97a abre retomando a réplica de Rabi Yehuda ben Beteira a Rabi Akiva, do final de 96b: se Rabi Akiva derivou a identidade de Tzelofchad como o mekoshesh por analogia verbal, Rabi Yehuda ben Beteira responde que não recebeu essa mesma analogia de seus mestres — e a Guemará pergunta então de onde ele soube que Tzelofchad morreu, respondendo que foi entre os que, no episódio dos exploradores, "presumiram subir" ao topo do monte. A Guemará cita então um segundo caso, estruturalmente idêntico: Rabi Akiva ensina, por uma leitura do verbo no plural, que também Aharon foi afligido de lepra junto com Miriam, e Rabi Yehuda ben Beteira repete a mesma advertência — de um jeito ou de outro, Akiva prestará contas, por revelar o oculto ou por difamar um justo; uma baraita confirma a opinião de Rabi Akiva. A partir daí a folha digride: Reish Lakish ensina que quem suspeita os íntegros de transgressão é afligido em seu próprio corpo, citando o caso de Moshé, a quem o Eterno anunciou que Israel creria nele antes mesmo que duvidasse; a mão de Moshé ficou leprosa como sinal e sarou instantaneamente, ensinando que a medida do bem chega mais depressa que a medida do castigo; e, por associação de imagens miraculosas do Egito, cita-se o milagre de a vara de Aharon ter engolido as varas dos feiticeiros — milagre dentro de milagre, pois isso ocorreu depois que a vara já havia voltado de sua forma de serpente. A Guemará então retorna ao tema central do perek: a mishná de abertura, que disputa entre Rabi Akiva e os Sábios o caso de lançar de propriedade privada a outra propriedade privada com a via pública no meio. Rabba levanta o dilema sobre se a disputa se dá abaixo ou acima de dez palmos de altura, ligada à questão de saber se um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado, e se se deriva lançar de passar de mão em mão. Rav Yosef traz a resolução de Rav Chisda e Rav Hamnuna a partir de uma baraita, mas essa conclusão discorda de Rabi Elazar e de Rav Chilkiya bar Tovi, cuja tripla divisão (dentro de três palmos, de três a dez, acima de dez) é confirmada por outra baraita — que também esclarece o caso de duas casas de uma mesma pessoa nos dois lados da via pública, e leva a uma pergunta sobre a fonte do princípio de que menos de três palmos é considerado unido (lavud), respondida como lei recebida por tradição. A folha fecha com uma nova baraita, sobre lançar de via pública a via pública com propriedade privada coberta no meio — onde Rabi (Yehuda HaNassi) responsabiliza e os Sábios isentam, com a precisão de Rav e Shmuel de que a propriedade precisa ser coberta, e o ensinamento de que Rabi responsabilizaria por duas ofertas de pecado — e com Rav Chana, sentado, perplexo diante de algo que seu próprio mestre lhe havia ensinado, questão que a folha deixa em aberto.
Mas, ora, não deveria Rabi Yehuda ben Beteira concordar, pois Rabi Akiva aprendeu isto por analogia verbal (gezerah shavah), e uma analogia verbal, uma vez recebida, não se refuta? A Guemará responde: essa analogia verbal Rabi Yehuda ben Beteira não aprendeu de seus mestres. Mas então, de onde soube ele que Tzelofchad morreu , se não pelo episódio do mekoshesh? De "e presumiram subir" (Números 14:44), ele morreu — entre os que, após o pecado dos exploradores, presumiram subir ao topo do monte.
A Guemará questiona por que Rabi Yehuda ben Beteira não aceita a conclusão de Rabi Akiva, já que ela se apoia numa gezerah shavah — um tipo de derivação que, uma vez estabelecida por tradição, normalmente não admite contestação. A resposta é que a própria analogia verbal entre "o deserto" do mekoshesh e "o deserto" da petição das filhas de Tzelofchad não fazia parte da tradição recebida por Rabi Yehuda ben Beteira; ninguém pode formular uma gezerah shavah por conta própria. Isso leva a uma nova pergunta: se não pela morte do mekoshesh, por qual pecado soube Rabi Yehuda ben Beteira que Tzelofchad morreu no deserto? A resposta identifica Tzelofchad entre os que, no rescaldo do pecado dos exploradores, desobedeceram à ordem divina e "presumiram subir" ao topo do monte para entrar em Terra de Israel por conta própria (Números 14:44) — um pecado menos grave que a profanação do Shabat.
"'Mas, ora, ele não aprendeu isto por analogia verbal?'" — e, se assim fosse, a Torá não o teria ocultado, pois seria como algo explícito; e a Guemará responde que Rabi Yehuda ben Beteira não aprendeu essa analogia, e ninguém deriva uma analogia verbal por conta própria. "'Mas então'" — refere-se a Rabi Yehuda ben Beteira. "'De onde era'" — por qual pecado Tzelofchad morreu, pois está escrito "por seu pecado morreu" (Números 27:3). "'De "e presumiram subir"'" — "e presumiram subir" etc., pois não pecou tão gravemente quanto profanar o Shabat.
De modo semelhante ao caso anterior, tu dizes: "e a ira do Eterno se acendeu contra eles, e ele se foi" (Números 12:9, a respeito de Miriam e Aharon, que falaram contra Moshé) — o texto ensina que também Aharon ficou leproso , e não apenas Miriam — palavras de Rabi Akiva. Disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: Akiva, de um jeito ou de outro, no futuro prestarás contas por isto: se é como dizes, a Torá o ocultou , não mencionando explicitamente a lepra de Aharon, e tu o revelas? E se não é assim, estás difamando aquele justo. Mas, ora, não está escrito "contra eles" , no plural, indicando que ambos foram afligidos? Aquilo , a ira mencionada nesse verso, foi apenas repreensão , sem lepra. Ensinou-se numa baraita conforme quem disse que também Aharon ficou leproso, pois está escrito: "e Aharon se voltou para Miriam, e eis que estava leprosa" (Números 12:10); ensinou-se: que ele se voltou de sua própria lepra , isto é, foi curado dela antes que Miriam se voltasse para ele.
A Guemará traz um segundo exemplo, estruturalmente paralelo ao primeiro, do mesmo padrão de disputa entre Rabi Akiva e Rabi Yehuda ben Beteira: assim como Rabi Akiva revelou a identidade oculta de Tzelofchad, ele também ensina, a partir da expressão "e a ira do Eterno se acendeu contra eles" — no plural —, que não só Miriam, mas também Aharon foi afligido de lepra por falar contra Moshé, embora o texto bíblico só descreva explicitamente a lepra de Miriam. Rabi Yehuda ben Beteira repete, palavra por palavra, a mesma advertência dada antes sobre Tzelofchad. A Guemará então defende a leitura de Rabi Akiva contra uma objeção — de que "contra eles" poderia referir-se apenas a uma repreensão comum, sem lepra — citando uma baraita que confirma explicitamente que Aharon foi leproso, mas que se curou instantaneamente, antes mesmo que Miriam se voltasse para vê-lo, o que explica por que o versículo relata apenas a lepra dela.
"'Que se voltou de sua lepra'" — Aharon se antecipou e foi curado antes que Miriam olhasse para ele.
Disse Reish Lakish: quem suspeita dos íntegros de transgressão é afligido em seu próprio corpo, pois está escrito: "e eles não crerão em mim" etc. (Êxodo 4:1, quando Moshé duvidou de que Israel acreditaria em sua missão), e estava revelado diante do Santo, Bendito Seja, que Israel creria. Disse-lhe: eles são crentes, filhos de crentes, e tu, ao final, não crerás (alusão à futura falta de fé de Moshé em Números 20:12). "Eles são crentes" — pois está escrito: "e o povo creu" (Êxodo 4:31). "Filhos de crentes" — como se diz de Avraham, nosso patriarca: "e ele creu no Eterno" (Gênesis 15:6). "Tu, ao final, não crerás" — como está dito: "porque não crestes em mim" etc. (Números 20:12). De onde sabemos que Moshé foi afligido em seu corpo? Pois está escrito: "e disse o Eterno a ele ainda: traze agora tua mão a teu seio" etc. (Êxodo 4:6).
A Guemará, por associação temática com a lepra de Miriam e Aharon, cita o ensinamento de Reish Lakish sobre a lepra da própria mão de Moshé no Sinai — sinal dado para convencer Israel de sua missão. Reish Lakish lê esse episódio como punição: quando Moshé disse a Deus "eles não crerão em mim", ele suspeitou, sem razão, que Israel duvidaria dele — e Deus já sabia que Israel creria. Por essa suspeita injusta, Moshé foi afligido com lepra na própria mão. A réplica divina — "eles são crentes, filhos de crentes, e tu, ao final, não crerás" — é apoiada por versículos: o povo creu de fato ao ouvir a mensagem de Moshé (Êxodo 4:31), são filhos de Avraham, que creu no Eterno (Gênesis 15:6), e o próprio Moshé, anos depois, de fato falharia em confiar em Deus junto às Águas de Meriva (Números 20:12).
"'E eis que sua mão estava leprosa'" — isto é, "afligido em seu corpo". "'E a tirou, e eis que sua mão'" — depois da saída do seio estava leprosa como a neve; e quanto à medida do bem está escrito "de seu seio, e eis que retornou" , já curada dentro do próprio seio.
Disse Rava, e alguns dizem que foi Rabi Yosei filho de Rabi Chanina: a medida do bem vem mais depressa a se manifestar que a medida do castigo. Pois, quanto à medida do castigo, está escrito: "e a tirou, e eis que sua mão estava leprosa como a neve" (Êxodo 4:6); e quanto à medida do bem, está escrito: "e a tirou de seu seio, e eis que havia retornado como sua própria carne" (Êxodo 4:7) — já "de seu seio" ela havia retornado como sua própria carne, antes mesmo de ser tirada por completo.
A comparação entre os dois versículos revela uma assimetria deliberada: quando a mão de Moshé ficou leprosa, o texto descreve a aflição somente depois que ela já havia sido totalmente retirada do seio ("e a tirou, e eis que..."); mas, quando foi curada, o texto já a descreve como restaurada "de seu seio" — isto é, ainda dentro dele, antes de ser completamente retirada. Essa diferença textual sutil ensina que a cura divina se antecipa e age mais rapidamente do que o castigo.
"E a vara de Aharon engoliu as varas deles" (Êxodo 7:12, depois que as varas dos feiticeiros do Egito, transformadas em serpentes, foram engolidas pela serpente em que se transformara a vara de Aharon) — disse Rabi Elazar: foi milagre dentro de milagre.
Por associação com os sinais miraculosos dados a Moshé no Egito, a Guemará cita este breve ensinamento de Rabi Elazar sobre outro milagre daquele episódio: o versículo diz explicitamente que foi "a vara de Aharon" — já não mais a serpente — que engoliu as varas dos demais, ainda transformadas em serpentes. Isso implica que, entre o momento em que a vara de Aharon voltou a sua forma original e o momento em que engoliu as demais, ocorreu um segundo milagre dentro do primeiro: a vara, já sem ser serpente, foi capaz de "engolir" objetos sólidos.
"'Milagre dentro de milagre'" — depois que a serpente voltou a se tornar vara, ela engoliu as demais, e não enquanto era serpente, pois não está escrito "e a serpente de Aharon engoliu".
Encerrada a digressão, a Guemará retoma o caso da mishná de abertura do perek (96a): de propriedade privada para outra propriedade privada , com a via pública entre as duas — onde Rabi Akiva responsabiliza, como quem lançou de propriedade privada para propriedade pública, e os Sábios isentam.
Com esta breve citação, a Guemará sinaliza que retorna ao ponto exato onde a mishná de abertura do Perek Yud-Alah (citada em 96a) havia deixado em aberto: a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios sobre quem lança um objeto de uma propriedade privada para outra propriedade privada, cruzando a via pública que as separa. Toda a digressão sobre a fonte de carregar para fora e para dentro, a fonte de lançar quatro cúbitos na via pública, e a identidade do mekoshesh (96b–97a) havia se afastado desse caso central; agora a Guemará volta a examiná-lo diretamente.
Indagou Rabba: será que discordam quanto ao caso em que o objeto atravessou a via pública abaixo de dez palmos de altura, e é quanto a isto que discordam — pois este mestre (Rabi Akiva) entende que dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado onde foi capturado, e este mestre (os Sábios) entende que não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado? Mas acima de dez palmos, segundo todos, ele está isento, e não derivamos a lei de lançar a partir da lei de passar de mão em mão. Ou talvez: discordam quanto ao caso em que o objeto atravessou a via pública acima de dez palmos, e é quanto a isto que discordam — pois este mestre (Rabi Akiva) entende que derivamos a lei de lançar a partir da lei de passar de mão em mão, e este mestre (os Sábios) entende que não derivamos a lei de lançar a partir da lei de passar de mão em mão. Mas abaixo de dez palmos, segundo todos, é responsável — qual a razão? Um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado.
Rabba propõe um dilema sobre o ponto exato da disputa: por um lado, poderia ser que Rabi Akiva e os Sábios discordem apenas quando o objeto lançado passa abaixo de dez palmos de altura — o limite que separa a via pública de cima do espaço aéreo isento — e a discordância giraria em torno do princípio de que um objeto "capturado" em pleno voo é tratado como se tivesse efetivamente repousado ali; acima de dez palmos, todos concordariam que se está isento, pois não se deriva o lançamento (movimento pelo ar) do transporte de mão em mão (como fizeram os levitas, carregando a Arca acima de dez palmos entre duas propriedades privadas). Por outro lado, poderia ser o oposto: a discordância se daria justamente acima de dez palmos, sobre se é válido derivar a lei do lançamento a partir da lei de passar de mão em mão; abaixo de dez palmos, todos concordariam que há responsabilidade, pela regra de que um objeto no ar é tratado como pousado.
"'E não derivamos lançar de passar de mão em mão'" — pois, no serviço dos levitas, o transporte se dava acima de dez palmos, de propriedade privada a propriedade privada com a via pública ao centro; e o final da mishná, que ensina que quem lança está isento e quem passa de mão em mão é responsável, é opinião de todos. "'Ou talvez discordem acima de dez'" — e por isso discordam, e os Sábios isentam, pois ali não há espaço aéreo da via pública, e não derivamos lançar de passar; e Rabi Akiva deriva, e o final da mishná são os Sábios que o dizem.
Disse Rav Yosef: esta questão foi indagada por Rav Chisda, e Rav Hamnuna a resolveu para ele a partir disto , de uma baraita: de propriedade privada para propriedade privada, passando pela própria via pública — Rabi Akiva responsabiliza, e os Sábios isentam. Do fato de a baraita dizer "pela própria via pública", é evidente que discordam quanto ao caso em que o objeto passou abaixo de dez palmos. E a respeito de quê fala esta baraita? Se dissermos que trata de quem passa o objeto segurando-o na mão, seria dizer que abaixo de dez palmos é que responsabiliza, e acima de dez palmos não responsabiliza? Mas não disse Rabi Elazar: quem carrega para fora uma carga acima de dez palmos é responsável, pois assim era a carga dos filhos de Kehat , que carregavam a Arca acima de dez palmos? Antes, não se trata senão de quem lança, e é abaixo de dez palmos que responsabiliza, e acima de dez palmos não responsabiliza — daí se aprende que discordam quanto a se um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado. Conclui-se que daí se aprende. E isto discorda de Rabi Elazar, pois disse Rabi Elazar: Rabi Akiva responsabilizava mesmo acima de dez palmos, e isto que se ensinou "pela própria via pública" é para te ensinar o alcance da opinião dos Sábios , que isentam mesmo dentro da própria via pública, e tanto mais acima de dez palmos.
Rav Yosef relata que Rav Hamnuna resolveu o dilema de Rav Chisda — formulado nos mesmos termos do dilema de Rabba — a partir de uma baraita que especifica que o objeto passa "pela própria via pública", o que só faz sentido se a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios se referir ao caso abaixo de dez palmos. A Guemará então examina se essa baraita trata de alguém que transporta o objeto segurando-o na mão (caso em que, segundo Rabi Elazar, há responsabilidade mesmo acima de dez palmos, como a carga dos levitas) ou de alguém que o lança pelo ar — concluindo que só pode tratar de lançamento, confirmando que a disputa gira em torno do princípio de que um objeto capturado no ar é considerado pousado. Essa conclusão, porém, contradiz diretamente uma tradição de Rabi Elazar, segundo a qual Rabi Akiva responsabilizava mesmo quando o objeto passava acima de dez palmos — de modo que a menção a "a própria via pública" na baraita não indicaria o ponto da disputa, mas apenas o alcance surpreendente da isenção dos Sábios.
"'E passa'" — lemos assim: "de propriedade privada para propriedade privada, e passa pela própria via pública" — e não lemos, no início, "quem lança". "'Mas não disse Rabi Elazar'" — no capítulo HaMatznia, e ele o deriva da carga dos filhos de Kehat, que carregavam a Arca. "'Antes, não se trata senão de quem lança'" — a baraita fala como a mishná, e ensina, na própria baraita, que é quanto a isto que Rabi Akiva responsabiliza, porque o objeto foi capturado no espaço aéreo da via pública. "'Acima de dez'" — pois Rabi Akiva deriva lançar de passar de mão em mão.
E isto discorda de Rav Chilkiya bar Tovi, pois disse Rav Chilkiya bar Tovi: dentro de três palmos do chão, segundo todos, é responsável; acima de dez palmos, segundo todos, está isento; de três até dez, chegamos à disputa entre Rabi Akiva e os Sábios. Ensinou-se também assim , numa baraita: dentro de três palmos, segundo todos, é responsável; acima de dez palmos, não é senão proibição por decreto rabínico; e se as duas propriedades eram suas , do mesmo dono, é permitido. De três até dez, Rabi Akiva responsabiliza, e os Sábios isentam.
Rav Chilkiya bar Tovi propõe uma terceira leitura da disputa, mais matizada: dentro de três palmos do chão, o objeto é considerado como tendo pousado por unanimidade (pelo princípio de lavud, "unido"); acima de dez palmos, todos concordam que está isento; a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios se restringe à faixa intermediária, entre três e dez palmos. Uma baraita confirma exatamente essa tripla divisão, acrescentando que, acima de dez palmos, mesmo os que responsabilizam o fazem apenas por proibição rabínica (não bíblica), e que essa proibição não se aplica quando as duas propriedades privadas pertencem à mesma pessoa.
"'E isto discorda de Rav Chilkiya'" — discorda da opinião de Rabi Elazar. "'Dentro de três, segundo todos, é responsável'" — e, embora o objeto não tenha repousado de fato, concordam que é considerado como repousado. "'Isento'" — pois não derivamos lançar de passar. "'Chegamos à disputa'" — e a discussão gira em torno de se um objeto capturado no ar é considerado como tendo repousado. "'Por decreto rabínico'" — pois lançou de sua propriedade para a de seu companheiro, e não por causa da interrupção da via pública, pois a mesma lei se aplicaria mesmo se as duas propriedades estivessem lado a lado, até que fizessem eiruv. "'E se eram'" — as duas propriedades dele, é permitido de antemão.
Disse o Mestre na baraita citada acima: se as duas propriedades eram suas, é permitido. Digamos que isto seja uma refutação conclusiva de Rav, pois foi dito: duas casas em dois lados da via pública , ambas do mesmo dono — Rabá bar Rav Huna disse, em nome de Rav: é proibido lançar de uma para a outra; e Shmuel disse: é permitido lançar de uma para a outra. A Guemará responde: e não estabelecemos já aquilo , a opinião de Rav, referindo-se a um caso em que uma casa estava elevada e a outra baixa — pois às vezes o objeto cai na via pública, e a pessoa vem a trazê-lo de lá, violando a Torá?
A baraita citada no beat anterior afirma que, quando ambas as propriedades pertencem à mesma pessoa, lançar entre elas é permitido mesmo acima de dez palmos. A Guemará observa que isso pareceria contradizer a opinião de Rav, que proibiu lançar entre duas casas do mesmo dono situadas nos dois lados da via pública — Shmuel, em contraste, permitia. A resposta restaura a harmonia: a proibição de Rav não se referia ao caso geral, mas especificamente a quando as duas casas têm alturas diferentes, uma elevada e outra baixa, situação em que há risco real de o objeto cair na via pública no meio do trajeto, levando a pessoa a descer e recolhê-lo dali — o que constituiria uma transgressão de carregar da via pública para o domínio privado.
"'É proibido lançar de uma para a outra'" — mesmo que sejam suas, pois se Shmuel a permitisse apenas quando ambas fossem da mesma pessoa, não teria permitido também quando fossem da sua para a do companheiro. "'Não estabelecemos já'" — em Massechet Eiruvin. "'Que uma estava elevada e a outra baixa'" — pois, por causa disso, a pessoa precisa firmar a mão, do alto para o baixo ou do baixo para o alto, e se distrai com isso, e talvez não lance certeiramente sobre o telhado, e o objeto caia na via pública, e a pessoa venha a trazê-lo; e por isso a Guemará menciona "venha a trazê-lo", pois pela própria queda na via pública não há responsabilidade de oferta de pecado, sendo a pessoa, quanto a carregar para fora, um mero ocupado sem intenção, já que não teve a intenção de lançar na via pública.
Disse Rav Chisda a Rav Hamnuna, e alguns dizem que foi Rav Hamnuna quem disse a Rav Chisda: de onde se deriva este assunto que disseram os Sábios, que tudo o que é menos de três palmos de altura é considerado como unido (lavud)? Disse-lhe: porque é impossível que a via pública seja nivelada com raspador e plaina. Se assim, três palmos exatos também deveriam ser considerados unidos! E mais: há uma objeção a partir daquilo que ensinamos: quem desce paredes de uma suká, tecendo-as de cima para baixo — se estão a três palmos do chão, a suká é inválida; logo, menos de três palmos, é válida , e ali a razão não pode ser a irregularidade do solo. Ali , na lei da suká, a razão é porque o espaço vazio seria uma partição pela qual cabritos poderiam passar. Isso funciona bem embaixo , junto ao chão; acima , quando o espaço vazio está junto ao teto, o que se pode dizer , já que ali não há passagem de cabritos? Antes, a resposta é que tudo o que é menos de três palmos é considerado unido — isso é lei recebida por tradição , transmitida a Moshé no Sinai, e não se deriva de raciocínio algum.
Rav Chisda pergunta a Rav Hamnuna (ou vice-versa) qual a fonte do princípio de lavud, segundo o qual qualquer distância menor que três palmos é tratada como se as duas partes estivessem unidas. A primeira resposta proposta — que a via pública nunca é perfeitamente nivelada, de modo que pequenas saliências e depressões no solo já fazem parte dela — é rejeitada por duas objeções: primeiro, por que o limite é exatamente três palmos, e não também objetos separados por exatamente três; segundo, e mais decisivo, a lei da suká estabelece o mesmo limite de três palmos para as paredes descidas do teto, mas ali a razão dada é completamente diferente (o risco de cabritos passarem por baixo da parede) — uma razão que não se aplica quando o espaço vazio está junto ao teto, e ainda assim o mesmo limite de três palmos vale ali também. A Guemará conclui, portanto, que o princípio de lavud não tem explicação racional unificada, mas é uma halachá recebida por tradição desde o Sinai.
"'É considerado como unido'" — pois uma propriedade que não tem três palmos de altura anula-se perante a via pública. "'Disse-lhe'" — é mero raciocínio. "'Porque é impossível'" — nivelar a via pública de suas saliências, como se fossem removidas com raspador e plaina — em francês antigo, "rahitani" — instrumentos de madeira e ferro, com uma lâmina afiada cravada dentro, com os quais se alisa a face da largura da tábua; portanto, também as saliências fazem parte da via pública. "'Quem desce'" — começa a tecer as paredes da suká na trama, de baixo para cima, e vai descendo até embaixo. "'Se estão a três palmos do chão é inválida; logo, menos de três, é válida'" — pois dizemos que o espaço vazio é considerado unido, como se a parede se dobrasse sobre ele e se completasse até embaixo. "'Isso funciona bem embaixo; acima, o que se pode dizer?'" — refere-se a acima, onde dizemos "unido" referindo-se ao topo em vários lugares, como na lei de cercar com três cordas (Eiruvin 16b), e como quando se afasta a cobertura das paredes três palmos, caso em que a suká é inválida (Suká 17a).
Ensinaram os Sábios numa baraita: de propriedade pública para outra propriedade pública, com propriedade privada no meio — Rabi (Yehuda HaNassi) responsabiliza, e os Sábios isentam. Rav e Shmuel, ambos disseram: Rabi não responsabilizou senão quando a propriedade privada do meio é coberta, pois dizemos que a casa é considerada como cheia , e o objeto que a atravessa é tratado como se tivesse repousado sobre algo sólido; mas se não é coberta, não responsabiliza. Disse Rav Chana, disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Rabi responsabilizaria por duas ofertas de pecado — uma por carregar para fora , da primeira via pública para a propriedade privada, e uma por carregar para dentro , da propriedade privada para a segunda via pública.
Uma nova baraita apresenta o caso inverso do que vinha sendo discutido: em vez de lançar de propriedade privada a privada com a via pública no meio, trata-se de lançar de uma via pública a outra via pública, com uma propriedade privada entre elas. Aqui, Rabi Yehuda HaNassi (chamado simplesmente "Rabi") responsabiliza, e os Sábios isentam — a posição inversa daquela atribuída a Rabi Akiva e aos Sábios no caso anterior. Rav e Shmuel limitam a responsabilização de Rabi ao caso em que a propriedade privada do meio é coberta por um teto, pois só então ela é tratada como um espaço "cheio" e sólido, capaz de servir de ponto de pouso real ao objeto; sem cobertura, mesmo Rabi concordaria com a isenção. Por fim, ensina-se que, segundo Rabi, quem realiza esse lançamento seria responsável por duas ofertas de pecado distintas — uma pelo ato de carregar para fora da primeira via pública, e outra pelo ato de carregar para dentro da segunda.
"'Como se estivesse cheia'" — pois o ambiente coberto é escuro e cheio de calor abafado. "'Mas se não é coberta'" — como, por exemplo, um pátio aberto.
Sentava-se Rav Chana, e isto lhe era difícil — a questão que se seguiria permanece em aberto ao final desta folha.
A folha 97a fecha em aberto: Rav Chana está sentado, refletindo, e algo naquilo que ele próprio havia transmitido em nome de seu mestre Rav Yehuda — o ensinamento de que Rabi responsabilizaria por duas ofertas de pecado no caso de via pública a via pública com propriedade privada coberta no meio — lhe parece difícil. Rashi explica que a dificuldade se refere a algo que seu próprio mestre lhe ensinou. O texto não revela ainda qual é essa dificuldade; confirmado via Sefaria, a formulação exata do problema de Rav Chana, e sua resolução, devem abrir a folha 97b, ainda não publicada — dando continuidade direta a este ensinamento sobre as duas ofertas de pecado.
"'E isto lhe era difícil'" — quanto àquilo que seu mestre lhe ensinou.