Sexta e última halachá do Perek Dalet de Massechet Maaser Sheni: a Mishná ensina que toda moeda achada é presumida profana, mesmo denários de ouro junto com prata e trocado, a não ser que se ache entre elas um caco com a palavra "dízimo" escrita; que quem acha um utensílio inscrito "sacrifício" segue a disputa entre Rabi Yehudá e os sábios, conforme o material do utensílio; que letras isoladas (Kuf, Mem, Dálet, Tet, Tav) sobre um utensílio indicam sacrifício, dízimo, demai, tevel ou terumá — mas Rabi Yosei discorda, dizendo que são apenas nomes de pessoas; e que quem indica a seu filho o canto onde está o segundo dízimo, se o filho o acha em outro canto, é profano, com as regras de quantidade que definem o que se presume dízimo e o que se presume acréscimo profano.
A guemará abre explicando cada cláusula da Mishná — por que era necessário dizer "profano" no caso do canto, a baraita do acróstico completo de letras para terumá, o caso real do barril de vinho de Rabi Yoná e Rabi Yosei, e a disputa sobre pombinhos trocados, com a posição de Rabi (Yehudá HaNassi) aplicada também ao segundo dízimo por Rabi Aba bar Zavda. A partir daí, a sugiá se abre para o tema dos sonhos: o caso de quem estava aflito pelo dinheiro do pai e o viu em sonho, e a longa série de relatos sobre intérpretes de sonhos — Rabi Yosei ben Chalafta, Rabi Yishmael beRabi Yosei, um samaritano que tentou zombar de um sábio, Rabi Eliezer, Rabi Yochanan e Rabi Akiva — fechando com o princípio de que "o sonho segue sua interpretação".
Mishná: Todas as moedas achadas são profanas, mesmo denários de ouro junto com prata e com trocado (salvo indicação em contrário, presume-se que qualquer moeda achada é dinheiro comum, não dinheiro de segundo dízimo). Se achou entre elas um caco de barro em que está escrito "dízimo", eis que é dízimo. Quem acha um utensílio escrito "sacrifício" — Rabi Yehudá diz: se era de barro, ele mesmo é profano e o que está dentro dele é sacrifício (pois um utensílio de barro é barato demais para ter sido consagrado); e se era de metal, ele mesmo é sacrifício e o que está dentro dele é profano (pois um utensílio de metal é valioso o bastante para ter sido consagrado, e não se guarda coisa profana dentro de um utensílio sagrado). Disseram-lhe (os sábios): não é costume das pessoas guardar coisa profana dentro de utensílio de sacrifício (portanto, mesmo o de metal, se tiver conteúdo, este também é sacrifício).
Quem acha um utensílio com a letra Kuf escrita nele — é sacrifício; Mem — dízimo; Dálet — demai; Tet — tevel; Tav — terumá, pois em tempo de perseguição escreviam Tav no lugar de terumá (para disfarçar a palavra completa). Rabi Yosei diz: e todas essas letras são iniciais de nomes de pessoas (não abreviações de status, e portanto o conteúdo é sempre profano). Disse Rabi Yosei: mesmo que se ache um jarro cheio de produto com a palavra "terumá" escrita nele, eis que é profano, pois eu digo: no ano passado estava cheio de produto de terumá, e ele o esvaziou e reencheu com produto profano, sem apagar a inscrição.
Quem diz a seu filho: "o segundo dízimo que está neste canto (vai buscá-lo)" — e o filho o acha em outro canto, eis que é profano (pois se presume que o dízimo verdadeiro foi retirado, e o que se achou é outra coisa). Havia ali (segundo o pai) um mane (cem denários) e o filho achou duzentos, o excedente é profano (pois cem podem ter crescido para duzentos apenas com a adição de dinheiro profano, nunca dízimo virando dízimo em dobro); havia duzentos e achou um mane, tudo é dízimo (pois presume-se que cem dos duzentos foram retirados, e o mane restante é ainda dízimo).
Halachá: Para que não digas: já que não é costume das pessoas trocar o segundo dízimo de lugar, que o que se achou em outro canto continue sendo dízimo como o pai indicou — por isso foi necessário que a Mishná dissesse: é profano.
Foi ensinado numa baraita: Álef, Dálet, Chet, Tet, Reish, Mem, Tav — todas podem marcar terumá. Álef por "primícia" (reshit, associada à terumá). Dálet por "demai". Chet por "seu gordo" (chelbo, expressão bíblica para terumá). Tet por "seu melhor" (tuvo). Reish por "primeira" (reshit). Mem por "dízimo". Tav por "terumá". Bet-Shin por "segundo dízimo"; Pe-Shin por "segundo dízimo" (iniciais de "resgate do segundo"). Yud-Mem por "dízimo" (iniciais numéricas de um em dez). "Dízimo para a cidade" (Jerusalém), "resgate". Ou ainda marcados em nome de Yosei, em nome de Shimon, indicando que foram separados para subir e comê-los em Jerusalém — nesses casos são profanos, pois eu digo: essas inscrições são apenas as contribuições que fizeram entre si (nomes de sócios de uma caravana de peregrinos, não marcas de santidade).
Até aqui, falamos de vasilhas novas (cuja inscrição vale como está). Quanto às velhas (cuja inscrição pode ser antiga), eu digo: no ano passado estava cheia de terumá, e ele a esvaziou — como este caso: Rabi Yoná e Rabi Yosei eram sócios num porão de barris de vinho. Quando Rabi Yoná morreu, disse Rabi Maná (filho de Rabi Yoná) a Rabi Yosei: todo barril em que está escrito "Rabi Yoná" é meu. Disse-lhe: no ano passado era teu (a inscrição refletia a partilha daquele ano); este ano é meu (a partilha pode ter mudado, e a inscrição do barril não prova mais nada). Mas se achou na tampa dele escrito "dízimo", eis que é dízimo (pois a tampa é trocada com facilidade a cada uso, e não se reaproveitaria uma que dissesse "dízimo" para guardar outra coisa).
E se foram trocados (o dinheiro do dízimo com dinheiro profano, sem que ninguém tenha esvaziado nada — de onde vem a presunção da Mishná)? Ensinamos ali (na Mishná de Beitzá, sobre pombinhos separados de véspera para a festa): quem separou pombinhos pretos e achou brancos, brancos e achou pretos, dois e achou três — são proibidos (pois não são os mesmos que foram separados); três e achou dois — são permitidos (pois o terceiro pode ter voado, e os dois restantes são os mesmos separados). Disse Rabi Yaakov bar Acha em nome de Rabi Assi: isto é opinião de Rabi (Yehudá HaNassi), pois foi ensinado: "duzentos denários guardados e achou um mane (cem), o mane encontrado é tomado como dízimo" — palavras de Rabi; e os sábios dizem: é profano. Rabi Yaakov bar Acha voltou e disse: é palavra de todos (não há disputa quanto aos pombinhos), pois diferente é o caso dos pombinhos, que costumam voar (daí a permissão quando falta um). Mas não ensinou Rabi Chalafta ben Shaul: o mesmo se aplica a pombinhos e a ovos (que não voam, e mesmo assim há a mesma permissão)? Logo, também aqui é opinião de Rabi (e há disputa real com os sábios). Ali (no caso dos pombinhos), foi ele mesmo que separou, ele mesmo que achou; mas aqui (no caso do dízimo do pai), o pai separou — acaso foi o pai que achou (o filho não tem a mesma certeza de identificação que o próprio dono teria)? Disse Rabi Bun bar Cohen diante de Rabi Yossá, em nome de Rabi Acha: ensinou Rabi Aba bar Zavda sobre segundo dízimo conforme este ensino de Rabi.
Eis o caso de alguém que estava aflito por causa do dinheiro de segundo dízimo de seu pai (não sabia onde estava). Apareceu-lhe em sonho: "são tanto e tanto, e estão em tal lugar." Veio o caso diante dos rabinos; disseram: palavras de sonhos não fazem a halachá subir nem descer (não têm valor legal). Perguntou Rabi Yoná: ele estava aflito e viu a solução em sonho, e tu dizes assim que não vale? Disse Rabi Yosei: não é razoável dizer que a regra de que sonhos não valem se aplica só a quem não está aflito e vê; mas aqui, tanto quanto uma pessoa normalmente sonha, também ele sonhou (a aflição não muda a natureza do sonho, que continua sem valor legal). Disse Rabi Avin: quem quiser agir bem, que aja conforme Rabi Yosei.
Um homem veio a Rabi Yosei ben Chalafta. Disse-lhe: vi em meu sonho que me foi dito: "vai à Capadócia e encontrarás os bens de teu pai." Perguntou-lhe: teu pai alguma vez foi à Capadócia? Disse-lhe: não. Disse-lhe: vai, conta vinte vigas dentro de tua casa, e encontrarás os bens de teu pai (o sonho é um trocadilho grego: "kapa" — a letra que vale vinte — mais "dokia" — vigas — soam como "Capadócia").
Um homem veio a Rabi Yosei bar Chalafta. Disse-lhe: vi em meu sonho que estava vestindo uma coroa de oliveira. Disse-lhe: te elevarás à grandeza. Depois de alguns dias veio outro homem, disse-lhe: vi em meu sonho que estava vestindo uma coroa de oliveira. Disse-lhe: serás açoitado. Disse-lhe: àquele homem disseste que se elevaria, e a mim dizes que serei açoitado? Disse-lhe: aquele estava na estação do florescimento da oliveira, e tu, na estação da colheita (quando os galhos são batidos para derrubar as azeitonas).
Um homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que regava uma oliveira com azeite. Disse-lhe: que o espírito daquele homem se esvaia — com sua própria mãe ele se deitou.
Outro homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que meu olho beijava seu companheiro. Disse-lhe: que o espírito daquele homem se esvaia — com sua própria irmã ele se deitou.
Outro homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que tinha três olhos. Disse-lhe: tu fazes fornos — teus dois olhos, e o "olho" (a boca) do forno.
Outro homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que tinha quatro orelhas. Disse-lhe: tu enches jarros — tuas duas orelhas, e as duas "orelhas" (alças) do jarro.
Outro homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que as pessoas fugiam da minha frente. Disse-lhe: tu carregas espinhos, e todo o povo foge da tua frente.
Outro homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que estava vestindo um caderno de doze tábuas. Disse-lhe: o pórtico daquele homem tem doze remendos.
Outro homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que engoli uma estrela. Disse-lhe: que o espírito daquele homem se esvaia — um judeu ele matou, como está escrito: "uma estrela avançou de Jacó" (Números 24:17).
Outro homem veio diante de Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que a vinha daquele homem produzia alface amarga. Disse-lhe: o vinho daquele homem sairá doce, e tu tomarás a alface amarga e a mergulharás nele (nos copos, à mesa).
Um homem veio a Rabi Yishmael beRabi Yosei, disse-lhe: vi em meu sonho que me foi dito assim: "estende teus dedos, desce." Disse-lhe: dá-me meu pagamento e eu te direi. Disse-lhe: vi em meu sonho que me foi dito assim: "sopra com tua boca." Disse-lhe: dá-me meu pagamento e eu te direi. Disse-lhe: vi em meu sonho assim: "levanta teus dedos." Disse-lhe: não te disse: dá-me meu pagamento e eu te direi? Agora que já pagaste, explico: quando te foi dito "desce", a chuva gotejou em teu trigo; quando te foi dito "levanta e sopra", os grãos incharam; quando te foi dito "levanta teus dedos", brotaram (o sonho, repetido três vezes na mesma noite, acompanhava passo a passo o amadurecimento da colheita do sonhador).
Um samaritano disse: irei zombar deste ancião dos judeus (propondo um "sonho" inventado, impossível de ter significado). Foi até ele, disse-lhe: vi em meu sonho quatro cedros, quatro sicômoros, um suporte, o couro de uma vaca, e aquele homem sentado, pisando nele. Disse-lhe: que o espírito daquele homem se esvaia — isto não é sonho algum! Mesmo assim, não sairás de mãos vazias. Os quatro cedros são as quatro travessas da cama; os quatro sicômoros, as quatro pernas da cama; o suporte com o couro, a base para a palha (o colchão); e as fileiras do couro, os dedos dos pés. E aquele homem sentado, pisando nele: aquele homem está deitado sobre eles — não pode viver nem morrer (descreve um doente terminal, imóvel na cama). E assim aconteceu com ele (o samaritano).
Uma mulher veio a Rabi Eliezer. Disse-lhe: vi em meu sonho a coluna da casa quebrando-se. Disse-lhe: darás à luz um filho homem. Ela foi e deu à luz um homem. Depois de alguns dias, ela foi novamente procurá-lo. Disseram-lhe seus discípulos: ele não está aqui. Disseram-lhe: o que queres dele? Disse-lhes: esta mulher (eu) viu em seu sonho a coluna da casa quebrando-se. Disseram-lhe os discípulos, sem saber que já havia se cumprido: darás à luz um filho homem, e o marido daquela mulher morrerá. Quando Rabi Eliezer voltou, contaram-lhe o ocorrido. Disse-lhes: matastes uma pessoa! Pois o sonho não segue senão sua interpretação, como está dito: "e aconteceu que, assim como ele nos interpretou, assim foi" (Gênesis 41:13).
Disse Rabi Yochanan: todos os sonhos seguem sua interpretação, exceto o sonho do vinho. Há quem sonha que bebe vinho e é bom para ele; há quem sonha que bebe vinho e é mau para ele — o sábio (talmid chacham) que sonha que bebe, é bom para ele; o homem simples (am haaretz) que sonha que bebe, é mau para ele (pois o mesmo sonho não tem interpretação fixa — depende de quem sonha).
Um homem veio a Rabi Akiva, disse-lhe: vi em meu sonho minha perna encolhida. Disse-lhe: a festa (de peregrinação) está chegando, e não comerás carne vermelha (de sacrifício). Veio outro a ele, disse: vi em meu sonho minha perna inchada. Disse-lhe: a festa está chegando, e terás muita carne vermelha. Um discípulo de Rabi Akiva estava sentado com o rosto transtornado. Disse-lhe: o que é isso? Disse-lhe: vi em meu sonho três coisas duras: em Adar morrerás, e Nissan não verás, e o que semeares não colherás. Disse-lhe: as três são boas — na glória (hadar, trocadilho com Adar) da Torá te elevarás; milagres (nissim, trocadilho com Nissan) não verás (pois não precisarás deles); e o que semeares não colherás — o que gerares não enterrarás (viverás mais que teus filhos).
Esta é a sexta e última halachá do Perek Dalet de Massechet Maaser Sheni: a Mishná trata da presunção de que moedas achadas são profanas — salvo inscrição de dízimo —, das regras para utensílios com inscrições parciais (letras isoladas ou nomes), e do caso de quem indica a seu filho o canto onde está o segundo dízimo, se este é encontrado em outro lugar ou em quantidade diferente da esperada.
A guemará explica cada cláusula da Mishná, traz a baraita do acróstico de letras para terumá, o caso do barril de Rabi Yoná e Rabi Yosei, e a disputa sobre pombinhos trocados aplicada ao segundo dízimo por Rabi Aba bar Zavda. A partir do caso de quem sonhou onde estava o dinheiro do pai, a sugiá se estende para uma longa série de relatos sobre interpretação de sonhos — Rabi Yosei ben Chalafta, Rabi Yishmael beRabi Yosei, um samaritano, Rabi Eliezer, Rabi Yochanan e Rabi Akiva —, fechando com o princípio de que o sonho segue apenas sua interpretação.
Com esta halachá se conclui o Perek Dalet de Massechet Maaser Sheni (6 de 6 halachot). Resta ainda o Perek Heh, último perek do tratado, com 5 halachot, para concluir Massechet Maaser Sheni por inteiro.