Talmud Yerushalmi · Massechet Orlá · Perek Guimel · Halachá 3
עָרְלָה

O cozido e o pão feitos com fogo de orlá

Perek Guimel, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Orlá

Terceira halachá do Perek Guimel de Massechet Orlá: a Mishná ensina que um cozido que alguém cozinhou usando cascas de orlá como combustível deve ser queimado e, se se misturou com outros, se anula em um e duzentos; e que o pão assado num forno aquecido com cascas de orlá deve ser queimado e, se se misturou com outros pães, se anula em um e duzentos. A guemará traz a regra, em nome de Shmuel e de Rabi Yochanan, de que os produtos de orlá que se apagaram são permitidos, e a confronta com o ensinamento sobre o forno novo, que deve ser demolido, e o velho, que deve ser esfriado; discute se as pedras atingidas pela praga, transformadas em cal, saem da sua impureza e se continuam proibidas para benefício; e conclui com a regra de que a cinza de tudo o que se queima é permitida, exceto a que vem da idolatria, e com a objeção da cinza da casa atingida pela praga.

A Mishná · מַתְנִיתִין

תַּבְשִׁיל שֶּׁבִּישְּׁלוֹ בִקְלִיפֵּי עָרְלָה יִדָּלֵק. נִתְעָרֵב בַּאֲחֵרִים יַעֲלֶה בְאֶחַד וּמָאתַיִם. תַּנּוּר שֶׁהִסִּיקוֹ בִקְלִיפֵּי עָרְלָה וְאָפָה בוֹ אֶת הַפַּת תִּידָּלֵק הַפַּת. נִתְעָרְבָה בַּאֲחֵרוֹת תַּעֲלֶה בְאֶחַד וּמָאתַיִם.

Mishná: Um cozido que alguém cozinhou com cascas de orlá (os frutos dos três primeiros anos da árvore, proibidos inclusive para benefício), usadas como lenha: o cozido deve ser queimado. Se se misturou com outros cozidos, ele se anula em um e duzentos, e a mistura é permitida. Um forno que alguém aqueceu com cascas de orlá e no qual assou o pão: o pão deve ser queimado. Se o pão se misturou com outros pães, ele se anula em um e duzentos.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01As brasas de orlá que se apagaram
Yerushalmi · Orlá 3:3
אַבָּא בַר יִרְמְיָה כַּהֲנָא בַּר יִרְמְיָה בְשֵׁם שְׁמוּאֵל רִבִּי בָּא רִבִּי חִיָיה בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. גִּידּוּלֵי עָרְלָה שֶׁעִימְמוּ הֲרֵי אֵילּוּ מוּתָּרוֹת. וְלָאו מַתְנִיתָא הִיא. אִם חָדָשׁ יוּתָּץ. אִם יָשָׁן יוּצָּן. רִבִּי חֲנַנְיָא אָמַר לֵית כָּן. רִבִּי מָנָא אָמַר אִית כָּן. בְּשֶׁהֵבִיא עֵצִים לַחִים וְנִיגְבוּ בִקְלִיפֵּי עָרְלָה.

Halachá: Abba bar Yirmeyá e Kahana bar Yirmeyá disseram em nome de Shmuel, e Rabi Ba e Rabi Chiyá disseram em nome de Rabi Yochanan: os produtos de orlá que se apagaram, isto é, a lenha de orlá que já virou brasa a se extinguir e é considerada consumida, são permitidos. E não é isto uma baraita (um ensinamento tanaítico de fora da Mishná)? Pois se ensina sobre o forno aquecido com cascas de orlá: “Se é novo, seja demolido; se é velho, seja esfriado.” Rabi Chananiá disse: não há aqui nada que sirva de prova. Rabi Maná disse: há aqui algo: trata-se do caso em que alguém trouxe lenha úmida e ela foi secada com o fogo de cascas de orlá, e então o benefício da orlá permanece na lenha.

02A cal das pedras atingidas e a cinza proibida
Yerushalmi · Orlá 3:3
אֲבָנִים מְנוּגָּעוֹת שֶׁעֲשָׂאָן סִיד. אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי עָלוּ מִטּוּמְאָתָן. וְאִית תַּנָּיֵי תַנֵּי לֹא עָלוּ מִידֵי טוּמְאָתָן. מָאן דְּאָמַר עָלוּ מִידֵי טוּמְאָתָן. הֲרֵי אֵילּוּ מוּתָּרוֹת. וּמָאן דְּאָמַר לֹא עָלוּ מִידֵי טוּמְאָתָן. הֲרֵי אֵילּוּ אֲסוּרוֹת. אֲפִילוּ כְּמָאן דְּאָמַר עָלוּ מִידֵי טוּמְאָתָן. הֲרֵי אֵילּוּ אֲסוּרוֹת. דִּכְתִיב צָרַעַת מַמְאֶרֶת. תֵּן בּוֹ מְאֵירָה וְאַל תֵיהֱנֶה מִמֶּנּוּ. רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. כָּל הַנִּשְׂרָפִין אֲפָרָן מוּתָּר חוּץ מֵאֵפֶר הַבָּא מַחְמַת עֲבוֹדָה זָרָה. הָתִיב רִבִּי חִיָיה בַר יוֹסֵף קוֹמֵי רִבִּי יוֹחָנָן. הֲרֵי אֵפֶר הַבַּיִת הֲרֵי אֵינוֹ בָא מַחְמַת עֲבוֹדָה זָרָה. וְאַתְּ אָמַר אָסוּר. אָמַר לֵיהּ שַׁנְיָיה הִיא. דִּכְתִיב נְתִיצָּה נְתִיצָּה.

Pedras atingidas pela praga de uma casa com tsaraat (a afecção que a Torá descreve nas casas), que alguém transformou em cal: há tanaim (os sábios da época da Mishná) que ensinam que elas saíram da sua impureza, pois já não são pedras; e há tanaim que ensinam que não saíram da sua impureza. Será que, segundo quem diz que saíram da sua impureza, elas são permitidas para benefício, e, segundo quem diz que não saíram da sua impureza, elas são proibidas? Não: mesmo segundo quem diz que saíram da sua impureza, elas são proibidas, pois está escrito: “é uma tsaraat maligna” (Vayikrá 14:44), e a palavra mam’eret (maligna) se liga a me’erá (maldição), ou seja: põe nela uma maldição e não tires proveito dela. Rabi Abahu disse em nome de Rabi Yochanan: todas as coisas proibidas que se queimam, a sua cinza é permitida, exceto a cinza que vem por causa de avodá zará (a idolatria). Rabi Chiyá bar Yossef objetou diante de Rabi Yochanan: eis a cinza da casa atingida pela praga; eis que ela não vem por causa de avodá zará, e tu dizes que é proibida! Disse-lhe: é diferente, pois está escrito “derrubar” numa e “derrubar” na outra (Vayikrá 14:45; Devarim 12:3), isto é, a mesma expressão aparece na casa atingida pela praga e nos altares da idolatria, e assim como a cinza destes é proibida, também a daquela.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Guimel de Massechet Orlá: a Mishná ensina que um cozido cozinhado com cascas de orlá usadas como combustível, e o pão assado num forno aquecido com cascas de orlá, devem ser queimados, mas, se se misturaram com outros, se anulam em um e duzentos. Corresponde às Mishnayot Orlá 3:4 e 3:5 da Mishná avulsa.

A guemará traz a regra, transmitida por Abba bar Yirmeyá e Kahana bar Yirmeyá em nome de Shmuel, e por Rabi Ba e Rabi Chiyá em nome de Rabi Yochanan, de que os produtos de orlá que se apagaram são permitidos; cita o ensinamento sobre o forno novo, que deve ser demolido, e o velho, que deve ser esfriado; traz a divergência entre Rabi Chananiá e Rabi Maná; discute a cal feita das pedras atingidas pela praga; e termina com a regra de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan sobre a cinza das coisas que se queimam, com a objeção de Rabi Chiyá bar Yossef.

Algumas observações de leitura. Segundo Guggenheimer, a Mishná vale aqui até para Rabi Meir, pois o que o fogo acrescenta ao cozido é insignificante. Na seção 01, o hebraico diz Rabi Ba, e seguimos o hebraico; Guggenheimer lê Rabi Abba. Segundo ele, os produtos de orlá que se apagaram são a lenha de orlá já reduzida a brasa, considerada consumida, e a pergunta “não é isto uma baraita?” se refere à Tosefta de Orlá, que traz, de forma completa, o caso do forno aquecido com cascas de orlá e acrescenta que quem assou ou cozinhou com brasas pode usar o alimento, e que a cinza de todas as coisas proibidas é permitida, exceto a da árvore idolátrica, enquanto a cinza das roupas atingidas pela praga e o pó da casa atingida pela praga são proibidos. Na seção 02, a cinza da casa é, segundo Guggenheimer, a cal produzida ao queimar as pedras; e a expressão “derrubar, derrubar” liga o verbo usado na casa atingida pela praga (Vayikrá 14:45) ao usado nos altares da idolatria (Devarim 12:3), cuja cinza é proibida.