Terceira halachá do Perek Zayin, Challon (janela), de Massechet Eruvin. Depois da janela e do muro entre dois pátios, a Mishná passa à vala entre eles: se é funda de dez palmos e larga de quatro, cada pátio faz o seu eruv, e não se faz um só, mesmo se a vala está cheia de restolho ou de palha, que se costuma tirar dali; mas, se está cheia de terra ou de pedrinhas, a vala se anula, e fazem um só eruv. A guemará deduz da Mishná que a palha posta ali para anular a vala não a anula, e que a Mishná não segue Rabi Yossi, que diz que a palha anulada está anulada; Rabi Yossi beRabi Bun, em nome de Rav Chisda, responde que a Mishná é de todos, e que Rabi Yossi fala da palha misturada com terra; traz a palavra de Rabi Yossi sobre a palha que é como terra e a terra que é como palha, a palavra da casa de Rabi Yanai sobre as esteiras que cobrem a vala e a objeção das esteiras que a enchem, a dúvida dos ramos secos de palmeira e, por fim, a palavra de Reish Lakish. A mesma discussão está no Yerushalmi Nazir 9:2 e Pessachim 7:7, a respeito da impureza do morto. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 78b e 79a.
Mishná: Um charitz (vala) entre dois pátios, fundo de dez palmos e largo de quatro: fazem dois eruvin (as junções que permitem transportar no Shabat) e não fazem um, mesmo cheio de kash (restolho) ou de teven (palha). Cheio de terra ou de pedrinhas: fazem um e não fazem dois.
Então, palha posta para anulá-la não a anulou. A matnita (a Mishná) não é de acordo com Rabi Yossi, pois Rabi Yossi disse: Palha que ele anulou está anulada.
Rabi Yossi beRabi Bun disse, em nome de Rav Chisda: A Mishná é a palavra de todos, e o que disse Rabi Yossi é quando a misturou com terra. Há palha que é como terra, e terra que é como palha: palha que ele não pretende remover no futuro, eis que é como terra; e terra que ele pretende remover no futuro, eis que é como palha.
Os da casa de Rabi Yanai dizem: Cobriu-o de machatzaliyot (esteiras), anulou. Vem e vê: encheu-o de esteiras, não anulou; cobriu-o de esteiras, anulou? Encheu-o de charyot (ramos secos de palmeira): é uma dúvida.
Rabi Zerikan, Rabi Imi, em nome de Reish Lakish: E mesmo rok (saliva).
Esta é a terceira halachá do Perek Zayin, Challon, de Massechet Eruvin. A sua Mishná corresponde à Mishná avulsa Eruvin 7:3, inteira e sem diferença de conteúdo; as diferenças são de grafia, de vocalização e de pontuação: o Yerushalmi tem חֲצֵירוֹת, וְְרָחָב, com dois shevá, אַרְבָּעָה, אֲפִילוּ e, no fim, שְׁנַיִם, onde a avulsa tem חֲצֵרוֹת, וְרָחָב, אַרְבַּע, אֲפִלּוּ e שְׁנָיִם; a avulsa tem as vírgulas, e o Yerushalmi, no Sefaria, só o ponto antes de מָלֵא עָפָר. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 78b, e ali se lê חֲצֵירוֹת, como no Yerushalmi, וְרוֹחַב אַרְבָּעָה, onde o Yerushalmi e a avulsa têm וְרָחָב, e אֲפִילּוּ. O Bavli deste site ainda vai só até Eruvin 61b; por isso esta página não traz o link para a discussão do Bavli sobre esta Mishná, em Eruvin 78b e 79a. A halachá ocupa dois segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e o segundo é a única seção desta página.
Sobre a Mishná. O Penei Moshe explica que o charitz é uma vala comprida que passa entre os dois pátios e os separa ao longo de toda a sua face, e que a largura de quatro é necessária porque, com menos do que isso, é fácil passar a pé de uma borda à outra; que a palha comum não se anula, pois ele há de tirá-la dali, e que se trata de palha que se pode mover no Shabat, que não é muktzé (separada do uso no Shabat); e que a terra e as pedrinhas, de modo geral, estão anuladas, e por isso reduzem a vala, e fazem um só eruv. O Korban HaEdah diz o mesmo da largura de quatro palmos e explica que a palha não é um fechamento da vala, porque no fim será tirada.
Sobre a primeira frase da guemará. O Penei Moshe explica que a dedução vem de que a Mishná só distingue entre a palha e a terra, e não distingue dentro da própria palha: se o tana da Mishná achasse que a palha que não se pretende remover está anulada, teria feito essa distinção; daí se vê que, para ele, a palha posta ali para ser anulada não se anula até que a anule expressamente; e que isso não está de acordo com Rabi Yossi, da Tosefta de Ohalot. O Korban HaEdah lê הא תבן וביטלו לא ביטל, “então, palha que ele anulou não anulou”, pois a Mishná diz sem distinção “mesmo cheio de palha”; e explica a palavra de Rabi Yossi a partir das leis de Ohalot: a impureza do morto que tem sobre si um espaço vazio de um palmo não atravessa o teto, mas a tumá retzutzá (impureza comprimida, sem espaço vazio) sobe até o céu; e uma casa em que há um morto, se a encheram de palha e a anularam, a impureza é comprimida. A Mishná Ohalot 15:7 diz: בַּיִת שֶׁמִּלְאוֹ עָפָר אוֹ צְרוֹרוֹת, וּבִטְּלוֹ … טֻמְאָה בוֹקַעַת וְעוֹלָה, בּוֹקַעַת וְיוֹרָדֶת, “uma casa que encheram de terra ou de pedrinhas, e a anularam … a impureza atravessa e sobe, atravessa e desce”.
Sobre a resposta de Rav Chisda. O Penei Moshe explica que a primeira parte da Mishná, a da palha, exige que se anule expressamente, e que Rabi Yossi fala da palha misturada com terra, que já não serve nem como palha nem como terra, mas só para barro, e que por isso, de modo geral, está anulada; o Korban HaEdah diz que a Mishná trata da palha não misturada com terra. Sobre “há palha que é como terra”, o Penei Moshe diz que é a Tosefta, e que são palavras de Rabi Yossi; o Korban HaEdah traz duas leituras: que a guemará quer dizer que Rabi Yossi não precisa ser explicado como palha misturada, mas como palha que ele não pretende remover, e a Mishná trata da palha que ele pretende remover; ou que a guemará faz uma objeção a Rav Chisda a partir das próprias palavras de Rabi Yossi, e que assim está no Bavli. A Tosefta Ohalot 15:5, no Sefaria, diz: ור' יוסי אומר תבן שאינו עתיד לפנותו הרי הוא כעפר ועפר שהוא עתיד לפנותו הרי הוא כתבן, “e Rabi Yossi diz: palha que ele não pretende remover no futuro é como terra, e terra que ele pretende remover no futuro é como palha”. No Bavli, Eruvin 78b e 79a, a guemará pergunta se a terra anula mesmo sem intenção expressa, a partir da Mishná de Ohalot, בַּיִת שֶׁמִּילְּאָהוּ תֶּבֶן אוֹ צְרוֹרוֹת וּבִיטְּלוֹ — בָּטֵל, “uma casa que encheu de palha ou de pedrinhas e a anulou, está anulada”; Rav Huna diz que quem ensinou Ohalot é Rabi Yossi, e a guemará objeta que de Rabi Yossi se ouviu o contrário: תֶּבֶן וְאֵין עָתִיד לְפַנּוֹתוֹ — הֲרֵי הוּא כִּסְתַם עָפָר, וּבָטֵל. עָפָר וְעָתִיד לְפַנּוֹתוֹ — הֲרֵי הוּא כִּסְתַם תֶּבֶן, וְלֹא בָּטֵיל, “palha que ele não pretende remover é como terra comum, e está anulada; terra que ele pretende remover é como palha comum, e não está anulada”; então Rav Assi diz que quem ensinou Eruvin é Rabi Yossi; e Rav Ashi diz: בִּשְׁלָמָא חָרִיץ לְמִיטְיְימֵיהּ קָאֵי. אֶלָּא בַּיִת, לְמִיטְיְימֵיהּ קָאֵי?, “a vala, está bem, existe para ser tapada; mas a casa existe para ser tapada?”.
Sobre as esteiras e os ramos de palmeira. O Penei Moshe explica que a casa de Rabi Yanai diz que, se cobriu a vala com esteiras, anulou-a, e que “vem e vê” é espanto: se encheu a vala de esteiras, não anulou, pois as esteiras não são menos que a palha; e, se a cobriu de esteiras, anulou? Por isso a palavra não se sustenta. O Korban HaEdah explica que a casa de Rabi Yanai fala de quem cobriu a palha com esteiras, pois presume-se que não pretende removê-la, e que a guemará objeta: se encheu toda a casa de esteiras, não anulou as esteiras; e, se cobriu a palha com esteiras, diríamos que anulou as esteiras e a palha? Sobre os ramos de palmeira, o Penei Moshe explica a dúvida: pode-se dizer que os pôs ali para fechar a vala, e pode-se dizer que pretende retirá-los para lenha, e então não se anulam até que os anule expressamente; o Korban HaEdah diz que as charyot são os ramos secos da palmeira, e que a dúvida é se a casa ou a vala ficam como fechadas. Guggenheimer remete ao Bavli Shabat 100a, onde Abaye diz de uma cova no domínio público, funda de dez e larga de oito: זָרַק לְתוֹכָהּ מַחְצֶלֶת — חַיָּיב. חִילְּקָהּ בְּמַחְצֶלֶת — פָּטוּר, “se atirou para dentro dela uma esteira, é culpado; se a dividiu com uma esteira, é isento”.
Sobre a palavra de Reish Lakish. O Korban HaEdah lê ואפילו רוק como saliva: mesmo se encheram de saliva, é um fechamento para aquele momento; a tradução segue essa leitura, que é a do hebraico. O Penei Moshe diz que no Yerushalmi Pessachim, no capítulo Keitzad Tzolin, se lê ואפי' רק, e no Yerushalmi Nazir 9:2, ואפי' ריק, e que é tudo uma coisa só, uma coisa fina, como o רקיק, o bolo fino e mole; e liga a palavra à impureza que passa por uma janela de um palmo entre duas casas: se puseram na janela algo que a anula, reduz a abertura, e Reish Lakish acha que mesmo o rakik reduz, pois, sendo fino, apodrece com a umidade da janela e se torna repugnante, e presume-se que foi anulado. Guggenheimer traduz, de modo provisório, “thin sheets”, segundo a leitura de Pessachim, e diz que nem a saliva daqui nem o vazio de Nazir convêm.
Os paralelos. O Yerushalmi Nazir 9:2 traz a mesma discussão a respeito do kever hatehom (a sepultura do abismo, o morto enterrado sem que se saiba), הַמֵּת שֶׁנִּקְבַּר בְּקַשׁ וּבַתֵּבֶן וּבֶעָפָר וּבַצְּרוֹרוֹת, “o morto que foi enterrado no restolho, na palha, na terra e nas pedrinhas”, com as leituras תֵּבֶן וּבִיטְּלוֹ בָטֵל, תֵּבֶן שֶׁאֵין יָכוֹל לְפַנּוֹתוֹ, דְּבֵי רִבִּי יַנַּאי, מַחֲצָלוֹת e, no fim, אֲפִילוּ רֵיק. O Yerushalmi Pessachim 7:7 traz a mesma discussão, com תֵּבֶן שֶׁאֵין אַתְּ עָתִיד לְפַנּוֹתוֹ, מִילֵּאהוּ מַחֲצָלוֹת לֹא בִטֵּל, רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ e אֲפִילוּ רַק. A Tosefta Eruvin, na edição de Lieberman 6:17, que no Sefaria comum é 6:11, traz o monte de palha entre dois pátios: מתבן שבין שתי חצרות גבוה עשרה טפחים, מערבין שנים, ואין מערבין אחד, “um monte de palha entre dois pátios, alto de dez palmos: fazem dois e não fazem um”; no Sefaria comum, a primeira palavra está como [מים].
Leituras incertas. הָא תֵּבֶן לְבַטְּלוֹ לֹא בִיטֵּל ficou “então, palha posta para anulá-la não a anulou”, com o pronome referido à palha, segundo o Penei Moshe; pode referir-se à vala. מַתְנִיתָא דְלֹא כְרִבִּי יוֹסֵי ficou como afirmação, como em Nazir e segundo o Penei Moshe, e não como pergunta, como em Guggenheimer. עָתִיד לְפַנּוֹתוֹ ficou “pretende remover no futuro”. אִיתָא חֲמִי ficou “vem e vê”, e a frase seguinte, como pergunta de espanto, com o Penei Moshe e o Korban HaEdah. Nas frases das esteiras e dos ramos, o pronome “o” fica sem substantivo, como no hebraico; aqui é a vala, e em Nazir e Pessachim, a casa ou a sepultura. צְרִיכָה ficou “é uma dúvida”. רִבִּי זְרִיקָן רִבִּי אִמִּי ficou justaposto, “Rabi Zerikan, Rabi Imi”, como no hebraico, sem decidir se Rabi Zerikan fala em nome de Rabi Imi ou se os dois falam juntos. וָאֲפִילוּ רַוק ficou “e mesmo rok, saliva”, com o Korban HaEdah, sem acrescentar o verbo; subentende-se que também isso anula ou fecha. Na Mishná, “fazem um” e “não fazem um” ficaram literais, como no hebraico, sem a palavra “só”.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer traduz פיס׳ como “Paragraph”, e aqui a marca não foi traduzida. Ele lê a frase de מַתְנִיתָא como pergunta, e aqui ficou como afirmação. Escreve “Rebbi Yose”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun”, “Rav Ḥisda”, “Rebbi Yannai”, “Rebbi Zeriqan”, “Rebbi Immi” e, para רֵישׁ לָקִישׁ, a forma inglesa do nome completo de Rabi Shimon ben Lakish; aqui ficaram Rabi Yossi, Rabi Yossi beRabi Bun, Rav Chisda, Rabi Yanai, Rabi Zerikan, Rabi Imi e Reish Lakish, como no hebraico. Ele lê a frase das esteiras como afirmação, e aqui ficou como pergunta, com os comentaristas. E traduz a última palavra como “thin sheets”, segundo Pessachim, e aqui ficou saliva, como no hebraico. Ele põe entre colchetes as palavras que acrescenta, e aqui elas ficaram em itálico.
Referências conferidas no Sefaria. Mishná avulsa Eruvin 7:3; Mishná Ohalot 15:7; Tosefta Ohalot 15:5; Tosefta Eruvin 6:11, no Sefaria comum, que é 6:17 na edição de Lieberman; Bavli Eruvin 78b, a Mishná e a pergunta da Mishná de Ohalot, e 79a, Rav Huna, a palavra de Rabi Yossi, Rav Assi e Rav Ashi; Bavli Shabat 100a, Abaye e a esteira; Yerushalmi Nazir 9:2 e Pessachim 7:7; Penei Moshe e Korban HaEdah nesta halachá. Referências corrigidas ou não citadas: a nota 56 de Guggenheimer remete ao Yerushalmi Nazir 9:2 e ao Pessachim 7:7, ambos conferidos, e a nota 57, à Tosefta Ohalot 15:5 e à Mishná Ohalot 15:1, 5 e 6, das quais só se citou aqui a 15:7, que é a da casa cheia de terra e anulada, conferida; a nota 59 remete ao Bavli Eruvin 79a, conferido; a nota 61, ao Bavli Shabat 100a, conferido; a Tosefta Eruvin da edição de Lieberman foi conferida também. O Bavli deste site vai até Eruvin 61b; por isso não há link para o Bavli.
Nomes nesta página: Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵי; Rabi Yossi beRabi Bun, רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן; Rav Chisda, רַב חִסְדָּא; Rabi Yanai, רִבִּי יַנַּאי; Rabi Zerikan, רִבִּי זְרִיקָן; Rabi Imi, רִבִּי אִמִּי; Reish Lakish, רֵישׁ לָקִישׁ. Na nota: Rav Huna, Rav Assi, Rav Ashi e Abaye, do Bavli; Rabi Shimon ben Lakish, em Pessachim.
Do hebraico foram retirados os rótulos de Mishná e de halachá e o marcador de folha da página da edição de Vilna 47b, no início da Mishná, antes de חָרִיץ. Não há marcador da edição de Veneza nesta halachá, nem marcador numérico, nem parênteses ou colchetes, e nada foi acrescentado. Foi mantida a marca פיס׳ e as grafias do Sefaria, como וְְרָחָב, com dois shevá, מַחֲצָלִיּוֹת e מַחֲצָלִיוֹת, sem o dagesh na segunda vez, מִילֵּהוּ, כְתֵּבֶן, וָאֲפִילוּ e רַוק. A seção 01 foi dividida em quatro pares, nos pontos em que muda quem fala.
A Mishná seguinte, Eruvin 7:4, no Yerushalmi, trata da tábua posta sobre a vala: “נָתַן עָלָיו נֶסֶר כָּל שֶׁהוּא רָחָב אַרְבָּעָה טְפָחִים…”, “se pôs sobre ela uma tábua qualquer que seja, larga de quatro palmos…”, e das duas sacadas, uma diante da outra.