Terceira halachá do Perek Vav de Massechet Shabbat, Bameh Ishá. A Mishná volta à mulher e aos objetos que não são adornos, mas instrumentos: ela não sai no Shabat com a agulha furada, nem com o anel com sinete, nem com o alfinete com cabeça, nem com o frasco de perfume, nem com o frasco de óleo perfumado; e, se saiu, Rabi Meir a obriga a trazer chatat, e os sábios a isentam pelos dois frascos. A guemará traz a baraita do alfaiate, do escriba, do tintureiro e do cambista, e pergunta por que a opinião de Rabi Meir e a dos sábios parecem invertidas entre a baraita e a Mishná, com a resposta da mulher que trança cabelos; e explica que a regra do anel com sinete é de Rabi Nechemyá, para quem o anel segue o seu sinete, com as explicações de Rabi Ila e de Rabi Zeira sobre o anel feito para selar e para adornar. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 62a.
Mishná: Não saia a mulher ao domínio público, no Shabat, com machat nekuvá (agulha furada), nem com tabaat (anel) que tem sobre si um chotam (sinete), nem com o kuchliyar (alfinete com cabeça), nem com a kovelet (frasco de perfume), nem com a tzlochit shel pilyaton (frasco de óleo perfumado), pois estes não são adornos, mas objetos que se carregam. E, se saiu com algum deles, é obrigada a trazer chatat (oferta de expiação), palavras de Rabi Meir. E os sábios isentam a mulher com a kovelet e com a tzlochit shel pilyaton, porque estes, para ela, são adornos, e não carga.
Ensina-se numa baraita: “Não saia o alfaiate com a sua agulha que está nas suas roupas, nem o liblar (escriba) com a pena que está na sua orelha, e o tintureiro com a dugma (amostra de pano tingido) que está na sua orelha, nem o cambista com o denário que está na sua orelha. E, se algum deles saiu, eis que estes estão isentos, palavras de Rabi Meir. E os sábios dizem: o artesão que sai com o instrumento do seu ofício é culpado; logo, todas as demais pessoas podem sair com isso.” A opinião de Rabi Meir parece invertida, pois ensinamos lá: “E, se saiu com a agulha furada, é obrigada a trazer chatat, palavras de Rabi Meir” (Mishná Shabbat 6:3); e aqui ele diz assim, que o artesão está isento? Rabi Mana disse-a sem atribuição; Rabi Avun disse-a em nome de Rabi Yochanan: lá, é o modo de levar habitual entre as mulheres, e por isso ela é obrigada; porém aqui, só as crianças saem com isso, e não é esse o modo habitual dos artesãos. A opinião dos rabanan (sábios) parece invertida, pois ensinamos lá: “E os sábios isentam com a kochelet (estojo de pintura dos olhos) e com a tzlochit shel pilyaton” (Mishná Shabbat 6:3). Daí se aprende que, com a agulha que não é furada, a mulher é obrigada a trazer chatat. E é este o caso de “o artesão no seu ofício é culpado”? Mas a mulher não é artesã! Disse Rabi Avun: explica-a como tratando de uma mulher que trança cabelos, para quem a agulha é instrumento do ofício.
Rabi Achá disse em nome de Rabi Abba bar Rav Nachman: esta Mishná, que torna culpada quem sai com o anel com sinete, é de Rabi Nechemyá, pois ensinamos lá: “Um anel de metal cujo sinete é de almog (coral) é impuro; um anel de coral cujo sinete é de metal é puro” (Mishná Kelim 13:6). Ensina-se numa baraita: Rabi Nechemyá inverte estas regras. E assim dizia Rabi Nechemyá: no anel, segue-se o seu sinete; na escada, seguem-se os seus degraus; no kolav (armação de pendurar), segue-se aquilo que o sustenta; e no naul (trancado), seguem-se os seus samneirin (peças de ligação). Assim, para ele, o anel com sinete é sobretudo um sinete, e não um adorno. Disse Rabi Ila: explica-a como sendo as palavras de todos, quando o levou para selar com ele, e então não é adorno, mas instrumento. Rabi Shmuel disse em nome de Rabi Zeira: se o anel era feito para isto e para aquilo, para selar e para adornar, então, se o levou para selar com ele, é culpado; se o levou a título de tachshit (adorno), é isento até pelo sinete, pois também o sinete é acessório do adorno.
Esta é a terceira halachá do Perek Vav de Massechet Shabbat, Bameh Ishá, que corresponde à Mishná Shabbat 6:3 da Mishná avulsa. A halachá anterior tratou do que o homem calça e leva sobre si, e terminou com o cântico dos atingidos que se dizia em Jerusalém, os salmos Tehilim 3 e Tehilim 91. Esta volta à mulher e aos objetos que ela leva e que não são adornos, mas instrumentos: a agulha furada, o anel com sinete, o alfinete com cabeça, o frasco de perfume e o frasco de óleo perfumado. A Mishná seguinte, a do homem que não sai com a espada, fica para outra halachá.
Referências conferidas. Na seção 01, a baraita do alfaiate e toda a discussão sobre as opiniões invertidas estão também no Yerushalmi, Shabbat 1:3, onde a Mishná desta halachá é de fato “lá”; por isso o texto diz “ensinamos lá” mesmo ao citar a Mishná Shabbat 6:3, que está aqui. A baraita está na Tosefta Shabbat 1:5, que é 1:8 na edição de Lieberman, e no Bavli, em Shabbat 11b; nas duas, quem diz que o artesão no seu ofício é culpado é Rabi Yehudá. A Mishná Shabbat 6:1 ensina que a mulher que sai com a agulha que não é furada não é obrigada a trazer chatat. Na seção 02, a Mishná citada é a Mishná Kelim 13:6, que o Bavli cita também em Shabbat 52b. A baraita de Rabi Nechemyá está na Tosefta Kelim Bava Metzia 3:8, que diz que Rabi Nechemyá declara puro o anel de metal com sinete de coral, e que nomeia o jugo, a escada e o kolav; e o Bavli, em Shabbat 59b, traz a mesma baraita, com “no jugo, vai-se atrás dos seus samlonin”, e a mesma explicação, em nome de Rabi Zeira: a Mishná que distingue o anel com sinete é de Rabi Nechemyá. A Mishná desta halachá está no Bavli em Shabbat 62a.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi escreve “bemachat nekuvá”, sem artigo, onde a Mishná avulsa escreve “bemachat hanekuvá”; “bakuchliyar”, onde ela escreve “becholyar”; “pilyaton”, onde ela escreve “palyaton”; e “yatzat”, onde ela escreve “yatzetá”; a palavra “chayevet” tem no Sefaria um sinal vocálico duplicado, e conservamos o hebraico como está. Na seção 01, a guemará cita a Mishná com “kochelet”, o estojo de pintura dos olhos, onde a Mishná desta halachá diz “kovelet”, o frasco de perfume. Comparado com o paralelo de Shabbat 1:3, o hebraico daqui diz “e os sábios dizem”, onde lá se lê “Rabi Yehudá diz”; diz “e o tintureiro”, sem “nem”; diz “com a agulha que não é furada”, onde lá se lê “com a agulha furada”, que é o que pede o argumento, pois os sábios isentam só os dois frascos, e a Mishná Shabbat 6:1 já isenta a agulha que não é furada; e diz “Rabi Avun”, onde lá se lê “Rabi Yossi bar Avun”. A palavra “tefelin”, que traduzimos por crianças, pode também significar os que vão como acessórios, e não por conta própria. Na seção 02, o hebraico diz “venaul”, trancado, onde o Bavli e a Tosefta falam do jugo, e escreve “samneirin” e “Ila” sem sinais vocálicos; conservamos o hebraico como está e traduzimos o que ele diz.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer entende “kuchliyar” como um ornamento de cabeça em forma de caracol, ou, conforme outros manuscritos, um colar, e “kovelet” como um ramalhete de perfume; na seção 01, traduz “com a agulha que não é furada” conforme o hebraico desta página e entende as crianças como os únicos que saem assim. Na seção 02, ele cita a baraita de Rabi Nechemyá como Tosefta Kelim Bava Metzia 3:13, conforme a edição de Lieberman, e no Sefaria é 3:8; cita o paralelo do Bavli como Shabbat 50b, e a baraita está em Shabbat 59b; e acrescenta ao texto, entre parênteses e colchetes, a leitura “jugo” no lugar de “trancado”, que o hebraico desta página não traz.