Uma lanterna que tem receptáculo de óleo é impura; e a que não tem é pura. A tampa dos oleiros com a qual ele começa é pura; e com a qual ele termina é impura. O funil dos donos de casa é puro; e o dos mercadores é impuro, porque serve de medida — palavras de Rabi Yehudá ben Beterá. Rabi Akiva diz: porque ele o inclina de lado e cheira nele para o comprador.
A mishná examina três utensílios de barro cotidianos em que a impureza depende de um detalhe estrutural ou funcional preciso. A lanterna — um invólucro perfurado que abriga a chama contra o vento — só é impura se tiver, além do encaixe para o candeeiro, um receptáculo separado destinado a reter óleo; sem esse receptáculo, mesmo com espaço para o candeeiro, permanece pura, pois esse espaço não conta como “interior” verdadeiro. O molde do oleiro percorre dois estágios: enquanto ainda está sendo moldado — a argila lançada e trabalhada à mão sobre ele, sem ainda ter borda definida — é puro, como um vaso ainda inacabado; uma vez que o vaso já tomou forma e passa a se apoiar sobre o molde para secar, este ganha uma borda real e se torna impuro. Por fim, o funil: em uso doméstico, para encher um jarro de vinho ou azeite, é puro, pois serve apenas de passagem; mas o funil do mercador ambulante é impuro — e a mishná registra duas razões concorrentes para essa impureza, cada uma revelando um modo distinto de conceber o que torna um objeto um “receptáculo”: Rabi Yehudá ben Beterá vê nele uma medida de venda; Rabi Akiva, um recipiente de fato, ao ser inclinado para reter uma amostra que o comprador cheira antes de comprar.
Rambam descreve a lanterna como um vaso de barro semelhante a uma redoma, no qual se coloca o candeeiro coberto, para que o vento não o apague; possui pequenos furos nas laterais por onde sai a luz — e é esse vaso que se chama panas. Sobre a “tampa dos oleiros”: são as pedras dos oleiros (do mesmo termo que aparece em Nechemiá, “fecharão as portas”), feitas de barro, sobre as quais se moldam os vasos; muitos oleiros constroem sobre elas grandes vasos manuais, formados a partir de argila lançada primeiro sobre esse suporte. Aquilo que ainda não tem borda — a fase em que o oleiro apenas “abre” a argila com as mãos até que tome forma — é puro; mas aquilo sobre o qual o vaso é assentado depois de já ter recebido sua forma final passa a ter borda, e por isso é impuro. “Abrir com ela” significa abrir a argila manualmente sobre o molde até que assuma o formato desejado.
O funil, em árabe al-qam’a, tem forma conhecida, e é usado pelos mercadores ambulantes que vendem água de rosas e óleos perfumados, para que o comprador cheire a perfumaria; deixa-se um pouco dela na lateral do funil para que se possa cheirar, o que o transforma efetivamente em um vaso de receptáculo — e por isso é impuro. A lei segue Rabi Akiva.
Bartenura descreve o panas como uma espécie de redoma de barro, com furos em suas paredes por onde sai a luz, dentro da qual se põe o candeeiro para que o vento não o apague. Sobre “que não tem”: refere-se a não ter receptáculo de óleo, ainda que tenha o encaixe onde se apoia o candeeiro. É pura, porque esse encaixe do candeeiro não conta como interior verdadeiro — o candeeiro apenas repousa sobre ele.
A “tampa dos oleiros” é como o torno de barro sobre o qual os oleiros moldam os vasos. Sobre “a que ele abre”: a tampa sobre a qual o oleiro lança a argila e vai moldando com as mãos a forma do vaso — é pura, por não ter borda ao redor e não ter interior. Sobre “a que ele termina”: a tampa sobre a qual se assenta o vaso já com sua forma completa tem interior, e por isso é impura. Bartenura relata que seus mestres explicaram de outro modo: haveria um utensílio dos oleiros chamado megufá, uns com abertura estreita e outros com abertura larga; “a que ele abre” seria a que ainda vai ser alargada em sua abertura, pura por sua obra ainda não estar concluída, semelhante à massa bruta de vasos de barro; e “a que ele termina” seria a que se deixa assim, com abertura estreita, impura. A mishná, nessa leitura, seguiria Rabi Meir, para quem os vasos de barro só recebem impureza a partir do momento em que sua obra está concluída, e não os sábios, que dizem que só a partir de quando são queimados no forno. Bartenura conclui que a primeira explicação lhe parece a essencial.
O funil é o utensílio colocado sobre a boca de um barril ou odre quando se quer enchê-lo de vinho ou de óleo. O “dos mercadores” é pequeno, feito para despejar óleo em frascos pequenos, com capacidade de um ou dois logs; o mercador coloca o dedo por baixo, contra o orifício, e mede o óleo com ele, depois retira o dedo e o óleo desce aos vasos do comprador — sendo, portanto, feito para receber, e recebe impureza. Sobre “Rabi Akiva diz: porque ele o inclina de lado”: ou seja, mesmo que não sirva de medida, o funil dos mercadores sempre se torna impuro, porque o mercador o inclina de lado para reter um pouco e permitir que o comprador o cheire, o que o torna, de fato, feito para receber. E a lei segue Rabi Akiva.