Décima halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. A Mishná ensina que não se assam carne, cebola e ovo na véspera do Shabat a não ser que haja tempo para que sejam assados enquanto ainda é dia, e que o pão no forno e a charará sobre as brasas só se põem quando haja tempo para que formem crosta; Rabi Eliezer se contenta com a crosta da face de baixo. A guemará discute quando se pode deixar ou devolver o cozido, a água quente e o cordeiro de Pessach sobre a kirá no Shabat, e o ponto de ben Derosai; explica por que para o pão basta a crosta, pois as mulheres são diligentes com ele e o pão não se come fervendo; traz um conselho da medicina babilônica sobre o pão quente, a vespa e o escorpião; e ensina que até Rabi Eliezer concorda quanto ao lechem hapanim. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 19b.
Mishná: Não se assam carne, cebola e ovo na véspera do Shabat, a não ser que haja tempo para que sejam assados enquanto ainda é dia, para que ninguém venha a mexer nas brasas no Shabat. Não se põe o pão no forno ao escurecer da véspera do Shabat, nem se põe a charará (bolo assado sobre brasas) sobre as brasas, a não ser que haja tempo para que a sua face forme crosta antes do Shabat. Rabi Eliezer diz: basta que haja tempo para que a face de baixo dela forme crosta.
Na Mishná: “Não se assam carne, cebola e ovo, a não ser que haja tempo para que sejam assados enquanto ainda é dia.” Rabi Bun bar Kahana disse em nome dos rabinos: um cozido que foi cozido por completo, é permitido deixá-lo no Shabat sobre a kirá (fogareiro) que não está coberta de cinzas. Rabi Zeira perguntou: carne, cebola e ovo se encolhem e isso lhes é ruim, e por isso ninguém mexerá nas brasas por causa deles; e este cozido se encolhe e isso lhe é bom, e tu dizes assim, que é permitido deixá-lo? Talvez não tenha sido dito senão sobre água quente. Veio Rabi Shmuel com a tradição sobre o que Rabi Zeira perguntou: água quente que foi aquecida por completo, é proibido deixá-la sobre a kirá que não está coberta de cinzas. Rabi Bevai disse em nome de Rabi Yochanan: um cozido de boi que foi cozido até ficar como a comida de ben Derosai (cozido só o bastante para ser comestível), é permitido devolvê-lo no Shabat sobre a kirá coberta de cinzas. E vem isso como aquilo que disse Rabi Yaakov bar Acha em nome de Rabi Yochanan: aquele que põe a panela sobre as brasas no Shabat, advertem-no; quando o cozido ficar cozido como a comida de ben Derosai, é proibido, pois a partir daí já se considera cozido. Rabi Achá, Rabi Tanchum bar Chiya, disseram em nome de Rabi Shimon beRabi: água quente que foi aquecida por completo, é permitido devolvê-la sobre a kirá que não está coberta de cinzas. Rabi Zeira perguntou: deixar é proibido, e devolver é permitido? Talvez não tenha sido dito senão sobre o cordeiro de Pessach. Veio Rabi Achá e disse em nome de Rabi Shimon beRabi: o cordeiro de Pessach que foi assado por completo, é permitido devolvê-lo sobre a kirá que não está coberta de cinzas.
Na Mishná: “Não se põe o pão no forno” etc. Rabi Yaakov bar Acha disse em nome de Rabi Assi: as mulheres são mais diligentes com o pão do que com o cozido, e por isso bastou, para o pão, que a sua face forme crosta. Pergunta-se: que diferença há entre o pão e o cozido? O cozido, o seu costume é que se coma fervendo, e por isso alguém poderia mexer nas brasas para aquecê-lo; o pão, não é o seu costume que se coma fervendo. Lá na Babilônia dizem: o pão quente, a sua febre está ao seu lado. A vespa, trata-se com frio; o escorpião, com quente. Quem troca um pelo outro, corre perigo.
Concorda Rabi Eliezer, embora diga na Mishná que basta a crosta de baixo, que, quanto ao lechem hapanim (pão da proposição), que se assava para o Santuário, ele não é chamado pão até que a sua face forme crosta no forno, e não basta, para ele, que forme crosta só a face de baixo, como Rabi Eliezer disse do pão comum.
Esta é a décima halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat, a penúltima do perek. A sua Mishná corresponde à Mishná Shabbat 1:10 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com uma baraita que contradiz Rabi Yossi bar Chanina: “E concordam todos que não se toque no que escorre.” Depois do trabalho que o gentio faz e do líquido que escorre por si mesmo da prensa, a Mishná desta halachá passa ao fogo: o que se assa e o que se assa no forno na véspera do Shabat só pode ser posto quando haja tempo para que fique pronto, ou ao menos forme crosta, enquanto ainda é dia, para que ninguém venha a mexer nas brasas no Shabat.
A seção 01 discute o cozido deixado ou devolvido sobre a kirá no Shabat. Rabi Bun bar Kahana permite deixar o cozido completo sobre a kirá não coberta de cinzas; Rabi Zeira pergunta como isso pode ser, se a carne, a cebola e o ovo, a quem o encolher faz mal, exigem tempo, e o cozido, a quem o encolher faz bem, seria permitido; talvez se tenha dito isso só da água quente. Rabi Shmuel traz então a tradição de que a água quente completamente aquecida é proibida de ser deixada assim. Rabi Bevai em nome de Rabi Yochanan permite devolver o cozido de boi que chegou ao ponto de ben Derosai sobre a kirá coberta de cinzas, e isso concorda com a palavra de Rabi Yochanan transmitida por Rabi Yaakov bar Acha: quem põe a panela sobre as brasas no Shabat recebe advertência, e quando o cozido chega ao ponto de ben Derosai já se considera cozido. Por fim, a tradição de Rabi Achá e Rabi Tanchum bar Chiya permite devolver a água quente, Rabi Zeira estranha que deixar seja proibido e devolver permitido, e Rabi Achá traz a tradição corrigida: o que se permite devolver é o cordeiro de Pessach assado por completo. A lei de deixar e devolver o cozido sobre a kirá é o tema da Mishná Shabbat 3:1, onde Beit Shammai dizem “tira-se, mas não se devolve” e Beit Hillel dizem “também se devolve”. No Bavli, em Shabbat 20a, Rabi Elazar diz em nome de Rav que o tempo exigido pela Mishná é “como a comida de ben Derosai”.
A seção 02 explica por que, para o pão, basta a crosta: as mulheres são diligentes com o pão, e o pão não se come fervendo, de modo que não há receio de que alguém mexa nas brasas por causa dele. Segue-se uma observação da medicina babilônica: o pão quente traz febre, e a picada da vespa trata-se com frio e a do escorpião com quente. No Bavli, em Avodá Zará 28b, Rav Yehudá diz algo semelhante: “quente para o escorpião e frio para a vespa, e trocá-los é perigo”. A seção 03 acrescenta que até Rabi Eliezer, que se contenta com a crosta da face de baixo, concorda que o lechem hapanim, os doze pães postos sobre a mesa do Santuário (Vayikrá 24:5–6), só é chamado pão quando forma crosta no forno, e Guggenheimer entende que é preciso que forme crosta em todas as faces.
Observações de leitura. “Kirá” é um fogareiro de barro com lugar para duas panelas, aquecido com brasas; quando as brasas estão cobertas de cinzas, o calor diminui. “Ben Derosai” é o nome de um homem que comia a sua comida cozida só o bastante para ser comestível, e o seu ponto é a medida mínima de cozimento. “Charará” é um bolo achatado assado sobre as brasas. “Lechem hapanim” é o pão da proposição. Na seção 01, o hebraico diz “veio Rabi Shmuel, perguntou Rabi Zeira”, de forma elíptica; traduzimos com o sentido de que Rabi Shmuel trouxe a tradição ligada à pergunta de Rabi Zeira. O nome “Rabi Shimon beRabi” significa “Rabi Shimon, filho de Rabi”, e aparece escrito ora “berabi”, ora “beribi”. Na seção 03, o nome é escrito “Rabi Lieezer”, forma abreviada de Rabi Eliezer. O texto do Yerushalmi apresenta algumas grafias próprias, conservadas no hebraico: na Mishná, “basar” com a letra shin em vez de sin, “et hapat”, “chasheichá” com yud, e a falta das palavras “mibe‘od yom” (enquanto ainda é dia) depois de “shêikrem panêha”, que a Mishná avulsa traz; na seção 02, “lochal” por “le’echol” e a forma “rotachat”.
Comparação com o pivô inglês. Seguiu-se o hebraico frase a frase. A nota de Guggenheimer chama esta Mishná de “Mishná 14”, segundo a sua numeração própria; aqui ela é a Mishná Shabbat 1:10. Na seção 01, Guggenheimer verte “Rabi Yaakov bar Acha” como “Rebbi Aḥa”; o hebraico diz “Rabi Yaakov bar Acha”, e assim escrevemos. Guggenheimer verte “Rabi Shimon beRabi” como “the important Rebbi Simeon”; mantivemos o nome como está no hebraico. Onde o hebraico diz “veio Rabi Achá”, Guggenheimer escreve “There Rebbi Aḥa”; traduzimos “veio”. Guggenheimer explica que a tradição sobre a água quente é impossível e foi corrigida pela última transmissão, que fala do cordeiro de Pessach. Na seção 02, Guggenheimer verte “zerizot” como “more careful”; traduzimos “diligentes”. A expressão “chamatá betzidá”, que Guggenheimer verte como “is accompanied by fever”, é traduzida aqui literalmente: “a sua febre está ao seu lado”.