Nona e última halachá do Perek Bet de Massechet Orlá: a Mishná ensina que um pedaço de kodshei kodashim, de pigul e de notar que se cozinharam com pedaços comuns torna o conjunto proibido aos não-sacerdotes e permitido aos sacerdotes, e Rabi Shimon o permite a todos; e que carne de kodshei kodashim e de kodashim kalim cozida com carne comum é proibida aos impuros e permitida aos puros. A guemará traz a baraita que menciona kodashim kalim; Rabi Yoná e Rabi Yossi discutem se, antes da aspersão do sangue, se é açoitado por causa de zarut, e Rabi Avin traz a baraita que apoia Rabi Yossi; por fim, Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan divergem sobre a segunda parte da Mishná, e a baraita de Bar Kapara apoia Rabi Shimon ben Lakish.
Mishná: Um pedaço de kodshei kodashim (sacrifícios de santidade máxima), e um de pigul (sacrifício invalidado por intenção imprópria), e um de notar (carne de sacrifício que sobrou além do prazo), que se cozinharam com pedaços comuns, nenhum deles bastando sozinho para lhes dar sabor, mas que juntos o deram: o conjunto é proibido aos não-sacerdotes e permitido aos sacerdotes, pois para eles os kodshei kodashim são permitidos, e o pigul e o notar sozinhos não bastariam para proibi-lo. Rabi Shimon o permite aos não-sacerdotes e aos sacerdotes, pois proibições de nomes diferentes não se combinam. Carne de kodshei kodashim e carne de kodashim kalim (sacrifícios de santidade menor) que se cozinharam com bessar hataavá (carne comum, não consagrada, comida por desejo): o conjunto é proibido aos impuros e permitido aos puros.
Halachá: Ensina-se numa baraita: “De pigul, e de notar, e de kodashim kalim”, em lugar de “kodshei kodashim”, como está na Mishná.
Rabi Yoná disse: a baraita não disse senão kodashim kalim. Mas o pigul e o notar, depois da aspersão do sangue, não são como antes da aspersão? A Mishná não mencionou senão o pigul e o notar, coisa que a aspersão não permite, junto com kodshei kodashim; daí que, com kodashim kalim, uma vez que eles são permitidos depois da aspersão, mesmo antes da aspersão não se é açoitado por eles por causa de zarut (a proibição imposta ao estranho). Rabi Yossi disse: não disseram senão kodashim kalim. Mas o pigul e o notar, depois da aspersão, não são como antes da aspersão? Para que coisa se disse na Mishná pigul e notar? Para excluir kodashim kalim depois da aspersão, quando já são permitidos. Daí que, antes da aspersão, uma vez que eles são proibidos, no caso de kodashim kalim, é-se açoitado por eles por causa de zarut. Rabi Avin disse: a linguagem da baraita apoia Rabi Yossi: “‘Teus donativos’ (Devarim 12:17): estes são a todá (oferenda de agradecimento) e os shelamim (oferendas de paz), que, se alguém comeu deles antes da aspersão do sangue, é açoitado.”
Rabi Shimon ben Lakish disse: a Mishná dos impuros e dos puros é conforme a divergência entre Rabi Shimon e os sábios. Rabi Yochanan disse: são palavras de todos. E é difícil a opinião de Rabi Shimon ben Lakish: não costumamos dizer que, para todos, as expressões de terumá se combinam? E aqui, que se combinem todas, a expressão de tumá (impureza) e a expressão de zarut! Rabi Shimon ben Lakish pensa como esta baraita, pois Bar Kapara ensinou: “Um pedaço de kodesh (carne consagrada), e de pigul, e de notar que se cozinharam com os pedaços comuns: Rabi Shimon o permite, e os sábios o proíbem.”
Esta é a nona e última halachá do Perek Bet de Massechet Orlá: a Mishná ensina que um pedaço de kodshei kodashim, de pigul e de notar que se cozinharam com pedaços comuns torna o conjunto proibido aos não-sacerdotes e permitido aos sacerdotes, e Rabi Shimon o permite a todos; e que carne de kodshei kodashim e de kodashim kalim cozida com carne comum é proibida aos impuros e permitida aos puros. Corresponde às Mishnayot Orlá 2:16 e 2:17 da Mishná avulsa.
A guemará traz uma baraita que, em lugar de kodshei kodashim, menciona kodashim kalim, e discute se essa versão se sustenta: Rabi Yoná conclui que, com kodashim kalim, não se é açoitado por causa de zarut nem mesmo antes da aspersão do sangue, e Rabi Yossi conclui que antes da aspersão se é açoitado, no que é apoiado, segundo Rabi Avin, pela baraita sobre o versículo “teus donativos”. Em seguida, Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan divergem sobre se a Mishná dos impuros e dos puros vale também para Rabi Shimon, e a opinião de Rabi Shimon ben Lakish é apoiada pela baraita de Bar Kapara.
Algumas observações de leitura. Na Mishná, a tradução inglesa de Guggenheimer que acompanha o texto corresponde em parte a outra Mishná, e por isso traduzimos diretamente do hebraico. Na seção 02, as palavras de Rabi Yoná e as de Rabi Yossi começam com a mesma frase, “não disse senão kodashim kalim”; Guggenheimer lê a primeira como rejeição da versão da baraita e a segunda como pergunta retórica, ao passo que aqui as duas foram traduzidas literalmente; ali, o nome que o hebraico grafa Rabi Avin aparece em Guggenheimer como Rabi Avun. Na seção 03, Guggenheimer entende, seguindo os comentaristas, que a divergência entre Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan diz respeito à segunda parte da Mishná, a dos impuros e dos puros; a baraita de Bar Kapara diz, no hebraico, “um pedaço”, no singular.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Bet de Massechet Orlá.