Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Tet · Mishná 2 de 8

O barril de líquidos puros com a pipeta de metal dentro

חָבִית שֶׁהִיא מְלֵאָה מַשְׁקִין טְהוֹרִין וּמְנִיקָת בְּתוֹכָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

O barril de líquidos puros com uma pipeta de metal dentro, cercado por tampa hermética numa tenda do morto — a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel, que voltou atrás

Um barril cheio de líquidos puros, com uma pipeta dentro dele, cercado por tampa hermética e colocado numa tenda do morto — Bet Shamai diz: o barril e os líquidos são puros, mas a pipeta é impura. E Bet Hilel diz: também a pipeta é pura. Bet Hilel voltou atrás e ensinou conforme as palavras de Bet Shamai.

Trata-se de um barril de barro cheio de líquidos puros, dentro do qual foi introduzida uma mênica (pipeta) — um tubo de metal, madeira ou vidro, com uma das pontas inserida no líquido, usada para sugar e extrair o líquido de dentro do barril sem abri-lo. O barril está cercado por tampa hermética e foi colocado numa tenda onde há um morto. Bet Shamai distingue entre o barril de barro e os líquidos, de um lado, e a pipeta de metal, de outro: como o barril de barro e os líquidos não têm purificação na mikvê, os sábios não decretaram sobre eles, e a tampa hermética os salva da impureza do morto; mas a pipeta de metal, que tem purificação na mikvê — e por isso poderia ser tomada emprestada por um am haáretz (iletrado em matéria de puresas), imersa, e usada sem que se soubesse que precisava também da asperção do terceiro e do sétimo dia —, os sábios decretaram que a tampa hermética não a salva. Bet Hilel, inicialmente, não via razão para essa distinção e purificava também a pipeta; mas, ao ouvirem o fundamento de Bet Shamai, voltaram atrás e passaram a ensinar de acordo com suas palavras — um dos poucos casos expressos na Mishná em que uma das duas escolas reconhece e adota a posição da outra.

חָבִית שֶׁהִיא מְלֵאָה מַשְׁקִין טְהוֹרִין וּמְנִיקָת בְּתוֹכָהּ, מֻקֶּפֶת צָמִיד פָּתִיל וּנְתוּנָה בְאֹהֶל הַמֵּת, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, הֶחָבִית וְהַמַּשְׁקִין טְהוֹרִין, וּמְנִיקָת טְמֵאָה. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִין, אַף מְנִיקָת טְהוֹרָה. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמָּאי:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 9:2
מניקת. כלי המציצה וזה שיעשו נקב בצד החבית ויכניסו בזה הנקב קצת זה הכלי וימוץ בפיו הקצה האחד וימשכו המים אשר בחבית…

“Menicá”: é o vaso da sucção — que se faz um furo na lateral do barril e se introduz nesse furo uma parte desse vaso, e se suga com a boca pela outra ponta, extraindo-se assim os líquidos que estão no barril. E esse vaso às vezes é feito de cana, às vezes de barro, às vezes de vidro — e aqui trata-se de metal. E todo o assunto está explicado.

Bartenura · Keilim 9:2
וּמְנִיקָת בְּתוֹכָהּ. כְּמִין קָנֶה חָלוּל עָשׂוּי מִמַּתֶּכֶת, שֶׁנּוֹתְנִים רֹאשׁוֹ אֶחָד בְּנֶקֶב הֶחָבִית…

Sobre “com uma pipeta dentro dele”: como uma espécie de cana oca, feita de metal, na qual se coloca uma das pontas no furo do barril e se suga pela boca a outra ponta, saindo assim todos os líquidos que estão no barril através dessa pipeta.

Sobre “o barril e os líquidos são puros, mas a pipeta é impura”: o barril é de barro, e a pipeta que está dentro dele é de metal. Por isso, o barril e os líquidos, que não têm purificação na mikvê — e ainda que alguém os purificasse, sendo eles de um am haáretz, o chaver (letrado em pureza) não viria a usá-los, pois, de qualquer modo, ele os evita por seu contato, e todo o alimento deles já é impuro —, os sábios não decretaram sobre eles, e são salvos pela tampa hermética. Mas a pipeta de metal, que tem purificação na mikvê, se alguém a purificasse, o chaver viria a usá-la — pedindo-a emprestada ao am haáretz, imergindo-a, aguardando o pôr do sol, e usando-a, pensando que ela só tinha o problema do toque impuro, sem saber que estivera na tenda do morto e precisava também da asperção do terceiro e do sétimo dia. E ainda que estivesse dentro de um vaso de barro cercado por tampa hermética, a tampa hermética de um vaso de um am haáretz não salva da impureza perante um chaver, pois todos os vasos de um am haáretz são considerados impuros por presunção perante um chaver, e um vaso impuro não salva por tampa hermética — pois só salva por tampa hermética o vaso de barro puro. E se os sábios tivessem decretado que nenhum vaso de barro de um am haáretz salvasse por tampa hermética, os amei haáretz não aceitariam isso deles, pois pensam ser peritos e guardarem seus vasos em pureza. Por isso, quanto a vasos de barro, alimentos e líquidos, que não têm purificação na mikvê, quando estavam dentro da tampa hermética de vasos de amei haáretz, diz-se-lhes que são puros e podem usá-los, pois eles mantêm seus vasos por presunção de puros, e não há que temer que o chaver os peça emprestados, pois perante ele são tidos por impuros e não têm purificação alguma; mas quanto a vasos de uso (metálicos), em que há que temer que o chaver os peça emprestados, os imirja e os use sem a asperção do terceiro e do sétimo dia, fizeram uma regra igual para todos e disseram que nenhum vaso de uso se salva por tampa hermética.

Sobre “e Bet Hilel diz: também a pipeta é pura”: antes de ouvirem o fundamento de Bet Shamai, não sabiam por que alimentos e líquidos dentro da tampa hermética são puros, mas vasos de metal são impuros; e, depois de ouvirem o fundamento, como explicamos, voltaram a ensinar conforme as palavras de Bet Shamai.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.