Seder Tehorot · Massechet Machshirin · Perek Dálet · Mishná 9 de 10

Quem enche água pelo kilon

הַמְמַלֵּא בְקִילוֹן, עַד שְׁלשָׁה יָמִים, טְמֵאִין. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אִם נִגְּבוּ, מִיָּד טְהוֹרִים. וְאִם לֹא נִגְּבוּ, אֲפִלּוּ עַד שְׁלשִׁים יוֹם, טְמֵאִים:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem enche água pelo kilon

Aquele que enche (água) com uma vala (kilon): até três dias, (as águas remanescentes) estão impuras. Rabi Akiva diz: se secaram, imediatamente estão puras; e se não secaram, ainda que até trinta dias, estão impuras.

Um kilon é um canal escavado — de madeira, barro ou terra — usado para conduzir água reunida num ponto até um campo distante que se deseja irrigar. Depois de terminado o uso, resta sempre alguma umidade no leito do canal, e a mishná pergunta até quando essa umidade remanescente ainda conta como água desejada, capaz de tornar apto qualquer alimento que nela caia.

A opinião do Tana Kama fixa um prazo objetivo de três dias: durante esse período, presume-se que o dono ainda deseja aquela água ali — afinal, um kilon normalmente não seca antes disso — e por isso ela permanece “sob quando for posta”. Depois de três dias, presume-se que ele já não tem interesse algum na água remanescente, mesmo que ela ainda não tenha secado por completo, e ela deixa de tornar apto.

Rabi Akiva propõe, à primeira vista, um critério diferente: não o tempo decorrido, mas o estado físico do canal — se já secou, mesmo antes de três dias, a água deixa de tornar apto imediatamente; mas se ainda não secou, mesmo depois de trinta dias, continua tornando apto. Como explica o Bartenura, porém, essa não é uma disputa real quanto ao caso comum: o próprio Rabi Akiva reconhece que, na maioria das vezes, um kilon leva exatamente três dias para secar — e é esse o pressuposto implícito do Tana Kama também. A diferença real entre eles aparece apenas nos casos excepcionais, em que o kilon seca mais rápido ou mais devagar do que o normal.

הַמְמַלֵּא בְקִילוֹן, עַד שְׁלשָׁה יָמִים, טְמֵאִין. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אִם נִגְּבוּ, מִיָּד טְהוֹרִים. וְאִם לֹא נִגְּבוּ, אֲפִלּוּ עַד שְׁלשִׁים יוֹם, טְמֵאִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Machshirin 4:9
מי שדולה שממלא מים בתעלת עץ או חרס וכיוצא בהם כי המים הנשארים בקילון ההוא אשר מלא בו מכשיר את הפירות… ור"ע אומר כיון שלא נגבו כל לחלוחית שימצא בו ואפילו אחר ל' יום הוא ברצון ואין הלכה כר"ע:

Aquele que tira água, enchendo-a num canal de madeira, de barro ou semelhante — porque a água que permanece naquele kilon com que ele encheu torna apta as frutas, pois a água entrou no kilon com aprovação; e isto é dentro de três dias depois de a ter tirado. Porém, depois de três dias, o que resta nele não torna apto, porque não é sua vontade que a água permanêa naquele vaso além desse tempo, e sua intenção era apenas que o escoadouro secasse depois desse prazo. E Rabi Akiva diz: já que não secaram, toda umidade que nele se encontrar, ainda que depois de trinta dias, é com aprovação — e não é lei conforme Rabi Akiva.

Bartenura · Machshirin 4:9
הַמְמַלֵּא בְקִילוֹן. כְּשֶׁהַמַּיִם מְכֻנָּסִים בְּמָקוֹם אֶחָד וּמְבַקְּשִׁים לַהֲבִיאָן אֶל שָׂדֶה אַחֵר… וְהָכִי מוּכָח בְּהֶדְיָא בַּתּוֹסֶפְתָּא, דְּמוֹדֶה רַבִּי עֲקִיבָא בִּסְתָם שֶׁהוּא שְׁלֹשָׁה יָמִים:

“Aquele que enche com um kilon”: quando a água está reunida num só lugar e se deseja trazê-la a outro campo, faz-se para ela um caminho por onde essa água venha; e o nome desse caminho por onde essa água é conduzida chama-se kilon. E até três dias, esse kilon não seca da água que conduziram para dentro dele, e (essas águas) tornam aptas as frutas que caíram nele, porque estão ali com aprovação.

“Rabi Akiva diz: se secaram, imediatamente”: Rabi Akiva não discorda do Tana Kama, porque, em regra, o kilon não seca antes de três dias, e o Tana Kama fala do caso regular. E isto se prova claramente na Tosefta, que Rabi Akiva concorda que, em regra, é (o prazo de) três dias.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Machshirin não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.