Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Tet · Halachá 2
שַׁבָּת

Minayin lasefiná: o barco no coração do mar e o canteiro das cinco sementes

Perek Tet, Amar Rabi Akiva, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Tet de Massechet Shabbat, Amar Rabi Akiva. A Mishná continua a série de ensinos que se provam com versículos: o barco é puro, pois foi dito “o caminho do navio no coração do mar”; e no canteiro de seis por seis palmos semeiam-se cinco espécies, quatro nos quatro lados e uma no meio, pois foi dito “e como o jardim faz germinar as suas sementeiras”. A guemará pergunta se o barco não se aprende do mar, ou do saco, que serve no mar e em terra firme, e os rabanan de Kessarin mostram onde as duas razões divergem: no barco de barro. Depois, lê a palavra “zeruêha” para chegar de duas a quatro espécies e à do meio; traz Rabi Yoná sobre o espaço de trabalho entre as plantas; as leituras de Rabi Yehoshua ben Levi, de Rabi Yehudá e de Rabi Chagai, que contam as letras da palavra; e termina com Rabi Tanchum de Botzrá: a Mishná fala do canteiro que está entre os canteiros. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 83b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מִנַּיִין לַסְּפִינָה שֶׁהִיא טְהוֹרָה שֶׁנֶּאֱמַר דֶּרֶךְ אֳנִיָּה בְלֶב יָם. מִנַּיִין לַעֲרוּגָה שֶׁהִיא שִׁשָּׁה עַל שִׁשָּׁה טְפָחִים זוֹרְעִין בְּתוֹכָהּ חֲמִשָּׁה זֵרְעוֹנִים אַרְבַּע בְּאַרְבַּע רוּחוֹת עֲרוּגָה וְאַחַת בָּאֶמְצַע שֶׁנֶּאֱמַר כִּי כָאָרֶץ תּוֹצִיא צִמְחָהּ וּכְגַנָּה זֵרוּעֶיהָ תַצְמִיחַ. זַרְעָהּ תַצְמִיחַ לֹא נֶאֱמַר אֶלָּא זֵרוּעֶיהָ תַצְמִיחַ:

Mishná: De onde se aprende a respeito do barco que ele é tahor (puro)? Pois foi dito: “O caminho do navio no coração do mar” (Mishlei 30:19). De onde se aprende a respeito da arugá (o canteiro) que tem seis por seis tefachim (palmos) que se semeiam dentro dela cinco zeronim (espécies de sementes), quatro nos quatro lados do canteiro e uma no meio? Pois foi dito: “Pois, como a terra faz sair o seu broto, e como o jardim faz germinar as suas zeruêha (sementeiras)” (Yeshayahu 61:11). Não foi dito “faz germinar a sua semente”, mas “faz germinar as suas sementeiras”.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01O barco: o mar, o saco e o barco de barro
Yerushalmi · Shabbat 9:2
ב׳. וְלֹא מִן הַיָּם לָמַדְתָּ. מַה יָם טָהוֹר. אַף הַסְּפִינָה טְהוֹרָה. וְלֹא מִן הַשַּׁק לָמַדְתָּ. מַה הַשַּׂק מְשַׁמֵּשׁ בַּיָּם וּמְשַׁמֵּשׁ בַּיַּבָּשָׁה. סְפִינָה מְשַׁמֶּשֶׁת בַּיָּם וְאֵינָהּ מְשַׁמֶּשֶׁת בַּיַּבָּשָׁה. רַבָּנִן דְּקַיְסָרִין אָמְרֵי. זוֹ סְפִינָה שֶׁלְּחֶרֶשׂ. מַה הַשַּׂק אֵינוֹ מְלַמֵּד עַל כָּל הָאָמוּר בַּפָּרָשָׁה. יָצָא כְלֵי חֶרֶשׂ שֶׂאֵינוֹ כָתוּב בַּפָּרָשָׁה שֶׁיְּלַמֵּד עָלָיו הַשַּׂק.

E não o aprendeste do mar? Assim como o mar é puro, também o barco é puro. E não o aprendeste do sak (o saco)? Mas o saco serve no mar e serve em terra firme; o barco serve no mar e não serve em terra firme. Os rabanan de Kessarin (Cesareia) dizem: isto trata do barco de cheres (barro). Não ensina o saco sobre tudo o que é dito na parashá (a passagem da Torá)? Fica de fora o kli cheres (utensílio de barro), que não está escrito na parashá, para que o saco ensine sobre ele.

02Zeruêha: as cinco espécies e o canteiro entre os canteiros
Yerushalmi · Shabbat 9:2
זֵירוּעֶיהָ. מִיעוט זֵירוּעֶיהָ שְׁנַיִם. אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר סִיסַרְטָא. מִשְּׁנַיִם אַתְּ לָמֵד אַרְבָּעָה. מַה שְׁנַיִם אַתְּ נוֹתֵן בִּתְחִילַּת שִׁשָּׁה וּמֵיצַר וְהוֹלֵךְ. אַף אַרְבָּעָה אַתְּ נוֹתֵן בִּתְחִילַּת שִׁשָּׁה וּמֵיצַר וְהוֹלֵךְ. אֵיפְשַׁר שֶׁלֹּא יְהֵא שָׁם נֶקֶב אֶחַד פָּנוּי לִיטַּע בּוֹ אֶת הָאֶמְצָעִי. אָמַר רִבִּי יוֹנָה. עֲבוֹדָה פוֹגַעַת בָּעֲבוֹדָה. וְאֵין מִין פּוֹגֵעַ בַּחֲבֵירוֹ לְחוֹבְשׁוֹ.

Está escrito “zeruêha”: o mínimo de “zeruêha” são dois. Disse Rabi Shmuel bar Sisarta: de dois aprendes quatro: assim como, a dois, os pões no começo dos seis palmos e a faixa vai-se estreitando, também, a quatro, os pões no começo dos seis e a faixa vai-se estreitando. É possível que não haja ali um nekev (um ponto) livre para plantar nele o do meio? Disse Rabi Yoná: a avodá (o espaço de trabalho em volta da planta) toca a avodá de outra espécie, e uma espécie não toca a sua companheira de modo a aprisioná-la.

רִבִּי יְהושֻׁעַ בֶּן לֵוִי אָמַר. זַרְעָהּ זְרָעֶיהָ זֵירוּעֶיהָ. וּכְרִבִּי יְהוּדָה. דְּרִבִּי יְהוּדָה אָמַר. שִׂשָּׁה. זֶרַע זַרְעָהּ זְרָעֶיהָ זֵירוּעֶיהָ. רִבִּי חַגַּי אָמַר. זְרָעֶיהָ חֲמִשָּׁה. כָּל הָהֵן דַּאֲנָא מִשְׁכַּח לֵהּ וָו אֲנָא מְחִיק לֵהּ. אִישְׁתְּאָלַת לְרִבִּי חוּנָה סַפְרָא דְסִדְרָא וַאֲמַר. זֵירוּעֶיהָ מָלֵא. רִבִּי יוֹחָנָן בְשֵׁם רִבִּי יַנַּאי. כּוּלְּהוֹן חוּץ לְשִׁשָּׁה. אִם כּוּלְּהֹן חוּץ לְשִׁשָּׁה נִיתְנֵי. תִּשְׁעָה. אָמַר רִבִּי תַנְחוּם בּוֹצְרַיָּה. וְכֵינִי. בַּעֲרוּגָה שֶׁבָּעֲרוּגוֹת הִיא מַתְנִיתָה.

Rabi Yehoshua ben Levi disse: zarah (a sua semente), zeraêha (as suas sementes), zeruêha. E isto é conforme Rabi Yehudá, pois Rabi Yehudá disse seis: zera (semente), zarah, zeraêha, zeruêha. Rabi Chagai disse: zeraêha: cinco letras; onde quer que eu encontre um vav, eu o apago. Perguntou-se a Rabi Chuna, o safra (escriba) da sidra (a assembleia de estudo), e ele disse: zeruêha, malé (escrito com todas as letras). Rabi Yochanan disse em nome de Rabi Yanai: todos fora dos seis. Se todos ficam fora dos seis, ensine-se nove! Disse Rabi Tanchum de Botzrá (Bostra): e assim é; mas a matnita (a Mishná) é sobre o canteiro que está entre os canteiros.

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Tet de Massechet Shabbat, Amar Rabi Akiva, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 9:2 da Mishná avulsa, que vai de “de onde se aprende a respeito do barco que ele é puro” até “mas as suas sementeiras”: as duas partes, a do barco e a do canteiro, formam uma só Mishná nas duas obras. A Mishná seguinte, “de onde se aprende a respeito da que expele sêmen no terceiro dia”, é a da halachá 9:3. Há pequenas diferenças de redação: a Mishná avulsa escreve “lisfiná”, sem o artigo, onde o Yerushalmi escreve “lasefiná”; “shezorin”, onde o Yerushalmi escreve “zorin”; “zeronin”, onde o Yerushalmi escreve “zeronim”; “arbaá” e “veechad”, no masculino, e “haarugá”, com o artigo, onde o Yerushalmi escreve “arba”, “veachat” e “arugá”; e termina “zarah lo neemar, ela zeruêha”, sem o “tatzmiach” que o Yerushalmi repete nas duas formas; o sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. Como a halachá anterior, esta Mishná não trata do Shabat, e continua a série de ensinos que a Mishná prova com versículos. A seção 01 discute de onde se aprende a pureza do barco; a seção 02, como a palavra “zeruêha” ensina as cinco espécies do canteiro.

Referências conferidas. O versículo do barco é Mishlei 30:19, que diz por inteiro: “O caminho da águia no céu, o caminho da serpente sobre a rocha, o caminho do navio no coração do mar, e o caminho do homem com a donzela”. O versículo do canteiro é Yeshayahu 61:11, que continua: “assim o Senhor Deus fará germinar justiça e louvor diante de todas as nações”. O saco da seção 01 é o de Vayikra 11:32, onde se tornam impuros pelo contato com os répteis mortos “todo utensílio de madeira, ou veste, ou pele, ou saco”; o utensílio de barro não está nesse versículo, mas no seguinte, Vayikra 11:33, com outra regra. A Mishná Kelim 2:3 conta o barco entre os utensílios de barro que são puros, e a Mishná Kelim 15:1 conta como puro, entre os grandes recipientes de madeira, “o tanque do barco alexandrino”, e traz Rabi Yehudá, para quem o tanque do barco pequeno é impuro. A regra do canteiro está também na Mishná Kilayim 3:1, “o canteiro de seis palmos por seis, semeiam-se dentro dele cinco espécies, quatro nos quatro lados do canteiro e uma no meio”, onde Rabi Yehudá diz, sobre o canteiro com borda, “seis no meio”; e na Tosefta Kilayim 2:10, na numeração do Sefaria (não se conferiu ali a edição de Lieberman): “é permitido fazer dentro do seu campo canteiros pequenos de seis por seis palmos, e pôr neles cinco espécies cada um, quatro nos quatro lados do canteiro e uma no meio”. A seção 02 tem paralelo no Yerushalmi de Kilayim 3:1, segundo segmento na numeração do Sefaria, com pequenas diferenças. No Bavli, a Mishná do barco está em Shabbat 83b, e a guemará ali começa como a nossa: “é evidente, um navio no coração do mar! Ensina-nos: como o mar; assim como o mar é puro, também o barco é puro”; traz Chananiá, que aprende do saco, que se carrega cheio e vazio, e exclui o barco, que não se carrega cheio; e diz que a diferença entre as duas razões é o barco de barro, como dizem aqui os rabinos de Cesareia, ou o barco do Yarden, que se carrega em terra e se desce à água, como explica Rabi Chanina ben Akavia. Em 84a, traz a baraita de Rabi Yossi sobre o barco. A Mishná do canteiro está no Bavli em Shabbat 84b, onde Rav Yehudá chega a cinco contando as palavras do versículo; em 85a, Rav diz que a Mishná fala do canteiro numa terra devastada; e em 85b, Shmuel diz: “do canteiro entre os canteiros ensinamos”, como Rabi Tanchum aqui; objeta-se que as espécies se misturariam, e responde-se: quando inclina uma fileira para um lado e outra para o outro.

Observações de leitura. “Puro”, a respeito do barco, quer dizer que ele não recebe impureza, embora seja um utensílio. Na seção 01, a frase dos rabinos de Cesareia, “isto trata do barco de barro”, é concisa; entende-se, como no Bavli, que o barco de barro é o caso em que as duas razões divergem: pelo mar, também ele é puro; pelo saco, que não ensina sobre o utensílio de barro, não se aprende dele a pureza. “Não ensina o saco sobre tudo o que é dito na parashá?” segue a forma do hebraico, “ma hasak eino melamed”; entende-se que o saco ensina somente sobre o que está escrito na passagem. Na seção 02, a primeira frase se apoia no plural “zeruêha”, cujo mínimo é dois; Rabi Shmuel bar Sisarta estende de dois a quatro, porque cada espécie, posta junto a um lado, vai estreitando para o centro. “É possível que não haja ali um ponto livre?” traduz “efshar shelo yehe sham nekev echad panui”, pergunta retórica: haverá sempre um ponto livre para a quinta espécie; o paralelo de Kilayim escreve “ei efshar”, “é impossível”. Rabi Yehoshua ben Levi e Rabi Yehudá contam as espécies pelas formas da palavra: o primeiro cita três, e o segundo, quatro; seis é o número de Rabi Yehudá na Mishná Kilayim 3:1, “seis no meio”; como cada lista chega ao seu número não está explicado no texto. A conta de Rabi Chagai é a das letras: sem o vav, a palavra tem cinco letras; Rabi Chuna responde que no versículo ela está escrita com todas as letras. A frase de Rabi Yochanan em nome de Rabi Yanai está incompleta aqui: no paralelo de Kilayim, lê-se “Rabi Yochanan em nome de Rabi Yanai: todos dentro dos seis; Kahana em nome de Rabi Shimon ben Lakish: todos fora dos seis”, e só então “se todos ficam fora dos seis, ensine-se nove”; seguimos o hebraico como está. O paralelo de Kilayim escreve também “Rav Huna”, onde aqui se lê “Rabi Chuna”; “zeriêha” como a primeira palavra de Rabi Yehoshua ben Levi, onde aqui se lê “zarah”; e “zeruêha chamishá” na palavra de Rabi Chagai, onde aqui se lê “zeraêha”. “O canteiro entre os canteiros” é o que está cercado por outros canteiros, e por isso os cantos não se podem semear.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer lê as duas primeiras frases da seção 01 como “tinhas de aprender do mar? não aprendeste do saco?”, observa que é irregular tirar uma lei dos Escritos, e explica o saco por Vayikra 11:32: só é impuro o recipiente que se pode carregar cheio e vazio. Ele traduz “ma hasak eino melamed” como “o saco ensina somente sobre o que está escrito na passagem”. Na seção 02, traduz “efshar” como “é impossível”, e diz que esta é a forma correta do Yerushalmi; mantivemos a forma de pergunta. Ele completa entre colchetes, a partir de Kilayim, a frase que falta, “todos dentro dos seis; Kahana em nome de Rabi Shimon ben Lakish”; aqui o hebraico não a traz, e a deixamos para esta nota. Ele explica a palavra de Rabi Yoná assim: cada espécie precisa de uma faixa de trabalho à sua volta, mas a mesma faixa serve a duas espécies; e que, para Rabi Yehoshua ben Levi, cada mudança na palavra, o plural, o sufixo e o vav, conta como um plural. Ele remete a palavra de Shmuel no Bavli a Shabbat 86b; no Sefaria, ela está em Shabbat 85b, e assim a citamos.