Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Alef · Halachá 3
שַׁבָּת

Não sairá o alfaiate com a sua agulha perto do escurecer

Perek Alef, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Terceira halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. A Mishná ensina que, perto do escurecer da véspera do Shabat, o alfaiate não sai com a sua agulha nem o liblar com a sua pena, para que não se esqueçam e saiam com eles no Shabat; que não se catam as roupas nem se lê à luz da vela; que o chazan vê onde as crianças leem, mas ele mesmo não lê; e que o zav não come com a zavá, por causa do hábito que leva à transgressão. A guemará traz a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre o artesão que sai com o instrumento do seu ofício; discute o piolho no Shabat e as transformações dos seres a cada sete anos; conta como Rabi Yishmael ben Elisha inclinou a vela; ensina que “na verdade” indica lei antiga; explica até onde se difundiu a pureza em Israel; e termina com a escada de Rabi Pinchas ben Yair, da diligência à ressurreição dos mortos, e com a promessa de Rabi Meir a quem mora na Terra de Israel. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 11a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

לֹא יֵצֵא הַחַיָיט בְּמַחֲטוֹ סָמוּךְ לַחֲשֵׁיכָה שֶׁמָּא יִשְׁכַּח וְיֵצֵא. לֹא הַלּיבֶּלָּר בְּקוּלְמוֹסוֹ. וְלֹא יְפַלֶּא אֶת כֵּלָיו וְלֹא יִקְרָא לְאוֹר הַנֵּר. בֶּאֱמֶת הַחַזָּן רוֹאֶה מֵאֵיכָן הַתִּינוֹקוֹת קוֹרִין אֲבָל הוּא לֹא יִקְרָא. כַּיּוֹצֵא בוֹ לֹא יֹאכַל הַזָּב עִם הַזָּבָה מִפְּנֵי הֶרְגֵּל עֲבֵרָה:

Mishná: Não sairá o alfaiate com a sua agulha perto do escurecer da véspera do Shabat, para que não se esqueça dela e saia com ela já no Shabat; nem o liblar (o escriba) com a sua pena. E não catará os piolhos das suas roupas, e não lerá à luz da vela na noite do Shabat. Na verdade, o chazan (o mestre das crianças) vê de onde as crianças leem, mas ele mesmo não lerá. Do mesmo modo, não comerá o zav (o homem impuro por fluxo) com a zavá (a mulher impura por fluxo), por causa do hábito que leva à transgressão.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01O alfaiate, o escriba e o artesão: Rabi Meir e Rabi Yehudá
Yerushalmi · Shabbat 1:3
מתני׳ לֹא יֵצֵא הַחַיָיט בְּמַחֲטוֹ סָמוּךְ לַחֲשֵׁיכָה שֶׁמָּא יִשְׁכַּח וְיֵצֵא כול׳. תַּנֵּי. לֹא יֵצֵא הַחַיָיט בְּמַחַט שֶׁבְּכֵלָיו. וְלֹא הַלִּיבֶּלָּר בְּקוֹלְמוֹס שֶׁבְּאָזְנוֹ. וְלֹא הַצַּבָּע בְּדֵיגְמָא שֶׁבְּאָזְנוֹ. וְלֹא הַשּׁוּלְחָנִי בְּדֵינָר שֶׁבְּאָזְנוֹ. וְאִם יָצָא הֲרֵי אֵילּוּ פְטוּרִין. דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר. אוּמָּן דֶּרֶךְ אוּמְנָותוֹ חַיָיב. הָא שְׁאָר כָּל אָדָם יוֹצְאִין בְּכָךְ. מִחְלְפָא שִׁיטָּתֵיהּ דְּרִבִּי מֵאִיר. דְּתַנִּינָן תַּמָּן. יָצָאת חַיֶיבֶת חַטָּאת. דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וָכָא הוּא אָמַר הָכֵין. רִבִּי מָנָא אָמַר לָהּ סְתָם. רִבִּי אָבוּן בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. תַּמָּן דֶּרֶךְ הוֹצָאָה בַנָּשִׁים. בְּרַם הָכָא טְפֵילִין יוֹצְאִין בְּכָךְ. מִחְלְפִין שִׁיטָּתִין דְּרַבָּנִן. דְּתַנִּינָן תַּמָּן. וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין בַכּוֹכֶלֶת וּבִצְלוֹחִית שֶׁל פִּילְיָיטוֹן. הָא בְמַחַט נְקוּבָה חַיָיב. הָדָא הִיא אוּמָּן בְּאוּמְנָותוֹ חַיָיב. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בַּר אָבוּן. תִּיפְתָּר בְּאִשָׁה גַּדֶּלֶת.

Na Mishná: “Não sairá o alfaiate com a sua agulha perto do escurecer, para que não se esqueça e saia” etc. Foi ensinado numa baraita: “Não sairá o alfaiate com a agulha que está na sua roupa, nem o liblar com a pena que está na sua orelha, nem o tintureiro com a deigma (a amostra de pano tingido) que está na sua orelha, nem o cambista com o denário que está na sua orelha. E, se algum deles saiu, eis que estes estão isentos, palavras de Rabi Meir. Rabi Yehudá diz: o artesão que sai conforme o costume do seu ofício é culpado; logo, todas as demais pessoas podem sair com isso.” A opinião de Rabi Meir parece invertida, pois ensinamos lá, na Mishná sobre o que a mulher leva ao sair: “Se saiu com a agulha furada, é culpada de trazer um chatat (a oferenda pelo pecado), palavras de Rabi Meir”; e aqui ele diz assim, que o artesão está isento? Rabi Mana disse-a sem atribuição; Rabi Avun, em nome de Rabi Yochanan: lá, é o modo de levar habitual entre as mulheres, e por isso ela é culpada; porém aqui, só as crianças saem com isso, e não os próprios artesãos. A opinião dos rabinos parece invertida, pois ensinamos lá: “E os sábios isentam com a kochelet (o estojo de pintura dos olhos) e com o frasco de pilyaton (o óleo perfumado de folhas de nardo).” Logo, com a agulha furada, ela é culpada. É isto o caso de “o artesão no seu ofício é culpado”? Mas nem toda mulher é artesã! Disse Rabi Yossi bar Avun: explica-a como tratando de uma mulher que trança cabelos, para quem a agulha é instrumento do ofício.

02Catar as roupas: o piolho, o chilazon e as transformações a cada sete anos
Yerushalmi · Shabbat 1:3
וְלֹא יְפַלֶּא אֶת כֵּלָיו וְלֹא יִקְרָא לְאוֹר הַנֵּר כול׳. אֲפִילוּ בַחוֹל אָסוּר. שֶׁאֵינֹה דֶּרֶךְ כָּבוֹד. תַּנֵּי. הַמְפַלֶּא אֶת כֵּלָיו נוֹטֵל וְזוֹרֵק וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִמְלוֹל. אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר. מוֹלֵל וְזוֹרֵק וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַהֲרוֹג. חִזְקִיָּה אָמַר. הַהוֹרֵג כִּינָּה בַשַּׁבָּת כְּהוֹרֵג גָּמָל. שְׁמוּאֵל מְקַטֵּעַ יָדָהּ וְרִיגְלָהּ וִיהַב לָהּ קוֹמֵי מַיְינוּקָה. רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן יְהִיב לֵי גַּו צְלוֹחִיתָא. אָמַר רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן חֲלַפְתָּא. וְלֹא מֵחֲלָזוֹן שָׁמַעְנוּ. וַחֲלָזוֹן יֵשׁ לוֹ גִידִּים וָעֲצָמוֹת. וְלֹא כֵן תַּנֵּי. כָּל דָּבָר שֶׂאֵין לוֹ גִידִּים וָעֲצָמוֹת אֵינוֹ חַי יוֹתֵר מֵשִׁשָּׁה חֱדָשִׁים. דָּמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן בְּשֵׁם רַב זְבִיד. אַחַת לְשֶׁבַע שָׁנִים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַחֲלִף אֶת עוֹלָמוֹ. קָמְקָמָה מִיתְעַבֵּיד חו רב פדה. חר אפר מִיתְעַבֵּיד שֵׁר. מִימִיתה דְרֵישָׁא מִיעַבֵּיד עַקְרָב. ודמנייא סממי. תּוֹלַעְתָּא דְסוּסְיָא מִתְעַבְּדָא אורעי. וּדְתוֹרְתָא דברי. צָבוּעַ הַזָּכָר נַעֲשֶׂה נְקֵיבָה. עַכְּבְּרָא דְטוּרָא מִתְעַבֵּיד חֲזִיר בָּר. שִׁיזַרְתָּא דְּנוּנָא מִיתְעַבֵּיד נַדָּל. וּדְבַר נַשָּׁא חִיוִּי. אֵימָתַי. בִּזְמַן שֶׁאֵינוֹ כּוֹרֵעַ כָּל קוֹמָתוֹ עַד הַשִּׁזְרָה.

“E não catará os piolhos das suas roupas, e não lerá à luz da vela” etc. Mesmo em dia comum catar as roupas em público é proibido, porque não é maneira digna. Foi ensinado numa baraita: quem cata as suas roupas no Shabat pega o piolho e o joga fora, contanto que não o esmague entre os dedos. Aba Shaul diz: esmaga-o e o joga fora, contanto que não o mate. Chizkiyá disse: quem mata um piolho no Shabat é como quem mata um camelo. Shmuel cortava-lhe as mãos e os pés e o punha diante da criança, que, por não ter obrigações, podia matá-lo. Rabi Yossi beRabi Bun o punha dentro de um frasco, para só matá-lo depois do Shabat. Disse Rabi Shimon ben Chalafta: e não aprendemos isso do chilazon (o caracol de onde se tira a tinta azul)? Mas o chilazon tem tendões e ossos? E o piolho não os tem! E não foi ensinado assim: todo ser que não tem tendões e ossos não vive mais de seis meses, e matá-lo não deveria tornar culpado? A resposta é esta, pois disse Rabi Yossi beRabi Bun em nome de Rav Zevid: uma vez a cada sete anos o Santo, bendito seja, transforma o Seu mundo, e o piolho pode transformar-se em outro ser, que vive mais. O kamkama (um bicho não identificado) torna-se chu rav pedá (talvez o morcego); o char afer (talvez também o morcego) torna-se sher (talvez um demônio). O piolho da cabeça torna-se escorpião, e o das roupas, segundo a leitura de Guggenheimer, lagartixa. O verme do cavalo torna-se vespa, e o verme do boi torna-se abelha. A hiena macho torna-se fêmea. O rato do monte torna-se javali. A espinha do peixe torna-se centopeia, e a espinha do ser humano torna-se serpente. Quando? Quando ele não se curva com toda a sua estatura até a espinha na bênção de agradecimento da oração.

03Examinar o copo e a tigela à luz da vela
Yerushalmi · Shabbat 1:3
תַּנֵּי רִבִּי חִיָיה. אֲבָל מִסְתַּכֵּל הוּא מַה שֶׁבְּכוֹס וּמַה שֶׁבִּקְעָרָה וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ. אִית דְּבָעֵי מֵימַר. שֶׁהוּא לְשָׁעָה. וְאִית דְּבָעֵי מֵימַר. מִפְּנֵי הַנְּקִיּוּת וּמִפְנֵי הַַסַּכָּנָה. מַה נְפִיק מִבֵּינֵיהוֹן. לְקַנֵּב חִיזְרִין. מַה דָּמַר. שֶׁהוּא לְשָׁעָה. אָסוּר. וּמַה דָּמַר. מִפְּנֵי הַנְּקִיּוּת וּמִפְנֵי הַסַּכָּנָה. מוּתָּר. רַב יִרְמְיָה סְלַק לְגַבֵּי רַבַסִּי. מְזַג לֵיהּ כַּסָּא. שְׁרֵי מִסְתַּכֵּל בֵּיהּ. אָמְרָה לֵיהּ בְּנֵי בֵיתֵיהּ. חֲמִי מַה הוּא עֲבִיד. אֲמַר לָהּ. דְּהוּא נָהוּג בְּשִׁיטָּתֵיהּ דְּרַבּוֹ. דְּתַנֵּי רִבִּי חִיָיה. מִסְתַּכֵּל הוּא מַה שֶׁבְּכוֹס וּמַה שֶׁבִּקְעָרָה וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ.

Rabi Chiya ensinou: mas a pessoa examina o que há no copo e o que há na tigela à luz da vela, e não se preocupa. Há quem queira dizer: porque é coisa de um momento; e há quem queira dizer: por causa da limpeza e por causa do perigo. O que sai de diferença entre eles? Separar as folhas da alface, que exige tempo. Para quem diz “porque é de um momento”, é proibido; e para quem diz “por causa da limpeza e por causa do perigo”, é permitido. Rav Yirmeyá subiu à casa de Rav Assi; este misturou-lhe um copo de vinho, e Rav Yirmeyá começou a examiná-lo. Disse-lhe a Rav Assi a dona da sua casa: Vê o que ele está fazendo! Disse-lhe: é que ele se conduz segundo a opinião do seu mestre, Rav, que foi discípulo de Rabi Chiya, pois Rabi Chiya ensinou: a pessoa examina o que há no copo e o que há na tigela, e não se preocupa.

04Não ler à luz da vela: um só, dois ou muitos
Yerushalmi · Shabbat 1:3
וְלֹא יִקְרָא לְאוֹר הַנֵּר. שְׁמוּאֵל אָמַר. לֹא שָׁנוּ אֶלָּא אֶחָד. הָא שְׁנַיִם מֵאַחַר שֶׁהֵן יְכוֹלִין לִמְחוֹת זֶה עַל יְדֵי זֶה מוּתָּר. מַתְנִיתָא דִשְׁמוּאֵל פְּלִיגָא עֲלוֹי. אֶחָד הַנֵּר שֶׁהוּא יָכוֹל לְהַטּוֹתוֹ וְאֶחָד הַנֵּר שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לְהַטּוֹתוֹ. עוּלָּא בַּר יִשְׁמָעֵאל בְּשֵׁם רִבִּי לָעְזָר. אֲפִילוּ כַּמָּה. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי לָעְזָר אֲפִילוּ גָבוֹהַּ כַּמָּה. אֲפִילוּ נָתוּן בְּבַיִת אֶחָד. אֲפִילוּ נָתוּן בִּסְפֵּיקֻלָה.

“E não lerá à luz da vela.” Shmuel disse: não ensinaram isso senão para um só; mas para dois, visto que podem advertir um ao outro, é permitido. A baraita de Shmuel discorda dele: “Tanto a vela que ele pode inclinar quanto a vela que ele não pode inclinar” estão proibidas. Ula bar Yishmael, em nome de Rabi Elazar: mesmo que sejam muitos, é proibido. Segundo a opinião de Rabi Elazar, é proibido mesmo que a vela esteja muito alta, mesmo que esteja posta em uma casa à parte, mesmo que esteja posta numa sfekula (uma torre de vigia).

05Rabi Yishmael ben Elisha e a vela inclinada
Yerushalmi · Shabbat 1:3
תַּנֵּי. שֶׁמָּא יִשְׁכָּח וְיַטֶּה. אָמַר רִבִּי יִשְׁמָעֵאל. אֲנִי אֶקְרָא וְלֹא אַטֶּה. וְשָׁכַח וְהָיָה קָרוּב לְהַטּוֹת. וְאָמַר. גְּדוֹלִים הֵן דִּבְרֵי חֲכָמִים שֶׁאָמְרוּ. שֶׁמָּא יִשְׁכָּח וְיַטֶּה. רִבִּי נָתָן אוֹמֵר. הִיטָּה אוֹתוֹ מַמָּשׁ. וְכָתַב עַל פִּנְקָסוֹ וְאָמַר. יִשְׁמָעֵאל בֶּן אֱלִישָׁע הִיטָָּה הַנֵּר בַּשַּׁבָּת. לִכְשֶׁיִּבָּנֶה הַבַּיִת יְהֵא חַיָיב חַטָּאת.

Foi ensinado numa baraita: proíbe-se ler à luz da vela para que não se esqueça e incline a vela. Disse Rabi Yishmael: eu lerei à luz da vela e não inclinarei. E esqueceu-se, e esteve perto de inclinar a vela. E disse: grandes são as palavras dos sábios, que disseram: “para que não se esqueça e incline”. Rabi Natan diz: inclinou-a de fato, e escreveu no seu pinkas (a tabuinha de escrever) e disse: Yishmael ben Elisha inclinou a vela no Shabat; quando o Templo for reconstruído, ele será culpado de trazer um chatat.

06“Não confies em ti mesmo até o dia da tua morte”
Yerushalmi · Shabbat 1:3
תַּמָּן תַּנִּינָן. אַל תַּאֲמֵן בְּעַצְמָךְ עַד יוֹם מוֹתָךְ. מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד שֶׁהָיָה יוֹשֵׁב וְשׁוֹנֶה. אַל תַּאֲמֵן בְּעַצְמָךְ עַד יוֹם זִקְנוּתָךְ. כְּגוֹן אֲנִי. אֲתַת חָדָא רוּחָא וּנְסִיתֵיהּ. וּשְׁרֵי תָהִי בֵיהּ. אָמְרָה לֵיהּ. לֹא תִצּוֹק. רוּחַ אֲנָא. אֲזִיל וְאִישְׁתַּוֵּי לַחֲבֵרֶיךָ.

Lá ensinamos na Mishná: “Não confies em ti mesmo até o dia da tua morte.” Aconteceu com um chassid (homem piedoso) que estava sentado e ensinava assim: “Não confies em ti mesmo até o dia da tua velhice”, e acrescentava: como eu, que cheguei à velhice sem pecar. Veio um espírito em forma de mulher e o pôs à prova, e ele começou a desviar-se atrás dela. Disse-lhe o espírito: não te aflijas; sou apenas um espírito. Vai e iguala-te aos teus companheiros, ensinando como eles “até o dia da tua morte”.

07“Na verdade”: o chazan e as crianças
Yerushalmi · Shabbat 1:3
בֶּאֱמֶת הַחַזָּן רוֹאֶה אֵיכָן הַתִּינוֹקוֹת קוֹרִין כול׳. אָמַר רִבִּי לָעְזָר. כָּל מָקוֹם שֶׁשָּׁנִינוּ. בְּאֱמֶת. הֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי. מָהוּ מְתַקֵּן. רָאשֵׁי פְרָקִים פְּסוּקִין. תַּנֵּי. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר. הַתִּינּוֹקוֹת מְתַקְּינִין לָהֶן רָאשֵׁי פְסוּקֵיהֶן לְאוֹר הַנֵּר. מַיי כְדוֹן. אִילֵּין בָעֵיי דְּיִטְפֵי בוּצִינָּא. וְאִילֵּין לָא בָעֵיי דְּיִטְפֵי בוּצִינָּא.

“Na verdade, o chazan vê onde as crianças leem” etc. Disse Rabi Elazar: todo lugar em que ensinamos “na verdade”, trata-se de halachá leMoshé miSinai (lei transmitida a Moshé no Sinai). O que ele arruma à luz da vela? Os começos dos parágrafos e dos versículos. Foi ensinado: Rabban Shimon ben Gamliel diz: as crianças arrumam para si os começos dos seus versículos à luz da vela. Qual é a razão, então, de as crianças poderem e os adultos não? Estes, as crianças, querem que a lâmpada se apague, e aqueles, os adultos, não querem que a lâmpada se apague, e por isso poderiam incliná-la.

08O zav e a zavá: até onde se difundiu a pureza
Yerushalmi · Shabbat 1:3
כַּיּוֹצֵא בוֹ לֹא יֹאכַל הַזָּב עִם הַזָּבָה כול׳. תַּנֵּי. רִבִּי שִׂמְעוֹן בֶּן לָעְזָר אוֹמֵר. רְאֵה עַד אֵיכַן פָּרְצָה טַהֳרָה. שֶׁנֶּאֱמַר כִּי מְעַט אֲשֶׁר הָיָה לְךָ לְפָנַי וַיִּפְרוֹץ לָרוֹב. וּבֵית אֲבוֹתֵיהֶן פָּרְצוּ לָרוֹב. שֶׁלֹּא גָזְרוּ לוֹמַר שֶׁלֹּא יֹאכַל טָהוֹר עִם הַטָּמֵא. אֶלָּא אָמְרוּ לֹא יֹאכַל הַזָּב עִם הַזָּבָה. הָא זָב עִם מְצוֹרָעַת מוּתָּר. וְיָשַׁב מִחוּץ לְאָהֳלוֹ וְלֹא מִחוּץ לְאָהֳלָהּ. מְצוֹרָע עִם זָבָה אָסוּר. מְצוֹרָע עִם מְצוֹרָעַת אָסוּר.

“Do mesmo modo, não comerá o zav com a zavá” etc. Foi ensinado numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: vê até onde se difundiu a pureza em Israel, como foi dito: “Pois o pouco que tinhas antes de mim difundiu-se em abundância” (Bereshit 30:30), e também está escrito: “e a casa dos seus pais difundiu-se em abundância” (Divrei HaYamim I 4:38). A tal ponto que não decretaram dizer “o puro não comerá com o impuro”, pois todos já se cuidavam disso, mas disseram: “não comerá o zav com a zavá”. Logo, o zav com a metzoráat (a mulher afetada pela doença de pele, a tzaraat) é permitido, pois está escrito: “e habitará fora da sua tenda” (Vayikrá 14:8), da tenda dele, e não fora da tenda dela. Mas o metzorá (o homem afetado pela tzaraat) com a zavá é proibido de comer; o metzorá com a metzoráat é proibido, pois a restrição depende do estado do homem.

09Beit Shammai e Beit Hillel: o zav parush e o zav am haaretz
Yerushalmi · Shabbat 1:3
תַּנֵּי. בֵּית שַׁמַּי אוֹמְרִים. לֹא יֹאכַל זָב פָּרוּשׁ עִם זָב עַם הָאָרֶץ. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. וּמַה טַעֲמֵיהוֹן דְּבֵית הִלֵּל. זֶה זָב וְזֶה זָב. וּמַה טַעֲמְהוֹן דְּבֵית שַׁמַּי. שֶׁהוּא מִתְרַגֵּל עִמּוֹ בִימֵי טוּמְאָתוֹ הוּא מִתְרַגֵּל עִמּוֹ בִימֵי טַהֳרָתוֹ. רִבִּי חִיָיה רוֹבָה מְפַקֵּד לְרַב. אִין אַתְּ יְכִיל מֵיכוּל כָּל שַׁתָּה חוּלִין בְּטָהֳרָה אֲכוֹל. וְאִם לָאו תְּהֵא אֲכִיל שִׁבְעָה יוֹמִין מִן שַׁתָּא.

Foi ensinado: Beit Shammai dizem: não comerá o zav parush (observante rigoroso da pureza) com o zav am haaretz (o inculto, que não guarda a pureza); e Beit Hillel permitem. E qual é a razão de Beit Hillel? Este é zav e aquele é zav, ambos igualmente impuros. E qual é a razão de Beit Shammai? Se ele se acostuma com ele nos dias da sua impureza, se acostumará com ele também nos dias da sua pureza. Rabi Chiya, o Grande, ordenou a Rav: se podes comer o ano todo os teus alimentos chulin (profanos) em pureza, come; e, se não, come assim sete dias do ano, os dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur.

10Rabi Pinchas ben Yair: da diligência à ressurreição dos mortos
Yerushalmi · Shabbat 1:3
מִיכָּן הָיָה רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר אוֹמֵר. זְרִיזוּת מְבִיאָה לִידֵי נְקִיּוּת. נְקִיּוּת מְבִיאָה לִידֵי טַהֳרָה. טַהֳרָה מְבִיאָה לִידֵי קְדוּשָּׁה. קְדוּשָּׁה לִידֵי עֲנָוָה. עֲנָוָה לִידֵי יִרְאַת חֵטְ. יִרְאַת חֵטְ לִידֵי רוּחַ הַקּוֹדֶשׁ. רוּחַ הַקּוֹדֶשׁ לִידֵי חֲסִידוּת. חֲסִידוּת לִידֵי תְחִיַּית הַמֵּתִים. תְּחִיַּית הַמֵּתִים לִידֵי אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב. זְרִיזוּת לִידֵי נְקִיּוּת. וְכִלָּה וְכִיפֵּר. נְקִיּוּת לִידֵי טַהֳרָה. וְכִפֶּר עָלֶיהָ הַכֹּהֵן וְטָהֵרָה. טַהֳרָה לִידֵי קְדוּשָּׁה. וְטִיהֲרוֹ וְקִידְּשׁוֹ. קְדוּשָּׁה לִידֵי עֲנָוָה. כִּי כֹה אָמַר רָם וְנִישָּׂא שׁוֹכֵן עַד וְקָדוֹשׁ שְׁמוֹ מָרוֹם וְקָדוֹשׁ אֶשְׁכּוֹן וְאֶת דַּכָּא וּשְׁפַל רוּחַ. עֲנָוָה לִידֵי יִרְאַת חֵטְ. דִּכְתִיב עֵקֶב עֲנָוָה יִרְאַת יְי. אָמַר רִבִּי יִצְחָק בַּר אֶלְעָזָר. מַה שֶׁעָשָׂת חָכְמָה עֲטָרָה לְרֹאשָׁהּ עָשָׂת עֲנָוָה עֵקֶב לְסוּלְיָיסָהּ. דִּכְתִיב רֵאשִׁית חָכְמָה יִרְאַת יְי. וּכְתִיב עֵקֶב עֲנָוָה יִרְאַת יְי. יִרְאַת חֵטְ לִידֵי רוּחַ הַקּוֹדֶשׁ. דִּכְתִיב אָז תָּבִין יִרְאַת ה' וְדַעַת אֱלֹקִים תִּמְצָא. רוּחַ הַקֹּדֶשׁ לִידֵי חֲסִידוּת. דִּכְתִיב אָז דִּבַּרְתָּ בְחָזוֹן לַחֲסִידֶיךָ. חֲסִידוּת לִידֵי תְחִיַּית הַמֵּתִים. דִּכְתִיב וְנָתַתִּי רוּחִי בָכֶם וִחְיִיתֶם. תְּחִיַית הַמֵּתִים לִידֵי אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב. דִּכְתִיב הִנֵּה אָנֹכִי שׁוֹלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא לִפְנֵי בּוֹא יוֹם יְי הַגָּדוֹל וְהַנּוֹרָא וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים וְלֵב בָּנִים עַל אֲבוֹתָם. תַּנֵּי בְשֵׁם רִבִּי מֵאִיר. כָּל מִי שֶׁהוּא קָבוּעַ בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וְאוֹכֵל חוּלָיו בְּטַהֳרָה וּמְדַבֵּר בְּלָשׁוֹן הַקּוֹדֶשׁ וְקוֹרֵא אֶת שְׁמַע בַּבּוֹקֶר וּבָעֶרֶב מוּבְטַח לוֹ שֶׁהוּא מֵחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא.

Daqui, deste ensino sobre a pureza, dizia Rabi Pinchas ben Yair: a diligência traz à limpeza; a limpeza traz à pureza; a pureza traz à santidade; a santidade traz à humildade; a humildade traz ao temor do pecado; o temor do pecado traz ao ruach hakodesh (o espírito de santidade); o ruach hakodesh traz à chassidut (a piedade); a chassidut traz à ressurreição dos mortos; a ressurreição dos mortos traz a Eliyahu, lembrado seja para o bem. A diligência traz à limpeza, como está escrito: “e terminou, e expiou” (Vayikrá 16:20), pois o sumo sacerdote que se apressa termina o serviço e alcança a expiação. A limpeza traz à pureza, como está escrito: “e o sacerdote fará expiação por ela, e ela será pura” (Vayikrá 12:8). A pureza traz à santidade, como está escrito: “e o purificará e o santificará” (Vayikrá 16:19). A santidade traz à humildade, como está escrito: “Pois assim diz o Alto e Elevado, que habita a eternidade, e Santo é o Seu nome: no alto e em santidade Eu habito, e com o abatido e humilde de espírito” (Yeshayahu 57:15). A humildade traz ao temor do pecado, como está escrito: “A consequência da humildade é o temor do Eterno” (Mishlei 22:4). Disse Rabi Yitzchak bar Elazar: aquilo que a sabedoria fez coroa para a sua cabeça, a humildade fez calcanhar para a sua sulyas (a sandália), como está escrito: “O princípio da sabedoria é o temor do Eterno” (Tehilim 111:10), onde “princípio” é, ao pé da letra, “cabeça”; e está escrito: “O calcanhar da humildade é o temor do Eterno” (Mishlei 22:4), de modo que o que para a sabedoria é a cabeça, para a humildade é apenas o calcanhar. O temor do pecado traz ao ruach hakodesh, como está escrito: “Então entenderás o temor do Eterno e encontrarás o conhecimento de Deus” (Mishlei 2:5), e o conhecimento de Deus é a inspiração do alto. O ruach hakodesh traz à chassidut, como está escrito: “Então falaste em visão aos Teus piedosos” (Tehilim 89:20), pois a visão profética repousa sobre os piedosos. A chassidut traz à ressurreição dos mortos, como está escrito: “E porei o Meu espírito em vós, e vivereis” (Yechezkel 37:14), dito na visão dos ossos secos. A ressurreição dos mortos traz a Eliyahu, lembrado seja para o bem, como está escrito: “Eis que Eu vos envio Eliyahu, o profeta, antes que venha o dia do Eterno, grande e terrível; e ele fará voltar o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos seus pais” (Malachi 3:23–24). Foi ensinado em nome de Rabi Meir: todo aquele que está fixado na Terra de Israel, e come os seus alimentos chulin em pureza, e fala na língua sagrada, e lê o Shemá de manhã e à noite, tem a promessa garantida de que é dos que terão parte na vida do mundo vindouro.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. Corresponde exatamente à Mishná Shabbat 1:3 da Mishná avulsa. A halachá seguinte começa com a Mishná avulsa 1:4, sobre as halachot ditas no sótão de Chananya ben Chizkiyá ben Garon.

A guemará começa pela baraita sobre o alfaiate, o escriba, o tintureiro e o cambista, e pela aparente contradição entre a opinião de Rabi Meir e a dos rabinos aqui e na Mishná sobre o que a mulher leva ao sair; passa ao piolho no Shabat, ao exame do copo à luz da vela, à proibição de ler à luz da vela e ao relato de Rabi Yishmael ben Elisha; traz o chassid posto à prova; explica “na verdade” e a leitura das crianças; e, a partir do zav e da zavá, mostra até onde se difundiu a pureza, com a disputa de Beit Shammai e Beit Hillel, a ordem de Rabi Chiya a Rav, a escada de Rabi Pinchas ben Yair e a promessa de Rabi Meir.

Observações de leitura. Os versículos foram conferidos na numeração massorética: Bereshit 30:30 e Divrei HaYamim I 4:38 (seção 08); Vayikrá 14:8 (seção 08); Vayikrá 16:20, Vayikrá 12:8, Vayikrá 16:19, Yeshayahu 57:15, Mishlei 22:4, Tehilim 111:10, Mishlei 2:5, Tehilim 89:20, Yechezkel 37:14 e Malachi 3:23–24 (seção 10). As Mishnayot citadas, na numeração da Mishná avulsa, são: Shabbat 6:3, sobre a agulha furada, a kochelet e o frasco de pilyaton (seção 01); e Avot 2:4, “não confies em ti mesmo até o dia da tua morte”, palavras de Hillel (seção 06). A baraita da seção 01 está na Tosefta Shabbat 1:8 e no Bavli Shabbat 11b.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Na seção 02, as palavras קָמְקָמָה, חו רב פדה, חר אפר e שֵׁר estão corrompidas no manuscrito; Guggenheimer, com base na citação de Rabeinu Chananel, sugere que “chu rav pedá” e “char afer” são deformações da palavra para morcego e que “sher” é “demônio”; as glosas em itálico são apenas prováveis, e a palavra que traduzimos por “o das roupas” é obscura. Na seção 04, o hebraico diz “em uma casa”; a Tosefta lê “em outra casa”, que é o sentido indicado em itálico. Na seção 08, o hebraico diz “o puro não comerá com o impuro”, no masculino; Guggenheimer, pelos paralelos, entende “com a impura”, isto é, o marido com a esposa no tempo da impureza; mantivemos o hebraico. Na seção 10, o hebraico cita “e terminou, e expiou”, enquanto o versículo em Vayikrá 16:20 diz “e terminou de expiar”; a versão paralela do Yerushalmi em Shekalim tem a forma do versículo. Ainda na seção 10, a escada de Rabi Pinchas ben Yair aparece no Bavli no fim de Massechet Sotá, em ordem um pouco diferente. Na seção 03, o hebraico tem “Rabassi”, que Guggenheimer lê “Rav Assi”. Na seção 07, Guggenheimer observa que “halachá leMoshé miSinai” indica aqui prática antiga e sem disputa, pois a proibição de ler à luz da vela é rabínica; o Bavli, em Shabbat 92b, diz apenas “é halachá”.