Quinta halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A Mishná trata do ilpas e da kedera tirados do fogo ainda fervendo: não se põem neles tavlin, os temperos, mas pode-se pô-los na keará ou no tamchui; e Rabi Yehudá permite em tudo, exceto no que tem chometz ou tzir. A guemará pergunta se é permitido pôr os temperos embaixo e derramar sobre eles o fervente de cima, com a prova de Rabi Yona a partir dos recipientes do sacrifício e a resposta de Rabi Yossi; discute o derramar do jorro, a pergunta feita a Rabi Mana sobre o Shabat e a carne com leite, e a definição de Rabi Zeira do cozido certo; e conclui com a opinião de Rabi Yudá sobre o sal e o vinho. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 42a.
Mishná: O ilpas (a caçarola) e a kedera (a panela) que alguém tirou do fogo fervendo, não ponha ele dentro deles tavlin (temperos), porque ainda os cozinhariam; mas põe ele os temperos dentro da keará (a tigela) ou dentro do tamchui (a travessa de servir), para onde o cozido já foi passado. Rabi Yehudá diz: em tudo ele põe os temperos, exceto em algo que tenha nele chometz (vinagre) e tzir (salmoura), pois estes os cozinham de fato.
Qual é a lei quanto a pôr os tavlin embaixo, num recipiente vazio, e derramar sobre eles o cozido fervente de cima? Rabi Yona disse: é proibido, e o iruy (o derramar) é como um kli rishon (o recipiente primário, que esteve no fogo). A força de Rabi Yona vem desta Mishná: “Tanto o recipiente em que alguém cozinhou quanto aquele dentro do qual derramou algo fervente” precisam ser esfregados e enxaguados; logo, o derramar cozinha. Disse Rabi Yossi: lá, trata-se do recipiente de barro, que absorve mesmo o pouco que o derramar lhe transmite; mas os tavlin não se cozinham com o derramar. Objetou Rabi Yossi beRabi Bun: e não se ensinou numa baraita: “também nos recipientes de cobre é assim”? Tens tu como dizer que o recipiente de cobre absorve? Portanto, o derramar cozinha de fato, como disse Rabi Yona.
Qual é a lei quanto a derramar a partir do kiluach (o jorro), quando o fervente cai num fio contínuo sobre os temperos? Disse Rabi Chananya, filho de Rabi Hilel: é a controvérsia de Rabi Yona e Rabi Yossi, da seção 01. Rabi Yitzchak bar Gufta perguntou diante de Rabi Mana: se alguém fez assim no Shabat, é culpado por ser mevashel (quem cozinha)? Se fez assim com carne em leite, é culpado por ser mevashel? Disse-lhe: é como o que disse Rabi Zeira: e qual é o chalut (a massa escaldada) certo? Todo aquele sob o qual o fogo passa. E aqui também, qual é o tavshil (o cozido) certo? Todo aquele sob o qual o fogo passa; e quem derrama, sem fogo por baixo, não é culpado como quem cozinha.
Na Mishná: “Rabi Yudá diz: em tudo ele põe os temperos, exceto em algo que tenha nele chometz e tzir.” Segundo a opinião de Rabi Yudá, o sal entra na categoria do tzir, e o vinho entra na categoria do chometz; também neles, portanto, não se põem os temperos.
Esta é a quinta halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A sua Mishná corresponde à segunda parte da Mishná Shabbat 3:5 da Mishná avulsa; a primeira parte, a do meicham esvaziado, foi a Mishná da halachá anterior, 3:4. A halachá anterior terminou com Rabi Mana: o pinká de arroz ou de grisa que se passa de um lugar para outro já é um kli sheni, e ainda assim continua fervendo. Esta passa ao ilpas e à kedera tirados do fogo. Guggenheimer explica que nada novo se põe no Shabat numa panela de cozinhar, mesmo fora do fogo, enquanto ferve; mas os temperos podem ir para um recipiente de servir que nunca esteve no fogo, porque não precisam de cozimento para temperar. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 42a, e a guemará, em Shabbat 42b, pergunta se Rabi Yehudá se refere ao início da Mishná, para ser mais leniente, ou ao final, para ser mais rigoroso, e traz ali a discussão de Rav Yosef e Abaye sobre o sal.
Na seção 01, a prova de Rabi Yona vem da Mishná Zevachim 11:7: tanto o recipiente em que se cozinhou a carne do sacrifício quanto aquele dentro do qual se derramou algo fervente precisam de esfregação e enxágue. A Mishná se apoia em Vayikrá 6:21, onde o recipiente de barro em que se cozinhou é quebrado e o de cobre é esfregado e enxaguado. Rabi Yossi responde que o barro é quebrado porque absorve, e por isso a regra não prova que o derramar cozinhe os temperos. Rabi Yossi beRabi Bun objeta com o Sifra, Tzav, capítulo 7:1, que estende o derramar fervente também ao recipiente de cobre, que não absorve: assim, o derramar cozinha, e a opinião de Rabi Yona se mantém.
Na seção 02, Guggenheimer explica o jorro como a água fervente derramada de um recipiente bem mais alto, de modo que talvez já não ferva ao chegar. A proibição de cozinhar carne com leite aparece três vezes na Torá, em Shemot 23:19, Shemot 34:26 e Devarim 14:21. A resposta de Rabi Mana, com a regra de Rabi Zeira sobre o chalut, ensina que só há cozimento pleno quando o fogo está por baixo; para Guggenheimer, derramar o fervente sobre o alimento no Shabat, ou o leite fervente sobre a carne fora do fogo, é proibido apenas pelos rabinos.
Na seção 03, o hebraico chama de Rabi Yudá o mesmo sábio que a Mishná chama de Rabi Yehudá. O texto diz literalmente “o sal no tzir, o vinho no chometz”; Guggenheimer traduz “o sal é como o tzir”, seguindo o manuscrito da Guenizá e outra testemunha do texto. A mesma frase de Rabi Yehudá, “em tudo ele põe, exceto em algo que tenha nele chometz e tzir”, está também na Mishná Maasrot 1:7; dali e daqui Guggenheimer conclui que, para Rabi Yehudá, a salmoura e o vinho curtem os alimentos, e por isso agem como se os cozinhassem.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi apresenta grafias próprias, conservadas no hebraico: “ha’ilpas” e “hakedeirá” com yod, e “meruttachin” e “chometz” com vav, onde a Mishná avulsa os escreve sem essas letras; “tavlin”, onde a avulsa vocaliza “tevalin”; e “vatzir”, onde a avulsa diz “vetzir”. No fim da halachá anterior, os editores inseriram entre parênteses o início desta Mishná; aqui a halachá começa diretamente com a pergunta sobre os temperos.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer verte “ilpas” como “pan”, do grego, “tzir” como “fish sauce”, “keará” como “bowl”, “tamchui” como “tray” e “chalut” como “dumpling”. Ele escreve “Rebbi Ḥanina, the son of Rebbi Hillel” onde o hebraico diz Rabi Chananya, filho de Rabi Hilel, e “Rebbi Jehudah” onde o hebraico diz Rabi Yudá.