Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Bet · Mishná 5 de 8

As tampas de jarros e a tampa da panela

כִּסּוּי כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Tampas de jarros e barris são puras, salvo se adaptadas a outro uso; e a tampa da panela é pura quando perfurada ou pontuda, impura quando lisa e fechada — com a disputa sobre a razão de sua impureza

A tampa dos jarros de vinho e dos jarros de azeite, e a tampa dos barris de papiro, são puras. Mas se a adaptou para uso, são impuras. A tampa da panela: quando é perfurada e tem ponta, é pura. Se não é perfurada e não tem ponta, é impura, porque coa nela o vegetal. Rabi Eliezer bar Tzadok diz: porque vira nela o conteúdo cozido.

A mishná trata de tampas — objetos de barro que, por definição, servem para cobrir e não para receber — e por isso, em princípio, são imunes à impureza, como se ensinou na mishná anterior sobre o que é usado virado de boca para baixo. As tampas de jarros de vinho, de azeite, e de barris cujo conteúdo vem embalado em papiro são puras exatamente por essa razão; mas, se alguém as adapta deliberadamente para servir de receptáculo — mudando sua função original — tornam-se impuras, pois a intenção do dono redefine a finalidade do objeto. O segundo caso, a tampa da panela, aplica o mesmo princípio de modo mais sutil: se tem um furo (para deixar sair vapor ou líquido) e uma ponta central (que a impede de assentar-se estável, virada para cima, como recipiente), é pura, pois não pode funcionar como receptáculo. Mas se é lisa, sem furo e sem ponta, pode ser virada e assentada com estabilidade — e a mishná registra duas explicações de uso real que a tornam impura: para Tana Kama, a dona de casa a usa para coar vegetais, deixando escorrer a água; para Rabi Eliezer bar Tzadok, ela a usa para virar e despejar o conteúdo cozido da panela.

כִּסּוּי כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן, וְכִסּוּי חָבִיוֹת נְיָרוֹת, טְהוֹרִין. וְאִם הִתְקִינוֹ לְתַשְׁמִישׁ, טְמֵאִים. כְּסוּי הַלְּפָס, בִּזְמַן שֶׁהוּא נָקוּב וְיֶשׁ לוֹ חִדּוּד, טָהוֹר. אִם אֵינוֹ נָקוּב וְאֵין לוֹ חִדּוּד, טָמֵא, מִפְּנֵי שֶׁהִיא מְסַנֶּנֶת לְתוֹכוֹ אֶת הַיָּרָק. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בַּר צָדוֹק אוֹמֵר, מִפְּנֵי שֶׁהִיא הוֹפֶכֶת עָלָיו אֶת הָרוּנְקִי:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 2:5
חביות ניירות מיוחסות אל מקום · וכסוי הלפס יצא מגב הכסוי ידמה לאבוב של קנה…

Rambam explica que os “barris de papiro” recebem seu nome de um lugar. A tampa do lefes (panela grande) tem, saindo de seu dorso, algo semelhante a um pequeno tubo de cana, servindo de alça. “Perfurado” significa que a tampa tem um furo por onde sai a fumaça. “Coa nela” refere-se ao vegetal, para deixar escorrer sua água. O termo runki é grego, e designa o vegetal já cozido, quando seus pedaços se prendem uns aos outros formando uma massa compacta. Diz Rambam que, quando essa tampa não tem ponta que a permita ficar em pé sozinha, e também não é perfurada, coloca-se nela o vegetal para escorrer sua água, seja cru, seja cozido — e por isso se torna impura.

Bartenura · Keilim 2:5
כִּסּוּי כַּדֵּי יַיִן וְכוּ' · וְכָל הַמְשַׁמֵּשׁ כִּסּוּי בִּכְלֵי חֶרֶס טָהוֹר…

Bartenura observa que tudo que serve de tampa em vaso de barro é puro, pois a Torá fala em “seu interior”, e a tampa não é o interior do vaso a que se refere. Os “barris de papiro” recebem o nome de seu lugar de origem; e a mishná os menciona para ensinar algo a mais — que mesmo essas tampas, que já tinham algum receptáculo próprio, permaneciam puras. Há quem leia “e os papiros”, referindo-se aos papéis com que se cobre a boca de um frasco.

O lefes, semelhante a alpas, é uma frigideira grande em que se cozinham carne e vegetais, para a qual se faz uma tampa de barro. Quando essa tampa é perfurada, não serve para nada; e mesmo quando não é perfurada, se tem uma ponta, não consegue assentar-se por causa dessa ponta; mas quando não é perfurada e também não tem ponta, é impura, pois é apta a ser virada e assentada, e a mulher põe nela o vegetal para coá-lo, escorrendo a água que contém. O runki são os vegetais já cozidos, presos uns aos outros, formando um só corpo — termo de origem grega.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.