97b abre resolvendo, com Rav Yosef falando diretamente a Rav Chana, a dificuldade que fechara a folha anterior: o ensinamento de que Rabi (Yehuda HaNassi) responsabilizaria por duas ofertas de pecado no caso de via pública a via pública com propriedade privada coberta no meio pareceria contradizer a baraita em que o próprio Rabi ensina, a partir das palavras superabundantes “estas são as coisas” (Êxodo 35:1), que há exatamente trinta e nove categorias primárias de trabalho proibido — o que implicaria que ele jamais responsabilizaria por uma subcategoria realizada junto com uma categoria primária, como carregar para fora e carregar para dentro. Rav Yosef resolve a dificuldade: a declaração sobre as duas ofertas não se referia a Rabi (Yehuda HaNassi), mas a Rabi Yehuda — um Tana distinto, apenas homônimo. A Guemará então examina uma nova baraita paralela, sobre lançar de propriedade privada à via pública com o objeto percorrendo quatro cúbitos na via pública, onde Rabi Yehuda responsabiliza e os Sábios isentam; Rav Yehuda em nome de Shmuel explica que Rabi Yehuda responsabilizaria por duas ofertas — uma por carregar para fora, e uma por fazer o objeto passar os quatro cúbitos — fundamentado no princípio de que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado. A Guemará tenta e rejeita uma prova, a partir de uma baraita sobre Rabi Yehuda acrescentar “alinhar” e “bater” os fios do tear à lista de categorias primárias, de que ele responsabilizaria por subcategoria junto com categoria primária — concluindo, ao final, que Rabá e Rav Yosef sustentam que Rabi Yehuda responsabiliza por apenas uma oferta de pecado. Ravina então questiona a Rav Ashi como a posição original de duas ofertas faria sentido, já que a intenção de pousar no início da via pública contradiz a intenção de pousar quatro cúbitos adiante; Rav Ashi resolve com o princípio de que alguém pode dizer “em qualquer lugar que o objeto queira pousar, que repouse” — cumprindo sua intenção onde quer que ele venha a repousar. Esse mesmo princípio resolve uma nova questão, levantada de modo independente: o que ocorre quando alguém pretende lançar um objeto quatro cúbitos mas o lança oito, comparado ao caso, tido por óbvio, de lançar oito mas alcançar apenas quatro (semelhante a escrever “shem”, as duas primeiras letras de “Shimon”); a comparação com “shem”/“Shimon” é então questionada, e a questão permanece, ao final, sem resposta explícita. A folha fecha com uma nova baraita — a continuação direta do tema com que 97a havia terminado — sobre quem lança um objeto de via pública a via pública com propriedade privada no meio: ele é responsável se o objeto percorrer, ao todo, quatro cúbitos nas duas partes da via pública — frase que a folha deixa em aberto, a ser detalhada em 98a.
Isto quer dizer que Rabi responsabiliza por uma subcategoria de trabalho proibido quando é realizada junto com uma categoria primária de trabalho proibido? Afinal, carregar para fora e carregar para dentro constituem uma categoria primária de trabalho proibido e sua subcategoria.
A folha 97b abre formulando, de modo explícito, a dificuldade que 97a havia deixado apenas insinuada: o ensinamento de que Rabi (Yehuda HaNassi) responsabilizaria por duas ofertas de pecado distintas — uma por carregar para fora, e uma por carregar para dentro — pareceria implicar que ele responsabiliza alguém por uma subcategoria de trabalho realizada junto com sua categoria primária, já que carregar para dentro é considerado subcategoria de carregar para fora.
Mas não foi ensinado numa baraita que Rabi diz: "coisas" (devarim), "as coisas" (hadevarim), "estas são as coisas" (eleh hadevarim) — expressões superabundantes no versículo "estas são as coisas que o Eterno ordenou fazer" (Êxodo 35:1): a Torá poderia ter dito apenas "uma coisa" (davar); ao dizer "coisas", no plural, ensina ao menos dois pontos; o artigo definido em "as coisas" acrescenta ao menos um terceiro; e o valor numérico das letras de "eleh" — alef, um; lamed, trinta; e he, cinco — é trinta e seis; de modo que a frase "estas são as coisas" alude ao total de três mais trinta e seis — estas são as trinta e nove categorias de trabalho proibido que foram ditas a Moshé no Sinai! Visto que Rabi sustenta que há um número fixo de categorias primárias de trabalho, certamente ele responsabilizaria por categorias primárias, mas não por subcategorias.
A Guemará traz a prova da dificuldade: numa baraita, o próprio Rabi deriva, das expressões superabundantes do versículo "estas são as coisas que o Eterno ordenou fazer", que existem exatamente trinta e nove categorias primárias de trabalho proibido no Shabat — a forma plural "coisas" ensina ao menos dois pontos, o artigo definido em "as coisas" acrescenta um terceiro, e o valor numérico das letras de "eleh" (um mais trinta mais cinco, trinta e seis) completa a soma de trinta e nove. Como Rabi sustenta que o número de categorias primárias é fixo e exaustivo, ele certamente responsabilizaria apenas por elas, e não por subcategorias realizadas junto com uma categoria primária — o que contradiz diretamente o ensinamento de Rav Chana sobre as duas ofertas de pecado.
"'Coisas', 'as coisas', 'estas são as coisas'" — a respeito do Shabat, pois está escrito em Vayakhel: "estas são as coisas que o Eterno ordenou" etc. (Êxodo 35:1). "Coisas" indica dois pontos; do artigo definido "ha" acrescenta um, eis três; "eleh" por gematria é trinta e seis; estas são as trinta e nove categorias de trabalho, etc. E por que a Torá precisava dar o número exato? Necessariamente, para que se saiba quantas ofertas de pecado uma pessoa é responsável, num único esquecimento, por transgredir o Shabat; e se ela fosse responsável por uma subcategoria junto com uma categoria primária num único esquecimento, elas seriam muitas mais que trinta e nove.
Disse-lhe Rav Yosef a Rav Chana: o Mestre ensina esta declaração de Rav Yehuda em nome de Shmuel a respeito deste , isto é, atribuindo-a a Rabi Yehuda HaNassi, e por isso lhe é difícil, pois uma declaração de Rabi contradiria outra declaração de Rabi. Nós ensinamos esta declaração a respeito de Rabi Yehuda — um sábio distinto, e não Rabi Yehuda HaNassi —, e não nos é difícil.
Aqui se resolve, diretamente, a dificuldade com que 97a havia terminado: Rav Yosef fala a Rav Chana em pessoa. A resolução é uma questão de atribuição: Rav Chana havia ensinado a declaração de Rav Yehuda em nome de Shmuel — sobre as duas ofertas de pecado — como referindo-se a "Rabi", isto é, a Rabi Yehuda HaNassi, o editor da Mishná. Sendo assim, ela contradiria a baraita em que o próprio Rabi fixa o número de trinta e nove categorias primárias, negando implicitamente responsabilidade por subcategorias. Mas Rav Yosef ensina essa mesma declaração como referindo-se, na verdade, a Rabi Yehuda — um Tana diferente (bar Ilai), cujo nome apenas soa semelhante ao apelido "Rabi" usado para Yehuda HaNassi. Não havendo, então, duas declarações do mesmo sábio, a contradição desaparece. Este site distingue "Rabi", sozinho, sempre como Rabi Yehuda HaNassi; e "Rabi Yehuda", por extenso, como o Tana homônimo diferente — a partir daqui até o fim da folha, é a este último que a Guemará se refere.
"'Disse-lhe Rav Yosef'" — a Rav Chana. "'O Mestre a ensina'" — esta declaração de Rav Yehuda em nome de Shmuel, de que Rabi responsabilizaria por duas ofertas, o Mestre a ensina a respeito de Rabi (Yehuda HaNassi). "'E lhe é difícil, Rabi contra Rabi'" — mas Rav Yehuda não disse isto a respeito deste (Rabi Yehuda HaNassi); antes, ensina-o a respeito de Rabi Yehuda , o Tana distinto, e não lhe é difícil, pois em nenhum outro lugar encontramos que Rabi Yehuda isente por subcategoria junto com categoria primária.
Pois foi ensinado numa baraita: de propriedade privada para via pública, e o objeto percorreu quatro cúbitos na via pública — Rabi Yehuda responsabiliza, e os Sábios isentam.
A Guemará traz a fonte da declaração de Rav Yehuda em nome de Shmuel, agora corretamente atribuída a Rabi Yehuda: uma baraita que trata de quem lança um objeto de uma propriedade privada para a via pública, e o objeto percorre quatro cúbitos dentro da própria via pública antes de pousar. Rabi Yehuda responsabiliza nesse caso, e os Sábios isentam.
"'De propriedade privada para via pública, e percorreu quatro cúbitos na via pública'" — antes que o objeto repousasse, pois há dois atos: carregar para fora, e lançar quatro cúbitos.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Rabi Yehuda responsabilizaria por duas ofertas de pecado — uma por carregar para fora, e uma por fazer o objeto passar os quatro cúbitos na via pública. Pois, se te viesse à mente dizer que é apenas uma oferta que ele responsabiliza, segue-se, por inferência, que os Sábios isentam completamente? Ora, ele carregou o objeto para fora, de propriedade privada para via pública — como poderia ser isento por completo? A Guemará responde: de onde tiras essa conclusão? Talvez, na verdade, eu possa te dizer que Rabi Yehuda é apenas por uma oferta que ele responsabiliza, e os Sábios isentam completamente — e como se encontra tal caso? Por exemplo, quando ele disse: até que o objeto saia para a via pública, que repouse.
Rav Yehuda, em nome de Shmuel, explica que Rabi Yehuda responsabilizaria, neste caso, por duas ofertas de pecado distintas — pelo carregar para fora e pelo fazer passar quatro cúbitos —, e não apenas uma; pois, se fosse apenas uma oferta, os Sábios, que isentam completamente, teriam de negar até mesmo a responsabilidade básica de carregar o objeto para fora da propriedade privada, o que seria estranho. A Guemará tenta uma explicação alternativa: talvez Rabi Yehuda de fato responsabilize por apenas uma oferta (a de carregar para fora) e os Sábios isentem completamente, no caso específico em que a pessoa pretendeu que o objeto pousasse assim que saísse para a via pública — de modo que o carregar para fora e o pretendido pouso coincidem num único ato, sem uma segunda etapa de "fazer passar".
"'Esta é a versão correta: e uma por fazê-lo passar'" — e os Sábios isentam quanto a fazê-lo passar, porque não sustentam que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado, de modo que seria como se tivesse repousado ao sair pela porta, e depois fosse novamente arrancado dali e repousasse ao final dos quatro cúbitos; mas ele é responsável por carregar para fora.
E é quanto a isto que discordam: Rabi Yehuda entende que dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado, e por isso sua intenção se cumpriu — assim que o objeto entra no espaço aéreo da via pública, é considerado como tendo repousado ali. E os Sábios entendem que não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado, e sua intenção não se cumpriu , de modo que ele está isento. Mas, quanto a uma subcategoria realizada junto com uma categoria primária, Rabi Yehuda não responsabiliza.
A Guemará identifica o ponto exato da disputa nesse caso específico (onde a pessoa pretendeu que o pouso ocorresse já na saída): Rabi Yehuda sustenta o princípio de que um objeto "capturado" no espaço aéreo é tratado como se tivesse repousado ali mesmo, de modo que sua intenção original — o pouso na saída — teria se cumprido; os Sábios rejeitam esse princípio, de modo que a intenção não se cumpre e a pessoa fica isenta mesmo do carregar para fora. Mas a última frase ressalva algo importante: mesmo Rabi Yehuda, apesar de responsabilizar aqui, não sustenta o princípio geral de que se responsabiliza por uma subcategoria realizada junto com sua categoria primária — preservando, assim, a resolução de Rav Yosef.
"'E sua intenção se cumpriu'" — pois o objeto repousou assim que saiu; por isso é responsável por carregar para fora; mas por fazê-lo passar não é responsável, e, ainda que o objeto seja considerado como tendo repousado e depois arrancado e repousado novamente, isso ocorre porque seria uma subcategoria junto com uma categoria primária , e por isso ele não responsabiliza.
A Guemará rejeita esta explicação: não te venha à mente dizer isso, pois foi ensinado numa baraita: Rabi Yehuda acrescenta também o ato de alinhar os fios da urdidura e bater os fios da trama à lista de categorias primárias de trabalho. Disseram-lhe: alinhar já está incluído na categoria de esticar a urdidura, e bater já está incluído em tecer. Não se trata, acaso, de um caso em que ele realizou ambas as ações juntas — e daí se aprende que Rabi Yehuda responsabilizaria por uma subcategoria junto com uma categoria primária?
A Guemará rejeita a explicação anterior (de que a disputa se restringe ao caso de intenção de pouso imediato na saída) e traz o que parece ser uma prova direta de que Rabi Yehuda de fato responsabiliza por subcategoria realizada junto com categoria primária: uma baraita ensina que ele acrescenta duas ações — alinhar os fios da urdidura e bater os fios da trama — à lista das categorias primárias de trabalho proibido no tear. Os Sábios objetam que essas ações são meras subcategorias, já incluídas respectivamente em "esticar a urdidura" e "tecer". A Guemará sugere que o caso da baraita seria de alguém que realizou as duas ações juntas — a subcategoria e sua categoria primária —, o que provaria que Rabi Yehuda responsabiliza nesse tipo de combinação.
"'Também alinhar'" — junto com as demais categorias primárias de trabalho, conforme dissemos, que por isso foram contadas: para que, se alguém as realizasse todas num único esquecimento, fosse responsável por cada uma delas. "'Alinhar'" — bater os fios com a lançadeira. "'E bater'" — depois de esticar o fio da trama, bate com a lançadeira em dois ou três lugares; e há quem explique que "bater" significa nivelar o tecido, quando há dois fios enrolados um no outro e separados dos demais, nivelando-os com a lançadeira ou com a agulha. "'Não se trata, acaso, de ele ter realizado todas juntas'" — alinhar e bater junto com as demais categorias de trabalho, pois a baraita ensina "acrescenta", e esticar a urdidura e tecer já estão contados entre as categorias primárias, e estas seriam suas subcategorias, como se ensina: alinhar está incluído em esticar a urdidura.
A Guemará rejeita esta prova: de onde tiras essa conclusão? Talvez, na verdade, trate-se de um caso em que ele realizou esta ação sozinha, e aquela ação sozinha, e Rabi Yehuda não responsabiliza por subcategoria junto com categoria primária. E é quanto a isto que Rabi Yehuda e os Sábios discordam: Rabi Yehuda entende que estas ações, alinhar e bater, são categorias primárias adicionais, e os Sábios entendem que estas são subcategorias.
A Guemará rejeita a prova: talvez a baraita trate de alguém que realizou apenas uma das duas ações de cada vez, não ambas juntas — e Rabi Yehuda continue não responsabilizando por subcategoria com categoria primária. Nesse caso, a disputa real entre Rabi Yehuda e os Sábios não é sobre esse princípio, mas sobre a própria classificação das ações: Rabi Yehuda as considera categorias primárias adicionais e independentes (elevando o número total acima de trinta e nove, ao menos em sua própria opinião), enquanto os Sábios as consideram meras subcategorias já subsumidas em categorias existentes.
Sabe que isto é assim, pois a baraita ensina: "Rabi Yehuda acrescenta". Isto se explica bem se dizes que estas ações são categorias primárias — o que significa "ele acrescenta"? Significa que ele acrescenta categorias primárias. Mas, se dizes que são subcategorias, o que significa "ele acrescenta"? Foi dito também que foram Rabá e Rav Yosef, ambos disseram: Rabi Yehuda responsabilizava apenas por uma oferta de pecado.
A Guemará confirma que "alinhar" e "bater" são, na opinião de Rabi Yehuda, categorias primárias adicionais, e não subcategorias: a própria linguagem da baraita — "Rabi Yehuda acrescenta" — só faz sentido se ele estivesse acrescentando novas categorias primárias à lista; dizer que ele "acrescenta" meras subcategorias não teria sentido algum, pois subcategorias sempre acompanham suas categorias primárias sem precisar ser "acrescentadas" à parte. Com isso, a tentativa de prova (beat 261) fica definitivamente afastada, e a Guemará relata que, de fato, Rabá e Rav Yosef concordam: Rabi Yehuda responsabiliza, no caso de lançar de propriedade privada à via pública com quatro cúbitos percorridos, por apenas uma oferta de pecado — não duas.
"'O que significa "acrescenta"'" — ora, apenas categorias primárias foram contadas , ao todo trinta e nove; se alinhar e bater fossem subcategorias, não haveria sentido em dizer que Rabi Yehuda "acrescenta" algo à lista.
Disse-lhe Ravina a Rav Ashi: e segundo o que originalmente nos veio à mente, que Rabi Yehuda responsabilizaria por duas ofertas de pecado — como poderia ele ser responsável tanto por carregar para fora, de propriedade privada para via pública, quanto por fazer o objeto passar quatro cúbitos na via pública? Se ele quis que o objeto pousasse aqui, no início da via pública, ele não quis que pousasse ali, quatro cúbitos adiante na via pública. E se ele quis que pousasse ali, quatro cúbitos adiante, ele não quis que pousasse aqui, no início. Disse-lhe Rav Ashi: isso é possível quando ele disse: "em qualquer lugar que o objeto queira pousar, que repouse" — indicando que sua intenção se cumpriria onde quer que o objeto lançado pousasse.
Ravina levanta uma dificuldade sobre a suposição original — já afastada como halachá, mas ainda relevante para o raciocínio — de que Rabi Yehuda responsabilizaria por duas ofertas de pecado: intenção e resultado parecem incompatíveis entre si, pois quem quer que o objeto pouse logo na saída não pode, ao mesmo tempo, ter querido que pousasse quatro cúbitos adiante, e vice-versa — de modo que apenas uma das duas "intenções" poderia de fato ter se cumprido, tornando misteriosa a dupla responsabilidade. Rav Ashi resolve com uma terceira possibilidade de formulação da intenção: a pessoa pode dizer, de antemão, que lhe é indiferente onde exatamente o objeto pouse — "em qualquer lugar que queira, que repouse" — de modo que sua intenção se cumpre tanto se o objeto pousa na saída (responsabilizando por carregar para fora) quanto se continua e pousa quatro cúbitos adiante (responsabilizando também por fazê-lo passar).
"'E segundo o que nos veio à mente'" etc. — ainda que ele fosse responsável por subcategoria junto com categoria primária, aqui não há dois atos; pois, se ele quis que o objeto repousasse ali, ao final dos quatro cúbitos, aqui ele não é responsável por fazê-lo passar quatro cúbitos, pois não o fez passar do início ao final dos quatro cúbitos na via pública; é apenas por carregar para fora que ele é responsável, e realizou um carregar para fora mais longo. "'E se aqui'" — junto à saída, ele quis que repousasse, aqui, ao final dos quatro cúbitos, ele não quis que repousasse, e não há lançamento de quatro cúbitos, e ele não é responsável por isso, pois é necessário um levantamento no início dos quatro cúbitos na via pública e um repouso ao final dos quatro cúbitos na via pública; e aqui, ao sair pela porta, o objeto não repousou, e foi levado até o final dos quatro cúbitos — para que fosse responsável por ambos os atos, seria preciso que repousasse na saída; mas ele é responsável por carregar para fora, pois sua intenção se cumpriu, já que o objeto repousou na via pública.
É óbvio que quem pretendeu lançar um objeto oito cúbitos na via pública e de fato lançou apenas quatro é responsável, pois isto é semelhante ao caso de quem escreveu "shem", as duas primeiras letras de "Shimon" — pois, no caso de escrever "shem", a pessoa realizou o trabalho proibido de escrever uma palavra de duas letras, ainda que não tenha completado a palavra que originalmente pretendia escrever. A questão é a seguinte: qual é a halachá se alguém pretendeu lançar o objeto quatro cúbitos e lançou oito? Dizemos que ele, de fato, carregou o objeto , e é responsável, ou talvez dizemos que, afinal, o objeto não pousou onde ele quis que pousasse, e ele está isento? Mas não é isto precisamente o que Ravina disse a Rav Ashi, como mencionado acima? E Rav Ashi lhe disse, em resposta, que se trata de um caso em que ele disse: "em qualquer lugar que o objeto queira pousar, que repouse".
A Guemará levanta uma nova questão, independente, sobre a intenção no lançamento: é óbvio que quem pretendeu lançar um objeto oito cúbitos, mas na verdade o lançou apenas quatro (talvez por falta de força), é responsável — pois isso é comparável a quem pretendia escrever uma palavra longa, mas escreveu apenas as duas primeiras letras, que por si só formam uma palavra válida e mais curta (como "shem", as duas primeiras letras de "Shimon"): o trabalho proibido de escrever já se consumou com essas duas letras. A dúvida real é o caso inverso: alguém pretende lançar apenas quatro cúbitos, mas o objeto voa mais longe e pousa em oito — nesse caso, ele carregou de fato o objeto pelo ar, mas não exatamente como pretendia. A Guemará observa que essa mesma pergunta já havia sido, na prática, respondida pelo diálogo entre Ravina e Rav Ashi (beat 264): a solução está em dizer que a pessoa formulou sua intenção de modo amplo — "em qualquer lugar que queira, que repouse" — cumprindo-se assim sua intenção onde quer que o objeto efetivamente pouse.
"'E não é isto que Ravina lhe perguntou'" etc., "'e ele lhe disse: quando ele diz'" etc. — pois, se ele não disse isso, não é responsável a menos que o objeto tenha repousado no lugar de sua intenção; assim também, em ambos os casos, ele está isento — tanto faz se pretendeu lançar oito e lançou quatro, tanto faz se pretendeu lançar quatro e lançou oito, está isento. "'Quando ele diz: em qualquer lugar que queira, que repouse'" — e, já que não lhe importa onde, há cumprimento de sua intenção em ambos os casos.
Além disso, o primeiro caso, que parece óbvio, também requer esclarecimento. E quanto ao que disseste, que isto é semelhante ao caso de quem escreveu "shem" , as duas primeiras letras de "Shimon" — será que é de fato semelhante? Ali , no caso de "shem", enquanto não se escreve "shem" não se pode escrever "Shimon"; aqui , onde alguém pretendeu lançar o objeto oito cúbitos e o lançou apenas quatro, enquanto o objeto não foi lançado quatro cúbitos, é que não pode ser lançado oito?!
A Guemará volta e questiona até mesmo o primeiro caso, que parecia óbvio: a comparação entre "pretender lançar oito e lançar apenas quatro" e "pretender escrever 'Shimon' e escrever apenas 'shem'" não é, de fato, exata. No caso da escrita, é logicamente necessário passar pela etapa de escrever "shem" antes de completar "Shimon" — as duas letras "shem" são parte inevitável e sequencial da palavra maior, de modo que escrevê-las já realiza, por si, um ato de escrita válido. Mas, no caso do lançamento, não há necessidade lógica de que um objeto lançado a oito cúbitos "passe" ou "pouse" primeiro nos quatro cúbitos — ele pode percorrer a distância inteira em voo contínuo, sem tocar o chão na metade do caminho. Por isso, a premissa de que "lançar oito" contém necessariamente "lançar quatro" é posta em dúvida, e a folha deixa a questão, ao final, sem resolução explícita.
"'Eis que escreveu "shem" de "Shimon"'" — pois ensinamos adiante, no capítulo HaBoneh (Shabat 103a), que ele é responsável por escrever duas letras, ainda que tenha pretendido realizar um trabalho maior , uma palavra mais longa. "'Esta é a versão correta: e quanto ao que disseste, eis que escreveu "shem" de "Shimon"'" — refere-se a quem pretendeu lançar oito e lançou quatro, caso que lhe parecia óbvio para responsabilização; a Guemará objeta: será que é semelhante? Ali, enquanto não se escreve "shem" não se escreve "Shimon"; por isso, quando escreveu "shem" com intenção, escreveu-o, e realizou um trabalho, pois há nome de pessoa nestas duas letras. "'Aqui, enquanto não lançou quatro'" — para que repouse ao final dos quatro, não se lançam oito para ele, em tom de pergunta retórica; por isso, quando o objeto repousa ao final dos quatro, sua intenção não se cumpriu, e não é semelhante a "shem" de "Shimon". Outra versão: "Disse o Mestre: eis que escreveu 'shem' de 'Shimon', será que é semelhante?" etc. — e é a mesma explicação.
Ensinaram os Sábios numa baraita: quem lança um objeto de via pública a via pública, com propriedade privada no meio, é responsável se o objeto percorrer, ao todo, quatro cúbitos — a frase que se seguiria permanece em aberto ao final desta folha.
A folha 97b fecha em aberto, retomando diretamente o tema com que 97a terminara: uma nova baraita, ensinada pelos Sábios, sobre quem lança um objeto de uma via pública a outra via pública, com uma propriedade privada no meio — o mesmo caso da baraita citada em 97a (beat 253), mas agora formulada de modo independente e com um detalhe técnico novo: a responsabilidade depende de o objeto ter percorrido, ao todo, quatro cúbitos somando as duas partes da via pública (por exemplo, dois cúbitos antes de entrar na propriedade privada, e mais dois depois de sair dela). Rashi confirma essa leitura: é responsável mesmo que os quatro cúbitos se completem por soma das duas partes. A frase é interrompida exatamente neste ponto — o texto hebraico termina com uma vírgula, no meio da oração —, e a formulação completa da baraita, com suas condições e possíveis exceções, deve abrir a folha 98a, ainda não publicada.
"'De via pública a via pública com propriedade privada no meio, quatro cúbitos: é responsável'" — se o objeto percorreu quatro cúbitos na via pública, mesmo que essa distância se complete por soma das duas partes da via pública, é responsável.