O sheretz que foi encontrado abaixo da base do forno é puro, pois eu digo: caiu vivo e agora morreu. A agulha ou o anel que foram encontrados abaixo da base do forno são puros, pois eu digo: ali estavam antes que o forno viesse. Se foram encontrados na cinza queimada, é impuro, pois não há em que se apoiar.
Trata-se de três casos em que se busca uma presunção razoável (tolin) para manter o forno puro, apesar de se encontrar sob ele algo que, se tivesse entrado pelo seu ar, o teria contaminado. No primeiro caso, um sheretz é encontrado abaixo da base (nechóshet) do forno — fora, portanto, do seu ar interno: presume-se que ele caiu ali ainda vivo, escavando como costumam fazer os répteis para se esconder no solo, e só morreu depois, sem jamais ter passado pelo ar do forno enquanto impuro. No segundo caso, a agulha ou o anel, de metal e portanto suscetíveis à impureza do morto, são encontrados no mesmo lugar abaixo da base: presume-se que já estavam ali antes mesmo de o forno ser construído e fixado naquele ponto, e por isso nunca entraram em seu ar. Em ambos os casos, o forno permanece puro por essa presunção razoável. Mas, no terceiro caso, se o sheretz ou o metal impuro são encontrados na cinza queimada dentro do próprio vão do forno — cinza produzida pelo calor do fogo ali aceso —, não há qualquer presunção possível que os salve: não se pode dizer que caíram vivos e morreram depois, pois o próprio calor do fogo os teria consumido e reduzido a cinza; nem que estavam ali antes do forno, pois a cinza só existe por causa do fogo que nele se acendeu. Logo, o forno se contamina, “pois não há em que se apoiar”.
“Caiu vivo e agora morreu”: depois de chegar abaixo da base do forno, e eis que não está no ar do forno; e já sabes que os fornos e seus fogos apenas se contaminam por seu ar, pois eles e o vaso de barro são uma mesma coisa, sendo barro cozido. E se essa agulha ou anel, impuros por contato com o morto, estavam na terra e depois o forno foi assentado sobre esse lugar, eis que o forno é puro, pois talvez não tenham chegado ao seu ar. Mas se essa agulha impura, ou esse anel, foram encontrados na cinza que sai do fogo, eis que sem dúvida o forno é impuro, pois é impossível, de qualquer forma, que essa agulha ou anel não tenham chegado ao ar do forno e o contaminado; e este é o sentido de dizerem “não há em que se apoiar”.
Sobre “abaixo da base do forno”: o piso onde se assenta o forno. Pois o forno é feito como uma espécie de panela grande sem fundo, e preparam para ele um piso na terra e o assentam ali, e esse piso é sua “base” (nechóshet).
Sobre “caiu vivo”: e o forno não se contaminou. Pois, se tivesse caído morto, o forno teria se contaminado pelo ar, quando caiu pela boca do forno. E o motivo de não presumirmos que ele já estava ali antes de assentarem o forno naquele lugar é que, às vezes, o sheretz é encontrado úmido, e nota-se que morreu recentemente, enquanto o forno já foi assentado ali há muitos dias; e agora não se pode dizer que o sheretz precedeu o forno naquele lugar, pois, se assim fosse, o calor do fogo o teria queimado e reduzido a cinza; por isso presumimos que caiu vivo — e é costume dos répteis fazer escavações na terra para se esconderem ali —, e por isso é encontrado abaixo da base.
Sobre “ali estavam antes que o forno viesse”: antes de o assentarem ali, e não viram o ar do forno.
Sobre “na cinza queimada”: a que se produz pela queima do fogo — isto é, na parte de cima, no vão do forno. E como encontramos “pó” (afar) também chamado “cinza” (éfer), e aqui se trata da cinza da queima, por isso a mishná ensina “cinza queimada” — expressão de algo torrado pelo fogo.