Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Gimel (HaOreg)
הַקּוֹרֵעַ בַּחֲמָתוֹ

Resposta sobre rasgar para costurar; nova mishná: quem rasga em sua ira ou por seu morto está isento; a guemará distingue morto próprio e alheio, sábio e íntegro, e a disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon

Shabbat 105b · continuação direta de 105a · Perek Yud-Gimel, HaOreg

Shabbat 105b abre respondendo diretamente à pergunta com que 105a terminou — onde se encontra o caso de rasgar a fim de costurar dois pontos: quando a peça de roupa forma como uma bolsa (uma dobra irregular que sobressai), sendo necessário rasgar por baixo e dobrar a sobra para que a costura se ajuste. Segue-se uma nova mishná: quem rasga sua roupa em sua ira, ou por seu morto, e todos os que realizam um trabalho de modo destrutivo, estão isentos; mas quem danifica a fim de reparar tem sua medida equiparada à de quem repara; e são dadas as medidas mínimas de quem branqueia, carda, tinge e fia lã (a largura de um sit dobrado), e de quem tece dois fios (a largura de um sit). A guemará levanta uma contradição entre esta mishná e uma baraita que obriga quem rasga por seu morto, resolvida em várias etapas: primeiro pela distinção entre morto próprio (obrigado) e morto alheio (isento); depois, quanto ao morto próprio, pela distinção entre parentes sujeitos ao luto por lei da Torá e os que não o são — com a ressalva de que, se o morto é um sábio ou uma pessoa íntegra, ou se estava presente no momento da saída da alma, há obrigação de qualquer forma. Quanto a rasgar em ira, a contradição entre a mishná (que isenta) e a baraita (que obriga) é atribuída à disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre se um trabalho que não é necessário por si mesmo gera responsabilidade. Rabi Avin explica que rasgar em ira também é um ato construtivo, pois alivia a inclinação ao mal — o que a guemará questiona trazendo a baraita de Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabi Yochanan ben Nuri, que compara quem rasga, quebra ou espalha bens em sua ira a um idólatra. A guemará resolve isso com o caso de quem apenas finge ira para incutir temor nos membros de sua casa, trazendo os exemplos de Rav Yehudá, Rav Achá bar Yaakov, Rav Sheshet e Rabi Abá. Seguem-se os ensinamentos de Bar Kapara sobre as lágrimas derramadas por um justo, e de Rav e Rabi Yochanan sobre a negligência no elogio fúnebre de um sábio, com a objeção de Rabi Chiya bar Abá quanto aos anciãos da geração de Yehoshua. O daf termina no meio de um novo ensinamento de Rabi Chiya bar Abá em nome de Rabi Yochanan, sobre um dos irmãos que morre — sem conclusão, que continuará em 106a.

Resposta: onde se rasga para costurar · דְּעַבְדַהּ כִּי כִיסְתָּא

428Continuação de 105a: onde se encontra o caso de rasgar para costurar dois pontos? Onde a peça forma como uma bolsa — rasga-se embaixo e dobra-se a sobra
A Guemará
דְּעַבְדַהּ כִּי כִיסְתָּא.

(Continuação da pergunta com que terminou 105a — "onde se encontra isso?") Onde ele a faz (a peça) como uma bolsa.

Nota — retomando de 105a

Confirmado via Sefaria: esta é exatamente a resposta que 105a deixou pendente. A guemará explica que o caso de rasgar deliberadamente uma peça de roupa apenas para depois costurá-la de volta com dois pontos ocorre quando a costura da peça está desigual e forma, num certo ponto, uma espécie de bolsa — uma dobra ou saliência irregular que atrapalha o ajuste do tecido. Nesse caso, a solução é rasgar a peça por baixo dessa saliência e dobrar (amassar) a sobra de tecido para dentro, de modo que, ao coser novamente com dois pontos, a costura se acomode de forma lisa e regular. É, portanto, um rasgo com propósito claramente construtivo — feito exatamente a fim de tornar possível uma costura adequada.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "de'avdah" e "ki chista"
דעבדה - הבגד: כי כיסתא - הולכת ומתקפלת שאין הבגד שוה ובולט בבגד כמין כיס וצריך לקרוע הבגד למטה ומולל לפניו והתפירה מתיישבת:

"'Ele a faz'" — a peça de roupa. "'Como uma bolsa'" — vai se dobrando, pois a peça não fica uniforme e sobressai na peça como uma espécie de bolsa, sendo necessário rasgar a peça por baixo e amassar (a sobra) à sua frente, e então a costura se acomoda.

Nova Mishná: quem rasga em sua ira ou por seu morto; os que danificam; medidas de branquear, tingir, fiar e tecer · הַקּוֹרֵעַ בַּחֲמָתוֹ וְעַל מֵתוֹ

429Mishná: quem rasga em sua ira ou por seu morto está isento; todo o que danifica está isento; quem danifica a fim de reparar é obrigado; medidas de branquear, cardar, tingir, fiar (sit dobrado) e tecer (um sit)
Mishná
מַתְנִי׳ הַקּוֹרֵעַ בַּחֲמָתוֹ וְעַל מֵתוֹ, וְכׇל הַמְקַלְקְלִין — פְּטוּרִין. וְהַמְקַלְקֵל עַל מְנָת לְתַקֵּן — שִׁיעוּרוֹ כִּמְתַקֵּן. שִׁיעוּר הַמְלַבֵּן וְהַמְנַפֵּץ וְהַצּוֹבֵעַ וְהַטּוֹוֶה — כִּמְלֹא רֹחַב הַסִּיט כָּפוּל, וְהָאוֹרֵג שְׁנֵי חוּטִין — שִׁיעוּרוֹ כִּמְלֹא הַסִּיט.

MISHNÁ. Quem rasga em sua ira, ou por seu morto, e todos os que danificam (realizam um trabalho de modo destrutivo) — estão isentos. E quem danifica a fim de reparar — sua medida é como a de quem repara. A medida de quem branqueia, de quem carda, de quem tinge, e de quem fia (lã) — é a largura completa de um sit dobrado; e de quem tece dois fios — sua medida é a largura completa de um sit.

Nota — nova mishná no meio do daf

Confirmado via Sefaria: esta é uma nova mishná (a segunda do Perek Yud-Gimel, HaOreg), que retoma e complementa o princípio geral, já conhecido de outros contextos, de que um trabalho proibido no Shabat só gera responsabilidade plena quando é realizado de modo construtivo. Quem rasga sua roupa por raiva, ou em anguish por seu morto, está isento, porque esse ato é puramente destrutivo — não constrói nem repara nada. O mesmo vale, em termos gerais, para "todos os que danificam": quem realiza qualquer uma das trinta e nove categorias de trabalho de forma destrutiva está isento. Mas se a intenção por trás do ato destrutivo é, em última análise, reparar algo (como o próprio caso de rasgar para depois costurar, explicado no início deste daf), a medida de responsabilidade equipara-se à de um ato plenamente construtivo. A mishná fecha com as medidas mínimas de várias melachot da lã: quem branqueia a lã, quem a carda (desembaraça as fibras), quem a tinge, ou quem a fia — a medida é a largura de um "sit" dobrado (o dobro da distância entre o polegar e o indicador); e quem tece dois fios — apenas a largura de um sit (metade dessa medida), sem dobrar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hasit kaful" e "ha'oreg shnei chutin shi'uro"
מתני' הסיט כפול - מפרש בגמרא סיט הוא הפסק שבין אצבע לאמה כמו שאדם יכול להרחיבו ואם טוה וליבן וניפץ וצבע שהן כולן אבות מלאכות חוט א' ארוך כשיעור הזה חייב: האורג ב' חוטין שיעורו - ברוחב הבגד כמלא הסיט שאע"פ שלא ארגו על פני כל רוחב הבגד חייב:

"'MISHNÁ: o sit dobrado'" — a guemará explicará: o sit é o intervalo entre o (dedo) indicador e o polegar, tanto quanto uma pessoa consegue alargá-lo; e se fiou, branqueou, cardou ou tingiu — que são todas categorias primárias de trabalho — um fio único, longo nessa medida, está obrigado. "'Quem tece dois fios, sua medida'" — na largura da peça de roupa, a medida completa de um sit: pois, ainda que não tenha tecido ao longo de toda a largura da peça, está obrigado.

A guemará levanta uma contradição: quem rasga por seu morto não estaria obrigado? · וּרְמִינְהוּ

430Guemará: contradição entre a mishná (isento) e uma baraita (obrigado, "cumpriu a obrigação de rasgar"); resolução: morto próprio versus morto alheio
A Guemará
גְּמָ׳ וּרְמִינְהוּ: הַקּוֹרֵעַ בַּחֲמָתוֹ וּבְאֶבְלוֹ וְעַל מֵתוֹ — חַיָּיב, וְאַף עַל פִּי שֶׁמְּחַלֵּל אֶת הַשַּׁבָּת, יָצָא יְדֵי קְרִיעָה! לָא קַשְׁיָא: הָא בְּמֵת דִּידֵיהּ, הָא בְּמֵת דְּעָלְמָא.

GUEMARÁ. E levantamos uma contradição: quem rasga em sua ira, em seu luto, ou por seu morto — está obrigado; e ainda que profane o Shabat, cumpriu (a obrigação) de rasgar! Não é difícil: este (caso, da mishná) é sobre o morto de qualquer um (não parente); este (caso, da baraita) é sobre seu próprio morto.

Nota

A guemará confronta a nova mishná com uma baraita que parece dizer exatamente o oposto: que quem rasga sua roupa por raiva, em luto, ou por seu morto está obrigado por profanar o Shabat — embora, ainda assim, tenha cumprido sua obrigação religiosa de rasgar as vestes em sinal de luto (o cumprimento de um mandamento não anula a violação simultânea de outro). A primeira resolução distingue entre dois tipos de "morto": a mishná, que isenta, fala do morto de qualquer pessoa (um estranho, por quem não há obrigação legal de rasgar); a baraita, que obriga, fala do próprio morto do endolado — um parente por quem a pessoa é obrigada por lei a rasgar suas vestes. Nesse caso, o rasgo não é puramente destrutivo: cumpre uma mitzvá, e por isso é tratado como um ato construtivo, gerando responsabilidade plena por profanar o Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "yatza yedei kri'ah" e "ha bemet dideih"
גמ' נראה בעיני דהכי גרסי' ורמינהו הקורע בחמתו ובאבלו ועל מתו חייב ואע"פ כו' ולמאי דגרס הקורע בחמתו ובאבלו ועל מתו אע"פ כו' לא ידענא מאי יצא ידי הקריעה שייך למימר אבחמתו ואמאי נקט בחמתו: יצא ידי הקריעה - שאדם חייב לקרוע על מתו: הא במת דידיה - ברייתא דקתני חייב במת דידיה שחייב לקרוע עליו הלכך קריעה דידיה לאו קלקול הוא אלא תקון:

"'GUEMARÁ'" — parece-me que assim se lê: "e levantamos uma contradição: quem rasga em sua ira, em seu luto, e por seu morto — está obrigado, e ainda que" etc. E, segundo a leitura "quem rasga em sua ira, em seu luto, e por seu morto, ainda que" etc., não sei qual seria o sentido de "cumpriu a obrigação de rasgar" a respeito de "em sua ira" — nem por que se mencionaria "em sua ira" ali. "'Cumpriu a obrigação de rasgar'" — pois a pessoa está obrigada a rasgar por seu morto. "'Este, sobre seu próprio morto'" — a baraita que ensina "obrigado" fala de seu próprio morto, por quem está obrigado a rasgar; portanto, seu rasgo não é dano, mas reparo.

431Mas a mishná também diz "seu morto"! Resolução: parentes não sujeitos ao luto por lei da Torá; se é um sábio, todos são "como seus parentes"; a mishná fala de quem não é sábio
A Guemará
וְהָא ״מֵתוֹ״ קָתָנֵי! לְעוֹלָם בְּמֵת דִּידֵיהּ, וּבְהָנָךְ דְּלָאו בְּנֵי אֲבֵילוּת נִינְהוּ. וְאִי חָכָם הוּא — חַיּוֹבֵי מִיחַיַּיב, דְּתַנְיָא: חָכָם שֶׁמֵּת — הַכֹּל קְרוֹבָיו. הַכֹּל קְרוֹבָיו סָלְקָא דַּעְתָּךְ?! אֶלָּא אֵימָא: הַכֹּל כִּקְרוֹבָיו, הַכֹּל קוֹרְעִין עָלָיו, הַכֹּל חוֹלְצִין עָלָיו, הַכֹּל מַבְרִין עָלָיו בָּרְחָבָה. לָא צְרִיכָא, דְּלָאו חָכָם הוּא.

Mas não se ensinou "seu morto" (na mishná)?! Na verdade, (fala) de seu próprio morto, mas quanto àqueles que não são sujeitos ao luto (por lei da Torá). E se é um sábio (que morreu) — de fato está obrigado, pois foi ensinado: quando um sábio morre, todos são seus parentes. "Todos são seus parentes" — passa pela tua mente?! Antes, diga: todos são como seus parentes — todos rasgam por ele, todos descobrem (o ombro) por ele, todos fazem a refeição de consolação por ele na praça pública. Não foi necessário (ensinar a isenção da mishná) senão onde ele não é um sábio.

Nota

A guemará observa que a própria mishná usa a expressão "seu morto" — o que parece indicar que já se refere ao morto próprio do endolado, e não a um estranho, contradizendo a resolução anterior. A guemará então refina a resposta: a mishná, de fato, também trata do morto próprio, mas especificamente daqueles parentes que, segundo a Torá (Vayikra 21), não geram obrigação legal de luto — por exemplo, parentes mais distantes do que os sete listados na Torá (pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, cônjuge). Uma nova dificuldade surge: e se o morto, ainda que não seja um parente próximo por lei, era um sábio (talmid chacham)? Nesse caso, segundo uma baraita, "todos são seus parentes" — todos devem tratá-lo como parente para efeitos de luto. A guemará corrige essa formulação hiperbólica: não que literalmente todos sejam considerados parentes legais, mas que todos agem como se fossem — rasgando as vestes, descobrindo o ombro (sinal de luto) e participando da refeição de consolação na praça pública. A resposta final: a isenção da mishná só se aplica quando o morto não era um sábio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "leolam bemet dideih", "chotzin" e "mavrin alav barechavá"
והא מתו - נמי קתני במתני': לעול' במת דידיה - שמוטל עליו לקוברו ומיהו בהנך דלאו בני אבלו' נינהו שאינן מאותן האמורים בפרשת כהנים (ויקרא כא) אביו ואמו בנו ובתו ואחיו ואחותו: ופרכינן ואי חכם הוא - זה שמת חיובי מיחייב נמי לקרוע וכיון דמיחייב מתקן הוא ואמאי פטור: חולצין - יוצאים לפניו חלוצי כתף חלוקו קרוע עד שכתיפו חלוצה ערומה: מברין עליו ברחבה - שהיו מברין האבלין ברחבה סעודה ראשונה שאבל אוכל אינו אוכל משלו ואסור דקאמר ליה רחמנא ליחזקאל (כד) לחם אנשים לא תאכל:

"'Mas não se ensinou "seu morto"'" — também na mishná. "'Na verdade, sobre seu próprio morto'" — sobre quem recai a obrigação de sepultá-lo; mas quanto àqueles que não são sujeitos ao luto, isto é, que não estão entre os mencionados na porção dos sacerdotes (Vayikra 21): pai, mãe, filho, filha, irmão e irmã. E perguntamos: "'e se é um sábio'" — este que morreu, também estaria de fato obrigado a rasgar, e, sendo obrigado, é (ato) reparador — e por que estaria isento? "'Descobrem (o ombro)'" — saem diante dele com o ombro descoberto, a túnica rasgada até que o ombro fique descoberto, nu. "'Fazem a refeição de consolação por ele na praça pública'" — pois faziam a refeição de consolação dos enlutados na praça pública, a primeira refeição, já que o enlutado não come de sua própria (comida) — é proibido, conforme disse o Misericordioso a Yechezkel (24): "pão de homens não comerás".

432E se é uma pessoa íntegra? Baraita: por que morrem filhos pequenos — para que se chore por um íntegro; resolvida: a mishná fala de quem não é íntegro
A Guemará
וְאִי אָדָם כָּשֵׁר הוּא חַיּוֹבֵי מִיחַיַּיב, דְּתַנְיָא: מִפְּנֵי מָה מֵתִים בָּנָיו וּבְנוֹתָיו שֶׁל אָדָם כְּשֶׁהֵן קְטַנִּים — כְּדֵי שֶׁיִּבְכֶּה וְיִתְאַבֵּל עַל אָדָם כָּשֵׁר. כְּדֵי שֶׁיִּבְכֶּה?! עֶרְבוֹנָא שָׁקְלִי מִינֵּיהּ?! אֶלָּא: מִפְּנֵי שֶׁלֹּא בָּכָה וְהִתְאַבֵּל עַל אָדָם כָּשֵׁר, שֶׁכׇּל הַבּוֹכֶה עַל אָדָם כָּשֵׁר מוֹחֲלִין לוֹ עַל כׇּל עֲוֹנוֹתָיו בִּשְׁבִיל כָּבוֹד שֶׁעָשָׂה. לָא צְרִיכָא, דְּלָאו אָדָם כָּשֵׁר הוּא.

E se é uma pessoa íntegra — de fato está obrigado, pois foi ensinado: por que motivo morrem os filhos e as filhas de uma pessoa quando são pequenos? Para que ela chore e se lamente por uma pessoa íntegra. "Para que ela chore"?! Toma-se dela um penhor antecipadamente?! Antes: porque não chorou nem se lamentou por uma pessoa íntegra (que morreu) — pois todo aquele que chora por uma pessoa íntegra, perdoam-lhe todas as suas transgressões, por causa da honra que prestou. Não foi necessário (ensinar a isenção da mishná) senão onde ele não é uma pessoa íntegra.

Nota

A guemará levanta uma dificuldade análoga quanto à pessoa íntegra (adam kasher) que, sem ser um sábio erudito, viveu de modo reto e justo. Uma baraita traz um ensinamento surpreendente: filhos e filhas morrem jovens para que os pais chorem e se lamentem pela morte de alguma pessoa íntegra que venha a falecer depois. A guemará rejeita a leitura literal — como se D'us tomasse "um penhor" antecipado de sofrimento para garantir que a pessoa cumprirá, no futuro, sua obrigação emocional de chorar por um justo — e reinterpreta: a verdadeira razão é que essa pessoa, no passado, não chorou nem se lamentou apropriadamente pela morte de algum íntegro, perdendo a oportunidade de perdão que isso traria (pois quem chora sinceramente pela morte de um justo recebe perdão de todas as suas transgressões, em mérito da honra prestada). A conclusão prática: também aqui, a isenção da mishná (por rasgar as vestes por um "morto" não sujeito a luto) só se aplica quando o falecido não era uma pessoa íntegra — caso contrário, haveria obrigação.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ervona shaklei mineih"
ערבונא שקלי - קודם שיחטא נטלו משכונו:

"'Toma-se dela um penhor'" — antes que ela peque, tomam dela seu penhor?

433E se estava presente no momento da saída da alma? Rabi Shimon ben Elazar: obrigado a rasgar, comparado a um Sêfer Torá queimado; resolvida: a mishná fala de quem não estava presente
A Guemará; Rabi Shimon ben Elazar
וְאִי דְּקָאֵי בִּשְׁעַת יְצִיאַת נְשָׁמָה — חַיּוֹבֵי מִיחַיַּיב, דְּתַנְיָא: רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: הָעוֹמֵד עַל הַמֵּת בִּשְׁעַת יְצִיאַת נְשָׁמָה — חַיָּיב לִקְרוֹעַ, הָא לְמָה זֶה דּוֹמֶה — לְסֵפֶר תּוֹרָה שֶׁנִּשְׂרָף! לָא צְרִיכָא, דְּלָא קָאֵי בִּשְׁעַת יְצִיאַת נְשָׁמָה.

E se estava presente no momento da saída da alma — de fato está obrigado, pois foi ensinado: Rabi Shimon ben Elazar diz: quem está junto ao morto no momento da saída da alma está obrigado a rasgar (suas vestes) — a que isso se assemelha? A um rolo da Torá que foi queimado! Não foi necessário (ensinar a isenção da mishná) senão onde ele não estava presente no momento da saída da alma.

Nota

Uma terceira exceção: mesmo quando o morto não é parente, sábio, nem pessoa íntegra reconhecida, há ainda uma obrigação especial para quem está fisicamente presente no exato momento em que a alma deixa o corpo. Rabi Shimon ben Elazar compara esse instante à destruição de um rolo da Torá pelo fogo — assim como se rasga as vestes ao testemunhar a queima de um Sêfer Torá (por representar a perda irreparável da presença viva da Torá no mundo), também se rasga ao testemunhar o momento exato da morte de qualquer pessoa, pois a alma humana, feita à imagem de D'us, é comparável a um rolo sagrado que se apaga. A guemará conclui, mais uma vez, que a isenção da mishná só se aplica a quem não estava presente nesse momento preciso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lesefer Torá shenisraf"
לס"ת שנשרף - הרואה ס"ת שנשרף חייב לקרוע כדאמרינן במו"ק (דף כו.) במגילה ששרף יהויקים דכתיב לא פחדו ולא קרעו בגדים אף נשמת ישראל הניטלת דומה לו שאין לך ריק בישראל שאין בו תורה ומצות:

"'A um rolo da Torá que foi queimado'" — quem vê um Sêfer Torá que foi queimado está obrigado a rasgar (suas vestes), conforme dizemos em Moed Katan (26a), a respeito do rolo que Yehoyakim queimou, pois está escrito: "não temeram, nem rasgaram as vestes"; também a alma de um israelita que é tomada se assemelha a ele, pois não há homem vazio em Israel que não tenha Torá e mandamentos.

434Está bem quanto a "seu morto"; mas "sua ira" contra "sua ira" é difícil! Resolução: a disputa entre Rabi Yehudá (obriga trabalho não necessário por si mesmo) e Rabi Shimon (isenta)
A Guemará
תִּינַח מֵתוֹ, אֶלָּא חֲמָתוֹ אַחֲמָתוֹ קַשְׁיָא! חֲמָתוֹ אַחֲמָתוֹ נָמֵי לָא קַשְׁיָא, הָא — רַבִּי יְהוּדָה, הָא — רַבִּי שִׁמְעוֹן. הָא רַבִּי יְהוּדָה, דְּאָמַר מְלָאכָה שֶׁאֵין צְרִיכָה לְגוּפָהּ — חַיָּיב עָלֶיהָ. הָא רַבִּי שִׁמְעוֹן, דְּאָמַר מְלָאכָה שֶׁאֵין צְרִיכָה לְגוּפָהּ — פָּטוּר עָלֶיהָ.

Está bem quanto a "seu morto"; mas "sua ira" contra "sua ira" é difícil! "Sua ira" contra "sua ira" também não é difícil: este (caso, da baraita, que obriga) é (segundo) Rabi Yehudá; este (caso, da mishná, que isenta) é (segundo) Rabi Shimon. Este (é) Rabi Yehudá, que disse: um trabalho que não é necessário por si mesmo — está obrigado por ele. Este (é) Rabi Shimon, que disse: um trabalho que não é necessário por si mesmo — está isento por ele.

Nota

Resolvida a contradição quanto a "seu morto", a guemará volta à outra metade original da contradição: rasgar em ira. A mishná isenta; a baraita obriga. Aqui a resolução não distingue tipos de casos, mas atribui cada fonte a um sábio diferente, retomando uma disputa fundamental já conhecida de outros lugares no tratado: um trabalho proibido "que não é necessário por si mesmo" — isto é, realizado não pelo propósito construtivo usual daquela melachá, mas por outro motivo (aqui, aliviar a raiva, e não verdadeiramente para destruir ou consertar a roupa). Segundo Rabi Yehudá, mesmo esse tipo de trabalho gera responsabilidade plena — daí a baraita, que o segue, obrigar por rasgar em ira. Segundo Rabi Shimon, esse tipo de trabalho isenta — daí a mishná, que o segue, isentar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ha Rabi Yehudá"
הא ר' יהודה כו' - ומתו אמתו הכי נמי הוה מצי לתרוצי אלא מעיקרא אהדר לאוקמינהו כחד תנא ולא מתוקמא אלא כר' יהודה דהא מלאכה שאינה צריכה לגופה היא כמוציא את המת לקוברו:

"'Este é Rabi Yehudá'" etc. — e também quanto a "seu morto" contra "seu morto" seria possível resolver assim (atribuindo a sábios diferentes); mas, de início, (a guemará) procurou estabelecer ambas (as fontes) segundo um único tanna, e isso só se sustenta segundo Rabi Yehudá, pois (rasgar por) um morto (para sepultá-lo) é como trabalho que não é necessário por si mesmo, semelhante a tirar o morto para sepultá-lo.

435Mas Rabi Yehudá só se ouviu quanto a ato construtivo — quanto a destrutivo? Rabi Avin: rasgar em ira também é construtivo, pois alivia a inclinação ao mal; a baraita de Rabi Yochanan ben Nuri: quem rasga em ira é como idólatra
A Guemará; Rabi Avin; Rabi Shimon ben Elazar em nome de Chilfa bar Agra em nome de Rabi Yochanan ben Nuri
אֵימַר דְּשָׁמְעַתְּ לֵיהּ לְרַבִּי יְהוּדָה בִּמְתַקֵּן, בִּמְקַלְקֵל מִי שָׁמְעַתְּ לֵיהּ? אָמַר רַבִּי אָבִין: הַאי נָמֵי מְתַקַּן הוּא, דְּקָעָבֵיד נַחַת רוּחַ לְיִצְרוֹ. וּכְהַאי גַּוְונָא מִי שְׁרֵי? וְהָתַנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר מִשּׁוּם חִילְפָא בַּר אַגְרָא שֶׁאָמַר מִשּׁוּם רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי: הַמְקָרֵע בְּגָדָיו בַּחֲמָתוֹ, וְהַמְשַׁבֵּר כֵּלָיו בַּחֲמָתוֹ, וְהַמְפַזֵּר מְעוֹתָיו בַּחֲמָתוֹ, יְהֵא בְּעֵינֶיךָ כְּעוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה. שֶׁכָּךְ אוּמָּנוּתוֹ שֶׁל יֵצֶר הָרָע: הַיּוֹם אוֹמֵר לוֹ עֲשֵׂה כָּךְ, וּלְמָחָר אוֹמֵר לוֹ עֲשֵׂה כָּךְ, עַד שֶׁאוֹמֵר לוֹ עֲבוֹד עֲבוֹדָה זָרָה וְהוֹלֵךְ וְעוֹבֵד. אָמַר רַבִּי אָבִין: מַאי קְרָאָה — ״לֹא יִהְיֶה בְךָ אֵל זָר וְלֹא תִשְׁתַּחֲוֶה לְאֵל נֵכָר״, אֵיזֶהוּ אֵל זָר שֶׁיֵּשׁ בְּגוּפוֹ שֶׁל אָדָם? הֱוֵי אוֹמֵר, זֶה יֵצֶר הָרָע.

Diga que ouviste (isto) de Rabi Yehudá quanto a (um ato) construtivo; quanto a (um ato) destrutivo, ouviste-o? Disse Rabi Avin: isto também é (ato) construtivo, pois faz um alívio de espírito à sua inclinação (ao mal). E é permitido (agir) desse modo?! Mas não foi ensinado: Rabi Shimon ben Elazar diz, em nome de Chilfa bar Agra, que disse em nome de Rabi Yochanan ben Nuri: quem rasga suas roupas em sua ira, e quem quebra seus utensílios em sua ira, e quem espalha seu dinheiro em sua ira — seja, aos teus olhos, como um idólatra; pois assim é o ofício da inclinação ao mal: hoje lhe diz "faze isto", e amanhã lhe diz "faze aquilo", até que lhe diz "adora ídolos", e ele vai e adora. Disse Rabi Avin: qual é o versículo (que alude a isto)? "Não haverá em ti deus estranho, e não te prostrarás a deus alheio" (Tehilim 81:10) — qual é o deus estranho que há no corpo de uma pessoa? Deves dizer: esta é a inclinação ao mal.

Nota

A guemará questiona a resolução anterior: sabemos que Rabi Yehudá obriga por um trabalho não necessário por si mesmo quando esse trabalho é, em algum sentido, construtivo (como carregar um cadáver para removê-lo, ainda que sem a intenção de "usar" o próprio ato de carregar); mas rasgar em ira parece puramente destrutivo — rasgar a roupa sem propósito nenhum de reparo. Rabi Avin responde que mesmo esse ato é, num sentido psicológico, construtivo: rasgar as vestes em ira proporciona um alívio emocional, satisfazendo (ou aplacando) a inclinação ao mal que impulsiona a raiva — e, portanto, é tratado como um ato "construtivo" para fins desta lei. A guemará então questiona a própria legitimidade moral desse comportamento, trazendo uma baraita severa: Rabi Yochanan ben Nuri equipara quem rasga vestes, quebra utensílios ou espalha dinheiro em sua ira a um idólatra, pois cada cedência à ira é um passo no "ofício" gradual da inclinação ao mal, que escala até levar à idolatria propriamente dita. Rabi Avin ainda aponta o versículo bíblico que, segundo ele, alude a essa ideia: o "deus estranho" que pode habitar dentro do próprio corpo de uma pessoa é a inclinação ao mal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "nachat ruach l'yitzro", "mi sharei" e "bach"
נחת רוח ליצרו - שמשכך את חמתו: מי שרי והא תניא כו' - אלמא לאו מתקן הוא שמלמד ומרגיל את יצרו לבא עליו: בך - משמע בקרבך שאם היה בך תשתחוה לאל נכר לבסוף:

"'Alívio de espírito à sua inclinação'" — pois aplaca sua ira. "'É permitido, e não foi ensinado...' etc." — logo, não é (ato) construtivo, pois ensina e habitua sua inclinação a dominá-lo. "'Em ti'" — implica "em teu interior": que, se estiver em ti, ao final te prostrarás a um deus alheio.

436Resolução final: não foi necessário senão onde finge ira para incutir temor em sua casa — como Rav Yehudá, Rav Achá bar Yaakov, Rav Sheshet e Rabi Abá
A Guemará
לָא צְרִיכָא, דְּקָא עָבֵיד לְמִירְמָא אֵימְתָא אַאִינָשֵׁי בֵּיתֵיהּ. כִּי הָא דְּרַב יְהוּדָה שָׁלֵיף מְצָבְיָיתָא, רַב אַחָא בַּר יַעֲקֹב תָּבַר מָאנֵי תְּבִירֵי, רַב שֵׁשֶׁת רָמֵי לַהּ לְאַמְתֵּיהּ מוֹנִינֵי אַרֵישָׁא, רַבִּי אַבָּא תָּבַר נִכְתְּמָא.

Não foi necessário (que Rabi Avin permitisse) senão onde ele age para lançar temor sobre os membros de sua casa. Como aquilo (que se conta) de Rav Yehudá, que arrancava fios (soltos) de sua roupa; Rav Achá bar Yaakov quebrava utensílios já quebrados; Rav Sheshet lançava peixinhos salgados sobre a cabeça de sua serva; Rabi Abá quebrava a tampa de um jarro.

Nota

A guemará resolve a tensão entre a permissão de Rabi Avin e a severa condenação da baraita distinguindo entre duas situações completamente diferentes: quem verdadeiramente cede à sua raiva, destruindo objetos de forma genuína e descontrolada, é comparado a um idólatra, pois está se rendendo à inclinação ao mal; mas quem apenas encena a aparência de ira — sem realmente estar irado, ou controlando plenamente seus atos — a fim de incutir disciplina e respeito nos membros de sua própria casa, não está sujeito a essa condenação, pois seu ato não é uma cedência ao yetzer hará, mas um gesto pedagógico calculado. A guemará ilustra essa segunda categoria com quatro exemplos de sábios que fingiam ira causando apenas danos mínimos e simbólicos: Rav Yehudá arrancava fios soltos da própria roupa (sem realmente rasgá-la); Rav Achá bar Yaakov quebrava utensílios que já estavam quebrados (sem causar perda real); Rav Sheshet jogava pequenos peixes salgados sobre a cabeça de sua serva (um gesto teatral, sem dano real); e Rabi Abá quebrava apenas a tampa de um jarro (um objeto de pouco valor, preservando o jarro em si).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shalif metzvayta", "monine" e "nichtema"
שליף מצבייתא - מן הבגד בחמתו להראותם שהוא כועס ויגורו מלפניו: מוניני - ציר של דגים קטנים: נכתמא - כיסוי הכד:

"'Arrancava fios'" — da roupa, em sua ira, para mostrar-lhes que estava zangado, e assim temeriam diante dele. "'Peixinhos salgados'" — a salmoura de peixinhos pequenos. "'Nichtema'" — a tampa da jarra.

Lágrimas por um justo e a negligência no elogio fúnebre de um sábio · כׇּל הַמּוֹרִיד דְּמָעוֹת עַל אָדָם כָּשֵׁר

437Bar Kapara: D'us conta e guarda as lágrimas derramadas por um justo; Rav: negligente no elogio de um sábio merece ser enterrado vivo; Rabi Yochanan: não terá vida longa, medida por medida
Rabi Shimon ben Pazi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi em nome de Bar Kapara; Rav Yehudá em nome de Rav; Rabi Chiya bar Abá em nome de Rabi Yochanan
אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן פַּזִּי, אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי, מִשּׁוּם בַּר קַפָּרָא: כָּל הַמּוֹרִיד דְּמָעוֹת עַל אָדָם כָּשֵׁר, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סוֹפְרָן וּמַנִּיחָן בְּבֵית גְּנָזָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נֹדִי סָפַרְתָּה אָתָּה שִׂימָה דִמְעָתִי בְנֹאדֶךָ הֲלֹא בְּסִפְרָתֶךָ״. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: כׇּל הַמִּתְעַצֵּל בְּהֶסְפֵּדוֹ שֶׁל חָכָם — רָאוּי לְקוֹבְרוֹ בְּחַיָּיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְבְּרוּ אוֹתוֹ בִּגְבוּל נַחֲלָתוֹ בְּתִמְנַת סֶרַח אֲשֶׁר בְּהַר אֶפְרָיִם מִצְּפוֹן לְהַר גָּעַשׁ״, מְלַמֵּד שֶׁרָגַשׁ עֲלֵיהֶן הַר לְהוֹרְגָן. אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כׇּל הַמִּתְעַצֵּל בְּהֶסְפֵּדוֹ שֶׁל חָכָם, אֵינוֹ מַאֲרִיךְ יָמִים — מִדָּה כְּנֶגֶד מִדָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּסַאסְּאָה בְּשַׁלְּחָהּ תְּרִיבֶנָּה״.

Disse Rabi Shimon ben Pazi, disse Rabi Yehoshua ben Levi, em nome de Bar Kapara: todo aquele que derrama lágrimas por uma pessoa íntegra, o Santo, Bendito seja, as conta e as coloca em sua casa de tesouros, pois foi dito: "Tu contaste o meu vaguear; põe minhas lágrimas em teu odre; não estão elas em teu livro?" (Tehilim 56:9). Disse Rav Yehudá, disse Rav: todo aquele que é negligente no elogio fúnebre de um sábio é digno de ser enterrado vivo, pois foi dito: "e o enterraram no território de sua herança, em Timnat-Serach, que está no monte de Efraim, ao norte do monte Gaash" (Yehoshua 24:30) — ensina que o monte se agitou contra eles para matá-los. Disse Rabi Chiya bar Abá, disse Rabi Yochanan: todo aquele que é negligente no elogio fúnebre de um sábio não prolonga seus dias — medida por medida, pois foi dito: "com medida (besas'á), ao enviá-la embora, tu contendes com ela" (Yeshayahu 27:8).

Nota

Retomando o tema do luto por uma pessoa íntegra, a guemará traz uma série de ensinamentos morais em nome de vários sábios. Bar Kapara ensina que D'us não deixa passar despercebida nenhuma lágrima derramada por um justo: cada uma é contada e guardada, como num tesouro, com base no versículo dos Salmos que fala de D'us contando o "vaguear" (o sofrimento errante) da pessoa e guardando suas lágrimas num odre — metáfora para o cuidado divino com cada expressão de luto sincero. Rav, quanto à negligência no elogio fúnebre (hesped) de um sábio — o discurso público que honra sua vida e obra diante da comunidade —, ensina que quem falha em prestar essa honra merece, em certo sentido, ser "enterrado vivo", derivando isso de um episódio bíblico sobre o sepultamento de Yehoshua bin Nun: o versículo menciona que ele foi sepultado "ao norte do monte Gaash", interpretado pela tradição como indicação de que o próprio monte se agitou (ra'gash, associado a "Gaash") contra os que participaram do sepultamento, ameaçando matá-los por não terem elogiado Yehoshua com a devida seriedade. Rabi Yochanan acrescenta uma punição diferente, porém relacionada: quem é negligente no elogio de um sábio não vive muitos anos — um castigo medida por medida, já que, por não se importar devidamente com a morte do sábio, os Céus tratam sua própria morte com igual desatenção, ideia que a guemará ancora no versículo de Yeshayahu sobre a "medida" com que D'us julga.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "nodi safarta atah", "vayikberu oto", "sheragash aleihen har" e "midá keneged midá"
נודי ספרתה אתה - לשון לנוד לו (איוב ב): ויקברו אותו - ביהושע כתיב: שרגש עליהן הר להורגן - שלא הספידו כראוי: מדה כנגד מדה - הוא לא נתאבל על שנתקצרו ימי החכם אף לחייו לא יחושו מן השמים:

"'Tu contaste o meu vaguear'" — expressão de "condoer-se com ele" (lanud lo, Iyov 2). "'E o enterraram'" — está escrito em Yehoshua. "'Que o monte se agitou contra eles para matá-los'" — porque não o elogiaram como devido. "'Medida por medida'" — ele não se enlutou por os dias do sábio terem sido abreviados; também por sua vida (própria) não se preocuparão nos Céus.

438Rabi Chiya bar Abá objeta com o versículo sobre os anciãos de Yehoshua; Rabi Yochanan: "dias" prolongaram, "anos" não; nova objeção sobre "para que se multipliquem vossos dias"; resposta: bênção é diferente
Rabi Chiya bar Abá; Rabi Yochanan
אֵיתִיבֵיהּ רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא לְרַבִּי יוֹחָנָן: ״וַיַּעַבְדוּ הָעָם אֶת ה׳ כֹּל יְמֵי יְהוֹשֻׁעַ וְכֹל יְמֵי הַזְּקֵנִים אֲשֶׁר הֶאֱרִיכוּ יָמִים אַחֲרֵי יְהוֹשֻׁעַ״! אֲמַר לֵיהּ, בַּבְלַאי: יָמִים הֶאֱרִיכוּ, שָׁנִים לֹא הֶאֱרִיכוּ. אֶלָּא מֵעַתָּה: ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם וִימֵי בְנֵיכֶם״ — יָמִים וְלֹא שָׁנִים? בְּרָכָה שָׁאנֵי.

Rabi Chiya bar Abá levantou uma objeção a Rabi Yochanan: "E o povo serviu ao Eterno todos os dias de Yehoshua, e todos os dias dos anciãos que prolongaram os dias depois de Yehoshua" (Shoftim 2:7)! Disse-lhe: babilônio! Dias prolongaram, (mas) anos não prolongaram. Mas, então: "para que se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos" (Devarim 11:21) — dias e não anos?! Uma bênção é diferente.

Nota

Rabi Chiya bar Abá desafia o ensinamento de seu próprio mestre, Rabi Yochanan, trazendo um versículo do livro de Shoftim que parece contradizer a ideia de que a negligência no luto por um sábio (como se atribuiria aos anciãos que sucederam Yehoshua, segundo a leitura implícita de que não o elogiaram adequadamente) resultaria em vida curta: o próprio versículo diz que esses anciãos "prolongaram os dias" depois de Yehoshua. Rabi Yochanan responde com um trocadilho lexical, dirigindo-se a seu aluno pelo apelido "babilônio" (indicando que, vindo da Babilônia, deveria ler o texto com mais precisão): o versículo diz apenas que "prolongaram os dias", não que "prolongaram os anos" — ou seja, viveram até o fim daquele ano, mas não muito além dele; a expressão "dias" ali é limitada, não uma verdadeira longevidade. Rabi Chiya bar Abá então testa essa distinção com outro versículo, da Torá mesma, que promete "multiplicar vossos dias" como recompensa por observar os mandamentos — se a mesma lógica se aplicasse, essa bênção também prometeria apenas "dias" limitados, e não anos de vida verdadeiramente longa, o que pareceria esvaziar a promessa. Rabi Yochanan resolve a dificuldade final observando que uma bênção divina é diferente: quando o texto promete recompensa, a expressão "dias" deve ser interpretada da forma mais ampla e generosa possível, incluindo anos de vida plena — ao contrário da descrição neutra sobre os anciãos, que não carrega essa mesma generosidade interpretativa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bavlai" e "yamim he'erichu"
בבלאי - דמבבל סליק: ימים האריכו - שכלו ימיהם בטוב דחשיב אריכות ימים כדאמרי' בסדר יומא (דף עא.) כי אורך ימים ושנות חיים יוסיפו וכי יש לך שנים של חיים ושנים שאינם של חיים אמר רבי אלעזר אלו שנותיו של אדם שמתהפכות עליו מרעה לטובה:

"'Babilônio'" — que subiu da Babilônia. "'Prolongaram os dias'" — pois seus dias se completaram no bem, o que se considera prolongamento de dias, conforme dizemos na ordem de Yomá (71a): "pois prolongamento de dias e anos de vida se acrescentarão" — e há, acaso, anos de vida e anos que não são de vida? Disse Rabi Elazar: estes são os anos de uma pessoa que se transformam, de mal para bem.

439Rabi Chiya bar Abá em nome de Rabi Yochanan: um dos irmãos que morre — (o daf termina aqui, no meio do ensinamento)
Rabi Chiya bar Abá em nome de Rabi Yochanan
וְאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֶחָד מִן הָאַחִין שֶׁמֵּת —

E disse Rabi Chiya bar Abá, disse Rabi Yochanan: um dos irmãos que morre —

Nota — o daf termina em meio de frase

Confirmado via Sefaria: o daf 105b termina exatamente aqui, no meio de um novo ensinamento de Rabi Chiya bar Abá em nome de Rabi Yochanan, introduzido pela mesma dupla de transmissão que trouxe os dois ensinamentos anteriores sobre o elogio fúnebre. A frase fica interrompida logo após estabelecer o sujeito — "um dos irmãos que morre" —, sem que se saiba ainda qual é a consequência ou ensinamento associado a esse caso. Não há, portanto, comentário de Rashi disponível para este fragmento nesta folha, já que o texto sobre o qual ele comentaria ainda não foi completado. A continuação deste ensinamento, e o restante da sugya, ficam para o início do daf 106a.