Quarta e última halachá do Perek Zayin de Massechet Shabbat, Klal Gadol. A Mishná dá as medidas mínimas que obrigam quem transporta no Shabat: a teven, quanto enche a boca de uma vaca; a etzá, a de um camelo; o amir, a de um cordeiro; as asavim, a de um cabrito; as folhas de alho e de cebola, frescas, na medida de um figo seco, e secas, quanto enche a boca de um cabrito; estas não se somam umas com as outras, porque as suas medidas não são iguais, mas os alimentos, cuja medida é sempre a do figo seco, se somam, exceto as cascas, os caroços, os pedúnculos e o farelo, e Rabi Yehudá faz exceção para as cascas das lentilhas que se cozinham com elas. A guemará ensina que o que tem a medida mais rigorosa completa a medida do mais leve, e não o contrário; compara com o pano, o saco, o couro e a esteira, que se somam para a impureza do assento; traz a baraita de Rabi Hoshayá sobre a palha levada para a vaca e para o cabrito, e a pergunta de Rabi Yochanan sobre o alimento levado para o doente; e termina distinguindo as lentilhas vermelhas das pretas. Com ela se encerra o Perek Zayin, Klal Gadol; o tratado continua no Perek Chet, HaMotzi Yayin. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 76a.
Mishná: Quem transporta teven (palha) no Shabat é obrigado se transportou quanto enche a boca de uma vaca; etzá (forragem), se transportou quanto enche a boca de um camelo; amir (feixe de cereal), quanto enche a boca de um cordeiro; asavim (ervas), quanto enche a boca de um cabrito; folhas de alho e folhas de cebola, frescas, na medida de uma grogeret (figo seco); secas, quanto enche a boca de um cabrito; e estas coisas não se somam umas com as outras, porque não são iguais nas suas medidas. Quem transporta alimentos na medida de uma grogeret: eles se somam uns com os outros, porque são iguais nas suas medidas, exceto as suas kelipim (cascas), os seus garinim (caroços), os seus uktzim (pedúnculos), o seu subin (farelo grosso) e o mursan (farelo fino). Rabi Yehudá diz: exceto as cascas das lentilhas, que se cozinham com elas.
Sexta parte do capítulo. Rabi Yona disse: Rabi Yossi Galilaya disse em nome de Rabi Yossi ben Chanina: o que tem a medida mais rigorosa completa a medida do que é mais leve; o mais leve não completa a medida do mais rigoroso. As asavim (ervas) completam a medida da teven (palha); a palha não completa a medida das ervas. Ali, na Mishná de Meilá, ensinamos: “o pano e o saco, o saco e o couro, o couro e a esteira se somam uns com os outros. Rabi Shimon diz: é porque são aptos a se tornar impuros como assento”. Rabi Yirmeyá perguntou: está bem que se somem para a impureza do assento, pois para o assento são iguais, na medida de um palmo; mas no hesek, de onde se sabe que se somam? Rabi Ezra disse diante de Rabi Mana: somam-se porque são iguais no hesek. Ele lhe disse: nós perguntamos sobre a hotzaá (transporte), e tu dizes hesek? Rabi Elazar bar Yossi disse diante de Rabi Yossi: somam-se porque são iguais no hesek. Ele lhe disse: então ensinemos: “na hotzaá de um copo pequeno”? Rabi Chananyá disse: a kufda (carne) completa a medida da pista; a pista não completa a medida da kufda; assim também as ervas completam a medida da palha, e a palha não completa a medida das ervas. Rabi Hoshayá ensinou: se alguém transportou palha para uma vaca, quanto enche a boca de uma vaca, ou transportou palha para um cabrito, quanto enche a boca de um cabrito, é obrigado. Rabi Ila disse: Rabi Yochanan perguntou: a partir de agora, se alguém transportou alimentos para um doente, quanto enche a boca de um doente, será obrigado? Rabi Hoshayá concorda que, se alguém transportou palha para uma vaca, quanto enche a boca de um cabrito, está isento, para que não penses que, assim como ele tem esta regra para o rigor, a tem também para a leniência. Rabi Bun beRabi Chiya perguntou: considera o caso em que não há no cozido a medida de uma grogeret (figo seco); e acaso a medida de uma grogeret anula a medida de uma grogeret?
Zeir bar Chinena disse em nome de Rabi Chanina: isto que tu dizes, que as cascas das lentilhas que se cozinham com elas se somam, vale para as lentilhas vermelhas; mas, nas pretas, as cascas se separam delas.
Esta é a quarta e última halachá do Perek Zayin de Massechet Shabbat, Klal Gadol, e corresponde à Mishná Shabbat 7:4 da Mishná avulsa, que é também a última Mishná do capítulo. A halachá anterior terminou com o exemplo dos rabanan de Kessarin: a regra se aplica ao moch que a mulher preparou para a sua nidá. Esta continua com as medidas mínimas do transporte e diz quanto de cada coisa obriga quem a transporta no Shabat: a forragem dos animais se mede pela boca do animal que a come, e os alimentos do homem, pelo figo seco. A seção 01 explica que, quando se transportam juntas coisas de medidas diferentes, o que tem a medida mais rigorosa, isto é, a menor, completa a medida do que é mais leve, cuja medida é maior: as ervas, cuja medida é a boca de um cabrito, completam a medida da palha, que é a boca de uma vaca, mas a palha não completa a medida das ervas. Assim se entende o fim da primeira parte da Mishná: as coisas de medidas diferentes não se somam para a medida menor, embora se somem para a maior. Para isso a guemará traz a Mishná de Meilá sobre o pano, o saco, o couro e a esteira, que têm medidas diferentes para a impureza e ainda assim se somam, porque todos servem de assento; Rabi Yirmeyá pergunta em que essas coisas seriam iguais quando se trata do transporte do Shabat, como são iguais para o assento, e as respostas falam de um hesek em que seriam iguais. A baraita de Rabi Hoshayá ensina que quem leva palha para um cabrito é obrigado já com a boca de um cabrito, porque se mede pelo animal para o qual se leva; Rabi Yochanan pergunta se, então, quem leva alimento para um doente que come pouco seria obrigado pelo que enche a boca do doente; e a guemará esclarece que Rabi Hoshayá não usa essa regra para tornar mais leve a medida da palha levada para uma vaca. A seção 02 explica a palavra de Rabi Yehudá sobre as cascas das lentilhas: elas se somam com as lentilhas quando estas são vermelhas, e ao que parece porque se comem com elas, mas as cascas das pretas se separam, e por isso não se somam.
Referências conferidas. A Mishná desta halachá é a Mishná Shabbat 7:4 do Sefaria, a última do capítulo 7; a seguinte é a Mishná Shabbat 8:1. O que a guemará cita como “ali ensinamos” é a Mishná Meilá 4:6, com as mesmas palavras, inclusive a de Rabi Shimon. As medidas do pano, do saco, do couro e da esteira estão na Mishná Kelim 27:2: o pano, três palmos por três para a impureza do midras, o saco, quatro por quatro, o couro, cinco por cinco, e a esteira, seis por seis. No Bavli, a primeira parte desta Mishná, até “porque não são iguais nas suas medidas”, aparece como matnitin em Shabbat 76a. Ali Rav Yehudá explica que a etzá é a palha das leguminosas; Rav Dimi relata uma discussão entre Rabi Yochanan e Reish Lakish sobre quem leva palha, quanto enche a boca de uma vaca, para um camelo, e Ravin relata que nisso todos concordam que é obrigado, e que discutem sobre quem leva etzá, quanto enche a boca de uma vaca, para uma vaca. Ali também Rabi Yossi bar Chanina diz que as coisas de medidas diferentes não se somam para a mais rigorosa delas, mas se somam para a mais leve, que é o ensino da seção 01 em nome de Rabi Yossi ben Chanina; e o Bavli pergunta, a partir do pano, do saco, do couro e da esteira, como se somam coisas de medidas diferentes, e Rava responde no começo de Shabbat 76b. A segunda parte da Mishná, a dos alimentos, aparece no Bavli como outra matnitin em Shabbat 76b, onde a guemará distingue entre as lentilhas novas e as velhas, e Rabi Abahu explica que as cascas das velhas não se somam porque parecem moscas no prato; logo depois o Bavli encerra o capítulo Klal Gadol e começa a Mishná Shabbat 8:1. Guggenheimer menciona a Mishná Shabbat 8:6, onde a medida do osso é o bastante para fazer uma colher, para explicar a palavra pista. Nesta halachá não há versículos citados.
Observações de leitura. A guemará começa com a letra “vav”, que é a marca de divisão da edição: segue a letra “he” do começo da halachá anterior e marca a sexta parte do capítulo; não faz parte das palavras dos sábios, e por isso a traduzimos apenas como indicação, na seção 01. A palavra hesek, escrita no hebraico ora com yod, ora sem ele, é de sentido incerto; pode estar ligada a hasaká, o acender do fogo, mas nem isso esclarece a passagem, e por isso a deixamos transliterada. Também a resposta “então ensinemos: na hotzaá de um copo pequeno” é obscura, e a traduzimos ao pé da letra. Kufda é a palavra aramaica para carne; pista é de sentido incerto: Guggenheimer a entende como pedaços de osso, e ele mesmo menciona que poderia ser um pedaço de pão, mas rejeita essa leitura; deixamo-la transliterada. A pergunta de Rabi Bun beRabi Chiya, sobre o cozido que não tem a medida de um figo seco, também é obscura; Guggenheimer pensa nas folhas de alho e de cebola usadas como tempero. Rabi Yossi Galilaya é Rabi Yossi, o galileu. A Mishná do Yerushalmi escreve “veenan mitztarfin” onde a Mishná avulsa escreve “veen mitztarfin”, com o mesmo sentido; diz apenas “quem transporta alimentos na medida de um figo seco se somam”, sem o “é obrigado” que a Mishná avulsa e o Bavli acrescentam, e não o acrescentamos; escreve “galeineihen”, com lamed, onde a Mishná avulsa escreve “garineihen”, os caroços, e “umursan” onde a Mishná avulsa escreve “umursanan”. O hebraico escreve ainda “kimlo” uma vez sem vav, “hotzi” com uma marca incomum de dagesh e “vekhigrogueret” também com dagesh; mantivemos a grafia como está.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer numera as Mishnayot do capítulo à sua maneira e chama esta de Mishná 6; no Sefaria ela é a Mishná Shabbat 7:4. Ele traduz etzá como aparas de madeira; seguimos o termo da trilha, forragem, que concorda com a explicação de Rav Yehudá no Bavli. Na nota sobre a baraita de Rabi Hoshayá, ele remete ao Bavli, Shabbat 76a, em nome de Reish Lakish; ali, porém, a discussão é entre Rabi Yochanan e Reish Lakish e trata da palha levada para um camelo, não para um cabrito, e por isso não seguimos essa remissão. Ele mesmo diz que a frase sobre o copo pequeno é obscura e que o sentido de hesek é desconhecido, e nisso concordamos.
A Mishná seguinte, Shabbat 8:1, abre o Perek Chet, HaMotzi Yayin: “Quem transporta vinho, o bastante para misturar um copo”, e continua com as medidas do leite, do mel, do azeite e da água.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Zayin de Massechet Shabbat, Klal Gadol (כְּלָל גָּדוֹל).