Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Guimel · Mishná 8 de 8 — última do capítulo

O jarro remendado com piche em excesso, e o funil tapado com piche

חָבִית שֶׁנִּקְּבָה וַעֲשָׂאָהּ בְּזֶפֶת יָתֵר מִצָּרְכָּהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o capítulo com três casos finais envolvendo piche: o remendo maior que o necessário, o piche que apenas pinga sobre o jarro, e a disputa de três sábios sobre o funil tapado com piche

Um jarro que foi furado e remendado com piche em quantidade maior que a necessária: quem toca na parte necessária é impuro; na parte excedente, é puro. Piche que pingou sobre o jarro: quem o toca é puro. Um funil de madeira ou de barro que foi tapado com piche: Rabi Elazar ben Azaryá impurifica. Rabi Akiva impurifica o de madeira, e purifica o de barro. Rabi Yosé purifica ambos.

A última mishná do capítulo retoma o tema do remendo de piche, tratado já na terceira mishná, e o refina. Se o remendo aplicado sobre o furo do jarro é mais espesso do que o estritamente necessário para tapá-lo, apenas a porção que efetivamente cobre o furo é considerada conexão com o vaso — quem a toca torna-se impuro junto com o jarro; mas a porção excedente, que se estende além do necessário, não é considerada parte do vaso, e quem só nela toca permanece puro. Da mesma forma, se piche simplesmente pingou sobre um jarro que nunca teve furo algum, sem função de remendo, quem toca essa gota de piche permanece puro, pois ela nunca foi necessária ao vaso. O caso final é o funil (mashpech) usado para despejar vinho dentro do jarro, cujo bico foi tapado com piche — e sobre ele há disputa entre três sábios: Rabi Elazar ben Azaryá considera esse tapamento uma conexão plena, tanto no funil de madeira quanto no de barro, e por isso impurifica ambos. Rabi Akiva distingue: no funil de madeira, o piche é considerado da mesma espécie do material do funil (pois o piche deriva da árvore), e por isso impurifica; mas no funil de barro, espécie diferente, purifica. Rabi Yosé, por fim, não considera esse tapamento uma conexão de modo algum, em nenhum dos dois casos, pois o funil, por sua função, acaba tendo essa vedação removida sempre que se quer despejar o vinho — e purifica ambos; e a lei segue Rabi Akiva.

חָבִית שֶׁנִּקְּבָה וַעֲשָׂאָהּ בְּזֶפֶת יָתֵר מִצָּרְכָּהּ, הַנּוֹגֵעַ בְּצָרְכָּהּ, טָמֵא. יָתֵר מִצָּרְכָּהּ, טָהוֹר. זֶפֶת שֶׁנָּטְפָה עַל הֶחָבִית, הַנּוֹגֵעַ בָּהּ, טָהוֹר. מַשְׁפֵּךְ שֶׁל עֵץ וְשֶׁל חֶרֶס שֶׁפְּקָקוֹ בְזֶפֶת, רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה מְטַמֵּא. רַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא בְשֶׁל עֵץ, וּמְטַהֵר בְּשֶׁל חֶרֶס. רַבִּי יוֹסֵי מְטַהֵר בִּשְׁנֵיהֶם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 3:8
יותר מצרכה. הוא שהתעבה מהזפת על מקום הנקב יותר ממה שצריך…

Rambam explica que “mais do que necessário” se refere a quando se aplicou piche sobre o lugar do furo em quantidade maior do que a necessária, de modo que, se dele se retirasse muito, o furo permaneceria tapado e continuaria a reter a água que havia no vaso; e diz-se aqui “quem toca” referindo-se a alimentos e líquidos. “Tapou-o com piche” significa que se vedaram as extremidades da boca do funil com piche, de modo que nada saísse por ele, e ele voltasse a ser um vaso receptor. E a lei segue Rabi Akiva.

Bartenura · Keilim 3:8
יוֹתֵר מִצָּרְכָּהּ · כְּנֶגֶד הַנֶּקֶב הוּא צָרְכָּהּ…

Sobre “mais do que necessário”: a parte que corresponde exatamente ao furo é a “necessária”; e a que não corresponde ao furo é a “excedente”, que não é considerada conexão, pois o jarro não precisa dela. Rambam explicou de outro modo: “mais do que necessário” seria quando se fez o remendo espesso o bastante para que, mesmo removendo parte dele, o furo permanecesse tapado — e isso mesmo que toda a espessura esteja sobre o próprio furo.

Sobre “piche que pingou sobre o jarro”: sobre um jarro que não estava furado.

Sobre “quem o toca”: a gota de piche.

Sobre “é puro”: ainda que o jarro esteja impuro, pois o piche não é conexão com o jarro, já que o jarro não precisa dele.

Sobre “que o tapou com piche”: que vedou a boca do furo do funil, feito para despejar vinho por ele dentro do jarro.

Sobre “Rabi Elazar ben Azaryá impurifica”: pois considera isso um tapamento válido, tanto no de madeira quanto no de barro.

Sobre “e Rabi Akiva impurifica o de madeira”: porque o piche é de sua mesma espécie, já que o piche provém da árvore.

Sobre “e purifica o de barro”: pois não é de sua espécie, e não é considerado conexão. E o tapamento da boca do funil não se assemelha ao tapamento do furo do jarro, que é considerado conexão: pois o furo na boca do funil, feito liso pelo oleiro desde o início, faz com que o piche se descole dele e não se mantenha; já num jarro furado depois de já cozido em forno, o furo não pode ficar liso e igual, e o piche não se descola dele. Ou, ainda, porque o furo na boca do funil, por sua natureza, acaba tendo seu tapamento removido quando se quer despejar vinho no jarro; por isso, o tapamento só é considerado válido no funil de madeira, por ser da mesma espécie, mas não no jarro furado, cujo tapamento não costuma ser removido.

Sobre “Rabi Yosé purifica ambos”: pois entende que o tapamento da boca do funil não é considerado tapamento válido, e é como se não tivesse sido tapado, não tendo então espaço receptor. E a lei segue Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Guimel · סִיּוּם הַפֶּרֶק

רַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא בְשֶׁל עֵץ וּמְטַהֵר בְּשֶׁל חֶרֶס

Com esta oitava mishná, encerra-se o Perek Guimel de Massechet Keilim, dedicado à medida do buraco que retira de um vaso de barro sua condição de receptáculo suscetível à impureza, e às fronteiras entre o que se considera parte de um vaso composto e o que dele permanece separado.

O capítulo abriu (3:1–2) com a regra geral e suas aplicações específicas: a medida de azeitona para alimentos, a medida do próprio líquido para vasos de líquido, e o rigor da medida maior para vasos de uso duplo — descendo aos casos concretos do jarro grande, da panela, do jarro e vasilhame de óleo, do tzartzur e do candeeiro. As mishnayot 3:3 e 3:4 trataram do jarro furado e remendado com piche, e do jarro rachado reforçado com esterco, estabelecendo o princípio de que o nome de vaso, uma vez estabelecido, só se perde quando o vaso de fato se desfaz por completo. A mishná 3:5 estendeu essa lógica ao revestimento de um vaso já são, e ao aro da cabaça de água. A mishná 3:6 trouxe três casos rápidos de conexão — a erva que reveste as jarras, a tampa que não conecta, e o revestimento do forno que conecta. A mishná 3:7 distinguiu entre a argamassa que adere ao caldeirão e a argila fina que não adere, e tratou dos vasos remendados ou revestidos de piche, que Rabi Yosé purifica por não suportarem calor. Por fim, esta mishná fechou com o remendo de piche em excesso, o piche que apenas pinga sem função, e a disputa de três sábios sobre o funil tapado com piche.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Dálet, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as fronteiras entre o vaso suscetível e o objeto imune à impureza — ao longo dos vinte e seis perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.