91b abre completando, em sua primeira linha, a frase que ficara interrompida no fim de 91a: a Guemará rejeita a comparação entre a medida do pão consagrado transportado para fora do pátio do Templo (medido em kezayit, por causa da desqualificação de "sair") e a medida de Shabat, pois, no caso do pão, a desqualificação ocorre assim que ele cruza o muro do pátio, muito antes do domínio público, ao passo que a responsabilidade por Shabat só se inicia no domínio público propriamente dito; no caso, porém, da teruma lançada numa casa já impura, Shabat e impureza ocorrem exatamente no mesmo momento e local, de modo que a medida de um ovo de alimentos, sendo significativa para a impureza, também passa a ser significativa para Shabat — resolvendo, assim, a favor da responsabilidade, a pergunta que Rava havia colocado a Rav Nachman. A Guemará então volta à Mishná de abertura do Perek Yud para explicar sua última cláusula, sobre quem transporta algo e depois o traz de volta para dentro: Abaye esclarece que ela trata de um caso em que a pessoa lançou o item ao celeiro junto com o restante de seus produtos — o que já demonstra o abandono da intenção original — mas cujo lugar específico continua reconhecível dentre os demais. Em seguida abre-se uma nova Mishná do Perek Yud: quem põe comida sobre o umbral da porta, e depois ele mesmo ou outra pessoa a transporta dali para o domínio público, é isento, pois não realizou sua obra proibida de uma só vez; da mesma forma, uma cesta cheia de frutas posta sobre o umbral externo, mesmo que a maior parte das frutas já esteja do lado de fora, permanece isenta até que se transporte a cesta inteira. A extensa Guemará que se segue investiga primeiro a natureza legal desse umbral — não é domínio público nem domínio privado, mas um karmelit, uma zona intermediária —, e observa que a Mishná não segue a opinião de ben Azzai quanto a esse tipo de zona intermediária entre dois domínios. Passa-se então à disputa central do daf: Chizkiya sustenta que a regra da cesta só vale para pepinos e abóboras, compridos o bastante para que parte deles permaneça sempre dentro, mas que uma cesta cheia de mostarda já responsabiliza a pessoa, pois a união proporcionada por um recipiente não conta como uma verdadeira união do conteúdo; Rabi Yochanan discorda, isentando mesmo a cesta de mostarda, pois para ele essa união do recipiente é uma união real. Rabi Zeira observa que a própria linguagem da Mishná não se ajusta com precisão a nenhuma das duas opiniões, o que leva a uma harmonização: cada sábio resolve a dificuldade textual segundo o seu próprio raciocínio. Uma baraita sobre a cesta do perfumista traz uma objeção a Chizkiya, respondida com a distinção de hastes longas (urnessê). Por fim, Rav Beivai bar Abaye levanta uma objeção mais complexa, a partir do caso de quem furta uma bolsa em Shabat, arrastando-a para fora pela sua parte de baixo — uma objeção que a Guemará começa a responder, mas que fica interrompida no meio da pergunta sobre o lugar da costura da bolsa, prosseguindo diretamente em 92a.
91a terminara no meio de uma pergunta de Rava a Rav Nachman sobre quem lança um kezayit de teruma numa casa impura, e no meio da resposta de Rav Nachman a partir da baraita de Aba Shaul sobre os dois pães e o pão da proposição — a última frase cortada em "לֵימָא: מִדִּלְעִנְיַן…" ("digamos que, visto que quanto a…"). Confirmado via Sefaria, 91b abre completando exatamente essa frase, resolvendo a pergunta, antes de seguir para a explicação de uma cláusula final da Mishná de abertura do Perek Yud e, então, para uma nova Mishná.
"…visto que quanto à" desqualificação por "sair" (do recinto sagrado, a medida) é em um kezayit, quanto a Shabat também deveria ser em um kezayit! A Guemará rejeita: como se pode comparar assim agora?! Ali , quanto ao pão consagrado, a partir do momento em que o transportou para fora do muro do pátio (azará), ele já foi desqualificado pela categoria de "sair"; quanto a Shabat, porém, ele não é responsável até que o transporte para o domínio público , que fica muito além do muro do pátio. Aqui , no caso da teruma lançada na casa impura, Shabat e impureza vêm juntos, ao mesmo tempo.
91b abre completando a frase deixada em aberto no fim de 91a e resolvendo a pergunta de Rava. A Guemará rejeitava a comparação que se cogitava fazer com o pão consagrado: naquele caso, a desqualificação por "sair" do recinto sagrado ocorre assim que o pão cruza o muro do pátio — um ponto muito mais próximo do que o domínio público, onde só então se geraria a responsabilidade por Shabat; por isso, o fato de o kezayit bastar para a desqualificação do pão não prova nada quanto à medida de Shabat. Porém, no caso da teruma lançada numa casa já impura, a situação é estruturalmente diferente: a impureza e a violação de Shabat ocorrem no mesmíssimo instante e lugar — o pouso do kezayit na casa. Por isso, precisamente porque o kezayit é a medida significativa para a impureza nesse mesmo momento e lugar, ele também se torna a medida significativa para Shabat: a pergunta de Rava fica assim resolvida a favor da responsabilidade.
"'Para fora do muro do pátio'" — refere-se ao perímetro do Chel (a área entre os muros) diante do pátio das mulheres, ou ao próprio pátio das mulheres, que fica no Chel. "'Vêm juntos'" — pois, até que o kezayit pousasse e se somasse ao restante (não recebeu a sua impureza a partir do ar, pois) ainda não havia nele a medida mínima.
Ensinamos na Mishná: "e se ele o trouxe de volta e o fez entrar, não é responsável senão pela sua medida padrão". É óbvio! Disse Abaye: aqui, com o que estamos lidando? Com um caso em que ele o lançou ao celeiro , junto com o restante de seus produtos, mas o seu lugar específico continua reconhecível. Poderias pensar: já que o seu lugar é reconhecível, ele permanece no seu estado primeiro , e a pessoa continuaria responsável por qualquer quantidade — por isso nos ensina: pelo fato de tê-lo lançado ao celeiro , junto com o restante, ele o anulou por completo.
A Guemará volta à Mishná de abertura do Perek Yud para esclarecer sua última cláusula: se alguém transporta o item guardado para fora, mas depois muda de ideia e o traz de volta para dentro de casa, ele deixa de ser responsável por qualquer quantidade e passa a responder apenas pela medida padrão, como qualquer pessoa — o que parece óbvio, pois trazê-lo de volta já demonstra o abandono da intenção original de guardá-lo. Abaye explica que o caso não é tão simples: trata-se de alguém que não reconsiderou de modo explícito, mas simplesmente lançou o item, junto com o restante de seus produtos, dentro do celeiro — um gesto que, por si só, já indicaria o abandono da intenção original, exceto pelo fato de que o lugar exato onde caiu continua identificável entre os demais produtos. Poderia se pensar que essa identificabilidade preservaria o estado especial do item; a Mishná ensina que não: o simples ato de misturá-lo ao restante do celeiro já anula por completo a sua importância anterior, independentemente de seu lugar continuar reconhecível.
"'É óbvio'" — pois, já que não o plantou (ainda), ele anulou o pensamento primeiro, e ele se torna como qualquer pessoa. "'Disse Abaye'" — a Mishná trata de um caso em que ele não reconsiderou explicitamente a respeito dele, mas o lançou ao celeiro junto com o restante de seus produtos, e isso já é anulação do pensamento; e, para ensinar isso, foi necessário mencionar um caso em que o seu lugar é reconhecível — que não se misturou bem com o restante, e continua identificável entre eles. "'Poderias pensar: já que o seu lugar é reconhecível, permanece no seu estado primeiro'" — pois seria como quem o guardou sozinho. Esta é a versão correta: "'isso nos ensina: pelo fato de tê-lo lançado ao celeiro, ele o anulou por completo.'"
Quem transporta alimentos de casa em Shabat e os pôs sobre o umbral da porta, quer ele mesmo os tenha depois transportado dali para o domínio público, quer outra pessoa os tenha transportado — é isento, porque não realizou a sua obra proibida de uma só vez. Da mesma forma, uma cesta que está cheia de frutas, e a pôs sobre o umbral externo , que já é domínio público, ainda que a maior parte das frutas esteja do lado de fora — é isento, até que transporte a cesta inteira.
Abre-se aqui uma nova Mishná do Perek Yud (HaMatznia), continuação temática direta do capítulo, sem qualquer marca de encerramento do anterior. A regra central: quem transporta comida de dentro de casa e a deposita, primeiro, sobre o umbral da porta — e só depois, num segundo gesto (seja ele mesmo, seja outra pessoa), a transporta dali até o domínio público — é isento da transgressão de Shabat, porque a obra proibida de transportar de um domínio a outro precisa ser realizada de uma só vez, num único levantamento e pouso; ao dividir o processo em duas etapas distintas, com um pouso intermediário no umbral, nenhuma delas configura, isoladamente, a melacha completa. A mesma lógica se aplica a uma cesta cheia de frutas depositada sobre o umbral externo: mesmo que a maior parte das frutas já esteja fisicamente do lado de fora, no domínio público, a pessoa permanece isenta até que a cesta inteira seja transportada — pois, enquanto parte da cesta continua presa ao domínio privado, o transporte não se completou de uma só vez.
Mishná. "'Sobre o umbral'" — na Guemará, estabelece-se que se trata de um umbral que é karmelit. "'A sua obra de uma só vez'" — levantamento de um lugar de responsabilidade e pouso em um lugar de responsabilidade; e aqui houve levantamento de um lugar de responsabilidade e pouso em um lugar isento, e depois novo levantamento de um lugar isento e pouso em um lugar de responsabilidade. "'Até que transporte'" — isto é, a não ser que tenha transportado, de início, a cesta inteira; e a Guemará o explica.
Guemará. Este umbral, o que é, quanto ao seu estatuto legal? Se disseres que se trata de um umbral com o status de domínio público — por que seria isento? Ora, ele transportou do domínio privado para o domínio público! Antes, diga-se que se trata de um umbral com o status de domínio privado. Mas então: "quer ele mesmo o tenha transportado dali, quer outra pessoa o tenha transportado — é isento"? Ora, ele transportou do domínio privado para o domínio público!
A Guemará abre a discussão da nova Mishná questionando a natureza legal exata desse "umbral". Se fosse um umbral com o status pleno de domínio público (baixo, largo o bastante e utilizado pelo público para apoiar cargas), a isenção não faria sentido, pois transportar de dentro de casa (domínio privado) até ali já configuraria, por si só, a transgressão completa de Shabat — não haveria razão para depender de um segundo transporte. Se, por outro lado, fosse um umbral com o status pleno de domínio privado (alto o bastante, de área mínima), também não faria sentido, pelo motivo oposto: o segundo transporte, dali até o domínio público, completaria sozinho a transgressão, e a Mishná não deveria isentar quem o realiza.
"'Se disseres: umbral com o status de domínio público'" — por exemplo, com altura menor que nove palmos e largura de quatro palmos, e o público apoia fardos sobre ele, pois é apto para que o público o use para apoiar cargas, como se disse no primeiro capítulo (8a). "'Domínio privado'" — com altura de dez palmos e largura de quatro palmos; pois, quando ele o transporta de volta para fora, deveria ser responsável, já que há levantamento no domínio privado e pouso no domínio público.
Antes, diga-se que se trata de um umbral que é karmelit (uma zona intermediária, nem domínio público nem domínio privado), e isto nos ensina: a razão de ele ser isento é que o objeto repousou num karmelit; mas, se não repousou num karmelit , e sim foi transportado direto por ele, é responsável. A nossa Mishná não segue a opinião de ben Azzai, pois foi ensinado numa baraita: quem transporta algo de uma loja para uma praça através de uma colunata (que é um karmelit) — é responsável; e ben Azzai isenta.
A Guemará resolve a dificuldade: o umbral da Mishná não é nem domínio público nem domínio privado pleno, mas sim um karmelit — uma categoria intermediária, criada pelos sábios, para espaços que não se encaixam claramente em nenhum dos dois domínios da Torá. A isenção da Mishná depende, então, de o objeto realmente repousar (fazer "hanachá") sobre esse umbral intermediário: se assim for, o transporte se divide em duas etapas separadas por um pouso num terceiro domínio, e nenhuma delas completa a transgressão sozinha; mas, se o objeto for levado direto do domínio privado ao domínio público, apenas passando pelo karmelit sem ali repousar, a pessoa é responsável normalmente. A Guemará observa ainda que essa posição — de que um transporte através de um karmelit, sem repouso ali, ainda gera responsabilidade — não é a de ben Azzai, que, numa baraita, isenta quem transporta um objeto de uma loja (domínio privado) para uma praça (domínio público) atravessando uma colunata (karmelit), por sustentar que qualquer domínio intermediário, mesmo sem repouso, já separa e neutraliza a transgressão.
"'Antes, umbral que é karmelit'" — de três até nove palmos de altura, sem incluir nove, e não é coberto, e sua largura é de quatro palmos. "'Mas se não repousou, é responsável'" — e ainda que o tenha feito passar por um karmelit; e não dizemos aqui que "o que está em movimento é como o que está parado", nem há a regra do pouso do próprio corpo, que equivaleria ao pouso do objeto. "'Da loja'" — domínio privado. "'Para a praça'" — domínio público. "'Colunata'" — um lugar cercado de bancos para sentar-se, e é um karmelit, pois o público não o atravessa abertamente.
Ensinamos na Mishná: "uma cesta que está cheia" etc. Disse Chizkiya: não ensinaram isso senão numa cesta cheia de pepinos e abóboras, mas se estava cheia de mostarda — é responsável. Aparentemente, Chizkiya sustenta que a união proporcionada por um recipiente (egued kli) — não se chama união. E Rabi Yochanan disse: mesmo se estava cheia de mostarda — é isento. Aparentemente, ele sustenta que a união proporcionada por um recipiente — chama-se união.
Abre-se aqui a disputa central do daf. Chizkiya limita a regra da Mishná — de que a pessoa fica isenta até transportar a cesta inteira — aos casos de pepinos e abóboras, frutos compridos o bastante para que, enquanto parte da cesta ainda está dentro, parte física de cada fruto individual também continue presa do lado de dentro. Mas, numa cesta cheia de sementes de mostarda — pequenas o bastante para que todas já estejam fisicamente do lado de fora antes mesmo de a cesta inteira sair —, Chizkiya responsabiliza a pessoa assim que as sementes cruzam para o domínio público, mesmo que a própria cesta (o recipiente) continue presa ao domínio privado. Isso revela sua posição de fundo: a união que um recipiente confere ao seu conteúdo (egued kli) não é considerada uma verdadeira união para fins de Shabat — cada semente é julgada por sua própria posição física, não pela posição da cesta que a contém. Rabi Yochanan discorda radicalmente: mesmo com mostarda, a pessoa permanece isenta até que a cesta inteira saia, porque, para ele, a união do recipiente é uma união real — o conteúdo inteiro é tratado como um único objeto, preso onde o recipiente estiver preso.
"'Pepinos e abóboras'" — pois são compridos, e ainda há parte deles do lado de dentro; e tudo o que ainda está preso do lado de dentro, por menor que seja, não é considerado transporte. "'Mas se estava cheia de mostarda'" — pois há grãos dela inteiramente do lado de fora; e, ainda que por meio do recipiente o conjunto esteja preso ao lado de dentro, é responsável, pois a união proporcionada por um recipiente não se chama união — isto é, não se pode dizer que o conteúdo não saiu por inteiro e ainda está preso do lado de dentro em sua mão. Esta é a expressão do Talmud: quanto a Shabat, enquanto não saiu por inteiro, chama-se "preso", pois a sua prisão ainda pertence ao domínio anterior.
Disse Rabi Zeira: a nossa Mishná não se ajusta com precisão a opinião de Chizkiya, nem se ajusta com precisão a opinião de Rabi Yochanan. Não se ajusta a opinião de Chizkiya — pois ensina: "até que transporte a cesta inteira" — o que implica que a razão da responsabilidade é transportar a cesta inteira; mas se transportou todas as frutas sem a cesta inteira — é isento; aparentemente a Mishná sustenta que a união proporcionada por um recipiente chama-se união , contrariamente a Chizkiya. Não se ajusta a opinião de Rabi Yochanan — pois ensina: "ainda que a maior parte das frutas esteja do lado de fora" — o que implica que a razão da isenção é apenas a maior parte das frutas estar fora; mas se todas as frutas estivessem fora, ainda que a cesta permanecesse presa do lado de dentro — é responsável; aparentemente a Mishná sustenta que a união proporcionada por um recipiente não se chama união , contrariamente a Rabi Yochanan.
Rabi Zeira examina a linguagem exata da Mishná e mostra que ela é internamente inconsistente com ambas as opiniões. Contra Chizkiya: a Mishná fala em isenção "até que transporte a cesta inteira" — implicando que a cesta inteira é o que importa, de modo que, mesmo tendo transportado todas as frutas individualmente, sem a cesta, a pessoa continuaria isenta; isso soa como a posição de Rabi Yochanan (união do recipiente conta), não como a de Chizkiya. Contra Rabi Yochanan: a Mishná fala em isenção mesmo quando "a maior parte das frutas" está fora — implicando que, se todas as frutas estivessem fora (mesmo com a cesta vazia ainda presa dentro), a pessoa já seria responsável; isso soa como a posição de Chizkiya (união do recipiente não conta), não como a de Rabi Yochanan. A Mishná, portanto, parece contraditória, exigindo uma harmonização.
Mas então é uma dificuldade para ambos! Chizkiya resolve segundo o seu próprio raciocínio, e Rabi Yochanan resolve segundo o seu próprio raciocínio. Chizkiya resolve segundo o seu próprio raciocínio: "até que transporte a cesta inteira" — a que se referem essas palavras? A uma cesta cheia de pepinos e abóboras; mas numa cesta cheia de mostarda — a pessoa se torna como quem já transportou a cesta inteira, e é responsável assim que a maior parte das sementes sai, sem esperar pela cesta. Rabi Yochanan resolve segundo o seu próprio raciocínio: "ainda que a maior parte das frutas esteja do lado de fora" — e não apenas a maior parte das frutas, mas mesmo se todas as frutas estivessem fora — é isento, até que transporte a cesta inteira.
A Guemará resolve a contradição apontada por Rabi Zeira mostrando que a Mishná, na verdade, descreve dois casos distintos, e cada sábio a lê de acordo com o seu próprio princípio. Segundo Chizkiya, a cláusula "até que transporte a cesta inteira" refere-se especificamente ao caso de pepinos e abóboras — onde, por serem compridos, a cesta e o conteúdo saem juntos, de modo natural; já no caso da mostarda, ele lê a Mishná como implicitamente distinguindo: ali a pessoa já é tratada como se tivesse transportado a cesta inteira assim que a maior parte das sementes sai, pois a união do recipiente não conta. Segundo Rabi Yochanan, a cláusula "ainda que a maior parte das frutas esteja do lado de fora" não se limita à maioria — ela vale a fortiori mesmo que todas as frutas estejam fora, pois, para ele, o que sempre importa é a posição da cesta como um todo, e não a das frutas individualmente.
"'A que se referem essas palavras'" — "até que transporte a cesta inteira". "'Numa cesta cheia de pepinos'" — pois eles, com seu comprimento, preenchem toda a largura da cesta, e, enquanto a cesta inteira não sai, eles não saem. "'Rabi Yochanan resolve segundo o seu próprio raciocínio'" — a Mishná ensina duas coisas, "não apenas esta, mas também aquela", pois a sua parte final o comprova, já que ensina "a cesta inteira" e não ensina "todas as frutas"; e é isto o que ela diz: ainda que a maior parte das frutas esteja do lado de fora, ou mesmo que todas as frutas estejam do lado de fora, ainda assim é isento, até que transporte a cesta inteira.
A Guemará objeta: foi ensinado numa baraita: quem transporta a cesta do perfumista e a pôs sobre o umbral externo, ainda que a maior parte dos tipos de especiaria esteja do lado de fora — é isento, até que transporte a cesta inteira. Poderias pensar que se trata de especiarias reunidas em pacotinhos — e isso seria difícil para Chizkiya , pois cada pacote sairia por inteiro! Chizkiya poderia dizer-te: aqui, com o que estamos lidando? Com hastes (urnessê — longas o bastante para que parte de cada uma permaneça sempre presa do lado de dentro).
A Guemará traz uma objeção de uma baraita paralela, sobre a cesta do perfumista — cheia de diferentes tipos de especiarias, aromas e temperos vendidos ao varejo. Se essa cesta contivesse pacotinhos de especiarias já moídas ou embaladas, cada pacote sairia inteiro assim que cruzasse o umbral, sem que nenhuma parte dele permanecesse presa do lado de dentro — situação análoga à da mostarda, que, segundo Chizkiya, já gera responsabilidade assim que a maioria sai, mesmo sem a cesta inteira. A baraita, porém, isenta até que se transporte a cesta inteira, o que pareceria contradizer Chizkiya. A resposta: a baraita não trata de pacotinhos, mas de longas hastes de especiarias — como raízes compridas, ou paus e cascas de canela —, comparáveis aos pepinos e abóboras: por seu comprimento, parte de cada haste permanece sempre presa do lado de dentro enquanto a cesta não sai por inteiro, preservando a posição de Chizkiya sem dificuldade.
"'Perfumistas'" — vendedores de especiarias. "'Poderias pensar que se trata de pacotinhos'" — pois havia nela um pacotinho de especiarias moídas, de modo que, ao transportar parte da cesta, saem, naquela pequena parte, vários pacotinhos inteiros — e a baraita ensina que é isento; aparentemente, a união proporcionada por um recipiente chama-se união , contrariamente a Chizkiya. "'Com hastes'" — feixes de raízes compridas, ou caniço, ou cascas de canela, que são compridas.
Objetou Rav Beivai bar Abaye: ensinamos numa Mishná: quem furta uma bolsa em Shabat (levantando-a, e depois a transportando para o domínio público) — é responsável pelo pagamento do furto, pois já se tornara responsável pelo furto antes de vir a cometer a proibição de Shabat. Mas se estava arrastando-a pelo chão e saindo , sem levantá-la, — é isento do pagamento, pois a proibição de furto e a proibição de Shabat vêm juntas, ao mesmo tempo. E, se te viesse à mente que a união proporcionada por um recipiente (egued kli) se chama união , como sustenta Rabi Yochanan, a proibição de furto precederia a proibição de Shabat — pois assim que a boca da bolsa cruzasse para o domínio público já se consideraria transportado todo o seu conteúdo, e o furto se completaria antes de Shabat!
Rav Beivai bar Abaye traz uma objeção mais elaborada, a partir de uma Mishná sobre furto (tratado Bava Kama). O princípio geral é que quem comete simultaneamente uma transgressão capital (como transportar em Shabat) e uma obrigação de pagamento (como furto) fica isento do pagamento, pois "quem é responsável por duas penas recebe a maior" — a pena capital anula a obrigação de pagar. Por isso, aquela Mishná ensina que quem furta uma bolsa levantando-a primeiro (dentro da propriedade do dono) e só depois a transportando para o domínio público paga pelo furto normalmente, pois já se tornara responsável por ele — pelo simples ato de levantar a bolsa — antes mesmo de cometer a transgressão de Shabat, que só se completa no domínio público. Mas quem, em vez de levantá-la, a arrasta pelo chão e sai diretamente para o domínio público é isento do pagamento, porque, nesse caso, a aquisição da bolsa por furto e a transgressão de Shabat ocorrem exatamente no mesmo instante — quando ela cruza para o domínio público — e a pena capital de Shabat anula a obrigação de pagar. A objeção de Rav Beivai: se a união do recipiente contasse como união real (a posição de Rabi Yochanan), então, assim que a boca da bolsa (por onde se pode alcançar o dinheiro) cruzasse para o domínio público, já se consideraria todo o conteúdo como transportado e furtado — mesmo que o resto da bolsa ainda estivesse dentro —, e a responsabilidade pelo furto precederia a transgressão de Shabat, que só se completaria quando a bolsa inteira saísse. Isso contradiria a isenção da Mishná de Bava Kama.
"'Quem furta uma bolsa em Shabat, é responsável'" — pelos pagamentos, ainda que seja julgado pela sua vida (pela pena capital de Shabat), pois já se tornara responsável pelo furto no momento em que levantou a bolsa na casa do dono. "'Estava arrastando-a e saindo'" — pois não a adquiriu pelo levantamento, mas somente pelo transporte para fora da casa do dono. "'É isento'" — dos pagamentos. "'Pois a proibição de Shabat', etc." — e no tratado Ketubot pergunta-se: se a transportou para o domínio público, não haveria proibição de furto naquele instante, pois o domínio público não é lugar de aquisição por si só; e ali se resolve que se trata das laterais do domínio público, ou então que a mão dele se aproximou a menos de três palmos do chão e já a recebeu. "'A proibição de furto precederia a proibição de Shabat'" — pois, assim que ele transportou uma parte dela, já adquiriu todo o dinheiro que estava do lado de fora, já que poderia retirá-lo pela abertura; e quanto a Shabat ficaria isento, pois o restante ainda está preso ao domínio privado por meio do recipiente.
Se a transportou pela sua abertura (boca) — de fato assim é , e o furto precederia Shabat. Aqui, com o que estamos lidando? Com quem a transportou pela sua parte de baixo (o fundo da bolsa, onde não se pode alcançar o dinheiro até que ela saia por inteiro). Mas não há ali o lugar da costura, por onde ele também poderia alcançar o dinheiro… (o texto prossegue no daf seguinte, 92a)
A Guemará começa a responder a objeção de Rav Beivai bar Abaye: a Mishná de Bava Kama, que isenta quem arrasta a bolsa e sai, não trata de alguém que a transportou pela sua abertura (boca) — pois ali, de fato, o furto precederia Shabat, como a objeção supõe. Trata-se, em vez disso, de alguém que a transportou pela parte de baixo, o fundo da bolsa, onde o dinheiro não é acessível até que a bolsa inteira cruze para o domínio público — de modo que furto e Shabat ocorrem exatamente ao mesmo tempo, preservando a isenção. Mas a própria Guemará já começa a questionar essa resposta: e o lugar da costura lateral da bolsa? Por ali, mesmo estando ela ainda presa pelo fundo, talvez fosse possível rasgar e alcançar o dinheiro antes que a bolsa inteira saísse — o que reabriria a dificuldade. A frase fica cortada exatamente nesse ponto, no fim do daf. Confirmado via Sefaria: o daf 92a abre prosseguindo essa mesma resposta sobre o lugar da costura, de modo que a discussão da bolsa furtada, iniciada pela objeção de Rav Beivai bar Abaye, continua sem interrupção real no daf seguinte.