Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Zayin (Klal Gadol)
נִתְכַּוֵּין לְהַגְבִּיהַּ

Completa-se a frase interrompida ao final de 72a com o caso do mitasek; Rava e Abaye discordam sobre quem pretendia cortar o já destacado e cortou o preso à terra; Rava prova sua posição pela baraita do "rigor do Shabat" e do "rigor dos demais preceitos", resolvida com o caso da idolatria segundo Rabi Ami; e a folha fecha com a pergunta, ainda parcial, de Rava a Rav Nachman

Shabbat 72b — completa diretamente a frase interrompida ao final de 72a ("ensinou-se:"). O caso: quem pretendia levantar o que já estava destacado do solo e, por engano, cortou o que ainda estava preso a ele, é isento — pois não teve intenção alguma de realizar um corte proibido. Mas quem pretendia cortar o que já estava destacado (por exemplo, um legume já colhido) e, por engano, cortou o que estava preso à terra, é objeto de disputa entre Rava, que isenta, e Abaye, que responsabiliza: para Rava, isento, porque não pretendia um corte proibido especificamente; para Abaye, responsável, porque pretendia um corte qualquer, e a proibição de cortar o que está preso à terra não exige mais do que isso. Rava traz prova de uma baraita sobre o duplo rigor entre o Shabat e os demais preceitos: o Shabat é mais rigoroso, porque quem realiza duas ações proibidas em um só esquecimento é responsável por cada uma; os demais preceitos são mais rigorosos, porque quem erra sem ter sequer a intenção de transgredir é ainda assim responsável, o que não ocorre no Shabat. A Guemará debate como identificar o caso exato de "duas ações em um só esquecimento" no Shabat e sua contrapartida nos demais preceitos, até resolver que se trata de colheita e moagem no Shabat, e de idolatria (sacrificar, queimar incenso e derramar libação) segundo Rabi Ami nos demais preceitos. Em seguida, a Guemará testa a outra cláusula da baraita — o erro sem intenção quanto à idolatria — através de vários casos (confundir um templo pagão com uma sinagoga; curvar-se por amor ou temor de um homem; converter-se pensando que a idolatria não era proibida), até fixá-la no caso de quem diz "é permitido". A folha termina de forma fechada, com a observação de que, até este ponto, Rava só havia perguntado a Rav Nachman se o mitasek seria responsável por uma ação ou por duas, mas não se seria totalmente isento — questão que só será resolvida no início de 73a.

A folha abre completando diretamente a frase interrompida ao final de 72a, na palavra "ensinou-se". O caso ensinado: quem pretendia levantar o que já estava destacado do solo (por exemplo, uma faca caída sobre um canteiro) e, por engano, cortou o que ainda estava preso à terra, é isento — porque, tratando-se de um mitasek (quem se ocupa de uma ação e realiza outra), não houve intenção alguma de cortar algo proibido: ele apenas pretendia levantar, não cortar. Mas há um segundo caso, mais sutil: quem pretendia cortar o que já estava destacado (um legume já colhido, por exemplo) e, por engano, cortou o que estava preso à terra. Aqui Rava e Abaye discordam: Rava isenta, porque a pessoa não pretendia especificamente um corte proibido — apenas pretendia cortar algo permitido, e por engano cortou algo proibido; Abaye responsabiliza, porque a pessoa pretendia, ao menos, um corte qualquer, e essa intenção genérica de cortar já basta para configurar a transgressão, mesmo que o objeto cortado não fosse o pretendido. Rava busca apoio para sua posição numa baraita que enuncia o duplo rigor entre o Shabat e os demais preceitos: o Shabat é mais rigoroso porque, fazendo-se duas ações proibidas dentro de um só esquecimento, há responsabilidade por cada uma separadamente — o que não ocorre nos demais preceitos, onde normalmente bastaria uma só oferenda; e os demais preceitos são mais rigorosos porque, mesmo quem erra sem ter qualquer intenção de transgredir, é ainda assim responsável — o que não ocorre no Shabat, onde o mitasek é isento, como acabou de se ensinar. A Guemará então investiga qual seria o caso exato de "duas ações em um só esquecimento" no Shabat, testando a hipótese de colheita e moagem, e comparando-a com o equivalente nos demais preceitos — comer sebo e sangue — mas encontra uma dificuldade: em ambos os casos haveria responsabilidade por duas, não configurando o contraste pretendido pela baraita. Testa-se então o caso inverso — comer sebo e sebo, dentro de um só esquecimento, nos demais preceitos, onde há responsabilidade por uma só — e seu equivalente no Shabat seria colheita e colheita, onde também há responsabilidade por uma só: também aqui a baraita não se sustentaria como enunciando um contraste real. A resolução final mantém o caso original — colheita e moagem no Shabat — mas identifica o "o que não ocorre nos demais preceitos" com a idolatria, segundo o ensinamento de Rabi Ami: quem sacrifica, queima incenso e derrama libação à idolatria em um só esquecimento não é responsável senão por uma oferenda, pois não há divisão de oferendas de pecado quanto à idolatria. A Guemará testa então a outra cláusula da baraita — o erro sem intenção alguma, que nos demais preceitos gera responsabilidade, mas não no Shabat — perguntando como esse erro se configuraria quanto à própria idolatria: não bastaria confundir um templo pagão com uma sinagoga e ali se prostrar, pois nesse caso o coração da pessoa estava voltado aos Céus, e não há responsabilidade alguma; nem bastaria curvar-se perante uma estátua honorífica sem aceitá-la como divindade, pois isso não é nada, e aceitá-la como divindade já seria transgressão deliberada. A solução: trata-se de quem se curva por amor ou temor de um homem, sem qualquer intenção de servir a idolatria — o que se ajusta bem à posição de Abaye, mas exige, para Rava, uma reformulação: o caso é de quem diz "é permitido", como um convertido que pensava, por desconhecimento, que a Torá não proibia a idolatria. A folha se fecha, então, com uma observação da Guemará sobre os limites exatos da pergunta original de Rava a Rav Nachman: até aqui, ele só havia perguntado se o mitasek seria responsável por uma ação ou por duas — nunca se seria totalmente isento. Essa terceira possibilidade, a da isenção completa, é precisamente o que a disputa entre Rava e Abaye, registrada no início desta folha, veio a estabelecer — e o desdobramento completo dessa observação só aparece no início de 73a.

O caso do mitasek: pretendia levantar, cortou o preso à terra · נִתְכַּוֵּין לְהַגְבִּיהַּ אֶת הַתָּלוּשׁ

01Isento sem discordância; e a disputa de Rava e Abaye sobre o segundo caso
Guemará (completando a frase interrompida ao final de 72a); Rava; Abaye
נִתְכַּוֵּין לְהַגְבִּיהַּ אֶת הַתָּלוּשׁ, וְחָתַךְ אֶת הַמְחוּבָּר — פָּטוּר. לַחְתּוֹךְ אֶת הַתָּלוּשׁ, וְחָתַךְ אֶת הַמְחוּבָּר, רָבָא אָמַר: פָּטוּר. אַבָּיֵי אָמַר: חַיָּיב. רָבָא אָמַר פָּטוּר — דְּהָא לָא מִיכַּוֵּון לַחֲתִיכָה דְאִיסּוּרָא. אַבָּיֵי אֲמַר חַיָּיב — דְּהָא קָמִיכַּוֵּין לַחֲתִיכָה בְּעָלְמָא.

...Pretendia levantar o que já estava destacado do solo, e cortou o que estava preso à terra — é isento. Mas quem pretendia cortar o que já estava destacado, e cortou o que estava preso à terra: Rava disse: é isento. Abaye disse: é responsável. Rava disse isento — pois não pretendia um corte proibido. Abaye disse responsável — pois pretendia um corte qualquer.

Nota

Completa-se aqui a frase interrompida ao final de 72a. O primeiro caso é simples e consensual: quem pretendia apenas levantar algo já destacado do solo (uma faca caída sobre um canteiro de legumes, segundo Rashi) e, por engano, cortou o que ainda estava preso à terra, é isento — pois sua intenção era levantar, não cortar; trata-se de um mitasek puro, alguém que se ocupa de uma ação e, sem querer, realiza outra completamente diferente. O segundo caso é mais sutil, e por isso gera disputa: quem pretendia cortar algo já destacado (um legume já colhido, por exemplo) e, por engano, cortou o que estava preso à terra. Aqui a pessoa tinha, sim, a intenção de cortar — mas não o objeto certo. Rava isenta, porque considera que a intenção deve mirar especificamente o corte proibido (cortar o que está preso à terra); como isso não ocorreu, não há responsabilidade. Abaye responsabiliza, porque considera que basta a intenção genérica de cortar — a identidade do objeto cortado é irrelevante para a configuração da melachá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "nitkavein lehagbiah et hatalush", "vechatach et hamechubar patur" e "deha lo ichavein achatichah de'issura"
נתכוין להגביה את התלוש - כגון דנפל סכין בערוגת הירק ונתכוין להגביהו: וחתך את המחובר פטור - דכתיב אשר חטא בה ודרשינן בכריתות פרט למתעסק בדבר אחר ועשה דבר זה ושוגג היכי דמי כגון שנתכוין לכך אבל שגג דסבר שאין היום שבת או סבר שמלאכה זו מותרת וזה מתעסק בהגבהה היה ולא בחתיכה: דהא לא איכוין אחתיכה דאיסורא - בשגגת שבת או בשגגת מלאכות אלא מתעסק בחתיכת היתר הוה שיודע שהוא שבת ויודע שחתיכת מחובר אסור:

"'Pretendia levantar o que já estava destacado'" — como quando caiu uma faca sobre o canteiro de legumes, e ele pretendia levantá-la. "'E cortou o que estava preso à terra — é isento'" — pois está escrito "que pecou nela" (Levítico 4:23), e expusemos em Keritot: excluindo aquele que se ocupa de uma coisa e realiza outra. E o erro, como se configura? Como quem pretendia fazer exatamente aquilo, mas errou pensando que hoje não era Shabat, ou pensando que este trabalho era permitido; mas este estava ocupado em levantar, e não em cortar. "'Pois não pretendia um corte proibido'" — por erro quanto ao Shabat, ou erro quanto aos trabalhos proibidos; mas estava ocupado num corte permitido, pois sabia que era Shabat, e sabia que cortar o que está preso à terra é proibido.

A prova de Rava: o duplo rigor entre o Shabat e os demais preceitos · חוֹמֶר שַׁבָּת מִשְּׁאָר מִצְוֹת

02"De onde o digo?" — a baraita do rigor recíproco
Rava; Baraita
אָמַר רָבָא: מְנָא אָמֵינָא לַהּ? דְּתַנְיָא: חוֹמֶר שַׁבָּת מִשְּׁאָר מִצְוֹת, וְחוֹמֶר שְׁאָר מִצְוֹת מִשַּׁבָּת. חוֹמֶר שַׁבָּת מִשְּׁאָר מִצְוֹת, שֶׁהַשַּׁבָּת עָשָׂה שְׁתַּיִם בְּהֶעְלֵם אֶחָד — חַיָּיב עַל כׇּל אַחַת וְאַחַת, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בִּשְׁאָר מִצְוֹת. וְחוֹמֶר שְׁאָר מִצְוֹת מִשַּׁבָּת — שֶׁבִּשְׁאָר מִצְוֹת שָׁגַג בְּלֹא מִתְכַּוֵּין — חַיָּיב, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בְּשַׁבָּת.

Disse Rava: de onde o digo? Pois se ensina: há rigor do Shabat sobre os demais preceitos, e há rigor dos demais preceitos sobre o Shabat. Rigor do Shabat sobre os demais preceitos: que, quanto ao Shabat, quem fez duas ações proibidas em um só esquecimento é responsável por cada uma delas, o que não ocorre quanto aos demais preceitos. E rigor dos demais preceitos sobre o Shabat: que, quanto aos demais preceitos, quem errou sem ter intenção alguma de transgredir é responsável, o que não ocorre quanto ao Shabat.

Nota

Rava traz apoio para sua posição — de que o mitasek do segundo caso é isento — de uma baraita bem conhecida sobre o duplo rigor entre o Shabat e os demais preceitos. Por um lado, o Shabat é mais rigoroso: quem realiza duas ações proibidas distintas dentro de um só esquecimento (sem tomar conhecimento entre elas) é responsável por cada uma separadamente, o que não ocorre, em geral, nos demais preceitos, onde uma só oferenda costuma bastar. Por outro lado, os demais preceitos são mais rigorosos: mesmo quem erra sem ter qualquer intenção de transgredir — um caso ainda mais fraco do que o erro comum — é responsável, o que não ocorre no Shabat, onde, como acabou de se estabelecer, o mitasek (que nem sequer pretendia o ato específico) é isento. Esta segunda cláusula é exatamente a prova que Rava buscava.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mah she'ein ken bishe'ar mitzvot" e "shagag belo mitkavein"
משא"כ בשאר מצות - כולה מפרש לה ואזיל: שגג בלא מתכוין - לקמן מפרש לה:

"'O que não ocorre quanto aos demais preceitos'" — tudo isto a Guemará passa a explicar adiante. "'Errou sem ter intenção'" — mais adiante se explica.

03Como identificar "duas em um esquecimento" — a busca do caso exato
Guemará
אָמַר מָר: חוֹמֶר שַׁבָּת מִשְּׁאָר מִצְוֹת, שֶׁהַשַּׁבָּת עָשָׂה שְׁתַּיִם בְּהֶעְלֵם אֶחָד — חַיָּיב עַל כׇּל אַחַת וְאַחַת, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בִּשְׁאָר מִצְוֹת. הֵיכִי דָמֵי? אִילֵּימָא דַּעֲבַד קְצִירָה וּטְחִינָה, דִּכְווֹתַהּ גַּבֵּי שְׁאָר מִצְוֹת אֲכַל חֵלֶב וְדָם. הָכָא תַּרְתֵּי מִיחַיַּיב, וְהָכָא תַּרְתֵּי מִיחַיַּיב! אֶלָּא שְׁאָר מִצְוֹת דְּלָא מִיחַיַּיב אֶלָּא חֲדָא הֵיכִי דָּמֵי — דַּאֲכַל חֵלֶב וְחֵלֶב. דִּכְווֹתַהּ גַּבֵּי שַׁבָּת — דַּעֲבַד קְצִירָה וּקְצִירָה, הָכָא חֲדָא מִיחַיַּיב, וְהָכָא חֲדָא מִיחַיַּיב!

Disse o Mestre: há rigor do Shabat sobre os demais preceitos, que quanto ao Shabat quem fez duas em um só esquecimento é responsável por cada uma, o que não ocorre quanto aos demais preceitos. Como se configura isto? Se dissermos que fez colheita e moagem — o equivalente, quanto aos demais preceitos, seria comer sebo e sangue: aqui é responsável por duas, e ali também é responsável por duas! Mas então, quanto aos demais preceitos, o caso em que não é responsável senão por uma, como se configura? Que comeu sebo e sebo. O equivalente, quanto ao Shabat, seria fazer colheita e colheita: aqui é responsável por uma só, e ali também é responsável por uma só!

Nota

A Guemará testa a primeira cláusula da baraita, buscando um caso concreto que ilustre o contraste pretendido. Se o exemplo do Shabat for colheita e moagem (duas melachot distintas realizadas dentro de um só esquecimento), o equivalente nos demais preceitos seria comer sebo e sangue (duas proibições distintas comidas em um só esquecimento) — mas, nesse caso, há responsabilidade por duas tanto no Shabat quanto nos demais preceitos, sem contraste algum. Tentando o caminho inverso — buscando primeiro o caso, nos demais preceitos, em que há responsabilidade por uma só (comer sebo e sebo, a mesma proibição repetida, dentro de um só esquecimento) — o equivalente no Shabat seria fazer colheita e colheita (a mesma melachá repetida): mas também aqui há responsabilidade por uma só em ambos os lados, e novamente nenhum contraste se estabelece. A dificuldade permanece em aberto até a resolução seguinte.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chelev vedam", "ela gabei she'ar mitzvot heichi dami" e "kegon chelev vechelev"
חלב ודם - דומיא דטחינה וקצירה שהן שני גופין: אלא גבי שאר מצות היכי דמי - דפטור: כגון חלב וחלב - בהעלם אחד:

"'Sebo e sangue'" — semelhante a moagem e colheita, que são dois corpos de proibição distintos. "'Mas, quanto aos demais preceitos, como se configura'" — o caso em que a pessoa é isenta do segundo. "'Como comer sebo e sebo'" — em um só esquecimento.

04A resolução: colheita e moagem permanece; "o que não ocorre" refere-se à idolatria, segundo Rabi Ami
Guemará; Rabi Ami
לְעוֹלָם דַּעֲבַד קְצִירָה וּטְחִינָה, וּמַאי ״מַה שֶּׁאֵין כֵּן בִּשְׁאָר מִצְוֹת״ — אַעֲבוֹדָה זָרָה, וְכִדְרַבִּי אַמֵּי. דְּאָמַר רַבִּי אַמֵּי: זִיבַּח וְקִיטֵּר וְנִיסֵּךְ בְּהַעֲלָמָה אַחַת — אֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא אַחַת.

Na verdade, trata-se de quem fez colheita e moagem; e o que significa "o que não ocorre quanto aos demais preceitos"? Refere-se à idolatria, e como ensinou Rabi Ami. Pois disse Rabi Ami: quem sacrificou, e queimou incenso, e derramou libação à idolatria em um só esquecimento, não é responsável senão por uma oferenda.

Nota

A Guemará resolve a dificuldade mantendo o exemplo original do Shabat — colheita e moagem — mas reinterpretando o que a baraita quis dizer com "o que não ocorre quanto aos demais preceitos": não se trata de comer sebo e sangue, mas de idolatria, conforme o ensinamento independente de Rabi Ami: quem realiza três atos distintos de culto idólatra (sacrificar, queimar incenso e derramar libação) dentro de um só esquecimento não é responsável senão por uma só oferenda de pecado — pois, quanto à idolatria, a Torá não divide a responsabilidade entre atos distintos como faz com outras proibições. Assim, o contraste da baraita fica restaurado: no Shabat, colheita e moagem geram responsabilidade dupla; na idolatria, sacrificar, queimar incenso e libar geram responsabilidade única — exatamente o rigor maior do Shabat que a baraita pretendia ilustrar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "uchedRabi Ami"
דרבי אמי - במסכת סנהדרין בפרק ד' מיתות יליף למילתיה מקרא דאין חילוק חטאות לעכו"ם:

"'E como ensinou Rabi Ami'" — em Massechet Sanhedrin, no capítulo "Quatro Mortes" de execução, ele deduz seu ensinamento de um versículo: que não há divisão de oferendas de pecado quanto à idolatria.

O erro sem intenção quanto à idolatria: os casos testados e a solução final · שָׁגַג בְּלֹא מִתְכַּוֵּין

05"Em que a estabeleceste?" — testando os casos de erro sem intenção na idolatria
Guemará
בְּמַאי אוֹקֵימְתַּהּ — בַּעֲבוֹדָה זָרָה? אֵימָא סֵיפָא: חוֹמֶר בִּשְׁאָר מִצְוֹת, שֶׁבִּשְׁאָר מִצְוֹת שָׁגַג בְּלֹא מִתְכַּוֵּין — חַיָּיב, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בְּשַׁבָּת — הַאי שָׁגַג בְּלֹא מִתְכַּוֵּין דַּעֲבוֹדָה זָרָה הֵיכִי דָּמֵי? אִילֵּימָא כְּסָבוּר בֵּית הַכְּנֶסֶת הוּא וְהִשְׁתַּחֲוָה לָהּ — הֲרֵי לִבּוֹ לַשָּׁמַיִם. וְאֶלָּא דְּחָזֵי אִנְדְּרָטָא וְסָגֵיד לֵהּ, הֵיכִי דָּמֵי? אִי דְּקַבְּלֵהּ עֲלֵיהּ בֶּאֱלוֹהַּ — מֵזִיד הוּא. וְאִי דְּלָא קַבְּלֵהּ עֲלֵיהּ בֶּאֱלוֹהַּ — לָאו כְּלוּם הוּא.

Em que caso a estabeleceste — quanto à idolatria? Diz então a última cláusula: há rigor dos demais preceitos sobre o Shabat, que quanto aos demais preceitos quem errou sem ter intenção é responsável, o que não ocorre quanto ao Shabat — este "errou sem ter intenção" quanto à idolatria, como se configura? Se dissermos que pensava que era uma sinagoga e se prostrou perante o ídolo — eis que seu coração estava voltado para os Céus! Mas então, que viu uma estátua e se curvou perante ela, como se configura? Se a aceitou sobre si como divindade — é transgressor deliberado. E se não a aceitou sobre si como divindade — não é nada.

Nota

Tendo fixado a idolatria como o caso da primeira cláusula, a Guemará testa se ela também se ajusta à segunda cláusula da mesma baraita — o erro sem intenção alguma, que nos demais preceitos gera responsabilidade, mas não no Shabat. Um primeiro candidato: alguém que confunde um templo pagão com uma sinagoga, e ali se prostra pensando estar orando aos Céus — mas este caso não serve, pois, tendo o coração voltado aos Céus, não há responsabilidade alguma, nem sequer parcial. Um segundo candidato: alguém que vê uma estátua honorífica (erguida em homenagem a um rei, não como ídolo) e se curva perante ela — mas este caso também não serve, pois se divide em apenas duas possibilidades extremas: se a pessoa aceitou a estátua como divindade, é uma transgressão deliberada, plena; se não a aceitou como divindade, o gesto não é nada, sem responsabilidade alguma. Nenhum dos dois candidatos produz o "erro sem intenção" intermediário que a baraita exige.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vehishtachavah lah", "harei libo lashamayim" e "andarta"
והשתחוה לה - והיינו שגג שהיא ע"ז בלא מתכוין שלא נתכוון להשתחוות לע"ז: הרי לבו לשמים - ומה חיוב יש כאן אפי' ידע שהוא בית ע"ז והשתחוה בו לשמים אין חיוב כאן: אנדרטא - צורת המלך שעושין לכבוד המלך והשתחוה לה ולא לשם אלהות:

"'E se prostrou perante ela'" — e isto é o erro de que era idolatria, sem ter intenção, pois não pretendia prostrar-se perante a idolatria. "'Eis que seu coração estava voltado para os Céus'" — e que responsabilidade há aqui? Mesmo que soubesse que era uma casa de idolatria, e nela se prostrasse com o coração voltado para os Céus, não há responsabilidade aqui. "'Estátua'" — a figura do rei que se faz em honra ao rei, e se prostrou perante ela, mas não em nome de divindade.

06Por amor ou por temor — bom para Abaye; para Rava, o caso de "é permitido"
Guemará
אֶלָּא מֵאַהֲבָה וּמִיִּרְאָה. הָנִיחָא לְאַבָּיֵי, דְּאָמַר חַיָּיב. אֶלָּא לְרָבָא דְּאָמַר פָּטוּר, מַאי אִיכָּא לְמֵימַר? אֶלָּא בְּאוֹמֵר ״מוּתָּר״. מַה שֶּׁאֵין כֵּן בְּשַׁבָּת דְּפָטוּר — לִגְמָרֵי.

Mas trata-se de quem se curvou por amor ou por temor de um homem. Isto está bem para Abaye, que diz responsável. Mas para Rava, que diz isento, o que há para dizer? Mas trata-se de quem diz "é permitido". O que não ocorre quanto ao Shabat, onde é isento — completamente?!

Nota

A Guemará propõe, então, um terceiro candidato: alguém que se curva diante da idolatria não por devoção alguma, mas por amor ou por temor de algum homem poderoso — pensando, erradamente, que, como seu coração não estava voltado para a divindade, o ato seria permitido. Este caso funciona bem para Abaye, que responsabiliza mesmo quem tinha apenas uma intenção genérica (aqui, curvar-se fisicamente), sem intenção específica de idolatria — pois o corpo já realizou o gesto proibido. Mas, para Rava — que no primeiro caso desta folha isentou justamente quem não tinha intenção específica do ato proibido —, este exemplo não deveria gerar responsabilidade alguma, contradizendo sua própria posição. A Guemará ajusta então o caso para Rava: trata-se de quem diz "é permitido" — como um convertido que, por desconhecimento sincero, pensava que a Torá não proibia a idolatria, e por isso a praticou sem qualquer consciência de transgressão. Este é um erro mais completo, que gera responsabilidade mesmo para Rava, mantendo o contraste com o Shabat, onde o mitasek equivalente — sem qualquer intenção do ato proibido — é isento por completo, como a Guemará reafirma em tom de espanto ao final.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "me'ahavah umiyirah", "ela be'omer mutar" e "depatur legamrei"
מאהבה ומיראה - מאהבת אדם או מיראת אדם השתחוה לע"ז וקרי ליה שוגג בלא מתכוין כלומר שגג בהכי דסבור כיון דאין מתכוין לבו לאלהות מותר: אלא באומר מותר - כגון גר שנתגייר בין הנכרים כסבור שאין ע"ז בתורה וקרי ליה שגג בלא מתכוין: דפטור לגמרי - בתמיה:

"'Por amor ou por temor'" — por amor de algum homem, ou por temor de algum homem, prostrou-se perante a idolatria; e chama-se a isto "errou sem ter intenção", isto é, errou nisto pensando que, já que seu coração não tinha a intenção de servir a divindade, era permitido. "'Mas trata-se de quem diz "é permitido""" — como um convertido que se converteu entre os gentios, e pensava que não havia proibição de idolatria na Torá; e chama-se a isto "errou sem ter intenção". "'É isento — completamente'" — em tom de espanto.

A folha se fecha: os limites exatos da pergunta de Rava a Rav Nachman · עַד כָּאן לָא בְּעָא מִינֵּיהּ רָבָא

07Até aqui, apenas uma ou duas — nunca a isenção completa
Guemará
עַד כָּאן לָא בְּעָא מִינֵּיהּ רָבָא מֵרַב נַחְמָן, אֶלָּא אִי לְחַיּוֹבֵי חֲדָא, אִי לְחַיּוֹבֵי תַּרְתֵּי, אֲבָל מִפְטְרֵיהּ לִגְמָרֵי — לָא.

Até aqui, Rava perguntou a Rav Nachman apenas se era para responsabilizá-lo por uma, ou para responsabilizá-lo por duas; mas para isentá-lo completamente — não perguntou.

Nota

A folha se fecha com uma observação da Guemará que delimita, com precisão, o alcance de uma pergunta anterior de Rava a Rav Nachman — referente ao esquecimento de "isto e aquilo estão em minha mão" (discutido acima, em 70b), que Rashi liga ao caso de quem diz "é permitido" tratado no beat anterior. Até este ponto da sugia, esclarece a Guemará, a pergunta de Rava se limitava a saber se a pessoa seria responsável por uma ação ou por duas — nunca chegou a perguntar se ela poderia ser totalmente isenta. Esta terceira possibilidade — a isenção completa — é exatamente o que ficou estabelecido pela disputa entre Rava e Abaye registrada no início desta mesma folha, sobre o mitasek que pretendia cortar o já destacado e cortou o preso à terra. A frase está gramaticalmente completa e fecha o pensamento; seu desdobramento pleno — de que o caso de "isto e aquilo em minha mão" se equipara ao próprio mitasek, e como isso se resolve entre Rava e Abaye — é retomado apenas no início de Shabat 73a, confirmado de forma independente via Sefaria.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ad kan lo ba'ei mineih Rava meRav Nachman"
עד כאן לא קבעי מיניה רבא מרב נחמן - העלם זה וזה בידו מהו לעיל בפירקין (שבת דף ע:) דהיינו אומר מותר דאמר אין שבת בתורה היינו העלם זה וזה:

"'Até aqui Rava não perguntou a Rav Nachman'" — sobre o esquecimento de "isto e aquilo estão em minha mão", qual é sua lei, acima neste capítulo (Shabat 70b) — isto é, quem diz "é permitido", que afirma que não há Shabat na Torá: isto é o mesmo que o esquecimento de "isto e aquilo".

Este último segmento está gramaticalmente fechado — termina com a palavra "לָא" ("não"), completando a frase "mas para isentá-lo completamente, Rava não perguntou". O início de Shabat 73a abre com uma nova frase completa ("אֶלָּא לָאו, רֵישָׁא בַּעֲבוֹדָה זָרָה..." — "mas não é assim: a primeira cláusula trata da idolatria..."), que retoma e aprofunda o mesmo tema desta folha, mas sem cortar nenhuma palavra no meio.