técnica: erguer esses objetos não pela abertura, mas pelo lado do fundo, para que a água escoe naturalmente sem ser carregada como água tirada de volta ao mikvê.

מִקְוֶה שֶׁיֶּשׁ בּוֹ אַרְבָּעִים סְאָה מְכֻוָּנוֹת, יָרְדוּ שְׁנַיִם וְטָבְלוּ זֶה אַחַר זֶה, הָרִאשׁוֹן טָהוֹר, וְהַשֵּׁנִי טָמֵא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הָיוּ רַגְלָיו שֶׁל רִאשׁוֹן נוֹגְעוֹת בַּמַּיִם, אַף הַשֵּׁנִי טָהוֹר. הִטְבִּיל בּוֹ אֶת הַסָּגוֹס וְהֶעֱלָהוּ, מִקְצָתוֹ נוֹגֵעַ בַּמַּיִם, טָהוֹר. הַכַּר וְהַכֶּסֶת שֶׁל עוֹר, כֵּיוָן שֶׁהִגְבִּיהַּ שִׂפְתוֹתֵיהֶם מִן הַמַּיִם, הַמַּיִם שֶׁבְּתוֹכָן שְׁאוּבִין. כֵּיצַד יַעֲשֶׂה, מַטְבִּילָן וּמַעֲלֶה אוֹתָם דֶּרֶךְ שׁוּלֵיהֶם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Mikvaot 7:6
מבואר הוא שאם היה במקוה מ’ סאה מכוונות וטבל בו איש הנה מ’ סאה יחסרו להתלחלח גופו במים…

É claro que, se o mikvê tivesse quarenta se'á exatas e um homem imergisse nele, as quarenta se'á diminuiriam por seu corpo se umedecer com a água; por isso, aquele que imergir depois dele não é puro. Rabi Yehudá diz que, se os pés do primeiro estavam parados na água, a água que está sobre ele está ligada ao mikvê. E já explicaram na Guemará (Chaguigá 19a) e disseram que a controvérsia é [apenas] quanto aos graus [de pureza] rabínicos, mas quanto à impureza e pureza [plenas], todos concordam que é impuro. E os graus rabínicos são os mencionados em Chaguigá, ao dizerem que aquele que é puro para o não-consagrado precisa de imersão para o dízimo, e da mesma forma aquele que é puro para o dízimo precisa de imersão para a teruma.

E o sagos é como um manto grosso [al-birgos], no qual se prende muita água; e se o imergiram nessas quarenta se'á exatas e restou parte dele na água, eis que consideramos a água que está nele como ligada à que está no mikvê, e o homem que imergir nele depois disso é puro, enquanto permanecer parte do manto na água. E do mesmo modo, se imergiram um travesseiro e uma almofada de couro nesse mikvê, é necessário que os ergam por seus cantos, com a boca voltada para baixo, até que não reste neles água tirada que possa invalidar o mikvê, por ele ser de quarenta se'á exatas — pois, se chegassem dele três login por força a esse travesseiro ou almofada, e depois alguém o erguesse e os derramasse no mikvê, este se invalidaria, conforme já se explicou. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Bartenura · Mikvaot 7:6
הַשֵּׁנִי טָמֵא. דְּוַדַּאי חָסַר שִׁעוּר הַמִּקְוֶה בִּטְבִילָתוֹ שֶׁל רִאשׁוֹן…

O segundo é impuro: pois certamente falta a medida do mikvê por causa da imersão do primeiro.

Também o segundo é puro: pois dizemos “gud achit” (baixa-se a divisão), e é como se a água que o primeiro elevou sobre seu corpo estivesse ligada às águas do mikvê, e nada faltasse à sua medida. E explicaram na Guemará de Chaguigá (19a) que Rabi Yehudá só purificou quanto aos graus rabínicos — por exemplo, que era puro para o não-consagrado e imergiu para se tornar puro para o dízimo, ou que era puro para o dízimo e imergiu para se tornar puro para a teruma; mas para subir de impureza plena à pureza, palavras de todos, é impuro. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Sagos: um vestido de lã grossa, chamado em árabe “albornoz”, que absorve muita água.

Parte dele toca a água, é puro: trata-se de um mikvê que tem exatamente quarenta se'á, e um homem imergiu nele depois de ter imergido o sagos; o homem que imerge é puro, ainda que falte a medida do mikvê pela imersão do sagos, já que parte do sagos toca a água. E esta é a opinião de Rabi Yehudá, que sustenta que dizemos “gud achit”.

A água que está dentro deles é tirada: e volta a invalidar o mikvê com três login, pois nele havia apenas quarenta se'á exatas, e faltou quando ergueu suas bordas para fora da água. E os ergue pelo lado de seus fundos: para que a água que está dentro deles não caia no mikvê e invalide todas as suas águas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Mikvaot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.