Todos os mares são como um mikvê, pois foi dito (Beréshit 1): “e ao ajuntamento das águas chamou mares” — palavras de Rabi Meir. Rabi Yehuda diz: o Mar Grande é como um mikvê; não foi dito “mares” senão porque há nele muitos tipos de mares. Rabi Yosei diz: todos os mares purificam como águas fluentes, mas são inválidos para os zavim e para os leprosos, e para santificar deles as águas da purificação.
Esta mishná traz uma disputa de três posições sobre o estatuto halakhico dos mares, apoiada num versatículo da narrativa da criação. Rabi Meir lê o versículo de Beréshit 1:10 — “e ao ajuntamento (mikveh) das águas chamou mares” — como prova textual de que todo mar, sem exceção, tem o estatuto pleno de mikvê, capaz de purificar por imersão quando contém ao menos quarenta seá em água parada. Rabi Yehuda restringe essa leitura: como a Escritura usa a palavra “mares” no plural para se referir, em realidade, a um único corpo de água — o Mar Grande (o Mediterrâneo), no qual desaguam muitos ribeiros e onde se reúnem muitos tipos de mares e correntes — apenas ele recebe o estatuto pleno de mikvê mencionado no versículo; os demais mares não estão incluídos nessa prova textual.
Rabi Yosei propõe uma síntese: todos os mares, incluindo o Mar Grande, purificam como águas fluentes (zochalin) — isto é, com o estatuto de fonte, e não de mikvê parado — porque os ribeiros continuam a fluir e a correr sobre eles constantemente. Mas, precisamente porque a Escritura os chamou de “mikvê” e não de “águas vivas”, eles são inválidos para os propósitos que exigem especificamente água viva no sentido técnico mais estrito — a purificação dos zavim, dos leprosos, e a preparação das águas da purificação, que a Torá vincula à expressão específica “águas vivas” e não a “mikvê”. A halachá segue Rabi Yosei.
O versículo emprega a mesma palavra — mikveh, “ajuntamento” — para descrever a reunião das águas primordiais nos mares que, mais tarde, a haláchah usaria como termo técnico para o reservatório ritual de purificação. É exatamente sobre essa identidade de palavras que gira toda a disputa da mishná: se o versículo prova que todo mar tem o estatuto pleno de mikvê (Rabi Meir), se prova apenas que o Mar Grande o tem, por ser ele o “ajuntamento” principal mencionado no relato da criação (Rabi Yehuda), ou se prova apenas que os mares são chamados “mikvê” e não “águas vivas”, o que os torna válidos para a purificação comum mas inválidos para os usos que exigem especificamente água viva (Rabi Yosei).
Esta halachá e sua explicação já precederam no oitavo perek de Massechet Pará, e ali já decidimos a halachá como Rabi Yosei.
“O Mar Grande é como um mikvê”: a Escritura não chamou de “mikvê” senão o Mar Grande, pois é dele que o versículo trata na obra da criação, já que ali se reuniram todas as águas da criação. “Não foi dito ‘mares’”: no plural, senão porque nele se misturam muitos tipos de mares, pois todos os ribeiros vão em direção a ele.
“Rabi Yosei diz: todos os mares” — e também o Mar Grande — têm sobre si a lei da fonte, no sentido de que purificam como águas fluentes, porque os ribeiros vão e fluem sobre eles; mas são inválidos para a lei de “águas vivas”, pois a Escritura os chamou de “mikvê”. E a halachá é como Rabi Yosei.