O daf abre concluindo a disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva, iniciada ao final de 19a, sobre alho, uvas verdes e espigas trituradas ainda de dia: enquanto Rabi Yishmael permite terminar a extração do líquido depois de escurecer, Rabi Akiva proíbe. A Guemará traz então a opinião de Rabi Elazar, fundamentada numa mishná sobre favos de mel espremidos na véspera de Shabat cujo mel escorreu por si mesmo — Rabi Elazar permite. Segue-se uma dupla pergunta cruzada: por que Rabi Yossei bar Chanina, que identificou Rabi Yishmael como a fonte do princípio de que "tudo o que vem por si mesmo é permitido", não disse a mesma coisa de Rabi Elazar; e por que Rabi Elazar não se apoiou na baraita de Rabi Yossei bar Chanina. A resposta central do daf, transmitida por Rava bar Chanina em nome de Rabi Yochanan, distingue entre alimentos que "faltam apenas trituração" (onde o próprio peso conclui o processo, e todos concordam ser permitido) e alimentos que "faltam moagem" (fina, equivalente a espremer, onde há disputa real). A Guemará então retoma um conjunto de disputas entre Rav e Shmuel sobre muktzê — óleo e esteiras dos lagares de azeite, fardos de mercadoria, e animais ou frutos reservados para uma função específica (a cabra para o leite, a ovelha para a lã, a galinha para o ovo, o boi para o arado, as tâmaras para o comércio) — ligadas à disputa mais ampla de Rabi Yehudá e Rabi Shimon sobre muktzê. Um episódio relata a excomunhão, por Rav Hamnuna, de um aluno que decidiu como Rabi Shimon em Charta de-Argiz, e o caso de dois alunos que salvavam comida de um incêndio de modos diferentes. O daf fecha com a Mishná que abre a próxima unidade do capítulo: não se assa carne, cebola ou ovo, nem se coloca pão no forno ou bolo sobre as brasas perto do anoitecer, salvo se houver tempo de a crosta se formar ainda de dia; e o costume de descer o sacrifício pascal ao forno, e de acender a fogueira do Bet HaMokêd, mesmo perto do anoitecer.
(Continuando a Mishná citada ao final de 19a:) ...não terminará (de extrair o líquido do alho, das uvas verdes e das espigas depois de escurecer) — palavras de Rabi Akiva. E Rabi Elazar disse: (o tanna que sustenta que tudo o que vem por si mesmo é permitido) é (a opinião de) Rabi Elazar, pois ensinamos (noutra mishná): favos de mel que (a pessoa) espremeu na véspera de Shabat, e (o mel) saiu por si mesmo (já em Shabat) — é proibido; mas Rabi Elazar permite.
O daf retoma exatamente onde 19a foi interrompido: a Mishná sobre alho, uvas verdes e espigas trituradas ainda de dia, com Rabi Yishmael permitindo terminar a extração do líquido depois de escurecer. Agora se completa a citação com a posição discordante de Rabi Akiva, que proíbe — para ele, mesmo um processo iniciado licitamente antes de Shabat não pode ser concluído durante o próprio Shabat, se isso equivaler a uma ação de espremer. Em seguida, a Guemará traz uma segunda resposta à pergunta "quem é o tanna que permite tudo o que vem por si mesmo": Rabi Elazar propõe que a fonte não é Rabi Yishmael, mas sim ele próprio, citando uma mishná distinta (do tratado, sobre um jarro de mel quebrado em Shabat) na qual favos de mel foram espremidos ainda de dia, na véspera, e o mel continuou a escorrer por si mesmo já em Shabat. A opinião anônima da mishná proíbe recolher esse mel (por temer que se pareça com uma nova ação de espremer), mas Rabi Elazar permite, precisamente pelo princípio de que um processo iniciado licitamente antes de Shabat, e que se completa sozinho, não constitui transgressão.
"Não terminará" — é proibido deixá-los ainda de dia sob o peso (que os prensa), para que terminem (de escorrer) depois que escurecer.
"E Rabi Elazar disse" — este é Rabi Elazar ben Padat, que é um amorá.
"É (a opinião de) Rabi Elazar" — este é Rabi Elazar ben Shamua, o "Rabi Elazar" anônimo da Mishná e da baraita.
"Favos de mel" — que se retiram da colmeia, feitos como uma espécie de placas de cera, com o mel em seu interior.
"Que (a pessoa) espremeu" — que os triturou.
"É proibido" — (o mel que escorreu, comê-lo) naquele mesmo Shabat, pois o mel, depois que escorre dos favos, ainda é (considerado) um alimento sólido (e não líquido); por isso não há razão para decretar a respeito dele, temendo que a pessoa venha a espremer depois de escurecer, pois não há entre eles (relação) com (o ato de) espremer.
(Pergunta:) E Rabi Yossei bar Chanina, por que não disse como Rabi Elazar (isto é, por que não identificou a fonte do princípio com o caso dos favos de mel)? (Resposta:) Ele te diria: ali (no caso do mel), é que no início (o favo) é (considerado) alimento sólido, e no final também é alimento sólido (pois o mel continua sendo tratado como sólido mesmo depois de escorrer); aqui (no caso do alho, das uvas verdes e das espigas), no início é alimento sólido, e agora (depois de espremido) é líquido.
A Guemará explica por que Rabi Yossei bar Chanina preferiu identificar a mishná de Rabi Yishmael, e não a de Rabi Elazar, como fonte do princípio geral. A distinção está na natureza da transformação: no caso do mel, o produto começa como um alimento sólido (o favo) e termina também como algo tratado como sólido (o mel que se junta, mesmo líquido em consistência, mantém o estatuto de alimento contínuo, sem uma mudança de categoria que sugira uma "nova" ação de trabalho). Já no caso do alho, das uvas verdes e das espigas, o produto começa como um alimento sólido, mas o resultado do processo — o líquido extraído (azeite, suco de uva verde, ou o caldo das espigas) — passa a ser uma substância de categoria distinta, um "líquido" com estatuto próprio. Essa mudança de categoria é o que torna necessário um princípio explícito para permitir que o processo se complete sozinho em Shabat; no caso do mel, por não haver mudança de categoria, a permissão seria óbvia demais para servir de fonte do princípio geral.
"Aqui" — (no caso de) azeitonas e uvas da Mishná, em que no início (são) alimento sólido e agora (são) líquido, há razão para decretar, temendo que (a pessoa) venha a espremer depois de escurecer, pois isso certamente é (um ato de) espremer.
E Rabi Elazar te diria: já ouvimos dizer de Rabi Elazar que ele permite mesmo (quanto a) azeitonas e uvas. Pois, quando Rav Hoshaya veio de Neharde'a, veio e trouxe consigo uma baraita: azeitonas e uvas que (a pessoa) triturou na véspera de Shabat, e (o líquido) saiu por si mesmo — é proibido; mas Rabi Elazar e Rabi Shimon permitem. E Rabi Yossei bar Chanina não conhecia essa baraita.
A Guemará dá a réplica de Rabi Elazar (ou de quem sustenta sua posição): a distinção proposta acima entre "alimento que continua alimento" e "alimento que se torna líquido" não é necessária, pois existe uma baraita adicional — trazida por Rav Hoshaya de Neharde'a — em que o próprio Rabi Elazar (junto com Rabi Shimon) permite explicitamente que se complete o processo de espremer azeitonas e uvas iniciado na véspera de Shabat, mesmo havendo mudança de categoria de sólido para líquido. Isso mostra que Rabi Elazar sustenta a mesma amplitude de princípio que Rabi Yishmael. A razão de Rabi Yossei bar Chanina não ter mencionado Rabi Elazar como fonte é, portanto, simplesmente que essa baraita específica não havia chegado ao seu conhecimento.
(Pergunta:) E Rabi Elazar, por que não disse como Rabi Yossei bar Chanina (identificando Rabi Yishmael como fonte, e considerando a própria baraita dos favos de mel supérflua)? (Resposta:) Ele te diria: não foi dito a respeito (dessa mesma Mishná do alho, das uvas verdes e das espigas), (que) disse Rava bar Chanina, disse Rabi Yochanan: quanto aos que (só) lhes falta trituração — todos (os sábios) não discordam (de que é permitido terminá-los em Shabat); quando discordam (Rabi Yishmael e Rabi Akiva) é quanto aos que lhes falta moagem (fina). E estes (alho, uvas verdes e espigas da Mishná) também se assemelham aos que lhes falta (apenas) trituração (e não moagem, portanto não são prova do princípio mais amplo). (Concluindo:) Ensinou (erroneamente) Rabi Yossei bar Chanina como (se fosse a opinião de) Rabi Yishmael (quando na verdade não há disputa alguma nesse caso).
Este é o ponto central e mais técnico do daf. Rava bar Chanina, em nome de Rabi Yochanan, estabelece uma distinção fundamental entre dois graus de processamento: alimentos aos quais falta apenas "trituração" (dicá) — um esmagamento grosseiro, após o qual o próprio peso ou a gravidade completa naturalmente a extração do líquido, sem que isso seja considerado um novo ato de trabalho — e alimentos aos quais falta "moagem" (shechicá) fina, equivalente a um verdadeiro ato de espremer, que é uma melachá plena. Quanto ao primeiro grau (falta apenas trituração), ninguém discorda que é permitido deixar o processo terminar sozinho em Shabat. A disputa real entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva refere-se apenas ao segundo grau, mais intenso. Como o alho, as uvas verdes e as espigas trituradas da Mishná citada por Rabi Yossei bar Chanina pertencem à primeira categoria (falta apenas trituração), essa mishná na verdade não prova disputa alguma quanto ao princípio de "tudo o que vem por si mesmo" — Rabi Akiva concordaria que ali é permitido, e sua proibição referir-se-ia a outro aspecto. A conclusão da Guemará é que Rabi Yossei bar Chanina se equivocou ao identificar ali uma disputa fundada nesse princípio.
"Rabi Yossei bar Chanina" — essa baraita, que ensina que Rabi Elazar discorda mesmo quanto a azeitonas e uvas, não a tinha ouvido; e daquela (mishná) dos favos de mel, que é uma mishná no capítulo "O jarro que se quebrou", ele não poderia compará-la à Mishná (do alho), por causa da objeção (de categoria) acima.
"Quanto aos que lhes falta (apenas) trituração, todos não discordam" — (que é permitido, pois embora pareça) que (a pessoa) deveria proibir (já que) é o próprio peso que os completa, e resulta que tudo é (tecnicamente) feito em Shabat (mesmo assim é permitido, por não haver ação humana direta).
"Moagem" — mais (intensa) do que trituração, expressão de "ou (o) moíam no pilão" (Bemidbar 11:8); e meus mestres têm a versão: quando discordam é quanto aos que lhes falta (o ato de) espremer, que já foram bem triturados, e não é o peso que os completa, mas (seria necessário um ato de) espremer; e, segundo quem tem a versão "moagem", o peso os mói; e estes (casos) da Mishná são (daqueles) aos quais falta (apenas) trituração, e o próprio peso é sua trituração, é sua moagem, é o que os espreme (automaticamente) — e nisso Rabi Yishmael concorda que é proibido (quando, em vez disso, se trata de moagem fina).
O óleo dos (trabalhadores) lagareiros, e as esteiras dos lagareiros — Rav proíbe (movê-los em Shabat, por serem mukzê), e Shmuel permite. Estes fardos (duplos, usados para cobrir) mercadorias — Rav proíbe, e Shmuel permite.
A Guemará retoma, por associação temática com o lagar de azeite mencionado ao final de 19a, uma série de disputas entre Rav e Shmuel sobre mukzê (objetos ou substâncias que, por sua função ou pela intenção da pessoa quanto a eles, ficam "reservados" e proibidos de mover em Shabat). O óleo que sobra nos cantos do lagar, destinado a ser usado pelos próprios trabalhadores lagareiros, e as esteiras usadas para cobrir as azeitonas durante a prensagem, são objetos cuja utilidade imediata em Shabat é questionável — Rav proíbe movê-los, seguindo a opinião de que há mukzê; Shmuel permite, seguindo a opinião de que não há mukzê. O mesmo vale para os fardos duplos de tecido usados para cobrir mercadorias transportadas em navios.
"Óleo dos lagareiros" — visto que (a Guemará) estava tratando do lagar de azeite, menciona (também) o óleo que resta nos cantos do lagar sob a prensagem, que é dado aos lagareiros (como parte de seu pagamento); e do mesmo modo as esteiras dos lagareiros, com as quais se cobrem as azeitonas.
"Rav proíbe" — de os movimentar, por causa de mukzê, pois Rav opina como Rabi Yehudá quanto a mukzê, e Shmuel opina como Rabi Shimon, que não tem (a categoria de) mukzê; e assim dissemos (no capítulo) "Aquele a quem escureceu (no caminho)".
"Fardos (duplos) de mercadoria" — um par de esteiras com que se cobre a mercadoria de um navio; e (o termo) "zuzê" é expressão de par, pois são duas e feitas como uma tenda; e nas Responsa dos Gueonim encontrei "carchê de-zivê", explicado como termo para "navio" em língua aramaica.
Disse Rav Nachman: a cabra (reservada) para seu leite, e a ovelha para sua lã, e a galinha para seu ovo, e os bois de arado, e as tâmaras de comércio — Rav proíbe (matar ou usar esses animais e frutos para outro fim em Shabat ou Yom Tov, por serem mukzê), e Shmuel disse: é permitido. E discordam (nisso) segundo a disputa de Rabi Yehudá e Rabi Shimon.
Rav Nachman generaliza o mesmo padrão de disputa entre Rav e Shmuel a uma nova categoria de mukzê: animais ou frutos que a pessoa designou, desde antes de Shabat ou Yom Tov, para uma função contínua específica — a cabra para fornecer leite, a ovelha para fornecer lã, a galinha para pôr ovos, os bois usados para arar, e as tâmaras destinadas ao comércio. Como esses itens não foram "preparados" mentalmente para consumo ou uso imediato (por exemplo, abater a cabra para comer sua carne), Rav os considera mukzê, proibindo movê-los ou usá-los para outra finalidade em Shabat; Shmuel permite, coerente com sua posição geral de que não há categoria de mukzê. A Guemará identifica essa disputa de Rav e Shmuel como refletindo a disputa mais ampla, já estabelecida na Mishná, entre Rabi Yehudá (que sustenta a existência de mukzê) e Rabi Shimon (que a rejeita, salvo casos extremos).
"A cabra" — a que está destinada ao seu leite.
"E assim a ovelha" — a que está destinada à sua lã.
"E o boi de arado" — o que está destinado à lavoura.
"E as tâmaras de comércio" — as que estão destinadas a serem levadas para negócio noutro lugar.
"A disputa de Rabi Yehudá, etc." — pois, segundo Rabi Yehudá, que sustenta (a existência) de mukzê, (ensinado) no último capítulo (deste tratado), é proibido abatê-los em Yom Tov, a não ser que (a pessoa) os tenha designado (para esse fim) ainda de dia; e, segundo Rabi Shimon, são permitidos.
Certo aluno decidiu (uma questão de mukzê) em Charta de-Argiz (seguindo a opinião) como Rabi Shimon; Rav Hamnuna o excomungou. (Pergunta:) Mas não sustentamos (a halachá) como Rabi Shimon (nesta matéria)? (Resposta:) No território de Rav ele estava; não lhe convinha agir assim (contrariando publicamente a prática local, que seguia Rav).
Um breve episódio ilustra a seriedade prática da disputa recém-descrita. Um aluno, em Charta de-Argiz — território sob a influência de Rav —, emitiu uma decisão halachica pública seguindo a opinião mais permissiva de Rabi Shimon quanto a mukzê. Rav Hamnuna o excomungou por essa decisão. A Guemará questiona a justiça da punição, já que a halachá geralmente segue Rabi Shimon nessas matérias; a resposta é que o problema não era o conteúdo da decisão em si, mas o fato de tê-la proferido publicamente na própria região onde Rav (que sustentava a opinião oposta) tinha autoridade e influência — um ato de desrespeito à prática comunitária estabelecida localmente, e não um erro de halachá.
Estes dois alunos: um salvava (comida de um incêndio, em Shabat) num só utensílio, e outro salvava em quatro e cinco utensílios; e discordavam (entre si) segundo a disputa de Rabá bar Zavda e Rav Huna.
A Guemará relata, encerrando esta série de episódios, o caso de dois alunos que, diante de um incêndio em Shabat, adotaram práticas diferentes ao salvar alimentos das chamas: um transportava a comida reunida num único utensílio por vez (mesmo que contivesse fartura, como cem porções), enquanto o outro preferia dobrar e carregar quatro ou cinco utensílios de uma só vez, todos dentro de um recipiente maior. A Guemará remete essa diferença de prática à disputa entre Rabá bar Zavda e Rav Huna, tratada no capítulo "Todos os escritos sagrados", sobre os limites permitidos ao salvar bens de um incêndio em Shabat.
"Charta" — nome de um lugar.
"De-Argiz" — (Argiz) era um homem, um mago, que edificou aquela cidade; e Rav Hamnuna morava nela, e ainda hoje sua caverna de sepultamento existe ali — assim encontrei numa (coleção de) responsa.
"Mas não sustentamos como Rabi Shimon" — mesmo agora, como (será dito) adiante; e por que (Rav Hamnuna) o excomungou?
"Um salva" — comidas e bebidas de diante de um incêndio, muito, para o pátio (unido por) eruv.
"Num só utensílio" — como ensinamos: salva-se um cesto cheio de pães, ainda que haja nele (o suficiente para) cem refeições.
"E um salva em quatro e cinco utensílios" — mas dobra todos eles dentro de um utensílio grande, e os carrega de uma só vez.
"E discordam, etc." — no capítulo "Todos os escritos sagrados".
Não se assa carne, cebola e ovo, a não ser que haja tempo de assarem-se ainda de dia. Não se põe pão no forno perto do anoitecer, nem (se põe) um bolo (chato) sobre as brasas, a não ser que haja tempo de sua superfície crestar ainda de dia. Rabi Eliezer diz: (basta que) haja tempo de crestar sua (parte) inferior. Desce-se o sacrifício pascal ao forno perto do anoitecer. E acende-se o fogo na fogueira do Bet HaMokêd.
O daf fecha com a Mishná que inaugura a próxima unidade temática do capítulo, cuja Guemará a Bavli desenvolve a partir de 20a. A regra geral: não se pode começar a assar carne, cebola ou ovo perto do anoitecer de sexta-feira, a menos que reste tempo suficiente, ainda de dia, para que o alimento chegue a um ponto mínimo de cozimento antes de escurecer — do contrário, haveria o risco de a pessoa, vendo que o alimento não está pronto, atiçar as brasas já em Shabat. A mesma lógica se aplica ao pão colocado no forno, ou a um bolo chato colocado diretamente sobre as brasas: é necessário que sua superfície já tenha "crestado" (formado uma crosta firme) enquanto ainda é dia. Rabi Eliezer é mais brando quanto ao bolo sobre as brasas, exigindo apenas que a face inferior, em contato direto com o fogo, tenha crestado. A Mishná acrescenta duas exceções notáveis, ligadas a contextos rituais especiais: é permitido descer o sacrifício pascal ao forno mesmo perto do anoitecer (por ser uma mitzvá com hora fixa, no fim da tarde de 14 de Nissan), e é permitido acender o fogo na grande fogueira do Bet HaMokêd, a câmara do Templo onde os sacerdotes se aqueciam, mesmo perto do anoitecer — casos em que a urgência ritual ou a natureza contínua do fogo afastam o receio de que se venha a atiçar as brasas já em Shabat.
Mishná. "Bolo (chato)" — (como) "um bolo cozido sobre pedras (quentes)" (Melachim I 19:6); em língua estrangeira, fogaça.
"Crestem" — como "crosta"; em língua estrangeira, crosta.
"A (parte) inferior" — (será) explicado na Guemará.
"Desce-se o sacrifício pascal, etc." — e ele continua assando-se depois que escurece; e, ainda que em geral não se asse (perto do anoitecer), como dissemos, aqui é permitido, pois os membros do grupo (que participam da refeição pascal) são diligentes, e se lembram uns aos outros, e não vêm a atiçar as brasas.
"E acende-se o fogo" — pouco a pouco, na lenha da fogueira do Bet HaMokêd, que ficava no pátio (do Templo), e ela continua ardendo depois que escurece; e não receamos que os sacerdotes venham a precisar acendê-la (mais) depois de escurecer, como se explicará na Guemará.
"Bet HaMokêd" — é uma grande câmara onde os sacerdotes se aquecem junto a uma fogueira sempre acesa, porque caminham descalços sobre o piso de mármore do pátio (do Templo), como dizemos (no tratado) Zevachim, (no) segundo capítulo: já que o piso é santificado, pois está escrito "naquele dia o rei santificou o interior do pátio" (Melachim I 8:64), e os utensílios do serviço são santificados, pois está escrito "e os ungiu, e os santificou" (Vayikrá 8:11) — assim como, quanto ao utensílio do serviço, nada deve interpor-se entre ele e o utensílio, também quanto ao piso nada deve interpor-se entre ele e o piso (daí a exigência de andar descalço).