Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Chet · Halachá 7 (última do perek)
שַׁבָּת

Cheres kedei litten bein patzim: o caco de barro e o santificar das águas

Perek Chet, HaMotzi Yayin, Halachá 7, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat — encerramento do capítulo

Sétima e última halachá do Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin. A Mishná dá a última das medidas mínimas pelas quais é culpado quem transporta no Shabat: o caco de barro, o suficiente para pôr entre as vigas empilhadas, segundo Rabi Yehudá; para revolver o fogo, segundo Rabi Meir; para conter uma reviit, segundo Rabi Yossi; e os dois últimos discutem o versículo de Yeshayahu sobre o caco que não se acha entre os pedaços. A guemará passa do Shabat às águas da purificação: Rabi Yochanan diz que se santificam as cinzas da vaca vermelha num caco por mínimo que seja, e Rabi Shimon ben Lakish diz que não; Rabi Elazar procura a razão deste, e ela se acha em que o caco não tem o nome de utensílio; e a dificuldade contra Rabi Yochanan se resolve, e se reabre, pela palavra de Rabi Yossi sobre o barro, terminando com duas baraitot, uma em apoio de cada lado. Com ela se encerra o Perek Chet, HaMotzi Yayin; o tratado continua no Perek Tet, Amar Rabi Akiva. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 82a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

חֶרֶס כְּדֵי לִיתֵּן בֵּין פַּצִּים לַחֲבֵרוֹ דִּבְרֵי רִבִּי יְהוּדָה. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר כְּדֵי לַחְתּוֹת בּוֹ אֶת הָאוּר. רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר כְּדֵי לְקַבֵּל רְבִיעִית. אָמַר רִבִּי מֵאִיר אַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר זֵכֶר לַדָּבָר לֹא יִמָּצֵא בִמְכִתָּתוֹ חֶרֶשׂ לַחְתּוֹת אֵשׁ מִיָּקוּד. אָמַר לוֹ רִבִּי יוֹסֵי מִשָּׁם רְאָיָה לַחְשׂוֹף מַיִם מִגֶּבֶא:

Mishná: Quem transporta um caco de barro de um domínio a outro no Shabat é culpado se transportar o suficiente para pôr entre um patzim (viga empilhada) e o seu companheiro; são palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: o suficiente para lachtot (revolver) com ele o fogo. Rabi Yossi diz: o suficiente para conter uma reviit (um quarto de log). Disse Rabi Meir: embora não haja prova para a coisa, há uma alusão à coisa: “Não se achará entre os seus pedaços um caco para revolver o fogo da lareira” (Yeshayahu 30:14). Disse-lhe Rabi Yossi: dali se tira a prova: “para tirar água do charco” (Yeshayahu 30:14).

A Halachá · הֲלָכָה ז

01Santificar num caco: Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish
Yerushalmi · Shabbat 8:7
חֶרֶשׂ (כָּל שֶׁהוּא) כְּדֵי לִיתֵּן בֵּין פַּצִּים כול׳. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר. מְקַדְּשִׁין בּוֹ. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר. אֵין מְקַדְּשִׁין בּוֹ. רִבִּי לָעְזָר שָׁאַל. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ. לָמָּה אֵין מְקַדְּשִׁין בּוֹ. מִפְּנֵי שֶׁאֵינוֹ מִקַבֵּל טוּמְאָה. הֲרֵי כְלֵי גְלָלִים וּכְלֵי אֲבָנִים וּכְלֵי אֲדָמָה הֲרֵי אֵינָן מְקַבְּלִין טוּמְאָה וּמְקַדְּשִׁין בָּהֶן. אֶלָּא מִשּׁוּם שֶׁאֵינוֹ מְקַבֵּל רְבִיעִית. וְלֹא מוֹדֶה רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ בִּכְלִי חֶרֶשׂ קָטָן שָׁלֵם כָּל שֶׁהוּא שֶׁמְּקַדְּשִׁין בּוֹ. הֲוֵי לֵית טַעֲמֵיהּ אֶלָּא מִשּׁוּם שֶׁאֵין עָלָיו תּוֹאַר כֶּלִי.

“Um caco de barro, por mínimo que seja, o suficiente para pôr entre os patzim” etc. Rabi Yochanan disse: mekadshin (santifica-se, pondo as cinzas da vaca vermelha na água) com ele. Rabi Shimon ben Lakish disse: não se santifica com ele. Rabi Elazar perguntou: segundo a opinião de Rabi Shimon ben Lakish, por que não se santifica com ele? Será porque o caco não recebe tumá (impureza)? Eis que os utensílios de esterco, os utensílios de pedra e os utensílios de terra, eis que eles não recebem impureza, e mesmo assim se santifica com eles! Mas será porque o caco não contém uma reviit. E acaso não concorda Rabi Shimon ben Lakish, quanto a um utensílio de barro pequeno, inteiro, por mínimo que seja, que se santifica com ele? Logo, a sua razão não é senão porque não há sobre o caco o toar keli (o nome de utensílio).

02A dificuldade contra Rabi Yochanan e a palavra de Rabi Yossi
Yerushalmi · Shabbat 8:7
וְקַשְׁיָא עַל דְּרִבִּי יוֹחָנָן. לִפְסוֹל אֶת הִגְּוִיָיה אֵינוֹ פוֹסֵל. וּלְקַדֵּשׁ מְקַדְּשִׁין בּוֹ. אֶלָּא כְּרִבִּי יוֹסֵה. דְּרִבִּי יוֹסֵה אָמַר. אַף שֶׁלְּחֶרֶשׂ כָּל שֶׁהוּא. כְּלוּם אָמַר רִבִּי יוֹסֵי לֹא בְשָׁלֵם. דִּילְמָא בְּשָׁבוּר אֲנַן קַיָימִין. תַּנֵּי רִבִּי חִיָיה מְסַיֵיעַ לְרִבִּי יוֹחָנָן. תַּנֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי מְסַיֵיעַ לְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ.

E é difícil para a opinião de Rabi Yochanan: para desqualificar a gviyá (o corpo), isso não desqualifica, e para santificar, santifica-se com ele? Mas ele segue Rabi Yossi, pois Rabi Yossi disse: “também o de barro, por mínimo que seja”. Acaso Rabi Yossi não o disse do utensílio inteiro? E talvez nós estejamos tratando aqui do quebrado! O que Rabi Chiya ensinou apoia Rabi Yochanan; o que Rabi Shimon ben Yochai ensinou apoia Rabi Shimon ben Lakish.

Nota

Esta é a sétima e última halachá do Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin, e corresponde inteira à Mishná Shabbat 8:7 da Mishná avulsa, que é também a última Mishná do capítulo, como já se disse na nota da halachá 8:6. Há pequenas diferenças de redação: a Mishná avulsa diz “para conter nele uma reviit”, onde o Yerushalmi não traz “nele”; cita o versículo com a conjunção, “e não se achará”, onde o Yerushalmi diz “não se achará”; e escreve “e para tirar água”, também com a conjunção, onde o Yerushalmi diz “para tirar água”. A Mishná é a última das medidas mínimas do transporte que o capítulo enumerou desde o vinho, e o caco de barro é medido pelo seu uso: pôr entre as vigas, revolver o fogo ou conter água. A guemará não discute estas medidas; parte das palavras “caco, por mínimo que seja” e trata de outra lei, a do santificar das águas da purificação, isto é, pôr as cinzas da vaca vermelha na água corrente num utensílio. A seção 01 traz a discussão entre Rabi Yochanan, que permite fazê-lo num caco de qualquer tamanho, e Rabi Shimon ben Lakish, que o proíbe; Rabi Elazar procura a razão deste último, e a guemará afasta duas razões, a de que o caco não recebe impureza e a de que não contém uma reviit, e conclui que é porque o caco não tem o nome de utensílio. A seção 02 objeta contra Rabi Yochanan, a partir da reviit que desqualifica, e responde que ele segue Rabi Yossi, que considera utensílio também o de barro por mínimo que seja; mas a guemará observa que Rabi Yossi falou do utensílio inteiro, e aqui se trata de um quebrado. A halachá termina com duas tradições tanaíticas, uma em apoio de cada um, sem decidir.

Referências conferidas. O versículo citado por Rabi Meir e por Rabi Yossi é Yeshayahu 30:14, “e o quebrará como se quebra o cântaro dos oleiros, despedaçado sem piedade, e não se achará entre os seus pedaços um caco para revolver o fogo da lareira e para tirar água do charco”; Rabi Meir cita a primeira parte, e Rabi Yossi responde com a segunda. Que o santificar se faz num utensílio aprende-se de Bamidbar 19:17, “e porá sobre ele água corrente, num utensílio”; e a Mishná Pará 5:5 ensina: “em todos os utensílios se santifica, mesmo em utensílios de esterco, em utensílios de pedra e em utensílios de terra”, e “não se enche, não se santifica e não se asperge a água da purificação senão num utensílio”; é dela que Rabi Elazar tira a objeção da seção 01. A Mishná Meilá 4:5 ensina: “todos os líquidos se somam para desqualificar o corpo numa reviit”; é a lei a que se refere a objeção da seção 02. A palavra de Rabi Yossi, “também o de barro, por mínimo que seja”, está na Mishná Mikvaot 4:3, sobre quem cava uma cavidade numa calha para recolher seixos: “na de madeira, por mínimo que seja; na de barro, uma reviit; Rabi Yossi diz: também na de barro, por mínimo que seja; não disseram uma reviit senão dos cacos de utensílios de barro”; daí a observação da guemará de que Rabi Yossi falou do inteiro. O ensino que apoia Rabi Yochanan está na Tosefta Kelim Bava Kama 7:10, na numeração do Sefaria: “os cacos de utensílios de barro que contêm mesmo por mínimo que seja, enche-se com eles, santifica-se com eles e asperge-se deles”; a baraita de Rabi Shimon ben Yochai não se achou. No Bavli, esta Mishná está em Shabbat 82a, depois da discussão das pedras para limpar-se; ali a guemará pergunta qual das medidas é maior, a de Rabi Meir ou a de Rabi Yossi, e responde que, pelo raciocínio, a de Rabi Yossi, e, pelo versículo, a de Rabi Meir, pois o profeta não amaldiçoaria com o utensílio pequeno e depois com o grande; e lê a resposta de Rabi Yossi como pergunta: “dali há prova?”. Logo depois, na mesma página, o Bavli encerra o capítulo HaMotzi Yayin e começa a Mishná Shabbat 9:1. Rashi ali explica os patzim: quando se arrumam vigas e colunas no chão e há um vão entre uma e outra, põe-se o caco por baixo para que não se entortem.

Observações de leitura. A guemará abre com as palavras “cheres kol shehu”, “caco, por mínimo que seja”, e no hebraico as palavras “kol shehu” estão entre parênteses: o corretor do manuscrito as marcou para apagar, fazendo da frase a citação da Mishná, “caco, o suficiente para pôr entre os patzim” etc. Guggenheimer, seguindo Lieberman, entende que a leitura original é a do copista e que a frase cita uma baraita semelhante à da Tosefta de Kelim, porque é desse caco de qualquer tamanho que trata a discussão; mantivemos o hebraico como está, com o parêntese, e traduzimos as duas partes. “Mekadshin” é o termo técnico para pôr as cinzas da vaca vermelha na água corrente, e não tem aqui o sentido de qualquer outra santificação. Na seção 01, “miqabel”, com hiriq, é grafia do nosso hebraico para “mekabel”, recebe. A frase “e não concorda Rabi Shimon ben Lakish” é pergunta retórica: entende-se que ele concorda que um utensílio de barro pequeno e inteiro serve, e por isso a sua razão não pode ser a reviit. Na seção 02, a objeção é concisa: entende-se que, assim como menos de uma reviit de líquido não desqualifica o corpo, também um caco que não contém uma reviit não deveria valer como utensílio para santificar; Lieberman, seguindo o Noam Yerushalaim, segundo relata Guggenheimer, propõe ler “mikvê” em vez de “gviyá”, ligando a objeção à Mishná Mikvaot 4:3, onde a cavidade de barro numa calha só conta como receptáculo com uma reviit; traduzimos o que está escrito. O hebraico escreve “hig’viyá”, com hiriq, por “hagviyá”. O nome Rabi Yossi aparece no hebraico desta halachá ora como “Yossé”, ora como “Yossi”, e traduzimos sempre “Rabi Yossi”; “Rabi Lazar” é Rabi Elazar. Na Mishná, “dali se tira a prova” segue a leitura de Guggenheimer, em que Rabi Yossi responde que o fim do versículo prova a medida da reviit; o Bavli lê a frase como pergunta, e o hebraico do Yerushalmi admite as duas leituras.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “patzim” por “meio-tijolo”; seguimos Rashi, vigas empilhadas. Ele cita a Tosefta de Kelim como Bava Kama 7:17; no Sefaria, o texto está em 7:10, e assim o citamos. Traduz “ein alav toar keli” por “não tem o nome de utensílio”, como nós; e, na seção 02, traduz “gviyá” por “corpo” e discute a emenda em nota, como fizemos aqui.

A Mishná seguinte, Shabbat 9:1, abre o Perek Tet, Amar Rabi Akiva: “Disse Rabi Akiva: de onde se aprende que a idolatria torna impuro pelo carregar, como a nidá?”, e responde com o versículo “tu os espalharás como coisa impura; ‘fora!’, lhe dirás” (Yeshayahu 30:22).

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin (הַמּוֹצִיא יַיִן).