A tampa dos jarros de vinho e dos jarros de azeite, e a tampa dos barris de papiro, são puras. Mas se a adaptou para uso, são impuras. A tampa da panela: quando é perfurada e tem ponta, é pura. Se não é perfurada e não tem ponta, é impura, porque coa nela o vegetal. Rabi Eliezer bar Tzadok diz: porque vira nela o conteúdo cozido.
A mishná trata de tampas — objetos de barro que, por definição, servem para cobrir e não para receber — e por isso, em princípio, são imunes à impureza, como se ensinou na mishná anterior sobre o que é usado virado de boca para baixo. As tampas de jarros de vinho, de azeite, e de barris cujo conteúdo vem embalado em papiro são puras exatamente por essa razão; mas, se alguém as adapta deliberadamente para servir de receptáculo — mudando sua função original — tornam-se impuras, pois a intenção do dono redefine a finalidade do objeto. O segundo caso, a tampa da panela, aplica o mesmo princípio de modo mais sutil: se tem um furo (para deixar sair vapor ou líquido) e uma ponta central (que a impede de assentar-se estável, virada para cima, como recipiente), é pura, pois não pode funcionar como receptáculo. Mas se é lisa, sem furo e sem ponta, pode ser virada e assentada com estabilidade — e a mishná registra duas explicações de uso real que a tornam impura: para Tana Kama, a dona de casa a usa para coar vegetais, deixando escorrer a água; para Rabi Eliezer bar Tzadok, ela a usa para virar e despejar o conteúdo cozido da panela.
Rambam explica que os “barris de papiro” recebem seu nome de um lugar. A tampa do lefes (panela grande) tem, saindo de seu dorso, algo semelhante a um pequeno tubo de cana, servindo de alça. “Perfurado” significa que a tampa tem um furo por onde sai a fumaça. “Coa nela” refere-se ao vegetal, para deixar escorrer sua água. O termo runki é grego, e designa o vegetal já cozido, quando seus pedaços se prendem uns aos outros formando uma massa compacta. Diz Rambam que, quando essa tampa não tem ponta que a permita ficar em pé sozinha, e também não é perfurada, coloca-se nela o vegetal para escorrer sua água, seja cru, seja cozido — e por isso se torna impura.
Bartenura observa que tudo que serve de tampa em vaso de barro é puro, pois a Torá fala em “seu interior”, e a tampa não é o interior do vaso a que se refere. Os “barris de papiro” recebem o nome de seu lugar de origem; e a mishná os menciona para ensinar algo a mais — que mesmo essas tampas, que já tinham algum receptáculo próprio, permaneciam puras. Há quem leia “e os papiros”, referindo-se aos papéis com que se cobre a boca de um frasco.
O lefes, semelhante a alpas, é uma frigideira grande em que se cozinham carne e vegetais, para a qual se faz uma tampa de barro. Quando essa tampa é perfurada, não serve para nada; e mesmo quando não é perfurada, se tem uma ponta, não consegue assentar-se por causa dessa ponta; mas quando não é perfurada e também não tem ponta, é impura, pois é apta a ser virada e assentada, e a mulher põe nela o vegetal para coá-lo, escorrendo a água que contém. O runki são os vegetais já cozidos, presos uns aos outros, formando um só corpo — termo de origem grega.