Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Bet · Mishná 6 de 8

O caco encontrado no forno, e o aspersor

גִּסְטְרָא שֶׁנִּמְצֵאת בַּכִּבְשָׁן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O caco encontrado ainda no forno — puro ou impuro conforme o momento em que se quebrou — e a disputa sobre o aspersor de furos finos, que escoa em gotas

Um caco encontrado no forno: antes de concluída sua fabricação, é puro; depois de concluída sua fabricação, é impuro. O titros: Rabi Eliezer bar Tzadok purifica; Rabi Yosei impurifica, porque é como quem faz sair em gotas.

O primeiro caso trata de um fragmento de barro (gistra) achado dentro do próprio forno de cozimento, sem se saber com certeza em que momento se quebrou. A mishná resolve a dúvida pelo critério cronológico: se o vaso se quebrou antes de sua fabricação estar concluída — ou seja, antes de ter sido devidamente queimado e endurecido no forno — ele nunca chegou a ter o estatuto legal de “vaso”, e o fragmento não é suscetível a impureza como gistra; mas se a quebra ocorreu depois de concluída a fabricação, o fragmento é considerado como o resto de um vaso que já existiu, e pode se tornar impuro (sujeito, é claro, às medidas discutidas na mishná 2:2). O segundo caso apresenta uma disputa sobre o titros, um vaso perfurado por baixo com muitos furos finos e por cima com um único furo maior: ao tapar o furo superior com o dedo, a pressão do ar impede a água de escoar pelos furos finos; ao retirar o dedo, a água sai lentamente, gota a gota. Rabi Eliezer bar Tzadok considera que esses furos finos o classificam como um vaso “perfurado que deixa entrar líquido” — categoria isenta de impureza; Rabi Yosei discorda, argumentando que, justamente por escoar apenas em gotas lentas, o vaso continua a funcionar como um receptáculo pleno, e por isso permanece suscetível à impureza.

גִּסְטְרָא שֶׁנִּמְצֵאת בַּכִּבְשָׁן, עַד שֶׁלֹּא נִגְמְרָה מְלַאכְתָּהּ, טְהוֹרָה. מִשֶּׁנִּגְמְרָה מְלַאכְתָּהּ, טְמֵאָה. טִיטְרוֹס, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בַּר צָדוֹק מְטַהֵר. רַבִּי יוֹסֵי מְטַמֵּא, מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְמוֹצִיא פְרוּטוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 2:6
גסטרא הוא כלי אין לו בית יד ולא בית קבול ואמנם הוא תושבת לכלים…

Rambam explica que a gistra é um vaso sem alça e sem receptáculo próprio, servindo apenas de base para outros vasos: colocam-se sobre ela os vasos grandes cheios de água, para recolher o gotejamento — como já se explicou em Massechet Shabat (fl. 96). O kivshan é o forno onde se cozem os vasos de barro. O titros é um vaso de assento largo, com um pescoço estreito, longo e fino; sua base tem muitos furos pequenos. Quando se enche o vaso de água e se põe o dedo sobre a abertura do pescoço estreito, o ar fica impedido de entrar, e a água que está dentro não sai pelos furos finos de baixo; quando se retira o dedo do alto do vaso, a água sai pelo fundo do vaso — e é assim que se irriga com essa água. Sobre “porque é como quem faz sair em gotas”: a água, ao sair por esses furos, não sai de uma vez, mas sai pouco a pouco, com grande demora — e por isso o vaso volta a ser considerado um vaso de receptáculo, pois foi feito para esse fim. A lei segue Rabi Yosei.

Bartenura · Keilim 2:6
גִּסְטְרָא · שֶׁבֶר כְּלִי חֶרֶס וְדָבָר שֶׁנֶּחְלָק לִשְׁנַיִם קָרוּי גִּסְטְרָא…

Bartenura define a gistra como um fragmento de vaso de barro; qualquer coisa dividida em duas partes é chamada gistra — termo derivado de “duas partes”. Sobre “encontrada no forno”: não se sabe se quebrou antes de ser cozida no forno — e, no momento em que sua fabricação se concluiu, já não tinha mais o estatuto de vaso, e não se torna impura como gistra — ou se quebrou depois, tornando-se então impura. E como se esclarece a questão? Observa-se: se seus fragmentos são uniformes e seu interior está avermelhado (sinal de cozimento completo), sabe-se que sua fabricação já estava concluída e que se quebrou depois — tornando-se então impura, por ser apta a receber, já que costuma-se colocar uma gistra sob o barril para recolher o líquido que goteja dele.

O titros é um vaso perfurado por baixo com muitos furos finos, do tamanho de um furo de agulha, e por cima com um único furo do tamanho de um fuso — o instrumento com que as mulheres fiam. Quando se enche de água e se coloca o dedo no furo superior para que o ar não penetre, nem uma gota sai pelos furos finos de baixo; e, ao retirar o dedo, a água sai. Rabi Eliezer bar Tzadok purifica, porque o considera perfurado no sentido de “que deixa entrar líquido” (categoria isenta). Mas Rabi Yosei impurifica, porque esse é o modo normal de seu uso, e o considera um receptáculo pleno, já que a água só permanece contida graças à colocação do dedo — e mesmo sem o dedo, a água não sai de uma vez, mas apenas “como quem faz sair em gotas”, pouco a pouco, gota após gota; por isso, não se considera “perfurado que deixa entrar líquido” a ponto de se purificar por essa razão. E a lei segue Rabi Yosei.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.