Seder Tehorot · Massechet Mikvaot · Perek Alef · Mishná 8 de 8

Quinto e sexto graus: as águas feridas e as águas vivas — encerrando o primeiro perek

לְמַעְלָה מֵהֶן, מַיִם מֻכִּין, שֶׁהֵן מְטַהֲרִין בְּזוֹחֲלִין. לְמַעְלָה מֵהֶן, מַיִם חַיִּים, שֶׁבָּהֶן טְבִילָה לַזָּבִים, וְהַזָּיָה לַמְצֹרָעִים, וּכְשֵׁרִים לְקַדֵּשׁ מֵהֶן מֵי חַטָּאת:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quinto grau: as águas feridas — e sexto grau: as águas vivas, o mais elevado de todos

Superior a estas são as águas feridas (mukin), que purificam mesmo fluindo. Superior a estas são as águas vivas, nas quais há imersão para os zavim, e aspersão para os metzoraim, e são válidas para santificar delas as águas da (vaca) chatat.

A oitava e última mishná do Perek Alef completa a escala dos seis graus anunciada logo na abertura do tratado. O quinto grau é o das “águas feridas” (mayim mukin) — águas que brotam de uma fonte, mas que têm algum defeito de sabor: são salgadas, amargas ou quentes. Apesar do defeito, por serem águas de fonte, elas superam o quarto grau em um aspecto essencial: purificam mesmo estando fluentes (zochalin), como qualquer fonte, sem a limitação de “ashboren” que pesava sobre a fonte de águas trazidas do grau anterior.

O sexto e mais elevado grau é o das “águas vivas” (mayim chayim) — águas de fonte doces, sem o defeito das anteriores. São estas, e somente estas, que a Torá exige explicitamente para três ritos de purificação dos mais graves: a imersão do zav ao final de seus dias de contagem, a aspersão do sangue da ave degolada sobre água viva num vaso de barro para a purificação do metzorá, e a preparação das águas da purificação (mei chatat) com as cinzas da vaca vermelha. Com este sexto grau, encerra-se não apenas a série das seis mikvaot, mas todo o Perek Alef de Massechet Mikvaot.

לְמַעְלָה מֵהֶן, מַיִם מֻכִּין, שֶׁהֵן מְטַהֲרִין בְּזוֹחֲלִין. לְמַעְלָה מֵהֶן, מַיִם חַיִּים, שֶׁבָּהֶן טְבִילָה לַזָּבִים, וְהַזָּיָה לַמְצֹרָעִים, וּכְשֵׁרִים לְקַדֵּשׁ מֵהֶן מֵי חַטָּאת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 15:13
וְכִֽי־יִטְהַ֤ר הַזָּב֙ מִזּוֹב֔וֹ וְסָ֨פַר ל֜וֹ שִׁבְעַ֥ת יָמִ֛ים לְטׇהֳרָת֖וֹ וְכִבֶּ֣ס בְּגָדָ֑יו וְרָחַ֧ץ בְּשָׂר֛וֹ בְּמַ֥יִם חַיִּ֖ים וְטָהֵֽר׃
“E quando o zav se purificar de seu fluxo, contará para si sete dias para sua purificação, e lavará suas vestes, e banhará seu corpo em águas vivas, e ficará puro.”
Vayikrá 14:5
וְצִוָּה֙ הַכֹּהֵ֔ן וְשָׁחַ֖ט אֶת־הַצִּפּ֣וֹר הָאֶחָ֑ת אֶל־כְּלִי־חֶ֖רֶשׂ עַל־מַ֥יִם חַיִּֽים׃
“E o sacerdote ordenará que se degole uma das aves, sobre um vaso de barro, em águas vivas.”
Bamidbar 19:17
וְלָֽקְחוּ֙ לַטָּמֵ֔א מֵעֲפַ֖ר שְׂרֵפַ֣ת הַֽחַטָּ֑את וְנָתַ֥ן עָלָ֛יו מַ֥יִם חַיִּ֖ים אֶל־כֶּֽלִי׃
“E tomarão, para o impuro, da cinza da queima da (vaca) chatat, e se porão sobre ela águas vivas, num vaso.”
Estes três versículos são a fonte direta dos três usos exclusivos das águas vivas mencionados na mishná: a imersão do zav, a aspersão para o metzorá, e a preparação das águas da chatat com as cinzas da vaca vermelha. Em todos os três, a Torá usa a mesma expressão — “águas vivas” (mayim chayim) —, e é desta expressão repetida que Rambam deriva a exigência específica do sexto e mais elevado grau para estes três ritos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Mikvaot 1:8
מעלה חמישית הוא שיהיו מים נובעים אך שהם מוכים רצה לומר מלוחי…

O quinto grau é que sejam águas que brotam, porém que sejam “feridas” (mukin) — quer dizer, salgadas, ou amargas, ou quentes, ou (que tenham) outros sabores ruins que se encontram em algumas águas, como se explicará no oitavo (capítulo) de Pará. E estas águas se acrescentam sobre as anteriores em que purificam estando fluentes, por serem uma fonte, e nada as mistura (e as desqualifica). E a palavra zochalin é bíblica (Devarim 32:24): “com o veneno dos que rastejam (zochalei) no pó” — quer dizer, as serpentes que se arrastam pela terra.

E o sexto grau é que sejam águas que brotam e doces, e estas são as que se chamam águas vivas (mayim chayim); e não é válida a imersão do zav senão nelas — quer dizer, o homem zav, se completou os dias de sua purificação; e do mesmo modo a purificação do metzorá — quer dizer, as águas sobre as quais se degolam as aves; e a santificação das águas da (vaca) chatat não se dá senão com estas águas — pois destas três coisas disse o Nome (Divino) “águas vivas”.

Bartenura · Mikvaot 1:8
מַיִם מֻכִּין. מַיִם נוֹבְעִים שֶׁהֵן מְלוּחִים אוֹ חַמִּים:

“Águas feridas (mukin)”: águas que brotam e que são salgadas ou quentes.

“Que purificam estando fluentes”: ao passo que a fonte de águas escassas mencionada acima não purifica estando fluente, senão estando parada.

“Águas vivas”: que brotam e não são feridas (mukin).

“Nas quais há imersão para os zavim”: conforme está escrito a respeito (Vayikrá 15:13): “e banhará seu corpo em águas vivas”.

“E aspersão para os metzoraim”: conforme está escrito a respeito deles (ibidem 14:5): “sobre águas vivas, em um vaso de barro”.

“E são válidas para santificar delas as águas da chatat”: conforme está escrito a respeito delas (Bamidbar 19:17): “e se porão sobre elas águas vivas, num vaso”.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Mikvaot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.