Sexta halachá do Perek Bet de Massechet Shabbat, Bameh Madlikin. A Mishná ensina que, por três transgressões, as mulheres morrem na hora do parto: por não serem cuidadosas com a nidá, com a chalá e com a hadlakat haner. A guemará traz as duas versões, “quando dão à luz” e “jovens”, e aprende que o satan não acusa senão na hora do perigo, com uma série de provas: o julgamento dos Urim e a saída para a guerra, o desastre no caminho, o dia de angústia, a hora do julgamento, a tábua estendida de telhado a telhado e a casa abalada; fala dos três lugares de perigo e das estações em que se pode navegar; e termina explicando, com Adam HaRishon, sangue, chalá pura e lâmpada do mundo, por que essas três mitzvot foram entregues à mulher. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 31b.
Mishná: Por três transgressões as mulheres morrem na hora do seu parto: isto é, porque não são cuidadosas com a nidá (as leis da separação no período menstrual), com a chalá (a porção da massa que se separa para o cohen) e com a hadlakat haner (o acender da lâmpada na véspera do Shabat).
Na Mishná: “Por três transgressões as mulheres morrem” etc. Há tanaim que ensinam: as mulheres morrem yeladot (jovens); há tanaim que ensinam: elas morrem yoledot (quando dão à luz). Quem diz “yeladot” se apoia no que foi ensinado em nome de Rabi Yudá: pelo pecado dos votos morrem os filhos pequenos. E qual é a razão? Está escrito: “Em vão feri os vossos filhos” (Yirmeyahu 2:30). E quem diz “yoledot” aprende daqui que o satan (o acusador) não acusa senão na hora do perigo, e o parto é hora de perigo.
Rabi Pinchas e Rabi Yirmeyá disseram em nome de Rabi Chiya bar Ba: está escrito: “E diante de Elazar, o cohen, ele se apresentará, e Elazar perguntará por ele pelo mishpat haurim (o julgamento dos Urim)” (Bamidbar 27:21). Não está escrito aqui “pela ordem dos Urim”, mas “pelo julgamento dos Urim”. Mas isto ensina que, na hora em que Israel sai para a guerra, o tribunal de cima se senta em julgamento sobre eles, para decidir se hão de vencer ou se hão de ser vencidos. Rabi Chiya bar Ba disse: está escrito: “Quando saíres em acampamento contra os teus inimigos, guardar-te-ás de toda coisa má” (Devarim 23:10). Então, se ele não sai, não precisa de guarda? Não é isso; mas daqui se aprende que o satan não acusa senão na hora do perigo.
Rabi Achai bar Yaakov disse: está escrito sobre Binyamin: “E lhe sobrevirá um desastre no caminho” (Bereshit 42:38). Então, em casa, não lhe sobreviria? Não é isso; mas daqui se aprende que o satan não acusa senão na hora do perigo, e o caminho é hora de perigo.
Rabi Bisna disse em nome de Rabi Lia: está escrito: “Dia de angústia, de repreensão e de afronta é este dia” (Melachim II 19:3; Yeshayahu 37:3). Então, em outro dia, não haveria angústia? Não é isso; mas daqui se aprende que o satan não acusa senão na hora do perigo, quando a angústia chega.
Rabi Aivo bar Nagorei disse: está escrito: “Quando for julgado, sairá ímpio” (Tehilim 109:7). Não está escrito aqui “sairá justo”, mas sim “quando for julgado, sairá ímpio”, pois no julgamento o acusador prevalece. Mas daqui se aprende que o satan não acusa senão na hora do perigo, e a hora do julgamento é hora de perigo.
Rabi Ba bar Biná disse: uma tábua que está estendida de telhado a telhado, mesmo que seja larga quanto for, é proibido andar sobre ela. Por quê? Não há outra razão senão a que se aprende daqui: que o satan não acusa senão na hora do perigo.
Rav disse: quem se senta numa casa abalada e prestes a cair faz do anjo da morte o seu danistés (credor), como está escrito no versículo: “Que a morte cobre sobre eles” (Tehilim 55:16), com o verbo de cobrar dívida, como dizes em outro versículo: “Quando emprestares ao teu próximo um empréstimo qualquer” (Devarim 24:10).
Rabi Levi disse: em três lugares o satan está presente para acusar: contra quem anda no caminho por si só, e quem dorme numa casa escura por si só, e quem navega no Grande Mar. Rabi Yitzchak bar Marion disse: se não estivesse escrito: “Assim diz o Eterno, que dá no mar um caminho” (Yeshayahu 43:16), assim que uma pessoa descesse para dentro dele, logo morreria. E os rabinos dizem: “que dá no mar um caminho”, isto é, desde Atzeret (Shavuot) até o Chag (Sucot); “e nas águas fortes, uma vereda” (Yeshayahu 43:16), isto é, desde o Chag até Chanuká, e depois disso o mar é perigoso. Quanto a Rabi Yossi, filho de Rabi Tanchum de Kefar Aguin, houve um caso: ele estava em Assia, e veio querendo navegar desde o Chag até Chanuká. Viu-o uma matroná (senhora nobre) e disse-lhe: agora se navega? Apareceu-lhe o seu pai em sonho, com o versículo: “E também sepultura não teve” (Kohelet 6:3). E ele não deu ouvidos nem a esta nem àquele, e foi para o mar. Rabi Cohen, irmão de Rabi Chiya bar Ba, era navegante. Ele também veio querendo navegar desde o Chag até Chanuká. Disse ao seu irmão: reza por mim. O irmão disse-lhe: sim, eu rezei por ti; mas, se vires o público rezando pela chuva, não confies na minha oração, pois o público pede chuva. Desde a hora em que atas o teu lulav, ata os teus pés e não navegues mais.
Na Mishná: “Porque não são cuidadosas com a nidá, com a chalá e com a hadlakat haner.” Adam HaRishon era o sangue do mundo, como está escrito no versículo: “E uma névoa subia da terra” (Bereshit 2:6), e dela a terra foi regada para que o homem fosse formado; e Chavá lhe causou a morte. Por isso entregaram a mitzvá (o mandamento) da nidá à mulher, para reparar o sangue do mundo.
E “com a chalá”: Adam HaRishon mesmo era a chalá pura do mundo, como está escrito: “E formou o Eterno Deus o homem, pó da terra” (Bereshit 2:7), da terra regada, como de uma massa. E isto vem de acordo com o que disse Rabi Yossi bar Katzartá: assim que a mulher agita a sua massa na água, ela levanta dela a sua chalá; assim também, depois que a névoa regou a terra, foi levantado Adam, a chalá do mundo. E Chavá lhe causou a morte. Por isso entregaram a mitzvá da chalá à mulher, para reparar a chalá do mundo.
E “com a hadlakat haner”: Adam HaRishon era a lâmpada do mundo, que iluminava a criação, como foi dito no versículo: “Lâmpada de Deus é a alma do homem” (Mishlei 20:27). E Chavá lhe causou a morte, apagando essa lâmpada. Por isso entregaram a mitzvá da lâmpada à mulher, para reparar a lâmpada do mundo. Foi ensinado: Rabi Yossi diz: três dibkei mitá (apegos de morte, cuja negligência traz a morte) são, e os três foram entregues à mulher; e estes são eles: a mitzvá da nidá, a mitzvá da chalá e a mitzvá do acender da lâmpada.
Esta é a sexta halachá do Perek Bet de Massechet Shabbat, Bameh Madlikin, que corresponde à Mishná Shabbat 2:6 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com a discussão de Rabi Yudá e Rabi Yossi sobre o acender e o cozinhar no altar: para Rabi Yudá, a consumação dos membros e das gorduras é acender; para Rabi Yossi, é como cozinhar. A Mishná desta halachá deixa a questão dos trabalhos do Shabat e ensina que, por três transgressões, as mulheres morrem na hora do parto: por não serem cuidadosas com a nidá, com a chalá e com o acender da lâmpada. No Bavli, esta Mishná está em Shabbat 31b, e a sua guemará segue em Shabbat 32a e 32b.
Na seção 01, a guemará traz duas versões da Mishná: “yoledot”, quando dão à luz, e “yeladot”, jovens. O Bavli, Shabbat 32a, traz a mesma divergência numa baraita: o primeiro tana ensina “yoledot”, e Rabi Elazar diz “yeladot”. Quem diz “yeladot” se apoia no ensinamento em nome de Rabi Yudá de que, pelo pecado dos votos, morrem os filhos, com o versículo de Yirmeyahu 2:30, “em vão feri os vossos filhos”; no Bavli, Shabbat 32b, é Rebi quem diz que, pelo pecado dos votos, morrem os filhos quando ainda são pequenos, e em Ketubot 72a a frase “pelo pecado dos votos morrem os filhos” é trazida como palavra do mestre. Quem diz “yoledot” aprende que o satan, o acusador no tribunal de cima, só acusa na hora do perigo, e o parto é hora de perigo. O verbo “mekatreg”, acusar, vem do grego, como anota Guggenheimer.
As seções 02 a 06 trazem uma série de provas para a mesma regra, cada uma encerrada com a frase “mas daqui se aprende que o satan não acusa senão na hora do perigo”. Na seção 02, Bamidbar 27:21 fala de Yehoshua, que se apresentará diante de Elazar, o cohen, e este perguntará por ele pelo julgamento dos Urim; a guemará deduz da palavra “julgamento” que, quando Israel sai à guerra, o tribunal de cima julga se vencerão ou serão vencidos. Devarim 23:10, “quando saíres em acampamento contra os teus inimigos, guardar-te-ás de toda coisa má”, segue a mesma linha: não é que só fora de casa seja preciso guardar-se, mas na hora do perigo a acusação é maior. Na seção 03, o versículo de Bereshit 42:38 é a palavra de Yaakov sobre Binyamin; o versículo se escreve “ukraahu”, com alef. Guggenheimer anota que, em outro testemunho do texto, a prova da seção 04 vem antes da prova da seção 03. Na seção 04, o versículo de Melachim II 19:3, repetido em Yeshayahu 37:3, continua: “porque os filhos chegaram até o mashber, o lugar do parto, e não há força para dar à luz”; por isso ele serve de prova para a hora do parto. Na seção 05, Tehilim 109:7 diz que, na hora do julgamento, o homem sai ímpio, e não justo. Na seção 06, Guggenheimer propõe apagar a palavra “daqui”, com outro testemunho do texto; traduzimos o hebraico desta edição.
Na seção 07, Rav compara quem se senta numa casa abalada a um devedor: o anjo da morte se torna o seu credor, “danistés”, palavra grega. O versículo de Tehilim 55:16 se escreve “yashimavet” e se lê “yashí mavet”; a guemará entende “yashí” do verbo de Devarim 24:10, “ki tashé”, emprestar e cobrar. Traduzimos o versículo de acordo com essa leitura.
Na seção 08, os três lugares de perigo são o caminho, quando se anda sozinho, a casa escura, quando se dorme sozinho, e o Grande Mar, isto é, o Mediterrâneo. Rabi Yitzchak bar Marion diz que, sem o versículo de Yeshayahu 43:16, “que dá no mar um caminho e nas águas fortes uma vereda”, quem descesse ao mar morreria; e os rabinos dividem o mesmo versículo em duas estações de navegação: “caminho”, de Shavuot até Sucot, e “vereda”, de Sucot até Chanuká, e depois disso o mar é perigoso. A palavra “ovda”, um caso, Guggenheimer considera acréscimo de um corretor; o lugar se escreve “Assia”. A senhora nobre e o pai em sonho advertiram Rabi Yossi, filho de Rabi Tanchum, e o pai lhe trouxe o versículo de Kohelet 6:3, “e também sepultura não teve”, isto é, quem morre no mar não é sepultado; o texto não conta o que lhe aconteceu depois. O irmão de Rabi Chiya bar Ba lhe explica que, depois que o público começa a rezar pela chuva, no fim de Sucot, a oração particular por bom tempo não pode prevalecer; e quem já atou o seu lulav, em Sucot, deve “atar os pés” e não navegar mais. A instrução de tomar o lulav está em Vayikrá 23:40.
Nas seções 09 a 11, a guemará explica por que justamente essas três mitzvot foram entregues à mulher. Adam HaRishon é chamado o sangue do mundo, com Bereshit 2:6, a névoa que regou a terra; a chalá pura do mundo, com Bereshit 2:7, o homem formado do pó da terra, como a mulher que mistura a massa na água e dela separa a chalá, segundo Rabi Yossi bar Katzartá; e a lâmpada do mundo, com Mishlei 20:27. Como Chavá lhe causou a morte, a mulher recebeu as três mitzvot que correspondem a essas três coisas. O mesmo ensinamento está em Bereshit Rabá 17:8: “por que lhe foi dada a mitzvá da nidá? Porque derramou o sangue de Adam HaRishon”, e da mesma forma a chalá e a lâmpada. As palavras em itálico que falam de “reparar” explicitam esse sentido, que não está escrito na guemará. O versículo de Mishlei 20:27 diz “nêr Hashem”, com o Nome; a guemará cita “nêr Elohim”, e traduzimos “Lâmpada de Deus”, de acordo com o hebraico da guemará.
Na seção 11, a baraita de Rabi Yossi, “três apegos de morte são, e os três foram entregues à mulher”, está na Tosefta Shabbat 2:10, conferida: lá Rabi Yossi diz “três são os apegos de morte entregues às mulheres”, sem enumerá-los, e Rabi Natan acrescenta que também pelos votos as mulheres morrem na hora do parto. Guggenheimer observa que esta é das poucas passagens em que o acender da lâmpada da véspera do Shabat é chamado mitzvá.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi escreve “haNashim”, com o artigo, “meitot” e “leidatan” com yod, “baNidá” com yod e “vaChalá” sem a conjunção “e”; a Mishná avulsa escreve “nashim metot”, sem artigo, “ledatan” e “baNidá uvaChalá”. Na seção 01, a citação da Mishná escreve “aveirot” com yod e “metot” sem yod; na seção 09, “baNidá uvaChalá”, como a Mishná avulsa. Na seção 03, o hebraico escreve “ukrahu”, sem alef; na seção 09, “veed” se escreve com yod. Na seção 11, o hebraico escreve “ushloshtan” com um sinal de cholam sobre o vav; conservamos todas essas grafias. Na seção 08, o nome de Rabi Yossi, filho de Rabi Tanchum, se escreve “Yossé”; traduzimos “Rabi Yossi”, como nas halachot anteriores.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. As referências de Guggenheimer foram conferidas: Yirmeyahu 2:30, Bamidbar 27:21, Devarim 23:10 e 24:10, Bereshit 2:6, 2:7 e 42:38, Melachim II 19:3, Yeshayahu 37:3 e 43:16, Tehilim 55:16 e 109:7, Kohelet 6:3, a Tosefta Shabbat 2:10 e o Bavli, Shabbat 32a e 32b e Ketubot 72a, estão corretas; a remissão a Provérbios 20:23 foi corrigida para Mishlei 20:27, e a de Números 23:40, sobre o lulav, para Vayikrá 23:40. Guggenheimer traduz “mekatreg” por “accuses”, “danistés” por “creditor” e “dibkei mitá” por “clingings of death”; seguimos o mesmo sentido.
A Mishná seguinte, Shabbat 2:7, começa: “Três coisas o homem precisa dizer dentro da sua casa na véspera do Shabat, ao escurecer.”