Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Halachá 4
שַׁבָּת

O meicham esvaziado e o kli sheni

Perek Guimel, Kirá, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Quarta halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A Mishná trata do meicham que foi esvaziado da sua água quente: não se põe nele água fria para que se aqueça, mas pode-se pôr água dentro dele e dentro do copo para amorná-la. A guemará discute, com Rabi Yochanan e Rav, se a permissão de amornar vale também dentro do próprio meicham; a baraita de Beit Shamai e Beit Hilel sobre a água quente e a fria, no copo e na banheira; a ânfora diante da fogueira e quem se aquece depois de mergulhar; a mão que domina e a mão que se queima; e a diferença entre o kli rishon e o kli sheni, com os pratos de arroz de Rabi Mana. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 41a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמֵּיחַם שֶׁפִּינָּהוּ לֹא יִתֵּן לְתוֹכוֹ מַיִם צוֹנִין בִּשְׁבִיל שֶׁיֵיחַמּוּ אֲבָל נוֹתֵן הוּא לְתוֹכוֹ וּלְתוֹךְ הַכּוֹס כְּדֵי לְהַפְשִׁירָן.

Mishná: O meicham (o aquecedor de água quente) que alguém esvaziou da sua água quente, não ponha ele dentro dele água tzonin (fria) para que ela se aqueça nele; mas põe ele água fria dentro dele e dentro do kos (copo) para lehafshiran (amorná-las), isto é, apenas para lhes tirar o frio.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Dentro do copo, e não dentro do meicham
Yerushalmi · Shabbat 3:4
מֵיחַם שֶׁפִּינָּהוּ לֹא יִתֵּן לְתוֹכוֹ צוֹנִין כול׳. רִבִּי בָּא בַּר בְּרֵיהּ דְּרִבִּי חִיָיה בַּר בָּא. רִבִּי חִיָיא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. לֹא שָׁנוּ אֶלָּא לְתוֹךְ הַכּוֹס. הָא לְתוֹכוֹ לֹא. אָמַר רִבִּי מָנָא. קַשִּׁיֵיתָהּ קוֹמֵי רִבִּי בָּא. לֹא תָנֵּי רִבִּי יוֹחָנָן עַל סוֹפָא לֹא תָנֵּי עַל רֵישָׁא. בִּשְׁבִיל שֶׁיֵיחַמּוּ. הָא לְהַפְשִׁירָן לֹא. אָתָא רִבִּי בָּא בַּר כַּהֲנָא רִבִּי חִיָיא בַּר אַשִּׁי בְשֵׁם רִבִּי. אִם לְחַמְמָן אָסוּר. אִם לְהַפְשִׁירָן מוּתָּר.

Na Mishná: “O meicham que alguém esvaziou, não ponha dentro dele tzonin” etc. Rabi Ba, filho do filho de Rabi Chiya bar Ba; Rabi Chiya em nome de Rabi Yochanan: não ensinaram a permissão de amornar senão dentro do copo; daí se conclui que dentro dele, do próprio meicham, não. Disse Rabi Mana: levantei a dificuldade diante de Rabi Ba: Rabi Yochanan não pode ter ensinado isso sobre o final da Mishná, e não pode ter ensinado isso sobre o início dela, que diz “para que se aqueçam”: daí se conclui que para amorná-las não é proibido. Veio Rabi Ba bar Kahana e trouxe: Rabi Chiya bar Ashi em nome de Rabi: se é para aquecê-las, é proibido; se é para amorná-las, é permitido.

02Água quente na fria, a ânfora diante da fogueira e a mão que domina
Yerushalmi · Shabbat 3:4
תַּנֵּי. נוֹתְנִין חַמִּין לְתוֹךְ צוֹנִין אֲבָל לֹא צוֹנִין לְתוֹךְ חַמִּין. כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמַּי. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים. בֵּין חַמִּין לְתוֹךְ צוֹנִין בֵּין צוֹנִין לְתוֹךְ חַמִּין מוּתָּר. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִין. בְּכּוֹס. אֲבָל בְּאַמְבַּטֵּי חַמִּין לְתוֹךְ צוֹנִין מוּתָּר וְצוֹנִין לְתוֹךְ חַמִּין אָסוּר. וְרִבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. אַתְיָא דְּרַב כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן מְנַסְיָא וְרִבִּי יוֹחָנָן כְּרִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי. תַּנֵּי. רִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי אוֹסֵר. מְמַלֵּא הוּא אָדָם חָבִית שֶׁלְּמַיִם וְנוֹתְנָהּ כְּנֶגֶד הַמְדוּרָה. לֹא בִשְׁבִיל שֵׁתֵּיחַם אֶלָּא בִשְׁבִיל שֶׁתָּפִיג צִינָּתָהּ. יוֹרֵד הוּא אָדָם וְטוֹבֵל בְּצוֹנִין וְעוֹלֶה וּמִתְחַמֵּם כְּנֶגֶד הַמְדוּרָה. דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹסְרִין. יְאוּת אָמַר רִבִּי מֵאִיר. וּמַה טַעֲמוֹן דְּרַבָּנִן. יֶיבָא כַּיי דָּמַר רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רַב יְהוּדָה. מוּתָּר לְהַפְשִׁיר בְּמָקוֹם שֶׁהַיָּד שׁוֹלֶטֶת. וְאָסוּר לְהַפְשִׁיר בְּמָקוֹם שֶׁאֵין הַיָּד שׁוֹלֶטֶת. וַאֲפִילוּ בְּמָקוֹם שֶׁאֵין הַיָּד שׁוֹלֶטֶת עַד אֵיכָן. רִבִּי יוּדָה בַּר פַּזִי רִבִּי סִימוֹן בְשֵׁם רִבִּי יוֹסֵי בֶן חֲנִינָה. עַד שֶׁיְּהֵא נוֹתֵן יָדוֹ לְתוֹכָהּ וְהִיא נִכְוִית.

Ensinou-se numa baraita: “Põe-se chamin (água quente) dentro de tzonin, mas não tzonin dentro de chamin, conforme as palavras de Beit Shamai. E Beit Hilel dizem: tanto chamin dentro de tzonin quanto tzonin dentro de chamin, é permitido. Em que caso estas palavras foram ditas? No copo; mas na ambati (banheira), chamin dentro de tzonin é permitido, e tzonin dentro de chamin é proibido. E Rabi Shimon permite.” Vem a opinião de Rav, que permite amornar dentro do meicham, como Rabi Shimon ben Menasya, e a de Rabi Yochanan, que só permite no copo, como Rabi Yochanan ben Nuri. Ensinou-se numa baraita: “Rabi Yochanan ben Nuri proíbe.” “Enche uma pessoa uma chavit (ânfora) de água e a põe diante da fogueira, não para que a água se aqueça, mas para que se dissipe a sua frieza. Desce uma pessoa e mergulha em tzonin, e sobe e se aquece diante da fogueira. Estas são as palavras de Rabi Meir; e os sábios proíbem.” Bem disse Rabi Meir; e qual é a razão dos rabinos, que proíbem? Venha a ser como o que disse Rabi Zeira em nome de Rav Yehudá: é permitido amornar no lugar em que a mão domina, isto é, onde a mão pode tocar sem se queimar, e é proibido amornar no lugar em que a mão não domina. E mesmo o lugar em que a mão não domina, até onde vai? Rabi Yudá bar Pazi, Rabi Simon em nome de Rabi Yossi ben Chanina: até que ele ponha a sua mão dentro dela, da água, e ela se queime.

03O kli rishon, o kli sheni e os pratos de Rabi Mana
Yerushalmi · Shabbat 3:4
הַכֹּל מוֹדִין בְּכֶלִי שֵׁינִי שֶׁהוּא מוּתָּר. מַה בֵּין כֶּלִי רִאשׁוֹן מַה בֵּין כֶּלִי שֵׁינִי. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי. כָּאן הַיָּד שׁוֹלֶטֶת וְכָאן אֵין הַיָּד שׁוֹלֶטֶת. אָמַר רִבִּי יוֹנָה. כָּאן וְכָאן אֵין הַיָּד שׁוֹלֶטֶת. אֶלָּא עָשׂוּ הַרְחֵק לְכֶלִי רִאשׁוֹן וְלֹא עָשׂוּ הַרְחֵק לְכֶלִי שֵׁינִי (מתני׳. הָאִילְפָס וְהַקְּדֵירָה שֶׁהֶעֱבִירָן מְרוּתָּחִין כול׳.) אָמַר רִבִּי מָנָא. הָהֵן פִּינְכָּא דְאוֹרִזָא מְסַיֵיעַ לְאַבָּא. הָהֵן פִּינְכָּא דִגְרִיסָא מְסַיֵיעַ לֵיהּ לְאַבָּא. דְּאַתְּ מְפַנֵּי לֵיהּ מִן אָתָר לָאָתָר. וְעַד כְּדוֹן הוּא רוֹתֵחַ.

Todos concordam, quanto ao kli sheni (o recipiente secundário, para onde a água quente foi passada), que ele é permitido. Que diferença há entre o kli rishon (o recipiente primário, que esteve no fogo) e o kli sheni? Disse Rabi Yossi: aqui, no kli sheni, a mão domina, e aqui, no kli rishon, a mão não domina. Disse Rabi Yona: tanto aqui quanto aqui a mão não domina; mas os sábios fizeram um afastamento, uma cerca de proibição, para o kli rishon, e não fizeram afastamento para o kli sheni. Nesta edição, entre parênteses, a Mishná: “O ilpas (a caçarola) e a kedera (a panela) que alguém tirou do fogo fervendo” etc. Disse Rabi Mana: este pinká (prato) de arroz apoia o meu pai; este pinká de grisa (grãos partidos) apoia o meu pai, pois tu o passas de um lugar para outro lugar, e ele já é um kli sheni, e até agora ele ainda está fervendo.

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A sua Mishná corresponde à primeira parte da Mishná Shabbat 3:5 da Mishná avulsa. A numeração difere porque o Yerushalmi reuniu as Mishnayot 3:3 e 3:4 da Mishná avulsa numa só, a halachá 3:3; e a segunda parte da Mishná avulsa 3:5, a do ilpas e da kedera, abre no Yerushalmi a halachá seguinte, 3:5. A halachá anterior terminou com os rabinos de Cesareia: se a antichi estava varrida e aberta, é permitido beber dela. Esta passa ao meicham que foi esvaziado. Guggenheimer observa que não está claro se “esvaziou” quer dizer que se tirou o meicham do fogo ou que se tirou dele a água quente; no Bavli, em Shabbat 41a, Rav Ada bar Matna explica que se tirou dele a água quente: não se põe nele pouca água, que se aqueceria, mas pode-se pôr muita água, para amorná-la.

Na seção 01, o hebraico diz “Rabi Ba, bar bereh”, filho do filho, de Rabi Chiya bar Ba; Guggenheimer apaga o “bar”, segundo o manuscrito da Guenizá, e lê “Rabi Ba, filho de Rabi Chiya bar Ba”. O Rabi Chiya que vem em seguida é o próprio Rabi Chiya bar Ba. A objeção de Rabi Mana é esta: o final da Mishná já permite, explicitamente, pôr água fria dentro do meicham para amorná-la; e o início, ao proibir só “para que se aqueçam”, já dá a entender que amornar é permitido. Por isso a restrição de Rabi Yochanan ao copo não cabe em nenhuma das partes. No fim da seção, o hebraico diz “em nome de Rabi”; Guggenheimer, segundo a Guenizá, lê “em nome de Rav”, porque Rav Chiya bar Ashi foi aluno de Rav; seguimos o hebraico desta edição. Ele registra também que a Guenizá diz “para endurecê-las” onde aqui está “para aquecê-las”.

Na seção 02, a baraita está no Bavli, Shabbat 42a, onde se lê que Rabi Shimon ben Menasya proíbe; aqui o hebraico diz “Rabi Shimon permite”, e Guggenheimer acrescenta “ben Menasya” segundo a Guenizá, porque a frase seguinte fala dele. A opinião permissiva de Rav, da seção 01, segue a de Rabi Shimon ben Menasya; a de Rabi Yochanan, que só permite no copo, segue a de Rabi Yochanan ben Nuri, que proíbe. A frase da ânfora diante da fogueira está na Tosefta Shabbat 3:5, sem atribuição; o Bavli, em Shabbat 40b, traz uma baraita semelhante e outra que diz que a pessoa pode se aquecer diante da fogueira e depois se lavar em água fria, mas não lavar-se em água fria e depois aquecer-se, porque amorna a água que está sobre ela. A palavra de Rav Yehudá já apareceu na halachá 3:1, na seção 02, ali em nome de Rabi Yehudá. O Bavli, em Shabbat 40b, define de modo mais rigoroso o calor proibido: aquele em que a barriga de uma criança se queimaria. Da pergunta “até onde?” até o fim da seção 03, há um paralelo no Yerushalmi, Maasrot 1:4 (Guggenheimer o numera 1:6), onde Rabi Yossi é chamado Rabi Yossi beRabi Bun.

Na seção 03, o Bavli, em Shabbat 40b, conta que Rabi disse para tomar a água com um kli sheni e então colocar nela o frasco de óleo, e daí se aprende que o kli sheni não cozinha. Para Rabi Yona, a distinção não depende do calor: a proibição do kli rishon é uma cerca dos sábios, porque ele pode cozinhar de fato, e para o kli sheni não fizeram cerca. A frase entre parênteses, com o início da Mishná do ilpas e da kedera, é uma inserção dos editores; Guggenheimer diz que ela falta na Guenizá e que deveria ficar como título da halachá seguinte. Conservamo-la no hebraico como está e traduzimo-la no seu lugar. O pai de Rabi Mana é Rabi Yona: o prato de arroz ou de grisa, passado de um lugar para outro, já é um kli sheni e continua fervendo, e assim se mostra que também no kli sheni a mão não domina, como disse Rabi Yona.

Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi apresenta grafias e leituras próprias, conservadas no hebraico: “hameicham” e “pinahu” com yod; “mayim tzonin”, água fria, onde a Mishná avulsa diz só “tzonen”; e “uletoch hakos”, e dentro do copo, onde a Mishná avulsa diz “o letoch hakos”, ou dentro do copo. Na seção 01, a citação diz “meicham” sem o artigo e “tzonin” sem “mayim”. As abreviações “matni’” e “kul’”, que traduzimos “Mishná” e “etc.”, indicam a Mishná e que a citação continua.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer verte “meicham” como “hot water container”, “lehafshir” como “to make lukewarm” e “ambati” como “bathtub”, do grego. Ele escreve “Rebbi Abba” onde o hebraico diz Rabi Ba, “Rebbi Jehudah bar Pazi” onde o hebraico diz Rabi Yudá bar Pazi, e “Rav” onde o hebraico diz Rabi. A halachá seguinte, Shabbat 3:5, começa com a Mishná: “O ilpas e a kedera que alguém tirou fervendo, não ponha dentro deles temperos.”