Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Alef · Halachá 8
שַׁבָּת

Vender ao gentio e carregá-lo na véspera do Shabat

Perek Alef, Halachá 8, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Oitava halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. A Mishná ensina que Beit Shammai proíbem vender ao gentio na véspera do Shabat, carregar com ele e levantar a carga sobre ele, a não ser que haja tempo para que ele chegue a um lugar próximo enquanto ainda é dia, e que Beit Hillel permitem. A guemará pergunta qual é o “lugar próximo”, traz a medida de Shmuel, as opiniões da casa e da cidade e as palavras de Rabi Akiva, que, segundo Rabi Yochanan, Rabi Yossi entende como decisão sobre as palavras de Beit Hillel; o que se dá ao gentio e ao cão; os artesãos gentios que trabalham para um israelita, com a distinção de Rabi Shimon ben Elazar entre a empreitada e a diária; as cartas enviadas pela mão de um gentio; a viagem pelo Mar Grande; e o cerco a uma cidade de gentios, que na guerra obrigatória continua mesmo no Shabat, como na conquista de Jericó. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 17b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אֵין מוֹכְרִין לַנָּכְרִי וְאֵין טוֹעֲנִין עִמּוֹ וְאֵין מַגְבִּיהִין עָלָיו אֶלָּא כְּדֵי שֶׁיַּגִּיעַ לְמָקוֹם קָרוֹב. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין:

Mishná: Beit Shammai dizem: não se vende nada ao gentio na véspera do Shabat, nem se carrega o animal com ele, nem se levanta a carga sobre os ombros dele, a não ser que haja tempo para que ele chegue a um lugar próximo enquanto ainda é dia. E Beit Hillel permitem fazê-lo mesmo perto do escurecer, pois o gentio não está obrigado a guardar o Shabat.

A Halachá · הֲלָכָה ח

01O lugar próximo, Rabi Akiva e o que se dá ao gentio e ao cão
Yerushalmi · Shabbat 1:8
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים. מוֹכְרִין לַנָּכְרִי כול׳. אֵי זֶהוּ מָקוֹם קָרוֹב. יָיבֹא כַּיי דָמַר שְׁמוּאֵל. כְּגוֹן מִן חוּטְרָה לְנָהָרדֵּעָא. אוֹף הָכָא כֵן. אִית דְּבָעֵי מֵימַר. עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְבֵיתוֹ. וְאִית דְּבָעֵי מֵימַר. עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְעִירוֹ. רִבִּי עֲקִיבָה אוֹמֵר. כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא מִמְקוֹם הַפֶּתַח וִיקַדֵּשׁ עָלָיו הַיּוֹם. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן. זוֹ דִּבְרֵי רִבִּי יוֹסֵי. וְרִבִּי עֲקִיבָה בָא לְהַכְרִיעַ עַל דִּבְרֵי בֵית הִלֵּל. אֵין נוֹתְנִין לְגוֹי עַל מְנָת לַצֵּאת. נָטַל וְיָצָא אֵין אַתְּ זָקוּק לוֹ. אֵין נוֹתְנִין לְכֶלֶב עַל מְנָת לַצֵּאת. נָטַל וְיָצָא אֵין אַתְּ זָקוּק לוֹ.

Na Mishná: “Beit Shammai dizem: vende-se ao gentio” etc. A guemará pergunta: qual é o “lugar próximo”? Venha a explicação como aquilo que disse Shmuel sobre a medida de um lugar próximo: por exemplo, de Chutra a Nehardea; e também aqui é assim. Há quem queira dizer: o lugar próximo é até que ele chegue à sua casa. E há quem queira dizer: é até que ele chegue à sua cidade. Rabi Akiva diz: basta que haja tempo para que ele saia do lugar da porta da casa do judeu, e o dia se santifique sobre ele já do lado de fora. Disse Rabi Yochanan: estas são palavras de Rabi Yossi: e Rabi Akiva veio para decidir o sentido das palavras de Beit Hillel, isto é, para explicar até onde chega a permissão deles. Não se dá um objeto ao gentio com a condição de que ele saia com ele no Shabat; mas, se ele o pegou e saiu por conta própria, não precisas te ocupar dele. Não se dá comida ao cão com a condição de que ele saia com ela; mas, se ele a pegou e saiu, não precisas te ocupar dele.

02Os artesãos gentios: empreitada e diária
Yerushalmi · Shabbat 1:8
תַּנֵּי. אוּמָנִין גּוֹיִם שֶׁהָיוּ עוֹשִׂין עִם יִשְׂרָאֵל. בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ שֶׁלְּיִשְׂרָאֵל אָסוּר וּבְתוֹךְ בָּתֵּיהֶן מוּתָּר. אָמַר רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָעְזָר. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִין. בְּקִיבּוֹלֶת. אֲבָל בִּשְׂכִיר יוֹם אָסוּר. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִין. בְּתָלוּשׁ מִן הַקַּרְקַע. אֲבָל בִּמְחוּבָּר לַקַּרְקַע אָסוּר. בְּעִיר אֲחֶרֶת בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ מוּתָּר. מָהוּ בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ. בֵּין בְּתָלוּשׁ בֵּין בִּמְחוּבָּר. בֵּין בְּשָׂכִיר בֵּין בְּקִיבּוֹלֶת. אָמַר רִבִּי אִילָּא. בֵּין בְּתָלוּשׁ בֵּין בִּמְחוּבָּר. וּבִלְבַד בְּקִיבּוֹלֶת. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן בַּרְקָנָא בְשֵׁם רִבִּי אָחָא. בְּשַׁבָּת וּבְאֵבֶל וּבַעֲבוֹדָה זָרָה הֲלָכָה כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר.

Foi ensinado numa baraita: artesãos gentios que estavam trabalhando para um israelita no Shabat: se trabalham dentro da casa do israelita, é proibido; e se trabalham dentro das suas próprias casas, é permitido. Disse Rabi Shimon ben Elazar: em que caso foram ditas estas palavras? Na kibolet (empreitada), em que o artesão recebe pela obra pronta; mas no sechir yom (diarista), é proibido, pois ele trabalha no tempo do israelita. Em que caso foram ditas estas palavras? Quando se trabalha no que está desprendido do solo; mas no que está preso ao solo, é proibido, pois todos sabem que a obra é do israelita. Em outra cidade, tanto num caso como no outro, é permitido. O que é “tanto num caso como no outro”? Tanto no desprendido como no preso ao solo, tanto no diarista como na empreitada. Disse Rabi Ila: tanto no desprendido como no preso ao solo, mas desde que seja na empreitada. Rabi Shimon ben Barkana disse em nome de Rabi Achá: no Shabat, no luto e na avodá zará (idolatria), a halachá é como Rabi Shimon ben Elazar, que distingue entre a empreitada e a diária.

03Cartas pela mão de um gentio
Yerushalmi · Shabbat 1:8
אֵין מְשַׁלְּחִין אִיגְרוֹת בְּיַד גּוֹי לֹא בְעֶרֶב שַׁבָּת וְלֹא בַחֲמִישִּׁי בַשַּׁבָּת. בֵּית שַׁמַּי אוֹסְרִין אֲפִילו בָרְבִיעִי. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. אָמְרוּ עָלָיו עַל רִבִּי יוֹסֵי הַכֹּהֵן שֶׁלֹּא נִמְצָא כְתָבוֹ בְיַד גּוֹי מֵעוֹלָם.

Não se enviam cartas pela mão de um gentio, nem na véspera do Shabat nem no quinto dia da semana, pois ele pode levá-las durante o Shabat. Beit Shammai proíbem enviá-las mesmo no quarto dia, e Beit Hillel permitem. Disseram a respeito de Rabi Yossi HaCohen que jamais se encontrou um escrito seu na mão de um gentio, tão grande era o seu cuidado.

04Zarpar para o Mar Grande
Yerushalmi · Shabbat 1:8
אֵין מַפְרִישִׂין לְיָם הַגָּדוֹל לֹא בְעֶרֶב שַׁבָּת וְלֹא בַחֲמִישִּׁי בַשַּׁבָּת. בֵּית שַׁמַּי אוֹסְרִין אֲפִילו בָרְבִיעִי. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. אִם הָיָה דָבָר שֶׁלַּסַּכָּנָה. כְּגוֹן מִצּוֹר לְצִידוֹן. מוּתָּר.

Não se zarpa para o Mar Grande, isto é, não se embarca para uma viagem pelo Mediterrâneo, nem na véspera do Shabat nem no quinto dia da semana, pois a viagem se prolongaria pelo Shabat. Beit Shammai proíbem zarpar mesmo no quarto dia, e Beit Hillel permitem. Se era coisa de perigo, como a viagem de Tzor a Tzidon, é permitido mesmo na véspera do Shabat.

05O cerco a uma cidade de gentios e a conquista de Jericó
Yerushalmi · Shabbat 1:8
אֵין מְקִיפִין עַל עִיר שֶׁלְּגוֹיִם פָּחוּת מִשְּׁלֹשָׁה יָמִים קוֹדֶם לַשַּׂבָּת. הָדָא דְתֵימַר בְּמִלְחֶמֶת הָרָשׁוּת. אֲבָל בְּמִלְחֶמֶת חוֹבָה אֲפִילוּ בַשַּׁבָּת. שֶׁכֵּן מָצִינוּ שֶׁלֹּא נִכְבְּשָׁה יְרֵיחוֹ אֶלָּא בַשַּׁבָּת. דִּכְתִיב כֹּה תַעֲשֶׂה שֵׁשֶׁת יָמִים. וּכְתִיב וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי תָּסוֹבּוּ אֶת הָעִיר שֶׁבַע פְּעָמִים. וּכְתִיב עַד רִדְתָּהּ. אֲפִילוּ בַשַּׁבָּת.

Não se sitia uma cidade de gentios quando faltam menos de três dias antes do Shabat. Isso que dizes vale na milchemet hareshut (guerra opcional); mas na milchemet chová (guerra obrigatória), sitia-se mesmo no Shabat, pois assim encontramos que Jericó não foi conquistada senão no Shabat, como está escrito: “assim farás seis dias” (Yehoshua 6:3); e está escrito: “e no sétimo dia rodeareis a cidade sete vezes” (Yehoshua 6:4), e entre esses sete dias houve necessariamente um Shabat. E está escrito: “até que ela caia” (Devarim 20:20): o cerco continua mesmo no Shabat.

Nota

Esta é a oitava halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. Corresponde à Mishná Shabbat 1:7 da Mishná avulsa, cujo texto, no Yerushalmi, é idêntico ao da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com Rav Huna em nome de Rav: as tâmaras duras que estão nos ramos de palmeira, quando um gentio as traz no dia festivo, são permitidas. A Mishná desta halachá continua a série de disputas de Beit Shammai e Beit Hillel sobre o trabalho começado na véspera do Shabat que se completa no próprio Shabat: aqui, o trabalho é do gentio, que leva no Shabat o que lhe foi vendido ou carregado na véspera.

A seção 01 define o “lugar próximo”: segundo a medida de Shmuel, de Chutra a Nehardea; segundo outros, até a casa do gentio ou até a sua cidade; e Rabi Akiva diz que basta que o gentio saia da porta antes que o Shabat comece, o que, segundo Rabi Yochanan, Rabi Yossi entende como a explicação das palavras de Beit Hillel. As palavras de Rabi Akiva estão na Tosefta Shabbat 1:22, que traz também a pergunta “qual é o lugar próximo?”. No Bavli, em Shabbat 18b, uma baraita atribui a Beit Hillel “até a casa vizinha à muralha”, e Rabi Yossi beRabi Yehudá diz que Rabi Akiva só veio explicar as palavras de Beit Hillel. A regra do cão está no Bavli, Shabbat 19a: “dá-se comida ao cão no pátio; se ele a pegou e saiu, não é preciso ocupar-se dele”. A seção 02 traz uma baraita sobre artesãos gentios que trabalham para um israelita no Shabat, com a distinção de Rabi Shimon ben Elazar entre a empreitada e a diária e entre o que está desprendido do solo e o que está preso a ele; um paralelo quase idêntico, sobre artesãos judeus que trabalham para gentios nas suas festas, está no Yerushalmi Avodah Zarah 1:1, onde os nomes aparecem como “Rabi La” e “Rabi Shimon bar Karsana”. As seções 03, 04 e 05 trazem três baraitot do mesmo tipo: as cartas enviadas por um gentio, a viagem por mar e o cerco a uma cidade de gentios. No Bavli, Shabbat 19a, as três aparecem em forma próxima: lá se permite enviar cartas no quarto e no quinto dia; a viagem de Tzor a Tzidon é permitida mesmo na véspera do Shabat; e o cerco, uma vez começado, não se interrompe, pois assim dizia Shammai: “até que ela caia”, mesmo no Shabat. A Tosefta Shabbat 13:13 traz a regra da viagem pelo Mar Grande, com Tzor e Tzidon, e a Tosefta Eruvin 3:7 traz a regra do cerco na guerra opcional e a exposição de Shammai, o Velho.

Observações de leitura. “Kibolet” é a empreitada, em que o artesão recebe pela obra acabada, sem depender do tempo gasto; “sechir yom” é o trabalhador contratado por dia. “Milchemet hareshut” é a guerra opcional; “milchemet chová”, a guerra obrigatória, como a conquista da terra nos dias de Yehoshua. Na seção 05, o argumento é que Jericó foi rodeada por sete dias seguidos e conquistada no sétimo, de modo que um desses dias, e segundo a guemará o da conquista, foi um Shabat. O texto do Yerushalmi apresenta algumas grafias próprias, conservadas no hebraico: “Akiva” escrito com a letra he no final; “Shammai” sem a letra álef nas seções 03 e 04; “lashabat”, na seção 05, com o ponto da letra sin; e, na citação de Yehoshua 6:4, “tasóbu” escrito com a letra vav, enquanto o versículo a escreve sem ela. A expressão “yayvo kayi demar Shmuel”, na seção 01, significa “venha como aquilo que disse Shmuel”, e assim se traduziu; não se sabe em que contexto Shmuel deu a medida de Chutra a Nehardea. A nota de Guggenheimer chama a Mishná desta halachá de “Mishná 11”, segundo a sua numeração própria; aqui ela é a Mishná Shabbat 1:7.

Comparação com o pivô inglês. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na citação que abre a seção 01, o hebraico diz “Beit Shammai dizem: vende-se ao gentio”, abreviando as palavras da Mishná, que dizem “não se vende”; traduzimos a citação como está, e Guggenheimer faz o mesmo. Nas seções 03 e 04, Guggenheimer escreve “One sends letters” e “One embarks”, sem a negação; o hebraico diz “não se enviam” e “não se zarpa”, e assim traduzimos. Na seção 04, o hebraico diz “se era coisa de perigo, como de Tzor a Tzidon, é permitido”; Guggenheimer traduz “se não é perigoso”, de acordo com o sentido da Tosefta, que permite a viagem curta de Tzor a Tzidon mesmo na véspera do Shabat, e observa, citando Saul Lieberman, que nesse ponto parece faltar uma frase no texto do Yerushalmi; traduzimos o hebraico como está. Na seção 01, “não precisas te ocupar dele” traduz “ein ata zakuk lo”, que Guggenheimer verte como “não precisas interferir”. Na seção 02, o hebraico diz “Rabi Shimon ben Lazar” na primeira menção e “Rabi Shimon ben Elazar” na última; ambos os nomes designam o mesmo sábio, e escrevemos Rabi Shimon ben Elazar nas duas.