Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Halachá 6
שַׁבָּת

O recipiente sob a vela

Perek Guimel, Kirá, Halachá 6, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Sexta halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A Mishná ensina que não se põe um recipiente sob a vela, no Shabat, para receber o azeite que pinga; se foi posto ainda de dia, é permitido, mas não se usufrui do azeite, porque não é do muchan, o que foi preparado de antemão. A guemará traz as perguntas de Rabi Chagai e dos colegas sobre a vela que se apagou sem que o dono soubesse; a regra de Rabi Yochanan, de que não há coisa em sua forma natural que não esteja preparada, exceto uma única; e as objeções do azeite na vela, do trigo semeado, dos ovos para os pintinhos, dos enfeites da sucá, dos mokin espalhados e do muktze que secou. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 42b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

אֵין נוֹתְנִין כֶּלִי תַּחַת הַנֵּר לְקַבֵּל בּוֹ אֶת הַשֶּׁמֶן וְאִם נְתָנוֹ מִבְּעוֹד יוֹם מוּתָּר. וְאֵין נֵיאוֹתִין מִמֶּנּוּ לְפִי שֶׁאֵינוֹ מִן הַמּוּכָן.

Mishná: Não se põe um recipiente sob a vela no Shabat para receber nele o azeite que pinga do pavio; e se o pôs quando ainda era de dia, é permitido. E não se usufrui dele, do azeite que pingou, porque não é do muchan (o que foi preparado de antemão para o Shabat), pois foi destinado à chama.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01O azeite da vela e o que está em sua forma
Yerushalmi · Shabbat 3:6
אֵין נוֹתְנִין כֶּלִי תַּחַת הַנֵּר לְקַבֵּל בּוֹ אֶת הַשֶּׁמֶן. וְאִם נוֹתְנִין מִבְּעוֹד יוֹם מוּתָּר. וְאֵין נֵיאוֹתִין מִמֶּנּוּ לְפִי שֶׁאֵינוֹ מִן הַמּוּכָן. רִבִּי חַגַּי בָעֵי. כָּבָה מִבְּעוֹד יוֹם וְנִתְוָדַע לוֹ מִשֶּׁחֲשֵׁיכָה. חֲבֵרַיָיא בָעֵי. כָּבָה בַשַּׁבָּת זוֹ וְנִתְוָדַע לוֹ בַּשַּׁבָּת הַבָּאָה. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן. אֵין לָךְ דָּבָר שֶׁהוּא בְעֵינוֹ וְאֵינוֹ בַהֲכֵנוֹ אֶלָּא דָבָר אֶחָד בִּלְבַד. הָתִיב רִבִּי לָעְזָר. הֲרֵי שֶׁמֶן בְּנֵר הַרֵי בְעֵינוֹ הוּא וְאֵינוּ בַהֲכֵינוֹ. לְכָךְ נְתָנוֹ מִשָּׁעָה רִאשׁוֹנָה שֶׁיִּכָּלֶה בַנֵּר. הָתִיב רֵישׁ לָקִישׁ. הֲרֵי חִטִּין בִּזְרִיעָה בְּעֵינָן הֵן וְאֵינוֹ בַהֲכֵנוֹ. לְכָךְ נְתָנוֹ מִשָּׁעָה רִאשׁוֹנָה שֶׁיִּכְלוּ בַקַּרְקַע. הָתִיבוֹן. הֲרֵי בֵצִים לָאֶפְרוֹחִים הֲרֵי בְעֵיינָן הֵן וְאֵינָן בַּהֲכֵנָן. לְכָךְ נְתָנָן מִשָּׁעָה רִאשׁוֹנָה שֶׁיֵיעָשׂוּ אֶפְרוֹחִין. הָתִיב רִבִּי יִרְמְיָה. הֲרֵי עִיטּוּרֵי סוּכָּה הֲרֵי בְעֵיינָן הֵן וְאֵינָן בַּהֲכֵנָן. שַׁנְיָיא הִיא. דְּאָמַר רִבִּי אַבָּמָרִי אָחוֹי דְרִבִּי יוֹסֵה. כָּל שִׁבְעָה הֵן בְּטֵילִין עַל גַּב סוּכָּה. מִיכָּן וָהֵילָךְ בַּהֲכֵנוֹ הֵן. הָתִיב רִבִּי חִינְנָא. הֲרֵי מוּכִּין שֶׁנִּתְפַּזְּרוּ הֲרֵי בְעֵיינָן הֵן וְאֵינָן בַּהֲכֵנָן הָכָא בְכֵלִים. וּמַה דְאַתְּ אָמַר תַּמָּן בָאֲכָלִין. הָתִיב רִבִּי נָסָא. הֲרֵי מוּקְצֶה שֶׁיָּבַשׁ וְלֹא נָגַע בּוֹ הַרֵי הוּא בְעֵינוֹ וְאֵינוֹ בַהֲכֵנוֹ. הָכָא בְכֵלִים. וּמַה דְאַיתְּמַר תַּמָּן בָאֲכָלִין.

Na Mishná: “Não se põe um recipiente sob a vela para receber nele o azeite. E se o põem quando ainda é de dia, é permitido. E não se usufrui dele, porque não é do muchan.” Rabi Chagai perguntou: se a vela se apagou quando ainda era de dia, e isso só se tornou conhecido dele depois que escureceu, o azeite que pingou é proibido, porque ele o tinha por destinado à chama, ou é permitido, porque de fato a vela já não ardia? Os colegas perguntaram: se a vela se apagou neste Shabat, e isso só se tornou conhecido dele no Shabat seguinte, qual é a lei do azeite nesse outro Shabat?

Disse Rabi Yochanan: não há para ti coisa que esteja beeino (em sua forma natural, pronta para o uso) e não esteja bahachano (em sua condição de preparada para o Shabat), exceto uma única coisa. Objetou Rabi Elazar: eis o azeite na vela: eis que está em sua forma natural, e não está em sua preparação! Mas não é assim, pois para isso ele o pôs desde o primeiro momento: para que se consuma na vela. Objetou Reish Lakish: eis o trigo lançado na semeadura: está em sua forma natural, e não está em sua preparação! Mas para isso ele o pôs desde o primeiro momento: para que se consuma na terra. Objetaram: eis os ovos postos para os pintinhos, sob a galinha: eis que estão em sua forma natural, e não estão em sua preparação! Mas para isso ele os pôs desde o primeiro momento: para que se tornem pintinhos.

Objetou Rabi Yirmeyá: eis os enfeites da sucá: eis que estão em sua forma natural, e não estão em sua preparação, pois não se pode tirá-los para comer durante a festa! Isso é diferente, pois disse Rabi Aba Mari, irmão de Rabi Yossi: todos os sete dias eles ficam anulados em relação à sucá, como parte dela; daqui em diante, passados os sete dias, estão em sua preparação.

Objetou Rabi Chinena: eis os mokin (os fiapos usados para cobrir e conservar quentes os alimentos) que se espalharam: eis que estão em sua forma natural, e não estão em sua preparação! Aqui trata-se de kelim (objetos), e o que tu disseste lá, na regra de Rabi Yochanan, trata de alimentos. Objetou Rabi Nasa: eis o muktze (os figos postos de lado no telhado para secar) que secou e no qual ele não tocou: eis que está em sua forma natural, e não está em sua preparação! Aqui trata-se de kelim, e o que foi dito lá trata de alimentos.

Nota

Esta é a sexta halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A sua Mishná corresponde à primeira parte da Mishná Shabbat 3:6 da Mishná avulsa. A Mishná avulsa 3:6 prossegue com mais duas cláusulas: a vela nova, que se pode mover no Shabat, e a velha, que não, com a opinião de Rabi Shimon; e o recipiente que se põe sob a vela para receber as faíscas. No Yerushalmi, essas cláusulas abrem as halachot seguintes, 3:7 e 3:8; no Bavli, estão em Shabbat 44a e em Shabbat 47b. A halachá anterior terminou com a opinião de Rabi Yudá: o sal na categoria do tzir, o vinho na do chometz. Esta passa dos temperos ao azeite que pinga da vela. Guggenheimer explica que o azeite comestível usado como combustível era, no início do Shabat, combustível e não alimento, e por isso não pode ser usado como alimento no Shabat. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 42b, e ali Rav Chisda ensina que, embora se tenha dito que não se põe um recipiente sob a galinha para receber o seu ovo, pode-se virar um recipiente sobre o ovo para que não se quebre.

Na seção 01, as perguntas de Rabi Chagai e dos colegas ficam sem resposta. Guggenheimer explica a de Rabi Chagai: de fato, a vela já não ardia ao cair da noite, e nada impediria o uso do azeite; mas, no pensamento do dono, ele estava destinado à chama no início do Shabat. A regra de Rabi Yochanan diz que todo alimento que se pode comer como está já está preparado para o Shabat, exceto uma única coisa. Rabi Elazar e Reish Lakish objetam com o azeite da vela e com o trigo semeado, e a resposta é a mesma: uma vez usados como combustível ou como semente, já não são alimento. Os enfeites da sucá são diferentes: Guggenheimer explica que, durante os sete dias, os enfeites, mesmo comestíveis, fazem parte da construção, e tirá-los seria como derrubar parte da sucá; passada a festa, são apenas frutos pendurados na parede. No Bavli, em Beitzá 30b, uma baraita ensina que dos enfeites pendurados na sucá, como nozes, amêndoas, romãs e cachos de uva, é proibido servir-se até o fim do último dia da festa, salvo se se fez uma condição; a mesma baraita aparece em Shabbat 22a.

Os mokin, segundo Guggenheimer, eram fiapos usados como isolante para manter o alimento quente até a refeição do Shabat; uma vez espalhados, não servem a outro fim neste Shabat, e a resposta é que a regra de Rabi Yochanan só trata de alimentos. A palavra muktze, que designa o que não se pode mover no Shabat, vem, segundo ele, da raiz que significa cortar em pedaços, sobretudo os figos cortados e estendidos no telhado para curtir e secar; a pergunta de Rabi Nasa é sobre figos já secos e prontos para comer, mas deixados no telhado, fora do pensamento do dono. Guggenheimer observa, seguindo Saul Lieberman, que o texto, embora confirmado pelo manuscrito da Guenizá, precisa de rearranjo: a resposta “aqui se trata de objetos” não convém aos figos, que são alimento, e pertence à pergunta de Rabi Chiya bar Ada, que abre a halachá seguinte, 3:7; a resposta dada lá, a de que esta é a exceção de Rabi Yochanan, pertence aqui, e a única exceção da regra seriam justamente os figos muktze no telhado. A tradução segue o texto como está.

Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi apresenta grafias próprias, conservadas no hebraico: “keli” com segol, “netano”, “e se o pôs”, e “neiotin” com yod, onde a Mishná avulsa diz “kli”, “notno” e “neotin”. Na halachá, a citação da Mishná diz “notenin”, “se o põem”, no plural. Na objeção de Rabi Elazar, o hebraico escreve “ve’einu bahacheino”, onde nas demais passagens se lê “ve’eino bahachano”; e “harei” aparece duas vezes com patach. O hebraico chama de Rabi Yossi o irmão de Rabi Aba Mari com a grafia “Yossé”.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Onde o hebraico diz que a vela se apagou “neste Shabat” e o dono soube “no Shabat seguinte”, Guggenheimer escreve “afterwards on the Sabbath”; aqui se traduziu o hebraico. Ele verte “mokin” como “lint”, “muktze” como “figs put out to ferment” e o trigo na semeadura como “seed grain”; e escreve “Rebbi Simeon ben Laqish” onde o hebraico diz Reish Lakish, e “Rebbi Eleazar” onde diz Rabi Elazar.