Terceira halachá do Perek Guimel de Massechet Maaser Sheni: a Mishná ensina que aquele que tinha moedas (de segundo dízimo) em Jerusalém e precisava delas, e seu amigo tinha frutos, pode dizer a seu amigo "estas moedas estão resgatadas sobre teus frutos" — e assim este come seus frutos em pureza, e aquele usa suas moedas livremente; mas não se deve dizer isso a um am haaretz, a não ser que os frutos sejam de demai. Traz as regras para os quatro casos de moedas e frutos distribuídos entre Jerusalém e a província, o princípio de que moedas de dízimo entram e saem de Jerusalém livremente enquanto frutos entram mas não saem (salvo pela opinião de Rabban Shimon ben Gamliel), e a disputa entre a Escola de Shamai e a Escola de Hilel sobre frutos plenamente processados que passaram por dentro da cidade — se seu segundo dízimo deve necessariamente retornar e ser comido ali, ou pode ser resgatado e comido em qualquer lugar — com a mediação de Rabi Shimon ben Yehudá em nome de Rabi Yossei, que localiza a controvérsia apenas nos frutos já plenamente processados.
A guemará explica, com Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yoná, o princípio de que Jerusalém foi constituída como um "pátio guardado" que torna o produto tevel e o agarra para os dízimos assim que seu processamento se completa — com a objeção de Rabi Maná a partir do açoite pela Escola de Shamai. Traz a pergunta de Rabi Zeirá sobre separar segundo dízimo de outro lugar, e a de Rabi Yoná sobre até que ponto a mechitzá agarra o lote inteiro; o longo debate entre a Escola de Hilel e a Escola de Shamai sobre abandonar produto (hefker) para isentá-lo dos dízimos, que responde a ambas as perguntas; e fecha com a história de Rabi Chanina, Rabi Yonatan e Rabi Yehoshua ben Levi, que subiram a Jerusalém e quiseram resgatar frutos fora da cidade, a divergência entre a anciã e os sábios sobre se os muros destruídos de Jerusalém ainda contam como erguidos, e a halachá que, entre Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Yehoshua ben Levi, segue as palavras do discípulo.
Mishná: Aquele que tinha moedas (de segundo dízimo) em Jerusalém e precisava delas, e seu amigo tinha frutos (comuns), diz a seu amigo: eis que estas moedas estão resgatadas sobre teus frutos. Assim, este (o amigo) come seus frutos em pureza (agora tornados segundo dízimo, deve comê-los com os cuidados devidos), e aquele (o dono original das moedas) faz o que precisa com suas moedas (agora dinheiro comum, livre de uso). Mas não se deve dizer isso a um am haaretz (pessoa comum, não confiável quanto às leis de pureza), a não ser que os frutos sejam de demai (produto duvidoso quanto ao dízimo, cujo segundo dízimo não precisa necessariamente ser comido em pureza). Frutos em Jerusalém e moedas na província: diz-se, eis que aquelas moedas estão resgatadas sobre estes frutos. Moedas em Jerusalém e frutos na província: diz-se, eis que estas moedas estão resgatadas sobre aqueles frutos, contanto que os frutos sejam trazidos e comidos em Jerusalém. Moedas de dízimo entram em Jerusalém e saem livremente; frutos de dízimo entram e não saem. Rabban Shimon ben Gamliel diz: também os frutos entram e saem. Frutos cujo processamento foi concluído e que passaram por dentro de Jerusalém — seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém (mesmo tendo sido apenas transportado através da cidade, sem ali ficar); e os que não tiveram seu processamento concluído — cestos de uvas vão para o lagar, e cestos de figos para o local de secagem (sem ficarem sujeitos a essa regra). A Escola de Shamai diz: o segundo dízimo deve subir e ser comido em Jerusalém. E a Escola de Hilel diz: pode ser resgatado e comido em qualquer lugar. Rabi Shimon ben Yehudá diz em nome de Rabi Yossei: a Escola de Shamai e a Escola de Hilel não discordaram quanto aos frutos cujo processamento não foi concluído, que seu segundo dízimo pode ser resgatado e comido em qualquer lugar; e sobre o que discordaram? Sobre os frutos cujo processamento foi concluído, quanto aos quais a Escola de Shamai diz que seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém, e a Escola de Hilel diz que pode ser resgatado e comido em qualquer lugar. E o demai entra, sai, e pode ser resgatado.
Halachá: "Mas não se deve dizer isso a um am haaretz, a não ser que os frutos sejam de demai" — eis que, quanto ao dízimo certo (cuja obrigação já é confirmada, ao contrário do demai, cujo dízimo é apenas duvidoso), não se pode dizê-lo, pois não se entrega dízimo certo a um am haaretz (que não é confiável para comê-lo em pureza como exigido).
O suficiente (tempo, ou quantidade de moedas para adquirir frutos) para fazer uma massa e retornar; o suficiente para fazer uma massa e retornar (fórmula repetida, já explicada anteriormente a respeito da medida de frutos que um amigo pode resgatar de cada vez — ver Perek Bet, Halachá 2).
Disse Rabi Shimon ben Lakish: isso quer dizer que fizeram Jerusalém como um pátio guardado (recinto fechado e vigiado, ao qual se aplica a regra de que o produto ali trazido se torna obrigado aos dízimos). Assim como um pátio guardado torna o produto tevel (obrigado aos dízimos, ainda não separados), também esta (Jerusalém) torna tevel. Disse Rabi Yoná: seria lógico que nem mesmo as casas ali tornassem tevel, pois pertencem a todo o Israel (por costume, os donos de casas em Jerusalém as abriam aos peregrinos, não sendo posse exclusiva de um único dono, como exige a regra do pátio guardado); mas isto quer dizer que fizeram Jerusalém como um pátio guardado — assim como um pátio guardado agarra (obriga aos dízimos apenas quando o processamento do produto está concluído), também esta agarra. Disse Rabi Yoná: isso quer dizer que, se um monte de grãos era tevel para o primeiro dízimo e para o segundo, e foi advertido apenas quanto ao segundo, é açoitado (por comê-lo sem separar o segundo dízimo, mesmo não havendo ainda obrigação formal dele, já que o primeiro dízimo não fora separado). Objetou Rabi Maná: mas não ensinamos que a Escola de Shamai diz que o segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém (reconhecendo aí um efeito de Jerusalém sobre produto que ainda é tevel apenas quanto ao primeiro dízimo — posição que a Escola de Hilel rejeita)? Podes dizer que ele é açoitado segundo a Escola de Shamai contra a Escola de Hilel? Mas antes, é o rigor das mechitzot (o princípio de que os limites da cidade servem de recinto sagrado que obriga o produto — nada tendo a ver com Jerusalém-como-pátio-guardado); também aqui é o rigor das mechitzot.
Perguntou Rabi Zeirá: se separou para ele (produto plenamente processado que passou por Jerusalém, ainda sem dízimo separado) segundo dízimo de outro lugar, fica isento, ou já a mechitzá o agarrou (exigindo que o próprio dízimo venha deste mesmo lote, e não de outro produto)? Perguntou Rabi Yoná: se fez tudo o lote segundo dízimo para um só lugar (consagrando o lote inteiro como se fosse o dízimo de outro produto), tudo foi agarrado pela mechitzá, tornando-se realmente dízimo, ou não foi agarrado senão um décimo do que nele há?
Eis que cestos de figos destinados para comer e cestos de uvas destinados para comer são conclusão do processamento (ao contrário dos cestos destinados ao lagar ou ao local de secagem, mencionados na Mishná, cujo processamento ainda não terminou e que por isso ficam isentos da regra dos frutos que passaram por Jerusalém).
Disse a Escola de Hilel à Escola de Shamai: não concordais conosco que, quanto aos frutos cujo processamento não foi concluído, seu segundo dízimo pode ser resgatado e comido em qualquer lugar? Também quanto aos frutos cujo processamento foi concluído, deveria ser assim. Disseram-lhes a Escola de Shamai: não. Se dissestes isso quanto aos frutos cujo processamento não foi concluído, é porque se pode declará-los sem dono (hefker) e assim isentá-los dos dízimos; podeis dizer o mesmo quanto aos frutos cujo processamento foi concluído, que já não se pode declará-los sem dono para isentá-los dos dízimos? Disseram-lhes a Escola de Hilel: também os frutos cujo processamento foi concluído podem ser declarados sem dono e assim isentados dos dízimos. E acaso cestos de figos e de uvas destinados para comer não podem ser declarados sem dono para isentá-los do dízimo? Isso prova que cestos de figos para comer e cestos de uvas para comer são conclusão do processamento. Disseram-lhes a Escola de Shamai: não. Se dissestes isso quanto aos frutos cujo processamento não foi concluído, é porque se pode retirar para eles segundo dízimo de outro lugar; podeis dizer o mesmo quanto aos frutos cujo processamento foi concluído, que já não se pode retirar para eles segundo dízimo de outro lugar? Isto resolve simplesmente a pergunta (a de Rabi Zeirá, deixada em aberto acima).
Disse Rabi Zeirá: Rabi Chanina, Rabi Yonatan e Rabi Yehoshua ben Levi subiram a Jerusalém; calhou-lhes ter frutos (tevel, que precisavam dispor segundo as regras, já sem o Templo em pé), e quiseram resgatá-los fora da fronteira da cidade. Disse-lhes um certo ancião: vossos antepassados não procediam assim, mas os declaravam sem dono fora do muro e ali os resgatavam. A anciã entendia que se consideram as mechitzot (os muros de Jerusalém, já destruídos) como se estivessem erguidas (mantendo o estatuto ritual pleno da cidade); e aqueles sábios entendiam que não se consideram as mechitzot como se estivessem erguidas. A anciã entendia como Rabi Eliezer, e aqueles sábios entendiam como Rabi Yehoshua (numa disputa paralela sobre se a santidade de Jerusalém permanece após a destruição de seus muros). Rabi Pinchas tornava-o impuro e o resgatava assim (recorrendo a um método que evitava tomar partido, pois o dízimo impuro pode ser resgatado mesmo dentro da cidade, sem acréscimo de valor), pois temia tanto uma opinião quanto a outra. Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Yehoshua ben Levi (divergiram nesta questão): a halachá segue as palavras do discípulo (a posição atribuída a Rabi Shimon ben Yehudá em nome de seu mestre Rabi Yossei, na Mishná). Disse Rabi Zeirá: e isso apenas quanto aos frutos que são tevel como demai; mas o próprio demai já foi agarrado pela mechitzá (o segundo dízimo do demai que passou por Jerusalém deve ser resgatado e comido ali mesmo, não em qualquer lugar).
Nesta terceira halachá do Perek Guimel, a Mishná ensina como resgatar moedas de segundo dízimo trocando-as por frutos de um amigo — mas não com um am haaretz, exceto em demai —, as regras de moedas e frutos que entram e saem de Jerusalém, e a disputa entre a Escola de Shamai e a Escola de Hilel sobre frutos plenamente processados que passaram pela cidade, mediada por Rabi Shimon ben Yehudá em nome de Rabi Yossei.
A guemará explica, com Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yoná, por que Jerusalém funciona como um pátio guardado que torna o produto tevel e o agarra para os dízimos, com a objeção de Rabi Maná a partir do açoite pela Escola de Shamai. Traz as perguntas de Rabi Zeirá e Rabi Yoná sobre separar dízimo de outro lugar, e o debate entre as duas Escolas sobre abandonar produto para isentá-lo dos dízimos, que resolve ambas as perguntas.
Fecha com a história de Rabi Chanina, Rabi Yonatan e Rabi Yehoshua ben Levi em Jerusalém, a divergência entre a anciã e os sábios sobre se os muros destruídos ainda contam como erguidos, e a halachá que, entre Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Yehoshua ben Levi, segue as palavras do discípulo — ressalvada por Rabi Zeirá apenas para frutos tevel como demai.