Sexta halachá do Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin. A Mishná continua as medidas mínimas pelas quais é culpado quem transporta no Shabat: o osso, o suficiente para fazer uma colher, ou, segundo Rabi Yehudá, um chaf; o vidro, o suficiente para raspar a ponta da vara do tecelão; e o seixo, o suficiente para atirar no pássaro, ou, segundo Rabi Eliezer ben Yaakov, no animal. A guemará explica o chaf como o dente da chave e o confronta com a Mishná de Kelim; confronta o vidro que raspa com os cacos de vidro que recebem azeite; exige, em nome de Rabi Yochanan, que o pássaro sinta a pedra; e reúne as regras das pedras com que alguém se limpa, do caco de barro, da água e da lasca de cana que não servem para isso. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 81a.
Mishná: Quem transporta osso de um domínio a outro no Shabat é culpado se transportar o suficiente para fazer um tarvad (colher); Rabi Yehudá diz: o suficiente para fazer um chaf (dente de chave). Vidro, o suficiente para raspar com ele a cabeça do karkad (a vara pontuda do tecelão). Um seixo de pedra, o suficiente para atirar no pássaro; Rabi Eliezer ben Yaakov diz: o suficiente para atirar no animal.
Na Mishná: “Osso, o suficiente para fazer um tarvad; Rabi Yehudá diz: o suficiente para fazer um chaf.” O que é chaf? Sargid (a chave, ou o seu dente). Lá ensinamos na Mishná: “Se foram tirados os chafin (os dentes da chave), ela é tamê (impura) por causa dos nekavim (os furos); se foram tapados os furos, é impura por causa dos chafin.” A posição de Rabi Yehudá está trocada: lá ele faz do chaf um kelut (peça saliente, ao que parece), e aqui ele faz do chaf um sargid.
Na Mishná: “Vidro, o suficiente para raspar com ele a cabeça do karkad.” Lá se ensina: “e os cacos de vidro, o suficiente para derramar dentro deles azeite”; e aqui tu dizes assim, que basta para raspar? Rabi Acha, Rabi Maisha e Rabi Kohen, em nome dos rabinos de Cesareia: num caso, quando o vidro é grosso; no outro, quando é afiado. Há quem queira dizer: num caso, quem move o caco; no outro, quem o transporta para fora.
Na Mishná: “Um seixo de pedra, o suficiente para atirar no pássaro.” Shimon bar Ba, em nome de Rabi Yochanan: o suficiente para que alguém o atire atrás do pássaro e este o sinta. E do mesmo modo, na palavra de Rabi Eliezer ben Yaakov: o suficiente para que alguém o atire atrás do animal e este o sinta.
Ensina-se: um seixo mekurzal (liso, ao que parece), como uma azeitona, como uma noz ou como um ovo, a pessoa o toma e limpa com ele os seus pés. Rabi Yishmael beRabi Yossi disse, em nome do seu pai: até a mão cheia. Rav Yehudá disse: Boetos ben Zonin estava sentado e estudava diante de Rabi. Disse: assim dizemos nós: é preciso que a pessoa esteja sentada e pese a pedra na mão. Disse-lhe: tudo é permitido, exceto o que é feito como uma chafissá (bolsinha).
Rabi Ila, em nome de Rabi Yanai: o seixo pode ser como a medida cheia do pé de um pilão pequeno do basam (o perfumista). Disse Rabi Yossi: não disseram senão o pilão de perfume; mas o de especiarias, não. Rabi Ila, em nome de Rabi Shimon ben Lakish: um seixo no qual cresceram ervas, a pessoa o toma e limpa com ele os seus pés; e quem arranca as ervas dele no Shabat é obrigado a trazer uma chatat (oferta pelo pecado).
Rabi Chiya ensinou: com um caco de barro, por mínimo que seja, é proibido limpar-se. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: não só um caco é proibido, mas até as asas das talhas o são, e toda coisa que entra no fogo e dele sai também. Rabi Yossi ben Yossi disse: um seixo com o qual o seu companheiro já se limpou, e água na qual não há quarenta seá (a medida do micvê), é proibido limpar-se com eles. Rabi Chananiá, em nome de Rabi Mana: água que o cão lambeu, é proibido limpar-se com ela.
E assim se ensina, numa baraita: não se limpa nem na boca do cão, nem estando diante do cão, nem com água que o cão lambeu, nem com água na qual não há quarenta seá. E aquele que se lava dentro do bivanei (o balneário, ao que parece), e aquele que se lava na ambatitá (a banheira), isso é mau para os tabaot (os anéis do ânus). Rabi Yossi beRabi Bun, em nome de Rav Huna: cinco coisas foram ditas sobre a kalomit (a lasca cortante) de cana: não se abate o animal com ela, nem se circuncida o menino com ela, nem se palitam com ela os dentes, nem se corta com ela a carne sobre a mesa, nem se limpa alguém com ela, porque um espírito mau repousa sobre ela.
Esta é a sexta halachá do Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin. A sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 8:6 da Mishná avulsa, como já se disse na nota da halachá 8:5, com pequenas diferenças de redação: a Mishná avulsa diz “para fazer dele um chaf”, onde o Yerushalmi não traz “dele”; “para raspar com ele a cabeça do karkar”, onde o Yerushalmi escreve “ligrod” e “karkad”; “um seixo ou uma pedra”, onde o Yerushalmi diz “um seixo de pedra”; e “Rabi Eliezer bar Yaakov”, onde o Yerushalmi diz “ben Yaakov”. A Mishná avulsa 8:7, sobre o caco de barro, corresponde à Mishná da halachá 8:7 do Yerushalmi, que começa com as mesmas palavras. No Bavli, esta Mishná abre Shabbat 81a, e a guemará sobre ela, que inclui a longa discussão das pedras para limpar-se, vai até Shabbat 82a, onde começa a Mishná do caco de barro.
Referências conferidas. Na seção 01, a Mishná citada é Kelim 14:8, sobre a chave: “se foram tirados os chafin, é impura por causa dos furos; se foram tapados os furos, é impura por causa dos chafin”; a frase em si é anônima, mas a mesma Mishná traz, logo no começo, uma opinião de Rabi Yehudá sobre a chave. O Bavli, em Shabbat 81a, estranha que a medida de Rabi Yehudá seja maior que a dos sábios, e Ulla responde: “os chafin da fechadura”; e traz a baraita: “os chafin da fechadura são puros; se os fixou na fechadura, são impuros”. Ali Rashi explica que, a princípio, se pensava que o chaf fosse a própria chave. Na seção 02, a palavra “lá se ensina” é a Mishná Shabbat 17:5, na opinião de Rabi Yehudá: “contanto que façam algo semelhante ao seu próprio trabalho: os cacos de uma gamela, para derramar neles papa, e os de vidro, para derramar neles azeite”; não é uma Mishná de Kelim. Sobre o vidro, o Bavli, em Shabbat 81a, ensina: “sechuchit, o suficiente para fender com ela dois fios de uma vez”, e a Tosefta Shabbat 8:21, na numeração da edição Lieberman no Sefaria, traz o mesmo em nome de “outros”. Na seção 03, o Bavli, em Shabbat 81a, diz: “disse Rabi Yaakov, disse Rabi Yochanan: e isso, desde que ela o sinta”, e ensina em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov a medida de “o peso de dez zuz”; a Tosefta Shabbat 8:22, na mesma numeração, traz “o peso de dez dinares”. O Yerushalmi traz a palavra de Rabi Yochanan por Shimon bar Ba; o Bavli, por Rabi Yaakov. Na seção 04, a baraita está na Tosefta Shabbat 13:17, na mesma numeração, em nome de Rabi Yossi: “um seixo mekurzal como uma azeitona, como uma noz e como um ovo, toma-o e limpa com ele os seus pés”, e Rabi Yishmael beRabi Yossi, em nome do pai, diz “a mão cheia”; o Yerushalmi a traz sem nome. O Bavli, em Shabbat 81a, conta que Zonin entrou na casa de estudo e perguntou a medida das pedras do lugar de evacuar; responderam-lhe como uma azeitona, uma noz e um ovo, e ele objetou: “e acaso há de levar consigo turtanei?”; “contaram-se e concluíram: a mão cheia”. Ali mesmo a medida da mão cheia está em nome de Rabi Shimon beRabi Yossi, em nome do pai; e Rabi Yanai diz: “se há lugar fixo para evacuar, a mão cheia; se não, como o hechrea de um pilão pequeno de especiarias”. Ali também, entre as dez coisas que trazem hemorroidas, está “quem se limpa com um seixo com que o seu companheiro se limpou”. Em Shabbat 81b, a palavra de Rabi Shimon ben Lakish vem quase igual, “um seixo no qual cresceram ervas, é permitido limpar-se com ele, e quem arranca dele no Shabat é obrigado a trazer uma chatat”, e Rabi Yochanan diz: “é proibido limpar-se com um caco no Shabat”. Em Shabbat 82a, Rafram explica que o caco permitido é o das “bordas dos utensílios”, e a baraita diz: “quem se limpa com coisa sobre a qual o fogo domina, caem-lhe os dentes de baixo”. As cinco coisas da kalomit estão no Bavli, em Chulin 16b, em nome de Rav Chisda, em nome de Rabi Yitzchak, ou como baraita, sob o nome “krumit shel kané”: não se abate, não se circuncida, não se corta carne, não se palitam os dentes e não se limpa com ela; ali não se diz “sobre a mesa” nem se dá a razão do espírito mau.
Observações de leitura. “Os seus pés” é eufemismo do próprio texto para limpar-se depois de evacuar, e foi mantido; entende-se pelo contexto que se fala do Shabat, em que a pedra, que não é utensílio, só se toma por esta necessidade. Na Mishná, “karkad” é a grafia do Yerushalmi, onde a Mishná avulsa e o Bavli leem “karkar”; Rashi explica: uma vara dos tecelões cuja ponta é aguda. Na seção 01, “sargid” é palavra rara, e a glosa segue o contexto e o Bavli; “kelut” é leitura incerta, e Guggenheimer corrige para “belut”, saliência; a pergunta parece ser que, em Kelim, o chaf é uma peça saliente da chave e, aqui, a própria chave, e a guemará não responde. Na seção 02, “num caso… no outro” traduz “kan… kan”, que não diz qual caso é qual; entende-se que um caco afiado basta para raspar e que um caco grosso serve para receber azeite; e, na segunda resposta, que a Mishná de Shabbat 17:5 trata de mover os cacos dentro do domínio, e a nossa, de transportá-los de um domínio a outro. Na seção 03, “atrás do pássaro” traduz “laachorei haof”, que também pode ser “nas costas do pássaro”; entende-se, com Rashi no Bavli, que se atira a pedra para espantar o pássaro. Na seção 04, “mekurzal” é de sentido incerto, e a glosa segue Guggenheimer; não se diz no texto quem fala em “disse: assim dizemos”, e entende-se que é Boetos ben Zonin e que quem lhe responde é Rabi, mas o texto não os nomeia; a frase de Boetos também pode ser lida como pergunta. “Pese na mão” traduz “meshakel bayad”. A distinção de Rabi Yossi entre “bossem” e “bessamim” é obscura; entende-se que se trata do pilão pequeno do perfume e não do pilão maior das especiarias. “Na boca do cão” traduz literalmente “befi hakelev”, de sentido incerto. “Bivanei” e “ambatitá” são palavras do aramaico de Israel, a segunda do grego; “tabaot”, literalmente “anéis”, designa o ânus. No fim, o hebraico escreve “sheruach” com a letra sin; e “Rav Huna” traduz “Rav Chuná”, grafado com chet.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer traduz “sargid” por “chave”, e “kelut” pela sua correção “belut”. Na seção 02, traduz “kan… kan” por “aqui… ali”, atribuindo cada caso a uma das Mishnayot; seguimos o hebraico, que não atribui. Na seção 04, traduz “meshakel bayad” por “tomá-la na mão”; seguimos o hebraico, “pesar na mão”, que se liga à objeção de Zonin no Bavli; e anota que o Bavli, em Shabbat 82a, discorda quanto às asas das talhas; o que ali se conferiu é que Rafram permite o caco das bordas dos utensílios.