Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Alef (HaZorek)
בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ אַתָּה עָתִיד לִיתֵּן אֶת הַדִּין

A conclusão da réplica de Rabi Yehuda ben Beteira, a digressão sobre quem suspeita dos íntegros e a mão leprosa de Moshé, e o retorno à disputa da mishná: lançar de propriedade privada a privada, e de via pública a via pública, pelo meio

Shabbat 97a fecha a discussão sobre a identidade do mekoshesh com a fonte da morte de Tzelofchad segundo Rabi Yehuda ben Beteira e um segundo caso paralelo sobre a lepra de Aharon, digride por quem suspeita dos íntegros e os sinais dados a Moshé no Sinai, e retoma o cerne do Perek Yud-Alef: o dilema de Rabba e uma nova baraita sobre lançar através de um domínio no meio

97a abre retomando a réplica de Rabi Yehuda ben Beteira a Rabi Akiva, do final de 96b: se Rabi Akiva derivou a identidade de Tzelofchad como o mekoshesh por analogia verbal, Rabi Yehuda ben Beteira responde que não recebeu essa mesma analogia de seus mestres — e a Guemará pergunta então de onde ele soube que Tzelofchad morreu, respondendo que foi entre os que, no episódio dos exploradores, "presumiram subir" ao topo do monte. A Guemará cita então um segundo caso, estruturalmente idêntico: Rabi Akiva ensina, por uma leitura do verbo no plural, que também Aharon foi afligido de lepra junto com Miriam, e Rabi Yehuda ben Beteira repete a mesma advertência — de um jeito ou de outro, Akiva prestará contas, por revelar o oculto ou por difamar um justo; uma baraita confirma a opinião de Rabi Akiva. A partir daí a folha digride: Reish Lakish ensina que quem suspeita os íntegros de transgressão é afligido em seu próprio corpo, citando o caso de Moshé, a quem o Eterno anunciou que Israel creria nele antes mesmo que duvidasse; a mão de Moshé ficou leprosa como sinal e sarou instantaneamente, ensinando que a medida do bem chega mais depressa que a medida do castigo; e, por associação de imagens miraculosas do Egito, cita-se o milagre de a vara de Aharon ter engolido as varas dos feiticeiros — milagre dentro de milagre, pois isso ocorreu depois que a vara já havia voltado de sua forma de serpente. A Guemará então retorna ao tema central do perek: a mishná de abertura, que disputa entre Rabi Akiva e os Sábios o caso de lançar de propriedade privada a outra propriedade privada com a via pública no meio. Rabba levanta o dilema sobre se a disputa se dá abaixo ou acima de dez palmos de altura, ligada à questão de saber se um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado, e se se deriva lançar de passar de mão em mão. Rav Yosef traz a resolução de Rav Chisda e Rav Hamnuna a partir de uma baraita, mas essa conclusão discorda de Rabi Elazar e de Rav Chilkiya bar Tovi, cuja tripla divisão (dentro de três palmos, de três a dez, acima de dez) é confirmada por outra baraita — que também esclarece o caso de duas casas de uma mesma pessoa nos dois lados da via pública, e leva a uma pergunta sobre a fonte do princípio de que menos de três palmos é considerado unido (lavud), respondida como lei recebida por tradição. A folha fecha com uma nova baraita, sobre lançar de via pública a via pública com propriedade privada coberta no meio — onde Rabi (Yehuda HaNassi) responsabiliza e os Sábios isentam, com a precisão de Rav e Shmuel de que a propriedade precisa ser coberta, e o ensinamento de que Rabi responsabilizaria por duas ofertas de pecado — e com Rav Chana, sentado, perplexo diante de algo que seu próprio mestre lhe havia ensinado, questão que a folha deixa em aberto.

A conclusão da réplica de Rabi Yehuda ben Beteira · בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ אַתָּה עָתִיד לִיתֵּן אֶת הַדִּין

242A Guemará pergunta se Rabi Yehuda ben Beteira também aprendeu a analogia verbal; ele não a aprendeu — e então, de onde soube da morte de Tzelofchad?
A Guemará
וְאֶלָּא הָא גָּמַר גְּזֵירָה שָׁוָה! גְּזֵירָה שָׁוָה לָא גָּמַר. אֶלָּא מֵהֵיכָא הֲוָה? מִ״וַּיַּעְפִּילוּ״ הֲוָה.

Mas, ora, não deveria Rabi Yehuda ben Beteira concordar, pois Rabi Akiva aprendeu isto por analogia verbal (gezerah shavah), e uma analogia verbal, uma vez recebida, não se refuta? A Guemará responde: essa analogia verbal Rabi Yehuda ben Beteira não aprendeu de seus mestres. Mas então, de onde soube ele que Tzelofchad morreu , se não pelo episódio do mekoshesh? De "e presumiram subir" (Números 14:44), ele morreu — entre os que, após o pecado dos exploradores, presumiram subir ao topo do monte.

Nota

A Guemará questiona por que Rabi Yehuda ben Beteira não aceita a conclusão de Rabi Akiva, já que ela se apoia numa gezerah shavah — um tipo de derivação que, uma vez estabelecida por tradição, normalmente não admite contestação. A resposta é que a própria analogia verbal entre "o deserto" do mekoshesh e "o deserto" da petição das filhas de Tzelofchad não fazia parte da tradição recebida por Rabi Yehuda ben Beteira; ninguém pode formular uma gezerah shavah por conta própria. Isso leva a uma nova pergunta: se não pela morte do mekoshesh, por qual pecado soube Rabi Yehuda ben Beteira que Tzelofchad morreu no deserto? A resposta identifica Tzelofchad entre os que, no rescaldo do pecado dos exploradores, desobedeceram à ordem divina e "presumiram subir" ao topo do monte para entrar em Terra de Israel por conta própria (Números 14:44) — um pecado menos grave que a profanação do Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'ela ha gamar gezeirah shavah", "ela", "meheichan havah" e "miVayaapilu"
ואלא הא גמיר גזירה שוה - וא"כ לא כסתו התורה דהוה ליה כמפורש ומשני רבי יהודה בן בתירא לא גמרה ואין אדם דן ג"ש מעצמו: ואלא - לרבי יהודה: מהיכן הוה - באיזו חטא מת דכתיב כי בחטאו מת: מויעפילו - ויעפילו לעלות וגו' שלא הרשיע כ"כ כחילול שבת:

"'Mas, ora, ele não aprendeu isto por analogia verbal?'" — e, se assim fosse, a Torá não o teria ocultado, pois seria como algo explícito; e a Guemará responde que Rabi Yehuda ben Beteira não aprendeu essa analogia, e ninguém deriva uma analogia verbal por conta própria. "'Mas então'" — refere-se a Rabi Yehuda ben Beteira. "'De onde era'" — por qual pecado Tzelofchad morreu, pois está escrito "por seu pecado morreu" (Números 27:3). "'De "e presumiram subir"'" — "e presumiram subir" etc., pois não pecou tão gravemente quanto profanar o Shabat.

243Um segundo caso análogo: Rabi Akiva ensina que também Aharon ficou leproso; a mesma réplica de Rabi Yehuda ben Beteira; uma baraita confirma Rabi Akiva
Rabi Akiva; Rabi Yehuda ben Beteira; a Guemará; uma baraita
כַּיּוֹצֵא בַּדָּבָר, אַתָּה אוֹמֵר: ״וַיִּחַר אַף ה׳ בָּם וַיֵּלַךְ״ — מְלַמֵּד שֶׁאַף אַהֲרֹן נִצְטָרַע, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתִירָא: עֲקִיבָא, בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ אַתָּה עָתִיד לִיתֵּן אֶת הַדִּין. אִם כִּדְבָרֶיךָ — הַתּוֹרָה כִּסַּתּוּ וְאַתָּה מְגַלֶּה אוֹתוֹ?! וְאִם לָאו — אַתָּה מוֹצִיא לַעַז עַל אוֹתוֹ צַדִּיק. וְאֶלָּא הָכְתִיב ״בָּם״! הַהוּא בִּנְזִיפָה בְּעָלְמָא. תַּנְיָא כְּמַאן דְּאָמַר אַף אַהֲרֹן נִצְטָרַע, דִּכְתִיב: ״וַיִּפֶן אַהֲרֹן אֶל מִרְיָם וְהִנֵּה מְצֹרָעַת״, תָּנָא: שֶׁפָּנָה מִצָּרַעְתּוֹ.

De modo semelhante ao caso anterior, tu dizes: "e a ira do Eterno se acendeu contra eles, e ele se foi" (Números 12:9, a respeito de Miriam e Aharon, que falaram contra Moshé)o texto ensina que também Aharon ficou leproso , e não apenas Miriam — palavras de Rabi Akiva. Disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: Akiva, de um jeito ou de outro, no futuro prestarás contas por isto: se é como dizes, a Torá o ocultou , não mencionando explicitamente a lepra de Aharon, e tu o revelas? E se não é assim, estás difamando aquele justo. Mas, ora, não está escrito "contra eles" , no plural, indicando que ambos foram afligidos? Aquilo , a ira mencionada nesse verso, foi apenas repreensão , sem lepra. Ensinou-se numa baraita conforme quem disse que também Aharon ficou leproso, pois está escrito: "e Aharon se voltou para Miriam, e eis que estava leprosa" (Números 12:10); ensinou-se: que ele se voltou de sua própria lepra , isto é, foi curado dela antes que Miriam se voltasse para ele.

Nota

A Guemará traz um segundo exemplo, estruturalmente paralelo ao primeiro, do mesmo padrão de disputa entre Rabi Akiva e Rabi Yehuda ben Beteira: assim como Rabi Akiva revelou a identidade oculta de Tzelofchad, ele também ensina, a partir da expressão "e a ira do Eterno se acendeu contra eles" — no plural —, que não só Miriam, mas também Aharon foi afligido de lepra por falar contra Moshé, embora o texto bíblico só descreva explicitamente a lepra de Miriam. Rabi Yehuda ben Beteira repete, palavra por palavra, a mesma advertência dada antes sobre Tzelofchad. A Guemará então defende a leitura de Rabi Akiva contra uma objeção — de que "contra eles" poderia referir-se apenas a uma repreensão comum, sem lepra — citando uma baraita que confirma explicitamente que Aharon foi leproso, mas que se curou instantaneamente, antes mesmo que Miriam se voltasse para vê-lo, o que explica por que o versículo relata apenas a lepra dela.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shepanah mitzaraato"
שפנה מצרעתו - קדם ונתרפא:

"'Que se voltou de sua lepra'" — Aharon se antecipou e foi curado antes que Miriam olhasse para ele.

Quem suspeita dos íntegros; a mão leprosa de Moshé; a vara de Aharon · הַחוֹשֵׁד בִּכְשֵׁרִים לוֹקֶה בְּגוּפוֹ

244Reish Lakish: quem suspeita dos íntegros é afligido em seu próprio corpo — a mão leprosa de Moshé, e as provas de que Israel eram crentes
Reish Lakish
אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: הַחוֹשֵׁד בִּכְשֵׁרִים — לוֹקֶה בְּגוּפוֹ, דִּכְתִיב: ״וְהֵן לֹא יַאֲמִינוּ לִי וְגוֹ׳״, וְגַלְיָא קַמֵּי קוּדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא דִּמְהֵימְנִי יִשְׂרָאֵל. אָמַר לוֹ: הֵן מַאֲמִינִים בְּנֵי מַאֲמִינִים, וְאַתָּה אֵין סוֹפְךָ לְהַאֲמִין. הֵן מַאֲמִינִים, דִּכְתִיב: ״וַיַּאֲמֵן הָעָם״. בְּנֵי מַאֲמִינִים — ״וְהֶאֱמִין בַּייָ״. אַתָּה אֵין סוֹפְךָ לְהַאֲמִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יַעַן לֹא הֶאֱמַנְתֶּם בִּי וְגוֹ׳״. מִמַּאי דִּלְקָה, דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר ה׳ לוֹ עוֹד הָבֵא נָא יָדְךָ בְּחֵיקֶךָ וְגוֹ׳״.

Disse Reish Lakish: quem suspeita dos íntegros de transgressão é afligido em seu próprio corpo, pois está escrito: "e eles não crerão em mim" etc. (Êxodo 4:1, quando Moshé duvidou de que Israel acreditaria em sua missão), e estava revelado diante do Santo, Bendito Seja, que Israel creria. Disse-lhe: eles são crentes, filhos de crentes, e tu, ao final, não crerás (alusão à futura falta de fé de Moshé em Números 20:12). "Eles são crentes" — pois está escrito: "e o povo creu" (Êxodo 4:31). "Filhos de crentes" — como se diz de Avraham, nosso patriarca: "e ele creu no Eterno" (Gênesis 15:6). "Tu, ao final, não crerás" — como está dito: "porque não crestes em mim" etc. (Números 20:12). De onde sabemos que Moshé foi afligido em seu corpo? Pois está escrito: "e disse o Eterno a ele ainda: traze agora tua mão a teu seio" etc. (Êxodo 4:6).

Nota

A Guemará, por associação temática com a lepra de Miriam e Aharon, cita o ensinamento de Reish Lakish sobre a lepra da própria mão de Moshé no Sinai — sinal dado para convencer Israel de sua missão. Reish Lakish lê esse episódio como punição: quando Moshé disse a Deus "eles não crerão em mim", ele suspeitou, sem razão, que Israel duvidaria dele — e Deus já sabia que Israel creria. Por essa suspeita injusta, Moshé foi afligido com lepra na própria mão. A réplica divina — "eles são crentes, filhos de crentes, e tu, ao final, não crerás" — é apoiada por versículos: o povo creu de fato ao ouvir a mensagem de Moshé (Êxodo 4:31), são filhos de Avraham, que creu no Eterno (Gênesis 15:6), e o próprio Moshé, anos depois, de fato falharia em confiar em Deus junto às Águas de Meriva (Números 20:12).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vehinei yado metzora'at" e "vayotzi'ah vehinei yado"
והנה ידו מצורעת - היינו לוקה בגופו: ויוציאה והנה ידו - אחר היציאה מצורעת כשלג ובמדה טובה כתיב מחיקו והנה שבה:

"'E eis que sua mão estava leprosa'" — isto é, "afligido em seu corpo". "'E a tirou, e eis que sua mão'" — depois da saída do seio estava leprosa como a neve; e quanto à medida do bem está escrito "de seu seio, e eis que retornou" , já curada dentro do próprio seio.

245Rava (ou Rabi Yosei bar Chanina): a medida do bem chega mais depressa que a medida do castigo
Rava, ou Rabi Yosei bar Rabi Chanina
אָמַר רָבָא, וְאִיתֵּימָא רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: מִדָּה טוֹבָה מְמַהֶרֶת לָבֹא מִמִּדַּת פּוּרְעָנוּת. דְּאִילּוּ בְּמִדַּת פּוּרְעָנוּת כְּתִיב: ״וַיּוֹצִיאָהּ וְהִנֵּה יָדוֹ מְצֹרַעַת כַּשָּׁלֶג״, וְאִילּוּ בְּמִדָּה טוֹבָה כְּתִיב: ״וַיּוֹצִיאָהּ מֵחֵיקוֹ וְהִנֵּה שָׁבָה כִּבְשָׂרוֹ״ — מֵחֵיקוֹ הוּא דְּשָׁבָה כִּבְשָׂרוֹ.

Disse Rava, e alguns dizem que foi Rabi Yosei filho de Rabi Chanina: a medida do bem vem mais depressa a se manifestar que a medida do castigo. Pois, quanto à medida do castigo, está escrito: "e a tirou, e eis que sua mão estava leprosa como a neve" (Êxodo 4:6); e quanto à medida do bem, está escrito: "e a tirou de seu seio, e eis que havia retornado como sua própria carne" (Êxodo 4:7) — já "de seu seio" ela havia retornado como sua própria carne, antes mesmo de ser tirada por completo.

Nota

A comparação entre os dois versículos revela uma assimetria deliberada: quando a mão de Moshé ficou leprosa, o texto descreve a aflição somente depois que ela já havia sido totalmente retirada do seio ("e a tirou, e eis que..."); mas, quando foi curada, o texto já a descreve como restaurada "de seu seio" — isto é, ainda dentro dele, antes de ser completamente retirada. Essa diferença textual sutil ensina que a cura divina se antecipa e age mais rapidamente do que o castigo.

246Rabi Elazar: a vara de Aharon engolindo as varas dos feiticeiros foi milagre dentro de milagre
Rabi Elazar
״וַיִּבְלַע מַטֵּה אַהֲרֹן אֶת מַטֹּתָם״, אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: נֵס בְּתוֹךְ נֵס.

"E a vara de Aharon engoliu as varas deles" (Êxodo 7:12, depois que as varas dos feiticeiros do Egito, transformadas em serpentes, foram engolidas pela serpente em que se transformara a vara de Aharon) — disse Rabi Elazar: foi milagre dentro de milagre.

Nota

Por associação com os sinais miraculosos dados a Moshé no Egito, a Guemará cita este breve ensinamento de Rabi Elazar sobre outro milagre daquele episódio: o versículo diz explicitamente que foi "a vara de Aharon" — já não mais a serpente — que engoliu as varas dos demais, ainda transformadas em serpentes. Isso implica que, entre o momento em que a vara de Aharon voltou a sua forma original e o momento em que engoliu as demais, ocorreu um segundo milagre dentro do primeiro: a vara, já sem ser serpente, foi capaz de "engolir" objetos sólidos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "nes betoch nes"
נס בתוך נס - לאחר שחזר ונעשה מטה בלען ולא כשהוא תנין דלא כתיב ויבלע תנין אהרן:

"'Milagre dentro de milagre'" — depois que a serpente voltou a se tornar vara, ela engoliu as demais, e não enquanto era serpente, pois não está escrito "e a serpente de Aharon engoliu".

Retomando a mishná: de propriedade privada a privada, pela via pública · מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הַיָּחִיד

247A Guemará retorna ao caso central da mishná de abertura: de propriedade privada a outra propriedade privada
A Guemará (citando a mishná)
מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הַיָּחִיד.

Encerrada a digressão, a Guemará retoma o caso da mishná de abertura do perek (96a): de propriedade privada para outra propriedade privada , com a via pública entre as duas — onde Rabi Akiva responsabiliza, como quem lançou de propriedade privada para propriedade pública, e os Sábios isentam.

Nota

Com esta breve citação, a Guemará sinaliza que retorna ao ponto exato onde a mishná de abertura do Perek Yud-Alah (citada em 96a) havia deixado em aberto: a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios sobre quem lança um objeto de uma propriedade privada para outra propriedade privada, cruzando a via pública que as separa. Toda a digressão sobre a fonte de carregar para fora e para dentro, a fonte de lançar quatro cúbitos na via pública, e a identidade do mekoshesh (96b–97a) havia se afastado desse caso central; agora a Guemará volta a examiná-lo diretamente.

248O dilema de Rabba: discordam quanto ao caso abaixo de dez palmos, ou quanto ao caso acima de dez palmos?
Rabba
בָּעֵי רַבָּה: לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה פְּלִיגִי, וּבְהָא פְּלִיגִי — דְּמָר סָבַר אָמְרִינַן קְלוּטָה כְּמָה שֶׁהוּנְּחָה, וּמָר סָבַר לָא אָמְרִינַן קְלוּטָה כְּמָה שֶׁהוּנְּחָה. אֲבָל לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה — דִּבְרֵי הַכֹּל פָּטוּר, וְלָא יָלְפִינַן זוֹרֵק מִמּוֹשִׁיט. אוֹ דִילְמָא: לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה פְּלִיגִי, וּבְהָא פְּלִיגִי — דְּמָר סָבַר יָלְפִינַן זוֹרֵק מִמּוֹשִׁיט, וּמָר סָבַר לָא יָלְפִינַן זוֹרֵק מִמּוֹשִׁיט. אֲבָל לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה — דִּבְרֵי הַכֹּל חַיָּיב, מַאי טַעְמָא? — קְלוּטָה כְּמָה שֶׁהוּנְּחָה דָּמְיָא.

Indagou Rabba: será que discordam quanto ao caso em que o objeto atravessou a via pública abaixo de dez palmos de altura, e é quanto a isto que discordam — pois este mestre (Rabi Akiva) entende que dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado onde foi capturado, e este mestre (os Sábios) entende que não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado? Mas acima de dez palmos, segundo todos, ele está isento, e não derivamos a lei de lançar a partir da lei de passar de mão em mão. Ou talvez: discordam quanto ao caso em que o objeto atravessou a via pública acima de dez palmos, e é quanto a isto que discordam — pois este mestre (Rabi Akiva) entende que derivamos a lei de lançar a partir da lei de passar de mão em mão, e este mestre (os Sábios) entende que não derivamos a lei de lançar a partir da lei de passar de mão em mão. Mas abaixo de dez palmos, segundo todos, é responsável — qual a razão? Um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado.

Nota

Rabba propõe um dilema sobre o ponto exato da disputa: por um lado, poderia ser que Rabi Akiva e os Sábios discordem apenas quando o objeto lançado passa abaixo de dez palmos de altura — o limite que separa a via pública de cima do espaço aéreo isento — e a discordância giraria em torno do princípio de que um objeto "capturado" em pleno voo é tratado como se tivesse efetivamente repousado ali; acima de dez palmos, todos concordariam que se está isento, pois não se deriva o lançamento (movimento pelo ar) do transporte de mão em mão (como fizeram os levitas, carregando a Arca acima de dez palmos entre duas propriedades privadas). Por outro lado, poderia ser o oposto: a discordância se daria justamente acima de dez palmos, sobre se é válido derivar a lei do lançamento a partir da lei de passar de mão em mão; abaixo de dez palmos, todos concordariam que há responsabilidade, pela regra de que um objeto no ar é tratado como pousado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "velo yalfinan zorek mimoshit" e "o dilema ao contrário"
ולא ילפינן זורק ממושיט - שהיה בעבודת הלוים למעלה מעשרה מרשות היחיד לרשות היחיד ורשות הרבים באמצע וסיפא דקתני הזורק פטור והמושיט חייב דברי הכל היא: או דילמא למעלה מי' פליגי - ומשום הכי פליגי ופטרי רבנן דאין כאן אויר רה"ר וזורק ממושיט לא ילפינן ורבי עקיבא יליף וסיפא רבנן קאמרי לה:

"'E não derivamos lançar de passar de mão em mão'" — pois, no serviço dos levitas, o transporte se dava acima de dez palmos, de propriedade privada a propriedade privada com a via pública ao centro; e o final da mishná, que ensina que quem lança está isento e quem passa de mão em mão é responsável, é opinião de todos. "'Ou talvez discordem acima de dez'" — e por isso discordam, e os Sábios isentam, pois ali não há espaço aéreo da via pública, e não derivamos lançar de passar; e Rabi Akiva deriva, e o final da mishná são os Sábios que o dizem.

249Rav Yosef traz a resolução de Rav Chisda e Rav Hamnuna a partir de uma baraita; a conclusão discorda de Rabi Elazar
Rav Yosef; Rav Chisda; Rav Hamnuna; Rabi Elazar
אָמַר רַב יוֹסֵף: הָא מִילְּתָא אִיבַּעְיָא לֵיהּ לְרַב חִסְדָּא, וּפַשְׁטַהּ נִיהֲלֵיהּ רַב הַמְנוּנָא מֵהָא: מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הַיָּחִיד וְעוֹבֵר בִּרְשׁוּת הָרַבִּים עַצְמָהּ — רַבִּי עֲקִיבָא מְחַיֵּיב, וַחֲכָמִים פּוֹטְרִים. מִדְּקָאָמַר ״בִּרְשׁוּת הָרַבִּים עַצְמָהּ״, פְּשִׁיטָא לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה פְּלִיגִי. וּבְמַאי? אִילֵימָא בְּמַעֲבִיר, לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה — הוּא דִּמְחַיֵּיב, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה — לָא מְחַיֵּיב? וְהָאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: הַמּוֹצִיא מַשּׂוֹי לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה — חַיָּיב, שֶׁכֵּן מַשָּׂא בְּנֵי קְהָת. אֶלָּא לָאו בְּזוֹרֵק, וּלְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה הוּא דִּמְחַיֵּיב, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה — לָא מְחַיֵּיב, שְׁמַע מִינַּהּ בִּקְלוּטָה כְּמָה שֶׁהוּנְּחָה פְּלִיגִי. שְׁמַע מִינַּהּ. וּפְלִיגָא דְּרַבִּי אֶלְעָזָר. דְּאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מְחַיֵּיב הָיָה רַבִּי עֲקִיבָא אֲפִילּוּ לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה, וְהַאי דְּקָתָנֵי ״רְשׁוּת הָרַבִּים עַצְמָהּ״ — לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחָן דְּרַבָּנַן.

Disse Rav Yosef: esta questão foi indagada por Rav Chisda, e Rav Hamnuna a resolveu para ele a partir disto , de uma baraita: de propriedade privada para propriedade privada, passando pela própria via pública — Rabi Akiva responsabiliza, e os Sábios isentam. Do fato de a baraita dizer "pela própria via pública", é evidente que discordam quanto ao caso em que o objeto passou abaixo de dez palmos. E a respeito de quê fala esta baraita? Se dissermos que trata de quem passa o objeto segurando-o na mão, seria dizer que abaixo de dez palmos é que responsabiliza, e acima de dez palmos não responsabiliza? Mas não disse Rabi Elazar: quem carrega para fora uma carga acima de dez palmos é responsável, pois assim era a carga dos filhos de Kehat , que carregavam a Arca acima de dez palmos? Antes, não se trata senão de quem lança, e é abaixo de dez palmos que responsabiliza, e acima de dez palmos não responsabiliza — daí se aprende que discordam quanto a se um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado. Conclui-se que daí se aprende. E isto discorda de Rabi Elazar, pois disse Rabi Elazar: Rabi Akiva responsabilizava mesmo acima de dez palmos, e isto que se ensinou "pela própria via pública" é para te ensinar o alcance da opinião dos Sábios , que isentam mesmo dentro da própria via pública, e tanto mais acima de dez palmos.

Nota

Rav Yosef relata que Rav Hamnuna resolveu o dilema de Rav Chisda — formulado nos mesmos termos do dilema de Rabba — a partir de uma baraita que especifica que o objeto passa "pela própria via pública", o que só faz sentido se a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios se referir ao caso abaixo de dez palmos. A Guemará então examina se essa baraita trata de alguém que transporta o objeto segurando-o na mão (caso em que, segundo Rabi Elazar, há responsabilidade mesmo acima de dez palmos, como a carga dos levitas) ou de alguém que o lança pelo ar — concluindo que só pode tratar de lançamento, confirmando que a disputa gira em torno do princípio de que um objeto capturado no ar é considerado pousado. Essa conclusão, porém, contradiz diretamente uma tradição de Rabi Elazar, segundo a qual Rabi Akiva responsabilizava mesmo quando o objeto passava acima de dez palmos — de modo que a menção a "a própria via pública" na baraita não indicaria o ponto da disputa, mas apenas o alcance surpreendente da isenção dos Sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'over", "veha amar Rabi Elazar", "ela lav bezorek" e "lemalah me'asarah"
ועובר גרסינן מרה"י לרה"י ועובר ברשות הרבים עצמה - ולא גרסינן ברישא הזורק: והא אמר ר' אלעזר - בהמצניע ויליף ממשא בני קהת דארון: אלא לאו בזורק - מיירי מתניתא כי מתניתין וקתני בברייתא עצמה ובהא הוא דמחייב ר' עקיבא משום דנקלטה באוירו של רה"ר: למעלה מעשרה - דיליף זורק ממושיט:

"'E passa'" — lemos assim: "de propriedade privada para propriedade privada, e passa pela própria via pública" — e não lemos, no início, "quem lança". "'Mas não disse Rabi Elazar'" — no capítulo HaMatznia, e ele o deriva da carga dos filhos de Kehat, que carregavam a Arca. "'Antes, não se trata senão de quem lança'" — a baraita fala como a mishná, e ensina, na própria baraita, que é quanto a isto que Rabi Akiva responsabiliza, porque o objeto foi capturado no espaço aéreo da via pública. "'Acima de dez'" — pois Rabi Akiva deriva lançar de passar de mão em mão.

250Rav Chilkiya bar Tovi: a tripla divisão — dentro de três palmos, de três a dez, acima de dez; uma baraita confirma, e acrescenta a exceção de propriedades comuns
Rav Chilkiya bar Tovi; uma baraita
וּפְלִיגָא דְּרַב חִלְקִיָּה בַּר טוֹבִי, דַּאֲמַר רַב חִלְקִיָּה בַּר טוֹבִי: תּוֹךְ שְׁלֹשָׁה — דִּבְרֵי הַכֹּל חַיָּיב. לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה — דִּבְרֵי הַכֹּל פָּטוּר. מִשְּׁלֹשָׁה וְעַד עֲשָׂרָה — בָּאנוּ לְמַחְלוֹקֶת רַבִּי עֲקִיבָא וְרַבָּנַן. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: בְּתוֹךְ שְׁלֹשָׁה — דִּבְרֵי הַכֹּל חַיָּיב, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה — אֵינוֹ אֶלָּא מִשּׁוּם שְׁבוּת. וְאִם הָיוּ רְשׁוּיוֹת שֶׁלּוֹ — מוּתָּר. מִשְּׁלֹשָׁה וְעַד עֲשָׂרָה — רַבִּי עֲקִיבָא מְחַיֵּיב וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין.

E isto discorda de Rav Chilkiya bar Tovi, pois disse Rav Chilkiya bar Tovi: dentro de três palmos do chão, segundo todos, é responsável; acima de dez palmos, segundo todos, está isento; de três até dez, chegamos à disputa entre Rabi Akiva e os Sábios. Ensinou-se também assim , numa baraita: dentro de três palmos, segundo todos, é responsável; acima de dez palmos, não é senão proibição por decreto rabínico; e se as duas propriedades eram suas , do mesmo dono, é permitido. De três até dez, Rabi Akiva responsabiliza, e os Sábios isentam.

Nota

Rav Chilkiya bar Tovi propõe uma terceira leitura da disputa, mais matizada: dentro de três palmos do chão, o objeto é considerado como tendo pousado por unanimidade (pelo princípio de lavud, "unido"); acima de dez palmos, todos concordam que está isento; a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios se restringe à faixa intermediária, entre três e dez palmos. Uma baraita confirma exatamente essa tripla divisão, acrescentando que, acima de dez palmos, mesmo os que responsabilizam o fazem apenas por proibição rabínica (não bíblica), e que essa proibição não se aplica quando as duas propriedades privadas pertencem à mesma pessoa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ufeliga deRav Chilkiya", "tokh shlosha divrei hakol chayav", "patur", "banu lemachloket", "mishum shevut" e "im hayu"
ופליגא דרב חלקיה - הא דר' אלעזר: תוך שלשה דברי הכל חייב - ואע"ג דלא נח מודו דכמונח דמי: פטור - דלא ילפינן זורק ממושיט: באנו למחלוקת - ובקלוטה כמה שהונחה: משום שבות - שזרק מרשותו לרשות חבירו ולאו משום הפסק רה"ר דהוא הדין נמי אם היתה אצלו עד שיערבו: ואם היו - שתיהן הרשויות שלו מותר לכתחילה:

"'E isto discorda de Rav Chilkiya'" — discorda da opinião de Rabi Elazar. "'Dentro de três, segundo todos, é responsável'" — e, embora o objeto não tenha repousado de fato, concordam que é considerado como repousado. "'Isento'" — pois não derivamos lançar de passar. "'Chegamos à disputa'" — e a discussão gira em torno de se um objeto capturado no ar é considerado como tendo repousado. "'Por decreto rabínico'" — pois lançou de sua propriedade para a de seu companheiro, e não por causa da interrupção da via pública, pois a mesma lei se aplicaria mesmo se as duas propriedades estivessem lado a lado, até que fizessem eiruv. "'E se eram'" — as duas propriedades dele, é permitido de antemão.

251Objeção: essa exceção de propriedades comuns refutaria a opinião de Rav sobre duas casas nos dois lados da via pública; resposta: o caso de Rav é de alturas diferentes
A Guemará
אָמַר מָר: אִם הָיוּ רְשׁוּיוֹת שֶׁלּוֹ — מוּתָּר. לֵימָא תִּהְוֵי תְּיוּבְתֵּיהּ דְּרַב, דְּאִיתְּמַר: שְׁנֵי בָתִּים בִּשְׁנֵי צִדֵּי רְשׁוּת הָרַבִּים, רַבָּה בַּר רַב הוּנָא אָמַר רַב: אָסוּר לִזְרוֹק מִזֶּה לָזֶה. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: מוּתָּר לִזְרוֹק מִזֶּה לָזֶה. וְלָאו מִי אוֹקִימְנָא לְהַהִיא כְּגוֹן דְּמִידְּלֵי חַד וּמִתַּתֵּי חַד — דְּזִימְנִין נָפֵל, וְאָתֵי לְאֵתוּיֵי.

Disse o Mestre na baraita citada acima: se as duas propriedades eram suas, é permitido. Digamos que isto seja uma refutação conclusiva de Rav, pois foi dito: duas casas em dois lados da via pública , ambas do mesmo dono — Rabá bar Rav Huna disse, em nome de Rav: é proibido lançar de uma para a outra; e Shmuel disse: é permitido lançar de uma para a outra. A Guemará responde: e não estabelecemos já aquilo , a opinião de Rav, referindo-se a um caso em que uma casa estava elevada e a outra baixa — pois às vezes o objeto cai na via pública, e a pessoa vem a trazê-lo de lá, violando a Torá?

Nota

A baraita citada no beat anterior afirma que, quando ambas as propriedades pertencem à mesma pessoa, lançar entre elas é permitido mesmo acima de dez palmos. A Guemará observa que isso pareceria contradizer a opinião de Rav, que proibiu lançar entre duas casas do mesmo dono situadas nos dois lados da via pública — Shmuel, em contraste, permitia. A resposta restaura a harmonia: a proibição de Rav não se referia ao caso geral, mas especificamente a quando as duas casas têm alturas diferentes, uma elevada e outra baixa, situação em que há risco real de o objeto cair na via pública no meio do trajeto, levando a pessoa a descer e recolhê-lo dali — o que constituiria uma transgressão de carregar da via pública para o domínio privado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "assur lizrok mizeh lazeh", "lav mi okimna" e "demidlei chad umitatei chad"
אסור לזרוק מזה לזה - ואפילו הן שלו דאי משלו לשל חבירו לא הוה שרי שמואל: לאו מי אוקימנא - בעירובין: דמדלי חד ומתתי חד - דמתוך כך צריך לאמן ידו מגבוה לנמוך או מנמוך לגבוה טריד בה ודילמא לא זריק על הגג ונופל לרה"ר ואתי לאתויי ולהכי נקט ואתי לאתויי דאילו משום נפילת רה"ר ליכא חיוב חטאת דמתעסק הוא אצל הוצאה דלא נתכוון לזרוק לרה"ר:

"'É proibido lançar de uma para a outra'" — mesmo que sejam suas, pois se Shmuel a permitisse apenas quando ambas fossem da mesma pessoa, não teria permitido também quando fossem da sua para a do companheiro. "'Não estabelecemos já'" — em Massechet Eiruvin. "'Que uma estava elevada e a outra baixa'" — pois, por causa disso, a pessoa precisa firmar a mão, do alto para o baixo ou do baixo para o alto, e se distrai com isso, e talvez não lance certeiramente sobre o telhado, e o objeto caia na via pública, e a pessoa venha a trazê-lo; e por isso a Guemará menciona "venha a trazê-lo", pois pela própria queda na via pública não há responsabilidade de oferta de pecado, sendo a pessoa, quanto a carregar para fora, um mero ocupado sem intenção, já que não teve a intenção de lançar na via pública.

252De onde se deriva o princípio de lavud (menos de três palmos é unido)? Objeção da lei da suká; conclusão: lei recebida por tradição
Rav Chisda; Rav Hamnuna; a Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב חִסְדָּא לְרַב הַמְנוּנָא, וְאָמְרִי לַהּ רַב הַמְנוּנָא לְרַב חִסְדָּא: מְנָא הָא מִילְּתָא דַאֲמוּר רַבָּנַן: כׇּל פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה — כְּלָבוּד דָּמֵי? אֲמַר לֵיהּ: לְפִי שֶׁאִי אֶפְשָׁר לָהּ לִרְשׁוּת הָרַבִּים שֶׁתִּילָּקֵט בְּמַלְקֵט וּבְרָהִיטָנֵי. אִי הָכִי, שְׁלֹשָׁה נָמֵי? וְתוּ, הָא דִּתְנַן: הַמְשַׁלְשֵׁל דְּפָנוֹת מִלְּמַעְלָה לְמַטָּה, אִם הֵן גְּבוֹהִין מִן הָאָרֶץ שְׁלֹשָׁה טְפָחִים — פְּסוּלָה. הָא פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה — כְּשֵׁרָה. הָתָם הַיְינוּ טַעְמָא, מִשּׁוּם דְּהָוְיָא לַהּ מְחִיצָה שֶׁהַגְּדָיִים בּוֹקְעִין בָּהּ. תִּינַח לְמַטָּה, לְמַעְלָה מַאי אִיכָּא לְמֵימַר? אֶלָּא כׇּל פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה כְּלָבוּד דָּמֵי — הִלְכְתָא גְּמִירִי לַהּ.

Disse Rav Chisda a Rav Hamnuna, e alguns dizem que foi Rav Hamnuna quem disse a Rav Chisda: de onde se deriva este assunto que disseram os Sábios, que tudo o que é menos de três palmos de altura é considerado como unido (lavud)? Disse-lhe: porque é impossível que a via pública seja nivelada com raspador e plaina. Se assim, três palmos exatos também deveriam ser considerados unidos! E mais: há uma objeção a partir daquilo que ensinamos: quem desce paredes de uma suká, tecendo-as de cima para baixo — se estão a três palmos do chão, a suká é inválida; logo, menos de três palmos, é válida , e ali a razão não pode ser a irregularidade do solo. Ali , na lei da suká, a razão é porque o espaço vazio seria uma partição pela qual cabritos poderiam passar. Isso funciona bem embaixo , junto ao chão; acima , quando o espaço vazio está junto ao teto, o que se pode dizer , já que ali não há passagem de cabritos? Antes, a resposta é que tudo o que é menos de três palmos é considerado unido — isso é lei recebida por tradição , transmitida a Moshé no Sinai, e não se deriva de raciocínio algum.

Nota

Rav Chisda pergunta a Rav Hamnuna (ou vice-versa) qual a fonte do princípio de lavud, segundo o qual qualquer distância menor que três palmos é tratada como se as duas partes estivessem unidas. A primeira resposta proposta — que a via pública nunca é perfeitamente nivelada, de modo que pequenas saliências e depressões no solo já fazem parte dela — é rejeitada por duas objeções: primeiro, por que o limite é exatamente três palmos, e não também objetos separados por exatamente três; segundo, e mais decisivo, a lei da suká estabelece o mesmo limite de três palmos para as paredes descidas do teto, mas ali a razão dada é completamente diferente (o risco de cabritos passarem por baixo da parede) — uma razão que não se aplica quando o espaço vazio está junto ao teto, e ainda assim o mesmo limite de três palmos vale ali também. A Guemará conclui, portanto, que o princípio de lavud não tem explicação racional unificada, mas é uma halachá recebida por tradição desde o Sinai.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kelavud dami", "amar leih", "lefi she'i efshar", "hamshalshel", "im gvohin min ha'aretz" e "tinach lematah"
כלבוד דמי - דרשות שאינו גבוה ג' בטל אצל רה"ר: אמר ליה - סברא היא: לפי שאי אפשר - להחליק רה"ר מגבשושית כאילו נלקטו במלקט ורהיטני פלי"ינה (מקצועה) בלע"ז והן בשני גווני כלים של עץ וברזל חד נעוץ בתוכו ובהן משוה פני רוחב הקרש ומחליקה הלכך גבשושיות נמי רה"ר: המשלשל - מתחיל לארוג דופני הסוכה בערב כלפי מעלה ומשלשל ובא כלפי מטה: אם גבוהות מן הארץ ג' טפחים פסולה הא פחות מג' כשרה - דאמרינן לבוד כמי שנכפף עליהן ונשלמו עד למטה: תינח למטה למעלה מאי איכא למימר - למעלה היכא דאמרינן לבוד למעלה בכמה דוכתין כגון מקיפין ג' חבלים דעירובין (דף טז:) וכגון שהרחיק את הסיכוך מן הדפנות ג' טפחים פסולה (סוכה דף יז.):

"'É considerado como unido'" — pois uma propriedade que não tem três palmos de altura anula-se perante a via pública. "'Disse-lhe'" — é mero raciocínio. "'Porque é impossível'" — nivelar a via pública de suas saliências, como se fossem removidas com raspador e plaina — em francês antigo, "rahitani" — instrumentos de madeira e ferro, com uma lâmina afiada cravada dentro, com os quais se alisa a face da largura da tábua; portanto, também as saliências fazem parte da via pública. "'Quem desce'" — começa a tecer as paredes da suká na trama, de baixo para cima, e vai descendo até embaixo. "'Se estão a três palmos do chão é inválida; logo, menos de três, é válida'" — pois dizemos que o espaço vazio é considerado unido, como se a parede se dobrasse sobre ele e se completasse até embaixo. "'Isso funciona bem embaixo; acima, o que se pode dizer?'" — refere-se a acima, onde dizemos "unido" referindo-se ao topo em vários lugares, como na lei de cercar com três cordas (Eiruvin 16b), e como quando se afasta a cobertura das paredes três palmos, caso em que a suká é inválida (Suká 17a).

Nova baraita: de via pública a via pública, com propriedade privada no meio · מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הָרַבִּים וּרְשׁוּת הַיָּחִיד בָּאֶמְצַע

253Baraita: de via pública a via pública, com propriedade privada coberta no meio — Rabi responsabiliza, os Sábios isentam; Rabi responsabilizaria por duas ofertas
Uma baraita; Rav e Shmuel; Rav Chana em nome de Rav Yehuda em nome de Shmuel
תָּנוּ רַבָּנַן: מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הָרַבִּים וּרְשׁוּת הַיָּחִיד בָּאֶמְצַע — רַבִּי מְחַיֵּיב, וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין. רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: לֹא חִיֵּיב רַבִּי אֶלָּא בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד מְקוֹרֶה, דְּאָמְרִינַן בֵּיתָא כְּמַאן דְּמַלְיָא דָּמֵי, אֲבָל שֶׁאֵינוֹ מְקוֹרֶה לָא. אָמַר רַב חָנָא אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: מְחַיֵּיב הָיָה רַבִּי שְׁתַּיִם — אַחַת מִשּׁוּם הוֹצָאָה, וְאַחַת מִשּׁוּם הַכְנָסָה.

Ensinaram os Sábios numa baraita: de propriedade pública para outra propriedade pública, com propriedade privada no meio — Rabi (Yehuda HaNassi) responsabiliza, e os Sábios isentam. Rav e Shmuel, ambos disseram: Rabi não responsabilizou senão quando a propriedade privada do meio é coberta, pois dizemos que a casa é considerada como cheia , e o objeto que a atravessa é tratado como se tivesse repousado sobre algo sólido; mas se não é coberta, não responsabiliza. Disse Rav Chana, disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Rabi responsabilizaria por duas ofertas de pecado — uma por carregar para fora , da primeira via pública para a propriedade privada, e uma por carregar para dentro , da propriedade privada para a segunda via pública.

Nota

Uma nova baraita apresenta o caso inverso do que vinha sendo discutido: em vez de lançar de propriedade privada a privada com a via pública no meio, trata-se de lançar de uma via pública a outra via pública, com uma propriedade privada entre elas. Aqui, Rabi Yehuda HaNassi (chamado simplesmente "Rabi") responsabiliza, e os Sábios isentam — a posição inversa daquela atribuída a Rabi Akiva e aos Sábios no caso anterior. Rav e Shmuel limitam a responsabilização de Rabi ao caso em que a propriedade privada do meio é coberta por um teto, pois só então ela é tratada como um espaço "cheio" e sólido, capaz de servir de ponto de pouso real ao objeto; sem cobertura, mesmo Rabi concordaria com a isenção. Por fim, ensina-se que, segundo Rabi, quem realiza esse lançamento seria responsável por duas ofertas de pecado distintas — uma pelo ato de carregar para fora da primeira via pública, e outra pelo ato de carregar para dentro da segunda.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kemaan demalei" e "aval she'eino mekoreh"
כמאן דמלי - מתוך שהוא חושך ומלא הבלא: אבל שאינו מקורה - כגון חצר:

"'Como se estivesse cheia'" — pois o ambiente coberto é escuro e cheio de calor abafado. "'Mas se não é coberta'" — como, por exemplo, um pátio aberto.

254Rav Chana, sentado, encontra dificuldade naquilo que seu próprio mestre lhe havia ensinado
Rav Chana
יָתֵיב רַב חָנָא וְקָא קַשְׁיָא לֵיהּ:

Sentava-se Rav Chana, e isto lhe era difícil — a questão que se seguiria permanece em aberto ao final desta folha.

Nota — a folha termina aqui

A folha 97a fecha em aberto: Rav Chana está sentado, refletindo, e algo naquilo que ele próprio havia transmitido em nome de seu mestre Rav Yehuda — o ensinamento de que Rabi responsabilizaria por duas ofertas de pecado no caso de via pública a via pública com propriedade privada coberta no meio — lhe parece difícil. Rashi explica que a dificuldade se refere a algo que seu próprio mestre lhe ensinou. O texto não revela ainda qual é essa dificuldade; confirmado via Sefaria, a formulação exata do problema de Rav Chana, e sua resolução, devem abrir a folha 97b, ainda não publicada — dando continuidade direta a este ensinamento sobre as duas ofertas de pecado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vekashya leih"
וקא קשיא ליה - בהא דאגמריה רביה:

"'E isto lhe era difícil'" — quanto àquilo que seu mestre lhe ensinou.