Talmud Yerushalmi · Massechet Maaser Sheni · Perek Guimel · Halachá 1 (abertura do capítulo)
מַעֲשֵׂר שֵׁנִי

Não diga o companheiro "leva estes frutos para dividir" — mas para comerem e beberem juntos em Jerusalém

Perek Guimel, Halachá 1, no Talmud Yerushalmi, Massechet Maaser Sheni

Primeira halachá do Perek Guimel de Massechet Maaser Sheni, abrindo o terceiro capítulo: a Mishná ensina que uma pessoa não deve dizer ao seu companheiro "leva estes frutos (de segundo dízimo) a Jerusalém para dividirmos", mas deve dizer-lhe "leva-os para que os comamos e os bebamos em Jerusalém"; mas podem dar um ao outro como presente gratuito. A guemará pergunta qual é a diferença entre dizer "para comermos e bebermos" e dizer "para dividir", e traz, em nome de Rabi Zeirá e de Rabi Avin, duas leis de fundamento obscuro: a do trabalhador pago com um isar para colher verduras — cujo salário muda de permitido a proibido conforme a fórmula exata usada —, e a de quem pede emprestado vinho e azeite do companheiro, contanto que não use a palavra própria de empréstimo monetário. Traz ainda, em nome de Rabi Yaakov bar Acha, uma terceira lei de fundamento obscuro sobre o pão dos gentios, com a objeção de Rabi Yossei e a réplica de Rabi Maná distinguindo pão de cozinhados, e a posição final dos rabinos de Cesareia. Segue o ensino de que, em Jerusalém, também não se deve dizer "leva este barril de vinho de um lugar a outro para dividirmos" — segundo Rabi Lazar, esta é a opinião de Rabi Yudá e Rabi Nechemia, que proíbem por a verdura do campo nem sempre estar disponível, contra os Sábios, que permitem. Fecha perguntando se, depois de subir os frutos a Jerusalém, é permitido dizer "toma tua porção e eu a minha" ou "toma este barril e comamos juntos o outro que tenho", e estende a pergunta ao dízimo de gado, distinguindo o segundo dízimo — cuja venda tem regra própria e específica — do dízimo de gado, cuja venda não a tem.

Abre-se Perek Guimel de Massechet Maaser Sheniפֶּרֶק שְׁלִישִׁי

A Mishná · מַתְנִיתִין

לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ הַעַל אֶת הַפֵּירוֹת הָאֵלּוּ לִירוּשָׁלֵם לְחַלֵּק אֶלָּא אוֹמֵר לוֹ הַעֲלֵם שֶׁנֹּאכְלֵם וְשֶׁנִּשְׁתֵּם בִּירוּשָׁלֵם אֲבָל נוֹתְנִין זֶה לַזֶּה מַתְּנַת חִנָּם.

Mishná: Uma pessoa não deve dizer ao seu companheiro: "leva estes frutos (de segundo dízimo) a Jerusalém para dividirmos" (o que equivaleria a uma troca de posse, próxima de uma venda do segundo dízimo, o que é proibido); mas deve dizer-lhe: "leva-os para que os comamos e os bebamos em Jerusalém" (juntos, sem dividir a posse entre ambos). Mas podem dar um ao outro como presente gratuito (pois um presente puro, sem contrapartida, não constitui venda).

A Halachá · הֲלָכָה א

01Qual é a diferença entre "comer e beber" e "dividir"? A primeira lei de fundamento obscuro: o trabalhador e o isar
Yerushalmi · Maaser Sheni 3:1
לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ כול׳. מַה בֵּין הָאוֹמֵר שֶׁנֹּאכְלֵם וּשֶׁנִּשְׁתֵּם לָאוֹמֵר לְחַלֵּק. רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן מֵהִלְכוֹת שֶׁלָּעִימְעוּם הִיא. תַּמָּן תַּנִּינָן הָאוֹמֵר לַפּוֹעֵל הֵא לָךְ אִיסָר זֶה וְלַקֵּט לִי יָרָק הַיּוֹם שְׂכָרוֹ מוּתָּר. לַקֵּט לִי בּוֹ יָרָק הַיּוֹם שְׂכָרוֹ אָסוּר. לָקַח מִן הַנַּחְתּוֹם מִכִּכָּר בְּפוֹנְדִיוֹן לִכְשֶׁיִלְקוֹט יַרְקוֹת שָׂדֶה אָבִיא לָךְ מוּתָּר. לָקַח מִמֶּנּוּ סְתָם לֹא יְשַׁלֵּם לוֹ דְמֵי שְׁבִיעִית שֶׁאֵין פּוֹרְעִין חוֹב מִדְּמֵי שְׁבִיעִית. מַה בֵּין הָאוֹמֵר לַקֵּט לִי מַה בֵּין הָאוֹמֵר לַקֵּט לִי בּוֹ. רִבִּי אָבִין בְּשֵׁם רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָה מֵהִלְכוֹת שֶׁלָּעִימְעוּם הִיא.

Halachá: "Uma pessoa não deve dizer ao seu companheiro..." etc. Qual é a diferença entre quem diz "para que os comamos e os bebamos" e quem diz "para dividir"? Disse Rabi Zeirá em nome de Rabi Yonatán: é uma das leis de fundamento obscuro (regras aceitas cuja razão exata não foi plenamente explicitada, mas cujo padrão pode ser reconhecido por comparação com outros casos).

Ensinamos ali (noutra mishná, sobre o dinheiro do ano sabático): quem diz ao trabalhador "toma este isar (pequena moeda de cobre), e colhe verduras para mim hoje" — seu salário é permitido. "Colhe para mim, com ele (usando este isar como pagamento direto pela colheita, o que vincularia o próprio salário ao dinheiro do sétimo ano), verduras hoje" — seu salário é proibido. Comprou do padeiro um pão por um pondion, dizendo "quando ele colher verduras do campo, eu te trarei (o pagamento em dinheiro do sétimo ano)" — é permitido. Comprou dele sem especificar (sem mencionar de antemão que pagaria com dinheiro do sétimo ano), não deve pagar-lhe com dinheiro do sétimo ano, pois não se paga dívida com dinheiro do sétimo ano.

Qual é a diferença entre quem diz "colhe para mim" e quem diz "colhe para mim com ele"? Disse Rabi Avin em nome de Rabi Yossei ben Chaniná: é uma das leis de fundamento obscuro.

02A segunda lei de fundamento obscuro: pedir emprestado vinho e azeite sem dizer "empresta-me"
Yerushalmi · Maaser Sheni 3:1
תַּמָּן תַּנִּינָן שׁוֹאֵל אָדָם מֵחֲבֵירוֹ כַדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֹאמַר לוֹ הַלְוֵינִי. מַה בֵּין הָאוֹמֵר הַלְוֵינִי מַה בֵּין הָאוֹמֵר הַשְׁאִילֵינִי. רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן מֵהִלְכוֹת שֶׁלָּעִמְעוּם הִיא.

Ensinamos ali: uma pessoa pode pedir emprestado do seu companheiro jarros de vinho e jarros de azeite, contanto que não lhe diga "empresta-me" (הַלְוֵינִי, termo próprio de empréstimo monetário, que sujeitaria a devolução ao mesmo valor em dinheiro, sujeito a variações de preço próximas da usura). Qual é a diferença entre quem diz "הַלְוֵינִי" e quem diz "הַשְׁאִילֵינִי" (este último, termo próprio de comodato — emprestar a própria coisa para uso, com devolução do equivalente em espécie, sem vínculo a valor monetário)? Disse Rabi Zeirá em nome de Rabi Yonatán: é uma das leis de fundamento obscuro.

03A terceira lei de fundamento obscuro: o pão dos gentios, a objeção de Rabi Yossei e a réplica de Rabi Maná
Yerushalmi · Maaser Sheni 3:1
פִּיתָּן רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן עוֹד הִיא מֵהִלְכוֹת שֶׁלָּעִימְעוּם הִיא. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי קַשְׁיָיתָהּ קוֹמֵי רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא מַהוּ מֵהִלְכוֹת שֶׁלָּעִימְעוּם הִיא. כָּךְ אֲנִי אוֹמֵר בְּמָקוֹם שֶׁפַּת יִשְׂרָאֵל מְצוּיָה בְּדִין הוּא שֶׁתְּהֵא פַּת גּוֹיִם אֲסוּרָה וְעִימְעוּם עָלֶיהָ וְהִתִּירוּהָ. אוֹ בְּמָקוֹם שֶׁאֵין פַּת יִשְׂרָאֵל מְצוּיָה בְּדִין הוּא שֶׁתְּהֵא פַּת גּוֹיִם מוּתֶּרֶת וְעִימְעַמּוּ עָלֵיהָ וַאֲסָרוּהָ. אָמַר רִבִּי מָנָא וְיֵשּׁ עִימְעוּם לְאִיסּוּר. וּפַת לֹא כְתַבְשִׁילֵי גוֹיִם הִיא. כָּךְ אֲנִי אוֹמֵר בְּמָקוֹם שֶׁאֵין תַּבְשִׁילֵי יִשְׂרָאֵל מְצוּיִין בְּדִין הוּא שֶׁיְּהוּ תַבְשִׁילֵי גּוֹיִם מוּתָּרִין וְעִימְעַמּוּ עָלֵיהֶן וְאָסְרוּם. אֶלָּא כֵן הוּא בְּמָקוֹם שֶׁאֵין פַּת יִשְׂרָאֵל מְצוּיָה בְּדִין הוּא שֶׁתְּהֵא פַּת גּוֹיִם אֲסוּרָה וְעִימְעַמּוּ עָלֵיהָ וְהִתִּירוּהָ מִפְּנֵי חַיֵּי נֶפֶשׁ. רַבָּנִין דְּקַיסָרִין בְּשֵׁם רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא כְדִבְרֵי מִי שֶׁהוּא מַתִּיר וּבִלְבַד מִן הַפְּלָטוֹר. וְלָא עָבְדִינָן כֵּן.

"O pão deles" (dos gentios — voltando a um tópico já tratado noutra fonte): disse Rabi Yaakov bar Acha em nome de Rabi Yonatán: também esta é uma das leis de fundamento obscuro. Disse Rabi Yossei, que a isto objetou diante de Rabi Yaakov bar Acha: o que significa "é uma das leis de fundamento obscuro"? Assim eu digo: em lugar onde o pão de Israel é comum, por direito o pão dos gentios deveria ser proibido, mas obscureceram a razão sobre ele e o permitiram. Ou: em lugar onde o pão de Israel não é comum, por direito o pão dos gentios deveria ser permitido, mas obscureceram sobre ele e o proibiram.

Disse Rabi Maná: e há obscurecimento que resulte em proibição? E, de todo modo, o pão não é como os cozinhados dos gentios (cuja lógica de proibição é distinta). Assim eu digo: em lugar onde os cozinhados de Israel não são comuns, por direito os cozinhados dos gentios deveriam ser permitidos, mas obscureceram sobre eles e os proibiram. Antes é assim: em lugar onde o pão de Israel não é comum, por direito o pão dos gentios deveria ser proibido, mas obscureceram sobre ele e o permitiram por causa da sobrevivência (risco à vida, caso não houvesse pão disponível). Os rabinos de Cesareia, em nome de Rabi Yaakov bar Acha: decidiu-se conforme as palavras de quem permite, mas somente o pão comprado do forno público; porém não agimos assim (na prática, o costume local não seguiu nem essa permissão restrita).

04O barril de vinho de um lugar a outro em Jerusalém: Rabi Yudá e Rabi Nechemia contra os Sábios
Yerushalmi · Maaser Sheni 3:1
תַּנֵּי לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ בִּירוּשָׁלֵם הַעַל חָבִית זוֹ שֶּׁלְיַיִן מִמָּקוֹם לְמָקוֹם לְחַלֵּק. אָמַר רִבִּי לָעְזָר דְּרִבִּי יוּדָה וּדְרִבִּי נְחֶמְיָה הִיא. מַה נָן קַיָימִין אִם בָּהוּא דְּאָמַר לֵיהּ הֵא לָךְ הַב לִי. דִּבְרֵי הַכֹּל אָסוּר. הַב לִי וַאֲנָא יְהַב לָךְ דִּבְרֵי הַכֹּל מוּתָּר. אֶלָּא כִי נָן קַיָימִין בָּהוּא דְּאָמַר לֵיהּ הַב לִי בָּרִיא לִי אֲנָא יְהַב לָךְ. רִבִּי יוּדָה וְרִבִּי נְחֶמְיָה אוֹסְרִין שֶׁאֵין יַרְקוֹת שָׂדֶה מְצוּיִין. וְרַבָּנִין מַתִּירִין שֶׁיַּרְקוֹת שָׂדֶה מְצוּיִין.

Foi ensinado: uma pessoa não deve dizer ao seu companheiro em Jerusalém: "leva este barril de vinho de um lugar a outro para dividirmos". Disse Rabi Lazar: é a opinião de Rabi Yudá e de Rabi Nechemia.

Sobre o que estamos tratando? Se é o caso em que lhe disse "toma isto, dá-me aquilo" — para todos é proibido (pois seria uma troca imediata, próxima de venda). "Dá-me e eu te darei" (sem especificar de imediato o quê, deixando em aberto para depois) — para todos é permitido. Mas estamos tratando do caso em que lhe disse "dá-me com certeza, e eu te darei" (uma garantia intermediária de retribuição certa, mas não especificada no ato). Rabi Yudá e Rabi Nechemia proíbem, pois a verdura do campo (exemplo de contrapartida) nem sempre está disponível (o que tornaria a promessa incerta, e a troca imediata equivaleria a venda); e os Sábios permitem, pois a verdura do campo está disponível (tornando a promessa suficientemente certa para não se equiparar a uma venda).

05Toma tua porção e eu a minha: o segundo dízimo comparado ao dízimo de gado
Yerushalmi · Maaser Sheni 3:1
מִשֶּׁהֶעֱלָה אוֹתָן מַהוּ שֶׁיֹּאמַר לוֹ טוֹל חֶלְקָּךְ וַאֲנִי חֶלְקִי. מַהוּ שֶׁיֹּאמַר לוֹ טוֹל חָבִית שֶּׁלְיַיִן זוֹ וְאָנוּ אוֹכְלִין חָבִית שֶׁמֶן שֶׁיֵּשׁ לִי שָׁם. אַף בְּמַעֲשֵׂר בְּהֵמָה כֵן. מַעֲשֵׂר שֵׁינִי עַל יְדֵי שֶׁמְּכִירָתוֹ מְיוּחֶדֶת אַתְּ אָמַר מוּתָּר. מַעֲשֵׂר בְּהֵמָה עַל יְדֵי שֶׁאֵין מְכִירָתוֹ מְיוּחֶדֶת הֲרֵי אַתְּ אָמַר אָסוּר. לֵית פְּשִׁיטָא לָךְ דְּהִיא מוּתָּר. מַהוּ שֶׁיֹּאמַר לוֹ הַעַל בְּהֵמָה וְחַיָּה זוֹ וְאָנוּ אוֹכְלִם בְּשַׂר שְׁחוּטָה שֶׁיֵּשׁ לִי שָׁם.

Depois que os trouxe para cima (a Jerusalém, os frutos de segundo dízimo pertencentes a dois companheiros), o que dizer se lhe disser: "toma tua porção, e eu, a minha"? O que dizer se lhe disser: "toma este barril de vinho, e comamos juntos o barril de azeite que tenho ali"?

Também no dízimo de gado é assim (vale a mesma permissão)? No segundo dízimo, porque sua venda ou resgate tem regra própria e específica (um valor determinado, mais um quinto acrescido), dizes que é permitido. No dízimo de gado, porque sua venda não tem regra própria e específica (não pode ser resgatado, apenas o animal defeituoso pode ser vendido, sem acréscimo fixo), dizes que é proibido. Não te é evidente que ele — o dízimo de gado, neste caso análogo — é permitido também? O que dizer se lhe disser: "leva este animal de gado e esta fera selvagem, e comamos juntos a carne do abatido que tenho ali"?

Nota

Esta é a primeira halachá do Perek Guimel de Massechet Maaser Sheni, abrindo o terceiro capítulo: a Mishná ensina que não se deve dizer ao companheiro "leva estes frutos a Jerusalém para dividirmos", mas "leva-os para que os comamos e os bebamos em Jerusalém"; podendo, porém, dar um ao outro como presente gratuito.

A guemará traz duas leis de fundamento obscuro, em nome de Rabi Zeirá e de Rabi Avin: a do trabalhador pago com um isar para colher verduras, cujo salário muda de permitido a proibido conforme a fórmula usada em relação ao dinheiro do sétimo ano; e a de quem pede emprestado vinho e azeite sem dizer "empresta-me". Traz uma terceira lei de fundamento obscuro sobre o pão dos gentios, segundo Rabi Yaakov bar Acha, com a objeção de Rabi Yossei e a réplica de Rabi Maná distinguindo pão de cozinhados, e a posição final dos rabinos de Cesareia sobre o pão do forno público.

Fecha com o ensino de que também em Jerusalém não se deve dizer "leva este barril de vinho de um lugar a outro para dividirmos" — opinião de Rabi Yudá e Rabi Nechemia contra os Sábios quanto à disponibilidade da verdura do campo —, e com a pergunta sobre dividir porções depois de subir os frutos a Jerusalém, estendida por comparação ao dízimo de gado, cuja venda, ao contrário da do segundo dízimo, não tem regra própria e específica.

Com esta halachá, abre-se o Perek Guimel de Massechet Maaser Sheni, que terá ao todo seis halachot.